"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."
Quarta, 04 Novembro 2015 10:38

Contraste (32° Dom TC)

O contraste entre as duas situações é total. Na primeira, Jesus põe as pessoas em guarda frente aos escribas do templo. A sua religião é falsa: utilizam-na para procurar a sua própria glória e explorar aos mais fracos. Não tem de os admirar nem seguir o seu exemplo. Na segunda, Jesus observa o gesto de uma pobre viúva e chama os Seus discípulos. Desta mulher podem aprender algo que nunca lhes ensinarão os escribas: uma fé total em Deus e uma generosidade sem limites.

A crítica de Jesus aos escribas é dura. Em vez de orientar o povo em direção a Deus procurando a Sua glória, atraem a atenção das pessoas para si mesmos procurando a sua própria honra. Gostam de «passear-se com amplas roupas» procurando cumprimentos e reverências das pessoas. Na liturgia das sinagogas e nos banquetes procuram «os lugares de honra» e «os primeiros lugares».

Mas há algo que, sem dúvida, dói a Jesus mais que este comportamento fátuo e pueril de ser contemplados, saudados e reverenciados. Enquanto aparentam uma piedade profunda nas suas «longas rezas» em público, aproveitam-se do seu prestígio religioso para viver à custa das viúvas, dos seres mais débeis e indefesos de Israel segundo a tradição bíblica.

Precisamente, uma destas viúvas vai pôr em evidência a religião corrupta destes dirigentes religiosos. O seu gesto passou despercebido a todos, mas não a Jesus. A pobre mulher só deitou na arca das oferendas duas pequenas moedas, mas Jesus chama de seguida os Seus discípulos pois dificilmente encontrarão naquele ambiente do templo um coração mais religioso e mais solidário com os necessitados.

Esta viúva não anda à procura de honras nem prestigio algum; atua de forma calada e humilde. Não pensa em explorar ninguém; pelo contrário, dá tudo o que tem porque outros o podem necessitar. Segundo Jesus, deu mais que todos, pois não dá o que lhe sobra, mas «tudo o que tem para viver».

Não nos equivoquemos. Estas pessoas simples, mas de coração grande e generoso, que sabem amar sem reservas, são o melhor que temos na Igreja. Elas são as que fazem o mundo mais humano, as que creem verdadeiramente em Deus, as que mantêm vivo o Espírito de Jesus no meio das outras atitudes religiosas falsas e interesseiras. Destas pessoas temos de aprender a seguir a Jesus. São as que mais se lhe parecem.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético

Nesta festa cristã de «Todos os Santos», quero dizer como entendo e trato de viver alguns aspectos da minha fé na vida eterna. Quem conhece e segue Jesus Cristo entender-me-á.

Acreditar no céu é para mim resistir-me a aceitar que a vida de todos e de cada um de nós é apenas um pequeno parêntesis entre dois imensos vazios. Apoiando-me em Jesus, intuo, pressinto, desejo e creio que Deus está a conduzir para a sua verdadeira plenitude o desejo de vida, de justiça e de paz que se encerra na criação e no coração da humanidade.

Acreditar no céu é para mim rebelar-me com todas as minhas forças a que essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças, que só conheceram nesta vida miséria, fome, humilhação e sofrimentos, fique enterrada para sempre no esquecimento. Confiando em Jesus, creio numa vida onde já não haverá pobreza nem dor, ninguém estará triste, ninguém terá que chorar. Por fim poderei ver aos que vêm nas barcas chegar à sua verdadeira pátria.

Acreditar no céu é para mim aproximar-me com esperança a tantas pessoas sem saúde, doentes crônicos, inválidos físicos e psíquicos, pessoas afundadas na depressão e na angústia, cansadas de viver e de lutar. Seguindo Jesus, creio que um dia conhecerão o que é viver com paz e saúde total. Escutarão as palavras do Pai: Entra para sempre no gozo do teu Senhor.

Não me resigno a que Deus seja para sempre um «Deus oculto», de quem não podemos conhecer jamais o Seu olhar, a Sua ternura e os Seus abraços. Não posso imaginar não me encontrar nunca com Jesus. Não me resigno a que tantos esforços por um mundo mais humano e ditoso se percam no vazio. Quero que um dia os últimos sejam os primeiros e que as prostitutas nos precedam. Quero conhecer aos verdadeiros santos de todas as religiões e de todos os ateísmos, os que viveram amando no anonimato e sem esperar nada.

Um dia poderemos escutar estas incríveis palavras que o Apocalipse coloca na boca de Deus: «Ao que tenha sede, Eu lhe darei de beber grátis da fonte da vida». Grátis! Sem o merecer. Assim saciará Deus a sede de vida que há em nós.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Sexta, 16 Outubro 2015 07:00

Nada disso entre nós (29° Dom TC)

A caminho de Jerusalém, Jesus adverte os Seus discípulos do destino doloroso que O espera e aos que sigam os Seus passos. A inconsciência dos que o acompanham é incrível. Todavia hoje continua a repetir-se.

Santiago e João, os filhos de Zebedeu, afastam-se do grupo e aproximam-se sozinhos de Jesus. Não necessitam dos outros. Querem ficar com os lugares mais privilegiados e ser os primeiros no projeto de Jesus, tal como eles o imaginam. A sua petição não é uma súplica mas uma ridícula ambição: «Queremos que faças o que te vamos a pedir». Querem que Jesus os coloque acima dos outros.

Jesus parece surpreendido. «Não sabeis o que pedis». Não entenderam nada. Com grande paciência convida-os para que se perguntem se são capazes de partilhar o Seu destino doloroso. Quando se apercebem do que se passa, os outros dez discípulos enchem-se de indignação contra Santiago e João. Também eles têm as mesmas aspirações. A ambição divide-os e confrontam-se. A procura de honras e protagonismos rompe sempre a comunhão da comunidade cristã. Também hoje. Que pode ser mais contrário a Jesus e ao Seu projeto de servir a libertação das pessoas?

O facto é tão grave que Jesus «reúne-os» para deixar claro qual é a atitude que deve caracterizar sempre os Seus seguidores. Conhecem bem como atuam os romanos, «chefes dos povos» e «grandes» da terra: tiranizam as pessoas, submetem-nas e fazem sentir a todos o peso do seu poder. Pois bem, «vós não fareis nada disso».

Entre os Seus seguidores, tudo tem de ser diferente: «O que queira ser grande, seja servidor; e o que queira ser o primeiro, seja escravo de todos». A grandeza não se mede pelo poder que se tem, o cargo que se ocupa ou os títulos que se ostentam. Quem ambiciona estas coisas, na Igreja de Jesus, não se faz maior mas mais insignificante e ridículo. Na realidade, é um estorvo para quem quer promover o estilo de vida pretendido pelo Crucificado. Falta-lhe um traço básico para ser seguidor de Jesus.

Na Igreja todos temos de ser servidores. Temos de nos colocar na comunidade cristã, não desde cima, desde a superioridade, o poder ou o protagonismo interesseiro, mas desde baixo desde a disponibilidade, o serviço e a ajuda aos outros. O nosso exemplo é Jesus. Não viveu nunca «para ser servido, mas para servir». Este é o melhor e mais admirável resumo do que Ele foi: servir.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

 

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 05 Outubro 2015 08:16

Uma coisa nos falta (28° Dom TC)

O episódio é narrado com intensidade especial. Jesus põe-se a caminho para Jerusalém, mas antes que se afaste daquele lugar, vem a «correr» um desconhecido que «cai de joelhos» ante Ele para retê-Lo. Necessita urgentemente de Jesus.

Não é um doente que pede a cura. Não é um leproso que, desde o chão, implora compaixão. A sua petição é de outra ordem. O que ele procura naquele mestre bom é luz para orientar a sua vida: «Que farei para herdar a vida eterna?». Não é uma questão teórica, mas existencial. Não fala em geral; quer saber que tem de fazer pessoalmente.

Antes de mais nada, Jesus recorda-lhe que «não há nada que seja melhor que Deus». Antes de considerarmos o que temos de «fazer», temos de saber que vivemos ante um Deus Bom como ninguém: na Sua bondade insondável temos de apoiar a nossa vida. Depois, recorda-lhe «os mandamentos» desse Deus Bom. Segundo a tradição bíblica, esse é o caminho para a vida eterna.

A resposta do homem é admirável. Tudo isso o cumpriu desde pequeno, mas sente dentro de si uma aspiração mais profunda. Está à procura de algo mais. «Jesus olha-o com carinho». O Seu olhar expressa a relação pessoal e intensa que quer estabelecer com ele.

Jesus entende muito bem a sua insatisfação: «uma coisa te falta». Seguindo essa lógica de «fazer» o que se manda «obter» a vida eterna, mesmo que se viva de forma integra, não ficará plenamente satisfeito. No ser humano há uma aspiração mais profunda.

Por isso, Jesus convida-o a orientar a sua vida segundo uma lógica nova. Em primeiro lugar é não viver agarrado aos seus bens («vende o que tens»). O segundo, é ajudar os pobres («dá-lhes o teu dinheiro»). Por último, «vem e segue-me». Os dois poderão percorrer juntos o caminho para o reino de Deus (!).

O homem levanta-se e afasta-se de Jesus. Esquece o Seu olhar carinhoso e parte triste. Sabe que nunca poderá conhecer a alegria e a liberdade de quem segue Jesus. Marco explica-nos que «era muito rico».

  • Não é esta a nossa experiência de cristãos satisfeitos dos países ricos?
  • Não vivemos presos pelo bem-estar material?
  • Não lhe falta à nossa religião o amor prático aos pobres?
  • Não nos falta a alegria e liberdade dos seguidores de Jesus?

 

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Terça, 29 Setembro 2015 08:42

Acolher os pequenos (27° Dom TC)

Deixai que as crianças venham a mim”

A passagem parece insignificante. Sem dúvida, possui um fundo de grande importância para os seguidores de Jesus. Segundo o relato de Marcos, alguns tratam de impedir que crianças cheguem perto de Jesus. A única coisa que procuram é que aquele homem de Deus as possa tocar para comunica-las um pouco de sua força e de sua vida.  Ao que parece, era uma crença popular.

Os discípulos ficam incomodados e tratam de impedir que se aproximem. Pretendem fazer um cerco em torno de Jesus. Atribuem-se o poder de decidir quem pode chegar perto de Jesus e quem não pode. Se colocam entre Ele e os mais pequenos, frágeis e necessitados daquela sociedade. Em vez de facilitar seu acesso a Jesus, criam obstáculos.

Se esqueceram já o gesto de Jesus que, alguns dias antes, tinha posto  no centro do grupo um menino para que aprendessem bem quem são os pequenos que devem ser o centro das atenções e cuidados de seus discípulos. Esqueceram-se de como Jesus o abraçou na frente de todos, convidando-os a acolhê-los em seu nome e com o mesmo carinho.

Jesus fica indignado. Aquele comportamento de seus discípulos é intolerável. Zangado, lhes ordena: “Deixai que as crianças venham a mim”. Quem lhes ensinou a atuar de uma maneira tão contrária ao seu Espírito? São precisamente os pequenos, os frágeis e indefesos, os primeiros que devem chegar perto de Jesus.

A razão é muito profunda, pois obedece aos desígnios do Pai: “Sejam como eles, porque deles é o Reino de Deus”. No Reino de Deus e no grupo de Jesus, os que incomodam não são os pequenos, e sim os grandes e poderosos aqueles que querem dominar e ser os primeiros.

O centro de sua comunidade não deve estar ocupado por pessoas fortes e poderosas que se impõe aos demais de cima para baixo. Em sua comunidade é necessário que hajam homens e mulheres que busquem o ultimo lugar para acolher, servir e abençoar os mais fracos e necessitados.

O Reino de Deus não acontece com a imposição dos poderosos e sim com a acolhida e defesa aos pequenos. Onde estes se convertem no centro da atenção e cuidado, aí está chegando o Reino de Deus, a sociedade humana que quer o Pai.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Terça, 22 Setembro 2015 05:29

São amigos, não adversários (26° Dom TC)

Apesar dos esforços de Jesus para lhe ensinar a viver como Ele, ao serviço do reino de Deus, fazendo a vida das pessoas, mais humana, mais digna e ditosa, os discípulos não conseguem entender o Espírito que o animava, o Seu grande amor aos mais necessitados e a orientação profunda da Sua vida.

O relato de Marcos é muito iluminador. Os discípulos informam Jesus de um facto que os incomodou muito. Viram um desconhecido «expulsando demônios». Está atuando «em nome de Jesus» e na Sua linha: dedica-se a libertar as pessoas do mal que lhes impede de viver de forma humana e em paz. No entanto, aos discípulos não lhes agrada o seu trabalho libertador. Não pensam na alegria dos que são curados por aquele homem. A sua intervenção parece-lhe uma intrusão que é necessário cortar.

Expõem a Jesus as suas reações: «Quisemos impedi-lo porque não é dos nossos». Aquele estranho não deve continuar a curar porque não é membro do grupo. Não lhes preocupa a saúde das pessoas, mas o seu prestígio de grupo. Pretendem monopolizar a ação salvadora de Jesus: ninguém deve curar em Seu nome se não adere ao grupo.

Jesus reprova a atitude dos Seus discípulos e coloca-se Numa lógica radicalmente diferente. Ele vê as coisas de outra forma. O primeiro e mais importante não é o crescimento daquele pequeno grupo, mas que a salvação de Deus chegue a todo o ser humano, incluso por meio de pessoas que não pertencem ao grupo: «o que não está contra nós, está a favor de nós». Quem faça presente no mundo a força curadora e libertadora de Jesus está a favor do Seu grupo.

Jesus rejeita a postura sectária e de exclusão dos Seus discípulos que só pensam no seu prestígio e crescimento, e adota uma atitude aberta e inclusiva onde o principal é libertar o ser humano daquilo que o destrói e o faz infeliz. Este é o Espírito que deve animar sempre os Seus verdadeiros seguidores.

Fora da Igreja católica, há no mundo um número incontável de homens e mulheres que fazem o bem e vivem trabalhando por uma humanidade mais digna, mais justa e mais liberta. Neles está vivo o Espírito de Jesus. Temos de senti-los como amigos e aliados, nunca como adversários. Não estão contra nós pois estão a favor do ser humano, como estava Jesus.

 

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Terça, 15 Setembro 2015 07:48

Duas atitudes muito de Jesus (25° Dom TC)

O grupo de Jesus atravessa a Galileia a caminho de Jerusalém. Fazem-no de forma reservada, sem que ninguém se inteire. Jesus quer dedicar-se inteiramente a instruir os Seus discípulos. É muito importante o que quer gravar nos seus corações: o seu caminho não é um caminho de glória, êxito e poder. É o contrário: conduz à crucifixão e à rejeição, apesar de que terminará em ressurreição.

Aos discípulos não lhes entra na cabeça o que lhes diz Jesus. Dá-lhes medo até perguntar-Lhe. Não querem pensar na crucifixão. Não entra nos seus planos nem expectativas. Enquanto Jesus lhes fala de entrega e da cruz, eles falam das suas ambições: Quem será o mais importante do grupo? Quem ocupará o posto mais elevado? Quem receberá mais honras?

Jesus «senta-se». Quer ensinar-lhes algo que nunca hão de se esquecer. Chama os Doze, os que estão mais estreitamente associados à Sua missão e convida-os a que se aproximem, pois vê-os muito distanciados Dele. Para seguir os Seus passos e parecer-se a Ele têm de aprender duas atitudes fundamentais.

Primeira atitude: «Quem queira ser o primeiro, que seja o último de todos e servidor de todos». O discípulo de Jesus tem de renunciar às ambições, cargos, honras e vaidades. No Seu grupo ninguém está acima dos outros. Pelo contrário, há de ocupar o último lugar, colocar-se ao nível de quem não tem poder nem ostenta categoria alguma. E, desde aí, ser como Jesus: «servidor de todos».

A segunda atitude é tão importante que Jesus a ilustra com um gesto simbólico profundo. Coloca uma criança no meio dos Doze, no centro do grupo, para que aqueles homens ambiciosos se esqueçam de honras e grandezas, e ponham os seus olhos nos pequenos, os débeis, os mais necessitados de defensa e cuidado.

Logo, os abraça e lhes diz: «O que acolhe a uma criança como esta em Meu nome, acolhe-me a Mim». Quem acolhe um «pequeno» está acolhendo o «maior», a Jesus. E quem acolhe a Jesus está acolhendo o Pai que O enviou.

Um Igreja que acolhe os pequenos e indefesos está ensinando a acolher a Deus. Uma Igreja que olha para os grandes e se associa com os poderosos da terra está pervertendo a Boa Nova de Deus anunciada por Jesus.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Quinta, 10 Setembro 2015 12:11

Reconhecer a Jesus o Cristo (24° Dom TC)

O episódio ocupa um lugar central e decisivo no relato de Marcos. Os discípulos levam já algum tempo convivendo com Jesus. Chegou o momento em que se têm de pronunciar com claridade. A quem estão seguindo? Que é que descobrem em Jesus? Que captam nas suas vidas, a Sua mensagem e o Seu projeto?

Desde que se uniram a Ele, vivem interrogando-se sobre a Sua identidade. O que mais os surpreende é a autoridade com que Lhes fala, a força com que cura os doentes e o amor com que oferece o perdão de Deus aos pecadores. Quem é este homem em quem sentem tão presente e tão próximo a Deus como Amigo da vida e do perdão?

Entre as pessoas que não conviveram com Ele corre variados rumores, mas a Jesus interessa-lhe a posição dos Seus discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Não basta que entre eles haja opiniões diferentes mais ou menos acertadas. É fundamental que os que se comprometeram com a Sua causa, reconheçam o mistério que se encerra Nele. Se não é assim, quem manterá vivo a Sua mensagem? Que será do Seu projeto de reino de Deus? Em que terminará aquele grupo que está tratando de pôr em marcha?

Mas a questão é vital também para os Seus discípulos. Afeta-os radicalmente. Não é possível seguir Jesus de forma inconsciente e ligeira. Têm de o conhecer cada vez com mais profundidades. Pedro, recolhendo as experiências que viveram junto a Ele até esse momento, responde-lhe em nome de todos: «Tu és o Messias».

A confissão de Pedro é todavia limitada. Os discípulos não conhecem ainda a crucificação de Jesus às mãos dos Seus adversários. Não podem nem suspeitar que será ressuscitado pelo Pai como Filho amado. Não conhecem experiências que lhes permitam captar tudo o que se encerra em Jesus. Só seguindo de perto, o irão descobrindo com fé crescente.

Para os cristãos é vital reconhecer e confessar cada vez com mais profundidade o mistério de Jesus o Cristo. Se ignora-se a Cristo, a Igreja vive ignorando-se a si mesma. Se não O conhece, não pode conhecer o mais essencial e decisivo da Sua tarefa e missão. Mas, para conhecer e confessar a Jesus Cristo, não basta encher a nossa boca com títulos cristianológicos admiráveis.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Quinta, 03 Setembro 2015 04:42

Curar a nossa surdez (23° Dom TC)

Os profetas de Israel usavam com frequência a «surdez» como uma metáfora provocativa para falar do encerramento e da resistência do povo ao seu Deus. Israel «tem ouvidos mas não ouve» é o que Deus diz. Por isso, um profeta chama a todos para a conversão com estas palavras: «Surdos, escutai e ouvi».

Neste enquadramento, as curas de surdos, narradas pelos evangelistas, podem ser lidas como «relatos de conversão» que nos convidam a deixar-nos curar por Jesus da surdez e das resistências que nos impedem de escutar a Sua chamada para o seguir. Em concreto, Marcos oferece no seu relato matizes muito sugestivos para trabalhar esta conversão nas comunidades cristãs.

O surdo vive afastado de todos. Não parece estar a ser consciente do seu estado. Não faz nada para aproximar-se de quem o pode curar. Por sorte para ele, uns amigos interessam-se por ele e levam-no até Jesus. Assim tem de ser a comunidade cristã: um grupo de irmãos e irmãs que se ajudam mutuamente para viver em torno de Jesus deixando-se curar por Ele.

A cura da surdez não é fácil. Jesus toma consigo o doente, retira-se para um lado e concentra-se nele. É necessário o recolhimento e a relação pessoal. Necessitamos nos nossos grupos cristãos um clima que permita um contato mais íntimo e vital dos crentes com Jesus. A fé em Jesus Cristo nasce e cresce nessa relação com Ele.

Jesus trabalha intensamente os ouvidos e a língua do doente, mas não basta. É necessário que o surdo colabore. Por isso, Jesus, depois de levantar os olhos ao céu, procurando que o Pai se associe ao Seu trabalho curador, grita ao enfermo a primeira palavra que tem de escutar quem vive surdo a Jesus e ao Seu Evangelho: «Abre-te».

É urgente que os cristãos escutem também hoje esta chamada de Jesus. Não são momentos fáceis para a Sua Igreja. Pede-se que atuemos com lucidez e responsabilidade. Seria funebre viver hoje surdos à Sua chamada, não ouvir as Suas palavras de vida, não escutar a Sua Boa Nova, não captar os sinais dos tempos, viver encerrados na nossa surdez. A força salvadora de Jesus pode-nos curar.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético

Não sabemos quando nem onde ocorreu o enfrentamento. Ao evangelista só lhe interessa ressaltar a atmosfera em que Jesus se movimenta, rodeado de mestres da lei, observadores escrupulosos das tradições, que resistem cegamente à novidade que o Profeta do amor quer introduzir em suas vidas.

Os fariseus observam indignados que os discípulos de Jesus comem com mãos impuras. Não os podem tolerar: “Por que teus discípulos não seguem as tradições mais antigas?” Ainda que falem dos discípulos, o ataque é dirigido a Jesus. Tem razão. É Jesus quem está rompendo essa obediência cega às tradições ao criar em torno de si um “espaço de liberdade” onde o decisivo é o amor.

Aquele grupo de mestres religiosos não entenderam nada do Reino de Deus que Jesus lhes está anunciando. Em seu coração não reina Deus. Segue reinando a lei, as normas, os usos e os costumes marcados pelas tradições. Para eles o importante é observar o que foi estabelecido pelos “antigos”. Não pensam no bem das pessoas. Não lhes preocupa “buscar o Reino de Deus e sua justiça”.

O erro é grave. Por isso, Jesus lhes responde com palavras duras: “Vocês deixam de lado o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”.

Os doutores falam com veneração de “tradição dos antigos” e lhes atribuem autoridade divina. Mas Jesus as qualifica como “tradições humanas”. Não há que confundir jamais a vontade de Deus com o que é fruto da vontade dos homens.

Seria também hoje um grave erro a Igreja ficar prisioneira das tradições humanas de nossos antepassados, quando o mundo nos está chamando para uma profunda conversão a Jesus Cristo, nosso único Mestre e Senhor. O que nos deve preocupar não é conservar intacto o passado, e sim fazer o possível para o nascimento de uma Igreja e de comunidades cristãs capazes de reproduzir com fidelidade o Evangelho e de atualizar o projeto do Reino de Deus na sociedade contemporânea.

Nossa primeira responsabilidade não é repetir o passado, e sim fazer possível em nossos dias à acolhida de Jesus Cristo, sem escondê-lo nem obscurecê-lo com tradições humanas, por mais veneráveis que nos possam parecer.

 

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético