"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

Em outro gesto que sinaliza tempos mais progressistas para Igreja Católica e a reabilitação da Teologia da Libertação no âmbito da referida Igreja, o Papa Francisco anunciou esta semana a revogação da suspensão [‘suspensión a divinis’] do sacerdote nicaraguense Miguel d´Escoto, de 81 anos. Durante 30 anos, d´Escoto foi impedido pelo Vaticano de ministrar missa, confessar fiéis e dar outros sacramentos. A suspensão do sacerdote ocorreu por sua forte ligação com a Teologia da Libertação e, consequentemente, com a revolução sandinista na Nicarágua, então combatidas pelo Papa João Paulo II e o Governo dos Estados Unidos, respectivamente.


Padre d´Escoto era forte apoiador dos rebeldes sandinistas, que se uniram com a finalidade de derrubar a ditadura da família Somoza do Governo da Nicarágua. Nos anos 1970, grupos guerrilheiros de várias tendências políticas formaram a Frente Sandinista. Em 1979, a Revolução Sandinistasaiu vitoriosa. Nesse ano, o sacerdote assumiu a titularidade do Ministério das Relações Exteriores, onde ficou durante 10 anos. Na década de 80 do século XX, João Paulo II e seu fiel colaborador, o então cardeal Joseph Ratzinger – depois Papa Bento XVI, que renunciou ao pontificado no início de 2013 – declararam guerra à Teologia da Libertação, perseguindo todo o clero que a apoiava.

 

O padre nicaraguense foi punido por sua militância política e a participação no governo sandinista, que enfrentava abertamente os Estados Unidos. O Governo da Nicarágua chegou a denunciar ante a Corte Internacional de Haia os EUA por bloqueios militares. A Corte deu razão à Nicarágua, mas os EUA ignoraram a decisão.

 

Outros dois sacerdotes nicaraguenses também foram punidos: o jesuíta Fernando Cardenal e seu irmão Ernesto. Em 1996, Fernando foi reincorporado à ordem jesuíta, após a revogação da suspensão. Ernesto, por sua vez, continua no ostracismo.

 

Padre d’Escoto também, nos anos 1970, fundou a editora Orbis, que se desenvolveu publicando livros sobre espiritualidade, teologia e temas da atualidade, muitas vezes na perspectiva do Terceiro Mundo. D'Escoto pertence à congregação missionária Maryknoll e escreveu, no semestre passado, uma carta ao Papa para expressar seu desejo de voltar a celebrar a Eucaristia "antes de morrer”. O pontífice argentino não demorou a lhe responder. Além de aceitar a revogação da suspensão, pediu ao principal prelado da congregação que inicie o quanto antes o processo de reintegração do sacerdote nicaraguense.

 

Fonte: Adital – 07/08/2014

Publicado em Palavra Viva
Quinta, 07 Agosto 2014 12:52

No meio da crise (19° Dom TC)

Não é difícil ver na barca dos discípulos de Jesus, sacudida pelas ondas e balançada pelo forte vento contrário, a figura da Igreja atual, ameaçada de fora por toda classe de forças contrárias e tentada por dentro pelo medo e pela pouca fé. Como ler essa passagem do Evangelho a partir da crise em que a Igreja parece hoje naufragar?

Segundo o evangelista, “Jesus se aproxima da barca caminhando sobre a agua”. Os discípulos não são capazes de reconhecê-lo em meio a tormenta e a escuridão da noite. Parece um “fantasma”. O medo os torna aterrorizados. A única coisa real é aquela tempestade.

Este é nosso primeiro problema. Estamos vivendo a crise da Igreja contagiando-nos uns aos outros com desalento, medo e falta de fé. Não somos capazes de ver que Jesus está nos cercando precisamente nesta forte crise. Nos sentimos mais sós e indefesos que nunca.

Jesus diz aos discípulos três palavras: “Ânimo, Sou eu. Não tenham medo”. Somente Jesus pode lhes falar assim. Mas seus ouvidos só ouvem o barulho das ondas e a força do vento. Este é também nosso erro. Se não escutamos o convite de Jesus a colocar nossa confiança incondicional, a quem pediremos socorro?

Pedro sente um impulso interior e sustentado pela chamada de Jesus, salta da barca e “se dirige até Jesus andando sobre as aguas”. Assim temos que aprender hoje a caminhar até Jesus em meio a crise: apoiando-nos, não no poder, no prestígio e nas seguranças do passado,  mas no desejo de encontramo-nos com Jesus em meio a escuridão e as incertezas destes tempos.

Não é fácil. Também nós podemos vacilar e afundarmos como Pedro. Mas, como Pedro, podemos experimentar que Jesus estende sua mão e nos salva enquanto nos diz: “Homens de pouca fé, por que duvidais”?

Por que duvidamos tanto? Por que não estamos aprendendo nada novo durante a crise? Por que seguimos buscando falsas seguranças para “sobreviver” dentro de nossas comunidades, sem aprender a caminhar com fé renovada até Jesus a partir mesmo de nossa sociedade secularizada em nossos dias?

Esta crise não é o fim da fé cristã. É a purificação que necessitamos para libertarmo-nos dos interesses mundanos, triunfalismos enganosos e deformações que nos afastaram de Jesus ao longo dos séculos. Ele está atuando nesta crise. Ele está nos conduzindo até uma Igreja mais evangélica. Renovemos nossa confiança em Jesus. Não tenhamos medo.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Jesus está ocupado em curar aquelas pessoas doentes e desnutridas que chegam de todas as partes. Ele faz, segundo o evangelista, porque o sofrimento o comove. Enquanto isso, seus discípulos percebem que está ficando muito tarde. Seu dialogo com Jesus nos permite penetrar no significado mais profundo deste episodio chamado erroneamente “a multiplicação dos pães”.

Os discípulos fazem a Jesus um pedido realista e razoável: “Despede as multidões para que vão até as aldeias e comprem o que comer”. Já haviam recebido de Jesus a atenção que necessitavam. Agora, que cada um volte para sua aldeia e compre alguma coisa para comer segundo seus recursos e possibilidades.

A reação de Jesus é surpreendente: “Não deixa que se vão. Dá-lhes vós mesmos de comer”. A fome é um problema demasiadamente grave para deixarmos que cada um resolva em seu próprio povo que possa. Não é momento de separarmo-nos, sim de unir-se mais que nunca para compartilhar entre todos o que temos, sem excluir ninguém.

Os discípulos o fazem ver que só tem cinco pães e dois peixes. Não importa. O pouco que se tem basta quando se partilha com generosidade. Jesus manda que se sentem todos sobre a grama para celebrar uma grande refeição. Rápido tudo muda. Os que estavam a ponto de separar-se para matar sua fome em sua própria aldeia, se sentam juntos em torno de Jesus para partilhar o pouco que tinham. Assim quer ver Jesus a comunidade humana.

Que acontece com os pães e os peixes nas mãos de Jesus? Não os “multiplica”. Primeiro agradece a Deus e lhe dá graças: aqueles alimentos vem de Deus: são de todos. Logo os vai partilhando e vai dando aos discípulos. Estes, por sua vez, vão dando as pessoas. Os pães e os peixes vão passando de uns para outros. Assim se pôde saciar a fome de todos.

O arcebispo de Tánger levantou uma vez mais sua voz para recordarmo-nos: “o sofrimento de  milhões de homens,  mulheres e crianças que, deixados à sua própria sorte ou perseguidos por governos, e entregues ao poder usurário e escravizador das máfias, sobrevivem, sofrem e morrem a caminho da emigração”.

Em vez de unir nossas forças para erradicar em sua raiz a fome do mundo, só nos ocorre fecharmo-nos em nosso “bem estar” levantando barreiras cada vez mais degradantes e assassinas: Em nome de que Deus os despedimos para que se afundem em sua miséria? Onde estão os seguidores de Jesus?

Quando se ouve em nossas eucaristias o grito de Jesus: “dá-lhes vós mesmos de comer”?

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

O Evangelho cita duas pequenas parábolas de Jesus com a mesma mensagem. Em ambos os relatos, o protagonista descobre um tesouro muito valioso e uma pérola de valor incalculável. E os dois reagem do mesmo modo: vendem com alegria e decisão o que tem, e ficam com o tesouro e a pérola. Segundo Jesus. Assim reagem os que descobrem o Reino de Deus.

Parece que Jesus teme que as pessoas o sigam por interesses diversos, sem descobrir o mais atrativo e importante: esse projeto apaixonante do Pai, que consiste em conduzir a humanidade até um mundo mais justo, fraterno e feliz, encaminhando até sua salvação definitiva em Deus.

Que podemos dizer hoje, depois de vinte séculos de cristianismo? Por que tantos cristãos bons vivem fechados em sua prática religiosa com a sensação de não ter descoberto nela nenhum “tesouro”? Onde está à raiz ultima dessa falta de entusiasmo e alegria em muitos lugares de nossa Igreja, incapaz de atrair até o centro do Evangelho a tantos homens e mulheres que vão se afastando dela, sem renunciar por isso a Deus nem a Jesus?

Depois do Concílio, Paulo VI fez esta afirmação profunda: “Só o reino de Deus é absoluto. Tudo o mais é relativo”. Anos mais tarde, João Paulo II reafirmou dizendo: “A Igreja não é ela seu próprio fim, pois está orientada ao Reino de Deus de que é semente, sinal e instrumento”. O Papa Francisco vem nos repetindo: “O projeto de Jesus é instaurar o Reino de Deus”.

Se esta é a fé da Igreja, por que há cristãos que nem sequer tenham ouvido falar desse projeto que Jesus chamava “Reino de Deus”? Por que não sabem que a paixão que animou toda a vida de Jesus, a razão de ser e o objetivo de sua atuação, foi anunciar e promover esse projeto humanizador do Pai: buscar o Reino de Deus e sua Justiça?

A Igreja não pode renovar-se desde sua raiz se não descobre o “tesouro” do Reino de Deus. Não é a mesma coisa, chamar cristãos a colaborar com Deus em seu grande Projeto de fazer um mundo mais humano, do que viver distraídos em práticas e costumes que nos fazem esquecer o verdadeiro centro do Evangelho.

O Papa Francisco está nos dizendo que “o Reino de Deus nos chama”. Este grito nos chega desde o coração mesmo do Evangelho. Nós temos que escutar. Seguramente, a decisão mais importante que devemos tomar hoje na Igreja e em nossas comunidades cristãs é a de recuperar o projeto do Reino de Deus com alegria e entusiasmo.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quarta, 23 Julho 2014 12:19

A importância do pequeno (16° Dom TC)

O Cristianismo sofreu muitos danos ao longo dos séculos com o triunfalismo, a sede de poder e o desejo de impor-se diante de seus adversários. Todavia, ainda há cristãos que adoram uma igreja poderosa que encha seus templos, conquiste as ruas e imponha sua religião a uma sociedade inteira. Temos que voltar a ler duas pequenas parábolas em que Jesus deixa claro que a tarefa de seus seguidores não é construir uma religião poderosa, mas sim pôr-se a serviço do projeto humanizador do Pai (o Reino de Deus), semeando pequenas “sementes” do Evangelho e introduzindo-se na sociedade como pequeno “fermento” de vida humana.

A primeira parábola fala de um grão de mostarda que se semeia na horta. O que tem de especial essa semente? Que é a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, se converte em um arbusto maior que todas as hortaliças. O Projeto do Pai tem início muito humilde, mas sua força transformadora não podemos agora nem imaginar.

A atividade de Jesus na Galileia semeando gestos de bondade e de justiça não é nada grandioso e espetacular: nem Roma nem o Templo de Jerusalém são conscientes do que está acontecendo. O trabalho que realizamos hoje, seus seguidores é insignificante: os centros de poder o ignoram. Inclusive, nós mesmos, cristãos, podemos pensar que é inútil trabalhar por um mundo melhor: o ser humano volta uma e outra vez a cometer os mesmos erros de sempre. Não somos capazes de captar o lento crescimento do Reino de Deus.

A segunda parábola fala de uma mulher que coloca um pouco de fermento em uma massa grande de farinha. Sem que ninguém saiba como, o fermento vai trabalhando silenciosamente na massa até fermentá-la inteiramente.

Assim acontece com o projeto humanizador de Deus. Uma vez que é introduzido no mundo, vai transformando silenciosamente a história humana. Deus não atua impondo-se de fora. Humaniza o mundo atraindo as consciências de seus filhos para uma vida mais digna, justa e fraterna.

Devemos confiar em Jesus. O Reino de Deus sempre é algo humilde e pequeno em seu inicio, mas Deus está trabalhando entre nós promovendo a solidariedade, o desejo de verdade e de justiça, a união de um mundo mais feliz. Temos que colaborar com Ele seguindo a Jesus.

Uma Igreja menos poderosa, mais despojada de privilégios, mais pobre e mais perto dos pobres, sempre será uma Igreja mais livre para semear sementes do Evangelho, e mais humilde para viver no meio de pessoas como fermento de uma vida mais digna e fraterna.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quinta, 03 Julho 2014 14:53

As três chamadas de Jesus (14° Dom TC)

“Eu vos digo: Pedi e vos será dado. Buscai e achareis. Batei e se vos abrirá”. É fácil entender que Jesus tenha pronunciado essas palavras quando andava pelas aldeias da Galileia pedindo alguma coisa para comer, buscando ser acolhido e batendo à porta dos vizinhos. Ele sabia aproveitar as experiências mais simples da vida para despertar a confiança de seus seguidores em um Pai Bom para todos.

Curiosamente, em nenhum momento não nos diz o que temos que pedir ou buscar uma porta a que temos que bater. O importante para Jesus é a atitude. Diante do Pai devemos viver como pobres que pedem o que necessitam para viver, como perdidos que buscam o caminho que conhecem bem, como desvalidos que chamam à porta de Deus.

As três chamadas de Jesus nos convidam a despertar a confiança no Pai, mas são feitas com motivos diferentes. “Pedir” é a atitude própria do pobre. A Deus temos que pedir o que o que nós não podemos nos dar: o alento da vida, o perdão, a paz interior, a salvação.

“Buscar” não é só pedir. É, portanto, dar passos para conseguir o que não está ao nosso alcance. Assim, temos que buscar antes de tudo o Reino de Deus e sua justiça: um mundo mais humano e digno para todos. “Bater” é dar golpes na porta, insistir, gritar a Deus quando o sentimos longe.

A confiança de Jesus no Pai é absoluta. Quer que seus seguidores não o esqueçam nunca: “o que pede, está recebendo; o que busca, está achando e o que bate, está lhe abrindo”. Jesus não diz que recebem concretamente o que estão pedindo, que encontram o que andam buscando ou que alcançam quando gritam. Sua promessa é outra: aos que confiam nele, Deus lhes dá; quem se socorre nele, recebem “coisas boas”.

Jesus não dá explicações complicadas. Dá três exemplos que podem entender os pais e as mães de todos os tempos. “Que pai ou que mãe, quando o filho lhe pede um pedaço de pão, lhe dá uma pedra de forma redonda como as que podem ser vistas pelo caminho? Ou, se lhe pedem um peixe, lhe dá uma dessas cobras de agua que as vezes aparecem nas redes de pesca? Ou, se lhe pede um ovo, lhe dará um escorpião que vive nos emaranhados das margens do lago?

Os pais não se esquecem de seus filhos. Não os enganam nem lhes dão algo que possa causar danos, senão “coisas boas”. Jesus tira rapidamente a conclusão: “Quanto mais vosso Pai do céu dará seu Espírito Santo aos que o pedem”. Para Jesus, o melhor que podemos pedir e receber de Deus é seu Espírito que sustenta e salva nossa vida.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

A passagem tem lugar na região pagã de Cesareia de Filipo. Jesus se interessa por saber o que dizem as pessoas sobre sua pessoa. Depois de conhecer as diversas opiniões que dizem, se dirige diretamente aos discípulos: “E vocês, quem dizem que sou”?

Jesus não lhes pergunta o que eles pensam sobre o sermão da montanha ou sobre sua atuação das curas nos povos da Galileia. Para seguir Jesus, o decisivo é a adesão a sua pessoa. Por isso, quer saber o que entenderam  d’Ele.

Simão toma a palavra em nome de todos e responde de maneira solene: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Jesus não é mais um profeta como os outros. É o ultimo Enviado de Deus para seu povo eleito. Mais ainda, é o Filho de Deus vivo. Então, depois de felicitar lhe porque esta confissão só pode vir do Pai, lhe diz: “Agora eu te digo: Tú és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”.

As palavras são muito precisas. A Igreja não é de Pedro e sim de Jesus. Quem edifica a Igreja não é Pedro, sim Jesus. Pedro é simplesmente “a pedra” sobre a qual se assenta “a casa” que Jesus está construindo. A imagem sugere que a tarefa de Pedro é dar estabilidade e consistência para a Igreja: cuidar para que Jesus a possa construir, sem que seus seguidores introduzam desvios ou reduções.

O Papa Francisco sabe muito bem que sua tarefa não é “fazer as vezes de Cristo”, mas cuidar para que os cristãos de hoje se encontrem com Cristo. Esta é sua maior preocupação. Já desde o inicio de seu pontificado como sucessor de Pedro, dizia assim: “A Igreja há de levar a Jesus. Ele é o centro da Igreja. Se alguma vez acontecer que a Igreja não leva a Jesus, será uma Igreja morta”.

Por isso, ao fazer público seu programa de uma nova etapa evangelizadora, Francisco propõe dois grandes objetivos. Em primeiro lugar, encontrarmo-nos com Jesus, pois “Ele pode, com sua novidade, renovar nossa vida e nossas comunidades.... Jesus Cristo pode também romper os esquemas aborrecidos nos quais pretendemos fechá-lo”.

Em segundo lugar, considera decisivo “voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho” pois, sempre que o fazemos, brotam novos caminhos, métodos criativos, sinais mais evidentes, palavras carregadas de um renovado significado para o mundo atual”. Seria lamentável que o convite do Papa para impulsionar a renovação da Igreja não chegar até os cristãos de nossas comunidades.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quarta, 25 Junho 2014 09:30

Estagnados (Corpus Christi)

O Papa Francisco está repetindo que os medos, as dúvidas, a falta de audácia... Podem impedir na raiz iniciar a renovação que hoje a Igreja necessita. Em sua Exortação: “A alegria do Evangelho chega a dizer que, se ficamos paralisados pelo medo, uma vez mais podemos ficar simplesmente como “espectadores de uma estagnação ineficaz da Igreja”.

Suas palavras nos fazem pensar. Que podemos perceber entre nós? Não estamos nos mobilizando para reacender a fé em nossas comunidades cristãs, ou seguimos acomodados nessa “estagnação ineficaz” de que fala Francisco? Onde podemos encontrar forças para reagir?

Uma das grandes exortações do Concílio foi apressar o passo a partir da “missa”, entendida como uma obrigação pessoal para cumprir um preceito sagrado, em detrimento da “Eucaristia” vivida como uma celebração alegre de toda a comunidade para alimentar sua fé, crer na fraternidade e revitalizar sua esperança em Cristo.

Sem duvida, ao longo destes anos, temos dado passos muito importantes. Ficam muito longe aquelas missas celebradas em latim em que os sacerdotes “diziam” a missa e o povo cristão vinha para “ouvir” a missa ou “assistir” a celebração. Mas, não estamos celebrando a Eucaristia de maneira rotineira e aborrecida?

Há um fato inegável. As pessoas estão se afastando da prática dominical porque não encontram em nossas celebrações um clima, uma palavra clara, um rito expressivo, uma acolhida estimulante que necessita para alimentar sua fé fraca e vacilante.

Sem dúvida, todos, pastores e fiéis, temos que nos perguntar o que estamos fazendo para que a Eucaristia seja, como quer o Concílio, “ centro e ponto alto de toda a vida da comunidade cristã”. Porém, chega de boa vontade das paroquias ou da criatividade isolada de alguns, sem mais critérios de renovação?

A Ceia do Senhor é por demais importante para que deixemos que se vá “perdendo”, como “espectadores de uma estagnação ineficaz”. Não é a Eucaristia o centro da vida cristã? ,Como permanece tão calada e imóvel a hierarquia? Por que nós, os crentes não manifestamos nossa preocupação e nossa dor com mais força?

O problema é grave.  Vamos seguir “estagnados” em um modo de celebração eucarística, tão pouco atrativo para os homens e mulheres de hoje? É essa a liturgia que estamos repetindo há muitos séculos a melhor que pode nos ajudar a atualizar aquela cena memorável de Jesus onde se concentra de modo admirável o núcleo de nossa fé?

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

O esforço realizado pelos teólogos ao longo dos séculos para expor, com conceitos humanos, o mistério da Trindade apenas ajuda hoje aos cristãos reforçar sua confiança em Deus Pai, a reafirmar sua adesão a Jesus, o Filho encarnado de Deus, e a acolher com fé viva a presença do Espírito de Deus em nós.

Por isso pode ser bom fazer um esforço para aproximarmos o mistério de Deus com palavras simples e coração humilde, seguindo de perto a mensagem, os gestos e a vida inteira de Jesus: mistério do Filho de Deus encarnado.

O mistério do Pai é amor entranhado e perdão contínuo. Ninguém está excluído de seu amor, a ninguém lhe nega seu perdão. O Pai nos ama e nos procura a cada um de seus filhos e filhas por caminhos que só Ele conhece. Olha a todo ser humano com ternura infinita e profunda compaixão. Por isso Jesus o chama sempre com a palavra: “PAI”

Nossa primeira atitude diante desse Pai tem que ser de confiança. O mistério ultimo da realidade, que nós crentes chamamos de “Deus”, não nos há de causar nunca medo ou angustia: Deus só pode amar-nos. Ele entende nossa fé pequena e vacilante. Não temos que nos sentir tristes por nossa vida, quase sempre medíocre, nem desanimarmo-nos ao descobrir que temos vivido durante anos longe desse Pai. Podemos abandonarmo-nos a Ele com simplicidade. Nossa pouca fé basta.

Também Jesus nos convida a ter confiança. Estas são suas palavras: “Não vivam com o coração conturbado. Crês em Deus. Creiam também em mim”. Jesus é o vivo retrato do Pai. Em suas palavras estamos ouvindo o que nos diz o Pai. Em seus gestos e seu modo de atuar, entregue totalmente a fazer a vida mais humana, descobrimos o que Deus quer de nós.

Por isso, em Jesus podemos nos encontrar em qualquer situação com um Deus concreto, amigo e perto. Ele põe paz em nossa vida. Nos faz passar do medo para a confiança, do receio para a fé simples no mistério ultimo da vida que é só Amor.

Acolher o Espírito que sustenta ao Pai e a seu Filho Jesus, é acolher dentro de nós a presença invisível, quieta, mas real do mistério de Deus. Quando nos fazemos conscientes desta presença continua, começa a despertar em nós uma confiança nova em Deus.

Nossa vida é frágil, cheia de contradições e incertezas: crentes e não crentes vivemos rodeados de mistério. Mas a presença, também misteriosa do Espírito em nós, ainda que fraca, é suficiente para sustentar nossa confiança no Mistério ultimo da vida que é só o Amor.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Ocupados somente em tirar proveito imediato de um bem estar maior e atraídos por pequenas aspirações e esperanças, corremos o risco de empobrecer o horizonte de nossa existência perdendo a união com a eternidade. É um progresso? É um erro?

Há dois fatos que não é difícil comprovar neste novo milênio em que vivemos nos últimos anos. Por uma parte, está crescendo na sociedade humana a expectativa e o desejo de um mundo melhor. Não nos contentamos com qualquer coisa: necessitamos progredir para um mundo mais digno, mais humano, mais feliz.

Por outro lado, está crescendo o desencanto, o ceticismo e as incertezas diante do futuro. Há tanto sofrimento absurdo na vida das pessoas e dos povos, tantos conflitos envenenados, tantos abusos contra o planeta, que não é fácil manter a fé no ser humano.

Sem duvida, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia está conseguindo resolver muitos males e sofrimentos. No futuro se conseguirão, sem duvida, êxitos ainda mais espetaculares. Ainda não somos capazes de intuir a capacidade que se encerra no ser humano para desenvolver o bem estar físico, psíquico e social.

Mas não seria honesto esquecer que esse desenvolvimento prodigioso não está “salvando” somente de alguns males e de maneira limitada. Agora precisamente que desfrutamos cada vez mais do progresso humano, começamos a perceber melhor que o ser humano não pode dar-se a si mesmo o que sonha e busca.

Quem nos salvará do envelhecimento, da morte inevitável ou do poder estranho do mal? Não nos há de surpreender que muitos comecem a sentir a necessidade de algo que não é nem técnica nem ciência nem doutrina ideológica ser humano resiste em viver fechado para sempre nesta condição caduca e mortal.

Sem duvida, não poucos cristãos vivem hoje olhando exclusivamente a terra. Parece que não nos atrevemos a olhar mais além do que o imediato de cada dia. Na festa cristã da Ascensão do Senhor quero recordar algumas palavras do grande cientista e místico que foi Theilhard de Chardin: Cristãos, a somente vinte séculos da Ascensão, que havereis feito da esperança cristã?

Em meio a interrogações e incertezas, os seguidores de Jesus seguem caminhando pela vida, trabalhados por uma confiança e uma convicção. Quando parece que a vida se fecha ou termina, Deus permanece. O mistério ultimo da realidade é um mistério de Bondade e de Amor. Deus é uma Porta aberta para a vida que ninguém pode fechar.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

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