"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

“É para a liberdade que Cristo nos libertou”. De fato, Cristo nos libertou para sermos livres, escreve São Paulo aos gálatas, e esta afirmação ocupa o centro da mensagem paulina na carta. O que vem antes é preparação. O que vem depois, conseqüência. “Está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito de verdade. Estes são os adoradores que o Pai procura”. Estes adoradores são livres, não estão presos a nenhuma estrutura, nem de Jerusalém, nem de Garizim, nem de parte alguma. E muito menos das estruturas do crime organizado que desfaz a dignidade do ser humano.

Afinal, Deus está no meio de nós ou não? Foi a pergunta dos filhos de Israel no deserto, mas pergunta para provocar a Deus. Eles estavam no deserto, no grande vazio, sem estruturas de apoio, e queriam água. Moisés feriu uma pedra e dela brotou água. Deus estava lá como está em todo lugar. Ele não se deixa aprisionar, assim como os que o reconhecem e aceitam. Esta água é batismal, sobretudo nestes dias da Quaresma, e nela nascem os que nascem do “Vento”. O vento é livre, sopra onde quer. Assim acontece com quem nasce do Vento, que é o Espírito. Não pode ser aprisionado. O batizado é livre como o vento. Ninguém pode prendê-lo e sua passagem é uma ventania que se faz sentir. No entanto há sempre Massa e Meriba em nossa vida. Há sempre alguém para provocar (Massa) e polemizar (Meriba). Nossa liberdade é frágil e está sempre em jogo. Tentam aprisioná-la, como tentam aprisionar o Vento de Deus que é o Espírito. Mas não conseguem. A Palavra não está algemada.

Adoradores em espírito não se deixam aprisionar. Adoradores em verdade vêem e reconhecem o valor do ser humano, criatura de Deus. O coração do ser humano se torna o lugar do adorador.

Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores, quando éramos fracos. Agora já não somos fracos porque a fé nos justificou e nos deixou em paz com Deus. E a esperança não nos decepciona. Vivemos de esperança em esperança, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Em nós há uma erupção do Vento de Deus. Foi essa a experiência de vida livre do Papa João Paulo II em seus anos de prisão, e de tantos outros, como o Cardeal Van Tuan, que não perderam a sua dignidade num ambiente adverso. O que acontece com quem não tem nenhuma segurança, é extremamente fragilizado, vive de ilusões e não de esperança? Facilmente se deixará enganar e entregará sua liberdade e sua dignidade nas mãos de trapaceiros. O desenvolvimento econômico não é real sem o desenvolvimento educacional. Não se engana quem tem fé, senso crítico e brio. Mesmo preso saberá manter sua dignidade. Quem não tem nada torna-se presa fácil de espertos e espertalhões.

A verdade da fé nos liberta e nos encaminha para a solução dos problemas da vida, nos deixa firmes ao lado dos mais fracos que não serão levados pela astúcia dos malvados. Quem tem fé favorece o desenvolvimento integral da pessoa humana, ser livre no universo de Deus, que poderá dizer como os samaritanos: Eu mesmo vi, eu mesmo sei.

Cônego Celso Pedro da Silva

Publicado em Roteiro Homilético
Terça, 18 Março 2014 06:46

A luta contra a amnésia

A fé cristã vive de memórias perigosas. Vive da memória próxima e personalizada de quem crê na Santíssima Trindade e na revelação de Jesus. Vive da memória viva da entrega de Jesus na cruz para nos salvar. Vive deste amor que se faz semente que morre para dar vida abundante. Memória celebrada e atualizada a cada Eucaristia. Memória da presença de Deus Libertador na vida humana e na história dos povos. “Fazei isto em memória de mim”, diz Jesus na última ceia. A fé cristã é sempre um memorial que atualiza no tempo a experiência eterna da misericórdia e da compaixão. Sem memória perdemos este tesouro divino, e sem sua atualização congelamos e mumificamos a epifania de Deus. Memória e esperança sempre caminham juntas. Não podemos aceitar a amnésia e lutamos contra ela. Os teólogos da América Latina assumiram a memória como uma categoria essencial para dar sentido e valor à ação da Igreja no contexto conflitivo de nossas sociedades desiguais e injustas. A teologia na América Latina pensa a fé cristã respondendo às perguntas dos aflitos e faz memória das cruzes para viver a ressurreição proposta e realizada por Cristo. A teologia é viva quando se preocupa com os pobres do continente e se assume como teologia da cruz e memória dos crucificados. Diz o Martirológio Romano, no número 13, na edição de 2013 em língua portuguesa, publicada pela Conferência Episcopal Portuguesa: “A Igreja peregrina celebrou, desde os primeiros tempos da sua existência, os Apóstolos e mártires de Cristo, que, pelo derramamento do seu sangue, a exemplo do Salvador padecente sobre a Cruz, na esperança da ressurreição deram o supremo testemunho da fé e da caridade (Ap 22,14)”. Esta fidelidade litúrgica é mantida pela Igreja há séculos e foi assumida pelas Igrejas locais como um testemunho de amor aos pobres na defesa do Evangelho integral. O papa João Paulo II afirmava em carta aos bispos do Brasil em 09.04.1986: "Os pobres deste país, que tem nos senhores os seus pastores, os pobres deste continente são os primeiros a sentir urgente necessidade deste evangelho da libertação radical e integral. Sonegá-lo seria defraudá-los e desiludi-los".

Nestes cinco séculos de presença cristã na América Latina recordamos uma lista de patriarcas que não podem ser esquecidos pelas novas gerações e novas igrejas. São nomes marcantes para a Igreja dos pobres comprometida com a liberdade e o Evangelho encarnado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Destacamos alguns nomes: Bartolomeu de las Casas, Pedro Claver, Martinho de Lima, Francisco Solano, Toríbio de Mongrovejo, Rosa de Lima, Antônio Maria Claret, José Antônio Pereira Ibiapina, Rubens Cândido Padim, Richard Shaull, Hugo Assmann, Fernando Gomes, Manuel Larrain, Milton Schwantes, Orestes Stragliotto, Ronaldo Muñoz, Enrique Angel Angelelli e Oscar Arnulfo Romero Y Gadamez. Somada a esta lista de patriarcas da fé temos a lista daqueles que foram mortos por causa da Igreja e da justiça social. Todos aqueles que mantiveram firme seu amor preferencial aos pobres e são reconhecidos e relembrados como mártires e sementes de novas Igrejas. São os/as filhos/as amados/as desta Igreja que oferece a sua própria vida em oferenda no altar de Deus. Alguns destes nomes a recordar: Santo Dias da Silva, Adelaide Molinari, Cleusa Nascimento, Dorothy Mae Stang, Josimo Moraes Tavares, Ezequiel Ramin, Rodolpho Lunkenbein, João Bosco Penido Burnier, Antonio Pereira Neto, Francisco de Pancas, Purinha de Linhares, Paulo Vinhas de Vitória, Verino Sossai de Nova Venécia e Gabriel Felix Roger Maire.  Esta lista de mártires ainda deve ser completada por alguns profetas da esperança que enfrentaram as ditaduras militares de nosso continente. Do Brasil lembramo-nos de uma lista de padres banidos do Brasil pelo regime ditatorial que vigorou de 1964 a 1985 e que está sendo passado a limpo pela Comissão da Verdade para que aconteça a justiça, a memória e a verdade. Lembramos por obrigação com a verdade dos nomes e das vidas dos padres Lawrence Rosenbaugh, Romano Zufferey, Giorgio Callegari, Vito Miracapillo, Joseph Wauthier, Jan Honoré Talpe, José Pendandola, José Comblin, Francisco Jentel, Giuseppe Fontabella, Francisco Lage. Sofreram o degredo do país que amavam e serviam porque ficaram ao lado dos trabalhadores, dos empobrecidos e principalmente dos camponeses e indígenas. Há também aqueles que foram torturados pelos agentes do Estado e por grupos paramilitares. Gente que pagou caro em seu próprio corpo e mente por defender a justiça, o Evangelho da verdade. Eis alguns nomes de religiosos perseguidos com inquéritos militares: Alípio Cristiano de Freitas, Francisco Lage Pessoa, José Eduardo Augusti, Francisco Benedetti Filho, Leonilde Boscaine, Oscar Albino Fuhr, Affonso Ritter, Hélio Soares do Amaral, Roberto Egídio Pezzi, Mariano Callegari, Carlos Gilberto Machado Moraes, Giulio Vicini, Yara Spadini, Angelo Gianola, Geraldo Oliveira Lima, Gerson da Conceição, Paulo Martinechen Neto, Antônio Alberto Soligo, Jan Talpe, Alexandre Vannucchi Leme entre outros. Nos quatro primeiros séculos da Igreja, serão aproximadamente 200 mil os cristãos perseguidos, torturados e mortos pelo império romano, em 129 anos de perseguição e 120 anos de relativa tranquilidade, dos anos 64 a 313 d.c. Todas as gerações conheceram o sofrimento e tiveram testemunhas e heróis. Todas as Igrejas precisavam estar preparadas para o martírio e prisão. Todos guardavam as memórias destas pessoas e cantavam seus louvores. Ao lado de cada mártir há pelo menos 100 cristãos que tiveram que suportar prisão, tortura, desterro, condenação às minas e confisco de bens. Nos últimos cinquenta anos, depois do final do Concílio Vaticano II em 1965, a Igreja voltou a viver o drama das catacumbas e a honra do martírio em muitos povos e igrejas (cf. Ivo Lesbaupin, A bem-aventurança da perseguição, Petrópolis: Vozes, 1977).

No Brasil houve 695 processos contra cidadãos e entre eles alguns cristãos. E que foram guardados pelo Projeto Brasil Nunca Mais, da Arquidiocese de São Paulo, sob a direção do Cardeal Paulo Evaristo Arns, todos nos anos de chumbo. Neste dossiê imenso constam os nomes de padres, bispos, religiosos e leigos da Igreja Católica que foram perseguidos no Brasil. Três destes processos datam do ano de 1964 e todos os demais são de 1968 e anos posteriores. O mais clamoroso, foi o processo de número 100, contra os frades da Ordem Dominicana em São Paulo. Foram acusados de manter ligações com Carlos Marighella. Foram presos frei Betto; frei Fernando Brito; frei Yves do Amaral Lesbaupin e Frei Tito de Alencar Lima, entre outros frades aprisionados em todo o Brasil, com a tortura de alguns dos freis levando como decorrência de tanta brutalidade à morte, frei Tito de Alencar Lima. 
Lembramos a título de exemplo: o processo BNM 595 contra 34 religiosos de várias congregações, padres, ex-padres e professores de teologia ligados à Igreja de Belo Horizonte - MG, só por terem assinado um manifesto contra o assassinato do estudante Edson Luís Lima Souto, em 29 de março de 1968. Em Porto Alegre-RS foi aberto o processo BNM 453 contra a apresentação de peça teatral no salão paroquial em Vila Niterói, Canoas. Oito pessoas foram denunciadas. A situação era tão patética e absurda que um processo BNM 470 foi aberto contra o seminarista jesuíta espanhol Francisco Carlos Velez Gonzales, residente no Brasil, por ter feito editar e divulgar uma versão da encíclica Populorum Progressio, do papa Paulo VI. O processo BNM 136 foi aberto contra oito padres e ex-padres da diocese de Itabira-MG, para atingir frontalmente o então bispo dom Marcos Antônio Noronha. O processo BNM 65 feito contra Madre Maurina Borges da Silveira, em Ribeirão Preto – SP, sua posterior deportação para o México, e a consequente excomunhão dos delegados torturadores da cidade de Ribeirão Preto: Miguel Lamano e Renato Ribeiro Soares. No processo BNM 467 foram acusados e torturados a professora e educadora Maria Nilde Mascellani, o jornalista Dermi Azevedo, Darcy Andozia Azevedo, e o filho de ambos, Carlos Alexandre Azevedo, também torturado, no Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS) paulista com um ano e oito meses de idade, em 1974. Neste mesmo processo foram presos e torturados os membros da Pastoral Operária de São Paulo, entre os quais Waldemar Rossi. Foram presos sob o comando do então delegado torturador Sérgio Paranhos Fleury. Waldemar Rossi foi julgado e absolvido na Justiça Militar em 1978. Em julho de 1980, seria Waldemar Rossi quem falaria ao Papa João Paulo II, em nome dos trabalhadores brasileiros no Estádio do Pacaembu comentando as dores dos operários e da Igreja com eles comprometida (cf. Mitra Arquidiocesana de São Paulo, Perfil dos atingidos – Projeto Brasil Nunca Mais, Petrópolis: Vozes, 1988).

Toda a perseguição comandada por generais ditadores e organizada em cada estado pelo aparelho de tortura foi financiada por algumas empresas e grupos econômicos, tendo o suporte logístico do governo brasileiro e de agentes do governo norte-americano que ensinou técnicas de tortura para militares brasileiros e supervisionou a repressão através da embaixada e de adidos militares. Tudo inspirado na Ideologia de Segurança Nacional que endeusava o Estado e o poder militar atacando e destruindo a dignidade da pessoa humana e perseguindo a fé cristã que permaneceu fiel aos pobres e aos pequenos. Fazer memória em nossas Igrejas é hoje, redescobrir o sentido da entrega de tantas pessoas e valorizá-las como instrumentos de Deus e de seu Evangelho libertador.

Quem poderia esquecer na Igreja Católica os anos de sofrimento que passou a Igreja no Chile durante a ditadura de direita do general Augusto Pinochet? Quem poderá olvidar o sofrimento do primaz da Ucrânia, Dom Iossep Slipêi, preso pelo regime comunista soviético, submetido a torturas contínuas e trabalhos forçados na Sibéria desde 1940 até sua libertação em 12 de fevereiro de 1963, aos 70 anos?

Como não celebrar a memória da perseguição da Igreja salvadorenha com dezenas de catequistas assassinados em anos de guerra, e muitas religiosas, sacerdotes e inclusive o arcebispo da capital San Salvador, o mártir e santo Oscar Arnulfo Romero?
Como deixar no anonimato os nomes dos 13 sacerdotes e dois bispos assassinados pela ditadura militar argentina? Como esquecer o testemunho de pastor do bispo Enrique Angel Angelelli, ao tomar posse da diocese de La Rioja e pedir: “ajudem-me a que não me prenda a interesses mesquinhos ou de grupos; orem para que seja o bispo e o amigo de todos, dos católicos e dos não católicos; dos que creem e dos que não creem”? 

O século 20 foi um século de martírios e perseguições feitas contra os cristãos de muitas igrejas e países, com grandes testemunhos do Evangelho nos tempos de hoje, configurando uma nova “nuvem de mártires”, como mártires da caridade, na pessoa de tantos que morreram por epidemias e doenças ao trabalhar no meio dos pobres e das calamidades a que estes estão submetidos; mártires da justiça, basicamente vivendo no hemisfério sul do planeta, na América Latina, África e continente asiático; mártires das máfias e do terrorismo, enfim, os inúmeros mártires de extermínios coletivos de tantos totalitarismos e ditaduras no mundo atual (Andrea Riccardi, O século do martírio, Lisboa: Quetzal Editores, 2000).

Sabemos que a Igreja “continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (Santo Agostinho, A cidade de Deus, XVIII, 51,2, Petrópolis: Vozes, vol.2, 2012)”. E fazer memória das perseguições não é opcional. É uma obrigação e uma celebração necessária para manter a fidelidade à mensagem e à prática de Jesus, pois “do mesmo modo que Jesus Cristo consumou a sua obra de redenção na pobreza e na perseguição, assim também, a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho para poder comunicar aos homens os frutos da salvação (Lumen Gentium 8)”.

A celebração e memória dos mártires não é um momento fúnebre e nostálgico. “Não é uma lista de atrocidades repugnantes, analisadas em sua insensatez e ineficácia; não é tampouco um triunfalismo. É muito mais. É a celebração e confirmação da causa pela qual, tantos foram sacrificados; é uma comemoração da vida, da promessa, da plenitude pascal de Jesus e dos seus. É, portanto, a celebração do amor que dá sentido à morte. Se presta respeito e se homenageia aos que levaram a sério a Deus, ao povo, a Igreja e a eles mesmos” (José Marins, Teolide Trevisan, Carolee Chanona, Memoria peligrosa, México: Centro de Reflexión Teológica, 1989, p. 25).

Celebrar os mártires é guardar a memória do sangue derramado pela Igreja e por Cristo como obrigação da fé viva e verdadeira. Não é opcional. Não é sublimar derrotas nem cair em masoquismo dolorista. O mártir é um profeta que segue a cruz de Cristo com humildade e que faz a entrega da sua vida pela vida de outros. É alguém coerente com os valores que prega. A memória de nossa fé passa pela vida daqueles que entregam suas vidas pelos pobres, pela Igreja e por Cristo. A luta contra a amnésia começa com a celebração de suas vidas, de suas lutas, de seus sonhos e de suas causas.

Prof. Dr. Fernando Altemeyer Júnior

Fonte: O Mensageiro de Santo Antonio

 

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Quinta, 13 Março 2014 14:09

Escutar Jesus (2° Dom Quaresma)

O centro desse relato complexo, chamado tradicionalmente “A Transfiguração de Jesus”, se ocupa de uma Voz que vem de uma estranha “nuvem luminosa”, símbolo que se emprega na Bíblia para falar da presença sempre misteriosa de Deus que se nos manifesta e, ao mesmo tempo, se nos oculta.

A Voz disse estas palavras: “Este é meu Filho, o amado, meu predileto. Escutem-no”. Os discípulos não hão de confundir Jesus com ninguém, nem sequer com Moisés e Elias, representantes e testemunhos do Antigo Testamento. Só Jesus é o Filho querido de Deus, aquele que tem seu rosto “resplandecente como o sol”

Porem a Voz pede algo mais: “Escutem-no”. Em outros tempos, Deus havia revelado sua vontade por meio dos “dez mandamentos” da Lei. Agora a vontade de Deus se resume e se torna concreta em um só mandato: escutar Jesus. A escuta estabelece a verdadeira relação entre os seguidores e Jesus.

Ao ouvir isto, os discípulos caem no chão “cheios de espanto”. Estão surpresos por aquela experiência tão próxima de Deus, mas também assustados pelo que estão ouvindo: Poderão viver escutando somente Jesus, reconhecendo somente nele a presença misteriosa de Deus?

Então, Jesus “se aproxima e, tocando-os, lhes diz: Levantem-se. Não tenham medo”. Sabe que necessitam experimentar sua proximidade humana: o contato de sua mão, não só o esplendor divino de seu rosto. Sempre que escutamos Jesus no silencio de nosso ser, suas primeiras palavras nos dizem: Levanta-te, não tenham medo.

Muitas pessoas só conhecem Jesus de ouvidos. Seu home lhes resulta, talvez, familiar, mas o que sabem dele não vai mais além do que algumas recordações e impressões de infância. Inclusive, ainda que se chamem cristãos, vivem sem escutar em seu interior a Jesus. E, sem essa experiência, não é possível conhecer sua paz inconfundível nem sua força para aliviar e sustentar nossa vida.

Quando um crente se detém a escutar no silencio a Jesus, no interior de sua consciência, escuta sempre algo como isto: “Não tenhas medo. Abandona-te com toda simplicidade no mistério de Deus. Tua pouca fé basta. Não te inquietes, descobrirás que o amor de Deus consiste em estar sempre te perdoando. E, se crês nisto, tua vida mudará. Conhecerás a paz do coração”.

No livro do Apocalipse se pode ler assim: “Olha, estou à porta e chamo; se alguém ouve minha voz e abre a porta, entrarei em sua casa”. Jesus chama à porta de cristãos e não cristãos. Podemos lhe abrir a porta ou podemos manda-lo embora. Mas não é a mesma coisa viver com Jesus que vivem sem Ele.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

 

 

 

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Quinta, 13 Março 2014 14:02

Do Tabor ao Calvário (2° Dom Quaresma)

A Vida cristã pode ser comparada a uma caminhada que deve ser percorrida na escuta atenta de Deus, na observância total aos seus planos. A Quaresma é um momento forte para rever essa caminhada. As Leituras bíblicas de hoje nos ajudam...

Na 1a Leitura, vemos a caminhada de Abraão: (Gen 12,1-4)

- Deus chama Abraão, convida-o a deixar a terra e a família e a partir ao encontro de uma outra terra, para ser um sinal de Deus no meio dos homens.

- Deus lhe oferece a sua bênção e a promessa de uma família numerosa, que será testemunha da Salvação de Deus diante de todos os povos.

- Diante do desafio de Deus, Abraão pôs-se a caminho. Abraão percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração.

* Confiante na Palavra de Deus, mostrou-se disposto a deixar tudo e iniciou uma caminhada em busca da Terra Prometida. Também nós somos peregrinos em busca de uma Terra Prometida.

Na 2ª leitura, São Paulo exorta Timóteo a superar a sua timidez e a ser um modelo de fidelidade no testemunho da fé. (2Tm 1,8b-10)

* É um apelo aos seguidores de Jesus, a serem verdadeiras testemunhas do projeto de Deus no mundo. Nada poderá afastar o discípulo dessa responsabilidade. No Evangelho, vemos a Caminhada de Jesus:  (Mt 17,1-9)

A caminho de Jerusalém, Jesus faz o primeiro anúncio da Paixão. O caminho da salvação esperado pelos discípulos é bem diferente.

Por isso, ficam profundamente desanimados e frustrados. A aventura parece encaminhar-se para um grande fracasso.

- Para fortalecer o ânimo profundamente abalado dos discípulos, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, e revela-lhes no Monte Tabor a glória da divindade. Após um momento de medo, eles reencontram a paz e a alegria.

Com a TRANSFIGURAÇÃO, Mateus quer duas coisas:

- Revelar: QUEM É JESUS: É "o Filho amado do Pai" e

- Convidar: "Escutem o que ele diz". * Pela Transfiguração, Deus demonstra que uma existência feita dom não é fracassada, mesmo quando termina na cruz. A Celebração da Transfiguração de Jesus nos faz Testemunhas vivas da meta que nos aguarda.

- Por que Moisés e Elias?

Eles representavam para os israelitas todo o Antigo Testamento.

Jesus é a explicação e a realização de toda a Lei e os Profetas. No Monte Sinai, falavam com Deus, aqui estão falando com Jesus...

- Israel era o filho predileto de Javé. Jesus é o Filho predileto do Pai, que os discípulos devem ouvir. Por isso: "os três levantaram os olhos e viram Jesus." Moisés e Elias desapareceram, já cumpriram a sua missão:  apresentar ao mundo o Messias, o novo Profeta, o novo Legislador.

O Prefácio resume o sentido do evangelho de hoje:

"Cristo, depois de anunciar a morte a seus discípulos, mostrou-lhes no Monte santo o esplendor de sua glória para testemunhar, de acordo com a Lei e os Profetas, que a Paixão é o caminho da Ressurreição."

A Nossa caminhada para Deus: Também nós somos chamados por Deus a uma caminhada, que é íngreme e difícil, como a escalada de uma alta montanha.

No final dessa viagem, que começa com o BATISMO, seremos envolvidos pela mesma "nuvem luminosa", que envolveu o Mestre e brilharemos como o sol no reino do Pai. Como os apóstolos, também seremos tentados a desanimar. Mas Jesus nos dá força para enfrentar e olhar além. Ao transfigurar-se aos apóstolos na glória da Trindade, quis manter viva neles a chama da esperança.  Com a sua morte, o sonho não tinha acabado. Por isso, eles e nós não devemos desanimar, por causa da cruz.

+ "Descer o Monte"

Na Transfiguração, Jesus nos revela também o valor da Vida. Em Jesus aparece a beleza do ser humano, que deve ser respeitado em todas as etapas da sua existência e com ele toda natureza que o envolve.

Diante das ameaças e agressões à Vida, Jesus nos tranqüiliza: "Levantai-vos. Não tenhais medo!". Convida-nos a "descer o Monte" e retomar a dolorosa caminhada em defesa da Vida.

Pela Transfiguração, Jesus mostra que essa realidade hostil, em que vivemos, pode e deve ser mudada, transfigurada...

O caminho é escutar o Filho amado e segui-lo com fidelidade...

Que a Caminhada Quaresmal nos ajude a descobrir esse Cristo glorioso, a escutar e acolher a sua voz

para que a Páscoa aconteça dentro de cada um de nós.

Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 16.03.2014

Publicado em Roteiro Homilético

Olhando para o monte Tabor, vemos a pessoa de Jesus com o seu corpo transfigurado. Não é o brilho da divindade manifestando-se pelo corpo de Jesus. É a humanidade de Jesus que, depois de experimentar a situação de vulnerabilidade no deserto, mostra-se em todo o seu esplendor. Os apóstolos vão vê-lo no extremo da vulnerabilidade quando estiver pregado na cruz. É preciso, pois, que saibam com antecedência que também o nosso corpo humilhado será transfigurado por Jesus Cristo, que o conformará ao seu corpo glorioso (Fl 3,21).

Abraão, nosso pai, saiu de um país de origem, transitou por terras provisórias até chegar ao seu destino. Ele carregava consigo uma bênção para todas as famílias da terra. É o pai da nossa fé e da nossa esperança. “Farei de ti um grande povo, abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”, foi-lhe dito. Sua passagem de uma terra para outra foi resposta ao chamado de Deus e não resultado da violência de um tráfico. Mas o próprio Deus previu que alguém poderia amaldiçoar Abraão em seus caminhos. Há sempre alguém procurando “obter o consentimento de uma pessoa que tem autoridade sobre outra para fins de exploração”. A autoridade de Abraão é serviço de bênção e não exploração de cobiça. Sua bênção manifesta nos mais fracos, que se tornam vítimas do tráfico humano, o que eles já são. Quando Jesus se manifestar, “eles serão semelhantes a ele, porque o verão assim como ele é” (1Jo 3,2).

A fé que possuímos nos faz ver o invisível. A luz da fé é mais forte que a luz da inteligência e nos prepara para a luz da glória, quando veremos Jesus face a face. O Evangelho, no qual acreditamos, nos faz ver desde já a graça revelada por Jesus Cristo, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade. Não desanimamos diante do mal organizado. O Pecado do mundo é forte e age e nos faz sofrer. Sofremos, porém, com Paulo, pelo Evangelho, fortificados pelo poder de Deus.

As vitimas do tráfico são seres humanos, cujos direitos devem ser plenamente respeitados. Protegê-las e ajudá-las é tarefa de todos que se empenharão em prevenir, reprimir e punir os traficantes. É preciso atingir a causa para que desapareça o efeito.

Quaresma é tempo de conversão para que a morte seja vencida na Páscoa da ressurreição. Pesquisadores interessados no combate ao tráfico humano afirmam que entre nós, “o tráfico de pessoas ainda é um crime invisível. O que ocorre atualmente é uma autêntica impunidade”. Priva-se muita gente de sua dignidade. Não é fácil descobrir o crime porque muita gente aceita voluntariamente a proposta exploradora. Temos que trabalhar de forma mais eficaz para que estes crimes sejam condenados e sem demoras. “O crime de tráfico humano fere a dignidade humana, a mão de obra escrava nega a personalidade do indivíduo e converte a vítima em uma mercadoria”. Não foi para isso que Deus nos criou. Jesus transfigurado revela-nos a beleza do ser humano criado à imagem de Deus. Não se pode desfigurá-lo. O vaso de barro contém um tesouro (2Co 4,7). Para quem não o vê, é sempre atual “não fazer ao outro o que não quero que se faça a mim”.

Conêgo Celso Pedro da Silva

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Sexta, 07 Março 2014 04:18

Hino da Campanha da Fraternidade 2014

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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
AOS FIÉIS BRASILEIROS POR OCASIÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2014

Queridos brasileiros

Sempre lembrado do coração grande e da acolhida calorosa com que me estenderam os braços na visita de fins de julho passado, peço agora licença para ser companheiro em seu caminho quaresmal, que se inicia no dia 5 de março, falando-lhes da Campanha da Fraternidade que lhes recorda a vitória da Páscoa: «É para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal 5,1). Com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus Cristo libertou a humanidade das amarras da morte e do pecado. Durante os próximos quarenta dias, procuraremos conscientizar-nos mais e mais da misericórdia infinita que Deus usou para conosco e logo nos pediu para fazê-la transbordar para os outros, sobretudo aqueles que mais sofrem: «Estás livre! Vai e ajuda os teus irmãos a serem livres!». Neste sentido, visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para uma chaga social qual é o tráfico de seres humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõem este ano o tema "Fraternidade e Tráfico Humano".

Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! «A este nível, há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência» (Discurso aos novos Embaixadores, 12 de dezembro de 2013). Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da própria convivência social! Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada?

Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais… E isso – pasmem! – a troco da minha dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito Santo que clama dentro de nós: «Abbá, Pai!» (cf.Gal 4,6). A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida em abundância (cf.Evangelii gaudium, 75).

Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21), despertando em cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica.

Vaticano, 25 de fevereiro de 2014.

Franciscus PP.

Publicado em Palavra Viva

No deserto, Jesus estava em situação de vulnerabilidade, sozinho e sem alimentação. A tentação veio logo em socorro da fraqueza. O diabo se aproxima e promete pão, promete glória, promete poder.  Deste ponto de partida haverá uma transferência para um ponto de chegada. Você começa aqui, passa por ali e chega ao ponto de destino. Jesus não cai na tentação e não se deixa conduzir pelo demônio. Ele possui a força da Palavra de Deus.

Uma pessoa vulnerável ou em situação de vulnerabilidade, é alguém enfraquecido, com pouca ou nenhuma defesa, presa fácil de quem quiser explorá-la em benefício próprio. Povo sem instrução, sem alimentação, sem teto, sem proteção policial, sem defesa judicial, é um povo em situação de vulnerabilidade.

O chamado Protocolo de Palermo sobre o tráfico de pessoas, em especial mulheres e crianças, aprovado e promulgado pelo Brasil em 2003 e 2004, entende por tráfico de pessoas “o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração. A exploração incluirá, no mínimo, a exploração da prostituição de outrem ou outras formas de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, escravatura ou práticas similares à escravatura, a servidão ou a remoção de órgãos”. Há necessidade urgente de “prevenir, reprimir e punir o tráfico de pessoas”. Por isso o tema da Campanha da Fraternidade deste ano.

Qual foi a conversa do demônio com os nossos primeiros pais? “A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois era atraente para os olhos e desejável para se alcançar conhecimento”. Assim começa a conversa. Grandes promessas, todas encantadoras, bonitas e saborosas, mas enganadoras. Assim agem os fautores do trabalho escravo, da prostituição internacional, da venda de órgãos de crianças e adoções ilegais.

A humanidade toda, estabelecida numa situação de pecado, é chamada a passar para uma situação de justiça, ensina São Paulo. Na sessão plenária do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, o Papa Francisco denunciou "a praga dos tráficos dos seres humanos", chamando-a de uma "atividade ignóbil, uma vergonha para sociedades que se dizem civilizadas", "num mundo onde se fala tanto de direitos". Na luta contra o pecado do mundo e na busca de uma situação de justiça é preciso promover a cooperação entre os países de origem, os de trânsito e de destino do tráfico humano.

Nós em nossa comunidade podemos começar tomando consciência da questão. Muitas vezes, as próprias vítimas não percebem a situação. São poucos os registros de casos e ainda não temos um banco de estatística dessa atividade criminosa. No mundo calcula-se em milhões o número de pessoas em situação de tráfico. Quantos sofrem com o desaparecimento de alguém de sua família! Ajude as pessoas a não caírem em promessas de traficantes e use o Disque Denúncia Nacional.

Cônego Celso Pedro da Silva

 

 

 

 

Publicado em Roteiro Homilético

A passagem das “tentações de Jesus” é um relato que não temos que interpretar rapidamente. As tentações que se descrevem não são propriamente de ordem moral. O relato está nos advertindo de que podemos arruinar nossa vida, se nos desviamos do caminho que segue Jesus.

A primeira tentação é de importância decisiva, pois pode perverter e corromper nossa vida de princípios. Aparentemente, a Jesus se oferece algo bem inocente e bom: colocar Deus a serviço de sua fome. “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pães”.

Sem dúvida, Jesus reage de maneira rápida e surpreendente: “Não só de pão vive o homem, sim de toda palavra que sai da boca de Deus”. Não fará de seu próprio pão algo absoluto. Não colocará Deus a serviço de seu próprio interesse, esquecendo o projeto do Pai. Sempre buscará primeiro o Reino de Deus e sua Justiça. Em todos os momentos escutará sua Palavra.

Nossas necessidades não ficam satisfeitas somente com ter assegurado nosso pão. O ser humano necessita e espera muito mais. Inclusive, para resgatar da fome e da miséria  a todos os que não tem pão, devemos escutar a Deus, nosso Pai, e despertar em nossa consciência a fome de justiça, a compaixão e a solidariedade.

Nossa grande tentação é hoje converter tudo em pão. Reduzir cada vez mais o horizonte de nossa vida a mera satisfação de nossos desejos; fazer da obsessão por um bem estar sempre maior e de um consumismo indiscriminado e sem limites como ideal único de nossas vidas. Nos enganamos se pensamos que esse é o caminho a seguir para o progresso e a libertação. Não estamos vendo que uma sociedade que transforma as pessoas ao consumismo sem limites e a uma autossatisfação, não faz gerar senão um vazio sem sentido nas pessoas, e egoísmo, falta de solidariedade e irresponsabilidade na convivência?

Por que nos assustamos quando vemos aumentando de maneira trágica o numero de pessoas que se suicidam a cada dia? Por que seguimos fechados em nosso próprio bem estar, levantando barreiras cada vez mais desumanas para que os famintos não entrem em nossos países, não cheguem até nossas casas nem chamem em nossas portas?

A proposta de Jesus pode nos ajudar a tomar consciência de que só de bem estar não vive o homem. O ser humano necessita também cultivar o espírito, conhecer o amor e a amizade, desenvolver a solidariedade com os que sofrem escutar sua consciência com responsabilidade, abrir-se ao Mistério ultimo da vida com esperança.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

A Quaresma é um tempo sagrado para aprofundar o Plano de Deus e rever a nossa vida cristã. E nós somos convidados pelo Espírito ao DESERTO da Quaresma para nos fortalecer nas TENTAÇÕES, que freqüentemente tentam nos afastar dos planos de Deus.

As Leituras bíblicas nos ajudam nesse sentido...

A 1a Leitura apresenta a tentação de Adão e Eva: (Gen 2,7-9.3,1-7) Deus criou o homem para a felicidade e para a vida plena. No entanto o homem preferiu construir o "paraíso" a seu modo. Rompendo com o projeto de Deus, "sentiu-se nu", despojado dos dons de Deus, incapaz de ser feliz. A finalidade do autor sagrado não é uma descrição histórica ou científica, mas uma Catequese sobre a Origem do Mundo e da Vida.

- O Homem vem "da terra", no entanto recebe também o "sopro de Deus".

- Deus criou o homem para ser feliz, em comunhão com Deus e indica-lhe o caminho da imortalidade e da vida plena.

- A escolha errada do homem, desde o início da história, destrói a harmonia no mundo e é a Origem do Mal.

- "Jardim, plantas, água abundante": é o ideal de felicidade desejado por um povo que vive os rigores do deserto árido.

- "Árvore da vida": símbolo da imortalidade concedida ao homem.

- "Árvore do conhecimento do bem e do mal": representa a auto-suficiência de quem busca a própria felicidade longe de Deus.

- "Nus": Despojados da dignidade inicial (viver nu é a condição dos animais).

- "A Serpente": representa a Religião Cananéia, que cultuava a serpente. Por ela, os israelitas eram tentados a abandonar o caminho exigente da Lei. É símbolo de tudo o que afasta os homens de Deus e de suas propostas.

A 2ª Leitura nos propõe dois exemplos: Adão e Jesus. (Rm 5,12-19) Adão representa o homem que escolhe ignorar as propostas de Deus e decidir, por si só, os caminhos da salvação e da vida plena; Jesus é o homem que escolhe viver na obediência às propostas de Deus. O esquema de Adão gera egoísmo, sofrimento e morte; o esquema de Jesus gera vida plena e definitiva.

O Evangelho fala das tentações de Jesus. (Mt 4,1-11) Na sua quaresma no DESERTO, Jesus é tentado três vezes a abandonar o plano de Deus e procurar outros caminhos, mas Ele se recusa. Esse relato não é uma reportagem histórica, mas uma Catequese, cujo objetivo é mostrar que também Jesus foi tentado, mas foi fiel à vontade do Pai. Os 40 dias simbolizam os 40 anos passados por Israel no deserto. Jesus revive a experiência da fome e da confiança do povo na Providência divina. Mateus sintetiza em três tentações simbólicas todas aquelas provas, que Jesus enfrentou e venceu durante toda a sua vida: 

1) Tentação da Abundância (Riqueza): Jesus é tentado a transformar as pedras em pães, como no tempo do Maná. Jesus vence a prova, demonstrando a necessidade essencial de alimentar-se da Palavra de Deus: "Nem só de pão vive o homem..."

2) Tentação do Prestígio: Jesus poderia ter escolhido um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo admirado e aclamado pelas multidões. Jesus rejeita todo o desejo de prestígio e afirma: "Não tentarás o Senhor teu Deus". Não força Deus para solucionar magicamente problemas humanos.

3) Tentação do Poder: Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio. No entanto, Jesus rejeita essa tentação, afirmando: "Só a Deus adorarás".

As três tentações aqui apresentadas são três faces de uma única tentação: ignorar as propostas de Deus e escolher um caminho pessoal. Jesus recusou a tentação do pão, da glória e do poder... Para Ele, só uma coisa é verdadeiramente decisiva e fundamental: a comunhão com o Pai e o cumprimento obediente do seu projeto…

Na Palavra de Deus, encontra a força e a resposta para vencê-las...

+ As Tentações continuam ainda hoje... Ainda hoje somos tentados a esquecer as propostas de Deus

e seguir outros deuses. A Quaresma é um tempo favorável para rever quais são os ídolos, que adoramos no lugar de Deus e que condicionam as nossas decisões e opções. As tentações de ontem e de hoje, são fundamentalmente as mesmas:

- Tentação da Riqueza: de "ter mais": dinheiro, bens, conforto, comodidade... Até recusamos compromissos voluntários, pois podem prejudicar o conforto... achando que para ser feliz, basta ter muitos bens...

- Tentação do Prestígio, da fama: Adoramos ser elogiados, aparecer... Até exigimos de Deus sinais do seu amor: E se o milagre não acontece, a nossa fé vacila!...

- Tentação do Poder: procuramos o Poder a todo custo e o exercemos com prepotência... em todos os ambientes...

+ As tentações continuam ainda...  Qual é a nossa atitude diante delas?

Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa -09.03.2014

Publicado em Roteiro Homilético