"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

O episodio da intervenção de Jesus no Templo de Jerusalém foi relatado nos quatro evangelhos. Mas é João quem descreve sua reação de maneira mais radical: num instante Jesus expulsa do recinto sagrado os animais que estão sendo vendidos para serem sacrificados, vira as mesas dos cambistas e joga por terra suas moedas. De seus lábios sai um grito: “Não convertam em mercado a casa de meu Pai”.

Este gesto foi o que desencadeou sua prisão e rápida execução. Atacar o templo era atacar o coração do povo judeu: o centro de sua vida religiosa, social e econômica. O templo era intocável. Ali habitava o Deus de Israel. Jesus, sem dúvida, se sente um estranho naquele lugar: aquele templo não é a casa de seu Pai e sim um mercado.

As vezes, se vê nesta intervenção de Jesus um esforço por “purificar” uma religião muito primitiva, para substituí-la por um culto mais digno e por ritos menos sangrentos.  Sem dúvida, seu gesto profético tem um conteúdo mais radical: Deus não pode ser o encobridor de uma religião em que cada um busca seu próprio interesse. Jesus não pode ver aí essa “família de Deus” que Ele começou a formar com seus primeiros discípulos e discípulas.

Naquele tempo, ninguém se lembra dos camponeses pobres e desnutridos que deixaram suas aldeias da Galileia. O Pai dos pobres não pode reinar a partir desse tipo de templo. Com um gesto profético, Jesus está denunciando a raiz de um sistema religioso, politico e econômico que se esquece dos últimos, os preferidos de Deus.

A atuação de Jesus nos coloca em alerta para nos perguntarmos qual religião estamos cultuando em nossos templos. Se não está inspirada por Jesus, pode se converter em uma maneira “santa” de nos fecharmos ao Projeto de Deus que Ele queria inaugurar no mundo. A religião dos que seguem Jesus tem que estar sempre a serviço do Reino de Deus e sua justiça.

Por outro lado, devemos revisar se nossas comunidades são um espaço onde todos nós podemos nos sentir na “casa do Pai”. Uma comunidade acolhedora onde a ninguém se fecham as portas e onde a ninguém se exclui nem discrimina. Uma casa onde aprendemos a escutar o sofrimento dos mais despossuídos e não somente de nosso próprio interesse.

Não esqueçamos que o cristianismo é uma religião profética nascida do Espirito de Jesus para abrir caminhos em direção ao Reino de Deus, construindo um mundo mais humano e fraterno, encaminhando assim até a salvação definitiva em Deus.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quinta, 30 Outubro 2014 08:55

Nas mãos de Deus (Finados)

Os homens de hoje não sabem o que fazer diante da morte. As vezes, o único que se pensa é ignorá-la e não falar sobre ela. Esquecer o quanto antes esse acontecimento, cumprir os trâmites religiosos ou civis necessários e voltar de novo a nossa vida cotidiana.

Mas, cedo ou tarde, a morte vai visitando nossas casas, arrancando nossos seres mais queridos. Como reagir então diante da morte que leva para sempre nossa mãe? Que atitude adotar diante do esposo querido que nos dá seu ultimo adeus? Que fazer diante do vazio que vão deixando em nossas vidas tantos amigos e amigas?

A morte é uma porta que transforma cada pessoa em um ser solitário. Uma vez fechada a porta, o morto se esconde para sempre. Não sabemos o que tenha sido feito dele. Esse ser tão querido e próximo se perde agora no mistério insoldável de Deus. Como vamos nos relacionar com ele?

Nós, os seguidores de Jesus não nos limitamos a assistir passivamente o fato da morte. Confiando em Cristo, o acompanhamos com amor e com nossas preces na hora desse encontro com Deus. Na liturgia cristã pelos mortos não há desolação, rebelião ou desespero. Em seu centro só uma oração de confiança: “Em tuas mãos, Pai de bondade, confiamos a vida de nosso ente querido”.

Que sentido podem ter hoje entre nós esses funerais em que nos reunimos com pessoas de diferentes sensibilidades diante do mistério da morte?

Que podemos fazer juntos: crentes, meio crentes, pouco crentes e também aqueles que não creem?

Ao longo desses anos, temos mudado muito por dentro. Estamos mais críticos, mas também mais frágeis e vulneráveis; somos mais incrédulos, mas também mais inseguros. Não é fácil crer, mas é também é difícil não crer. Vivemos cheios de dúvidas e incertezas, mas não sabemos encontrar uma esperança.

As vezes, só convidar aqueles que estão no funeral a fazer algo que todos possam fazer, cada um a partir de sua pequena fé. Dizer a partir de dentro a nosso ser querido algumas palavras que expressem nosso amor a ele e nossa oração humilde a Deus:

“Continuamos te querendo, mas já não sabemos como encontrarmo-nos contigo nem o que fazer por ti. Nossa fé é frágil e não sabemos rezar bem. Mas te confiamos ao amor de Deus, te deixamos em suas mãos. Esse amor de Deus é hoje para ti um lugar mais seguro que tudo aquilo que podemos te oferecer. Desfruta de tua vida plena. Deus te quer como nós não soubemos te querer. Um dia nos voltaremos a ver”.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quarta, 22 Outubro 2014 20:33

Crer no Amor (30° Dom TC)

A religião cristã resulta para muitos em um sistema difícil de entender e, sobretudo, um emaranhado de leis complicado demais para viver corretamente diante de Deus. Não necessitamos, nós cristãos, concentrar muito mais nossa atenção em cuidar antes de tudo da experiência essencial cristã?

Os Evangelhos recorrem a resposta de Jesus a um setor de fariseus que lhe perguntam qual é o principal mandamento da Lei. Assim resume Jesus o essencial: o primeiro é “amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu ser”; o segundo: “amarás a teu próximo como a ti mesmo”. A afirmação de Jesus é clara. O amor é um todo. O decisivo na vida é amar. Aí está todo o fundamento. O primeiro é viver diante de Deus e diante dos demais em uma atitude de amor.  Não podemos nos perder em coisas acidentais e secundárias, esquecendo o essencial. Com amor se consegue tudo. Sem amor, tudo fica perverso.

Ao falar do amor de Deus, Jesus não está pensando em sentimentos ou emoções que podem brotar de nosso coração; tampouco nos está convidando a multiplicar nossas rezas e orações. Amar ao Senhor, nosso Deus, com todo o coração é reconhecer a Deus como fonte ultima de nossa existência, despertar em nós uma adesão total à sua vontade, e responder com fé incondicional a seu amor universal de Pai de todos.

Por isso, Jesus anexa um segundo mandamento. Não é possível amar a Deus e viver de costas para seus filhos e filhas. Uma religião que prega o amor a Deus e se esquece dos que sofrem é uma grande mentira. A única postura realmente humana diante de qualquer pessoa que encontramos em nosso caminho é amá-la e buscar seu bem como queremos para nós mesmos.

Toda essa linguagem pode parecer demasiada velha, demasiada gasta e pouco eficaz. Sem dúvida, também hoje o primeiro problema neste mundo é a falta de amor, que vai desumanizando, um atrás do outro, os esforços e as lutas para construir uma convivência mais humana.

Faz alguns anos, o pensador francês, Jean Onimus escrevia assim: “O cristianismo está ainda em seu inicio; estamos trabalhando apenas a dois mil anos. A massa é pesada e se necessitam séculos de maturação antes que a caridade a faça fermentar”. Os seguidores de Jesus não podem esquecer essa responsabilidade. O mundo necessita de testemunhos vivos que ajudem às futuras gerações para crer no amor, pois não há esperança de futuro para o ser humano se acaba a fé no amor.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quinta, 16 Outubro 2014 12:21

Os pobres são de Deus (29° Dom TC)

Por trás de Jesus, os fariseus chegam a um acordo para preparar-lhe uma emboscada definitiva. Eles mesmos não vêm ao encontro de Jesus. Enviam alguns discípulos acompanhados pelos partidários de Herodes Antipas. Talvez não faltem entre eles alguns poderosos arrecadadores de impostos para Roma.

A trama está bem pensada: “É lícito pagar impostos a César ou não?” Se responde negativamente, o acusarão de rebelião contra Roma. Se responde afirmativamente, ficará desprestigiado diante dos pobres camponeses que vivem oprimidos pelos impostos, que são aqueles que Ele ama e defende com todas suas forças.

A resposta de Jesus foi resumida de maneira lapidada ao longo dos séculos com estes termos: “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Poucas palavras de Jesus serão citadas como estas. E nenhuma, talvez, mais distorcida e manipulada a partir de interesses muito alheios ao Profeta, defensor dos pobres.

Jesus não está pensando em Deus e em César como dois poderes que se pode exigir cada um deles, em seu próprio campo, seus direitos a seus súditos. Como judeu fiel, Jesus sabe que a Deus “lhe pertence a terra e tudo o que nela contém, o mundo e todos os seus habitantes” (salmo 24). O que pode ser de Cesar que não seja de Deus? Acaso os súditos do imperador, não são também filhos e filhas de Deus?

Jesus não se detém nas diferentes posições que enfrentam naquela sociedade os herodianos, saduceus ou fariseus sobre os tributos a Roma e seu significado: se levam “a moeda do imposto” em suas bolsas, que cumpram suas obrigações. Mas Ele não vive a serviço do Império de Roma, e sim abrindo caminhos para o Reino de Deus e sua Justiça.

Por isso, lhes recorda algo que ninguém tinha perguntado: “Dá a Deus o que é de Deus”. É o mesmo que dizer, não deis a nenhum César o que é só de Deus: a vida de seus filhos e filhas. Como tem repetido tantas vezes a seus seguidores, os pobres são de Deus, os pequenos são seus prediletos, o reino de Deus lhes pertence. Ninguém há de abusar deles.

Não há de se sacrificar a vida, a dignidade ou a felicidade das pessoas a nenhum poder. E, sem dúvida, nenhum poder sacrifica hoje mais vidas e causa mais sofrimento, fome e destruição que essa “ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano” que, segundo o Papa Francisco, tem tentado nos impor os poderosos da Terra. Não podemos permanecer passivos e indiferentes calando a voz de nossa consciência dentro da prática religiosa.

José Antonio Pagola

Teologo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quinta, 02 Outubro 2014 08:16

Crise religiosa (27° Dom TC)

A parábola dos “vinhateiros homicidas” é um relato em que Jesus vai descobrindo, com acentos alegóricos, a história de Deus com seu Povo Eleito.

É uma historia triste. Deus havia cuidado de sua vinha desde o começo com todo o carinho. Era sua “vinha preferida”. Esperava fazer deles um povo exemplar por sua justiça e sua fidelidade. Seriam uma “grande luz” para todos os povos.

Sem duvida, aquele povo foi espantando e matando um atrás do outro todos os profetas que lhes havia enviado para recolher os frutos de uma vida mais justa. Por último, em um gesto incrível de amor, lhes enviou seu próprio Filho. Mas os governantes daquele tempo acabaram com Ele. O que pode fazer Deus com um povo que frustra de maneira tão cega e obstinada suas expectativas?

Os governantes religiosos que estão escutando atentamente o relato respondem espontaneamente nos mesmos termos da parábola: o senhor da vinha não pode fazer outra coisa que dar a morte para aqueles lavradores e por a sua vinha nas mãos de outros. Jesus chega rapidamente a uma conclusão que eles não esperam: “Por isso eu vos digo que serão tirados todos vocês do Reino de Deus e será dado a um povo que produza frutos”.

Comentaristas e pregadores tem interpretado com frequência a parábola de Jesus como uma reafirmação da Igreja cristã como “o novo Israel” depois do povo judeu que, depois da destruição de Jerusalém no ano setenta se dispersou pelo mundo inteiro.

Sem duvida, a parábola está falando também de nós. Uma leitura honesta do texto nos obriga a fazermos perguntas graves: Estamos produzindo em nossos tempos “os frutos” que Deus espera de seu povo: justiça para os excluídos, solidariedade, compaixão aos que sofrem, perdão...? Deus não tem porque abençoar um cristianismo estéril que não recebe os frutos que espera. Não tem que identificar-se com nossa mediocridade, nossas incoerências, desvios e pouca fidelidade. Se não respondemos às suas expectativas, Deus continuará abrindo caminhos novos ao seu projeto de salvação com outros povos que produzam frutos de justiça.

Nós falamos de “crise religiosa”, “descristianização”, “abandono da pratica religiosa”... Não estará Deus preparando o caminho que torne possível o nascimento de uma Igreja mais fiel ao projeto de Deus? Não é necessária esta crise para que nasça uma Igreja menos poderosa e mais evangélica, menos numerosa e mais entregue a fazer um mundo mais humano? Não virão novas gerações mais fiéis a Deus?

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quinta, 25 Setembro 2014 16:03

Os primeiros no Reino de Deus (26° Dom TC)

Um dia Jesus pronunciou estas duras palavras contra os dirigentes religiosos de seu povo: “Eu lhes asseguro que os publicanos e as prostitutas os precederão no caminho do reino de Deus”. Faz alguns anos, pude comprovar que a afirmação de Jesus não era um exagero.

Um grupo de prostitutas de diferentes países, acompanhadas por algumas freiras Oblatas, refletiram sobre Jesus com a ajuda do livro Jesus, uma Aproximação Histórica. Sempre me comove a força e o atrativo que tem Jesus para essas mulheres de alma simples e coração bom. Resgato alguns de seus testemunhos.

“Sentia-me suja, vazia e objeto, todo mundo me usava. Agora me sinto com vontade de seguir vivendo porque Deus sabe muito de meu sofrimento... Deus está dentro de mim. Deus está dentro de mim. Deus está dentro de mim. Esse Jesus me entende!...”

“Agora, quando chego em casa depois do trabalho, me lavo com agua bem quente para arrancar de minha pele a sujeira e depois rezo para esse Jesus porque Ele sim me entende e sabe muito de meu sofrimento.... Jesus, quero mudar de vida, guia-me porque só Tu conhece meu futuro...”

“Eu peço a Jesus todo dia que me separe deste modo de vida. Sempre que me acontece alguma coisa, eu o chamo e Ele me ajuda. Ele está perto de mim, é maravilhoso... Ele me leva em suas mãos, Ele me carrega, sinto a presença D’Ele...”

“Na madrugada é quando mais falo com Ele. Ele me escuta melhor porque nesse horário as pessoas dormem. Ele está aqui, não dorme. Ele sempre está aqui. À porta fechada, me ajoelho e peço que mereça sua ajuda, que me perdoe, que eu lutarei por Ele...”

“Um dia eu estava sentada na praça e lhe disse: Oh, meu Deus, será que eu só sirvo para isto? Só para me prostituir? Então foi nesse momento que mais senti a Deus me carregando, entende?, transformando-me. Foi naquele momento. Tanto que eu não me esqueço. Entende-me?...”

“Eu agora, falo com Jesus e lhe digo: aqui estou, acompanha-me. Tu viste o que aconteceu com minha companheira (se refere a uma companheira assassinada em um hotel). Peço-te por ela e peço que nada de mal aconteça com minhas companheiras. Eu não falo, mas peço por elas, pois são pessoas como eu...”

“Estou furiosa, triste, doida, marginalizada, ninguém me quer, não sei a quem culpar, o melhor seria odiar as pessoas e a mim própria, ou ao mundo todo. Veja desde que era pequena eu acreditei em Ti, mas permitiu que isso me acontecesse... Dou-te outra oportunidade para proteger-me agora. Bem, eu te perdoo, mas, por favor, não me abandones de novo...”

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Ao longo de sua trajetória profética, Jesus insistiu algumas vezes em comunicar sua experiência de Deus como “um mistério insondável”, que quebra toda nossa lógica. Sua mensagem é tão revolucionária que, depois de vinte séculos, há cristãos que não se atrevem a levá-lo a sério.

Para contagiar a todos com essa experiência de um Deus Bom, Jesus compara a sua conduta surpreendente do senhor de uma vinha. Até cinco vezes sai ele mesmo em pessoa para contratar empregados para sua vinha. Não parece preocupar-se muito com o rendimento salarial nesse trabalho. O que quer é que ninguém fique um dia mais sem trabalhar.

Por isso mesmo, ao final do dia, não lhes paga pelo trabalho realizado separadamente por cada grupo. Ainda que seu trabalho tenha sido muito desigual, a todos lhes dá “um denário”: simplesmente o que necessitava uma família camponesa por dia para poder viver na Galileia.

Quando o porta voz do primeiro grupo protesta porque tratou os últimos igual a eles, que trabalharam mais que ninguém, o senhor da vinha responde com estas palavras admiráveis: “Estais tendo dúvidas porque eu sou bom”? Vai me impedir com seus cálculos mesquinhos, ser bom com quem necessita seu pão para comer?

O que está sugerindo Jesus? Que Deus não age com os critérios de justiça e igualdade que nós fazemos? Será verdade que Deus, mais que estar medindo os méritos das pessoas como faríamos nós, busca sempre responder a partir de sua Bondade insoldável a nossa necessidade radical de salvação?

Confesso que sinto uma pena imensa quando me encontro com pessoas boas que imaginam Deus preocupado em anotar cuidadosamente os pecados e os méritos dos seres humanos, para retribuir um dia exatamente a cada um seguindo o que mereceu? É possível imaginar um ser mais inumano que alguém entregue a este a partir da eternidade toda?

Crer em um Deus, Amigo incondicional, pode ser a experiência mais libertadora que se possa imaginar, a força mais vigorosa para viver ou morrer. Pelo contrário, viver diante de um Deus justiceiro e ameaçador podem converter-se na neurose mais perigosa e destruidora da pessoa.

Devemos aprender a não confundir Deus com nossos esquemas estreitos e mesquinhos. Não podemos deturpar sua Bondade insondável misturando aos gestos autênticos que vem de Jesus com traços de um Deus vingador relatado no Antigo Testamento. Diante do Deus Bom revelado em Jesus, o único que sobra é a confiança.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

 

Publicado em Roteiro Homilético

A festa que os cristãos hoje celebram é incompreensível e até um disparate para quem desconhece o significado da fé cristã no Crucificado. Que sentido pode ter celebrar uma festa que se chama “Exaltação da Cruz” em uma sociedade que busca apaixonadamente o “conforto”, a comodidade e o máximo de bem estar?

Muitos perguntarão como é possível seguir hoje exaltando a cruz. Não ficou já superada para sempre essa maneira mórbida de viver exaltando a dor e buscando o sofrimento? Devemos seguir um cristianismo centralizado na agonia do Calvário e das chagas do Crucificado?

São, sem duvidas, perguntas muito razoáveis que necessitam uma resposta clara. Quando nós cristãos, olhamos o Crucificado, não incensamos a dor, a tortura e a morte, sim o amor, a presença e a solidariedade de Deus que quis compartilhar nossa vida e nossa morte até o extremo.

Não é o sofrimento o que salva e sim o amor de Deus que se solidariza com a história dolorosa do ser humano. Não é o sangue que limpa nosso pecado e sim o amor insoldável de Deus que nos acolhe como filhos. A crucificação é o acontecimento que melhor nos revela seu amor.

Descobrir a grandeza da Cruz não é atribuir não sei que misterioso poder ou virtude a dor, sim confessar a força salvadora do amor de Deus quando, encarnado em Jesus, sai para reconciliar o mundo consigo.

Em seus braços estendidos que já não podem abraçar as crianças e em suas mãos que já não podem acariciar os leprosos nem abençoar os doentes, nós, cristãos, “contemplamos” a Deus com seus braços abertos para acolher, abraçar e sustentar nossas pobres vidas, machucadas por tantos sofrimentos.

Nesse rosto apagado pela morte, nesses olhos que já não podem olhar com ternura as prostitutas, nessa boca que já não pode gritar sua indignação pelas vitimas de tantos abusos e injustiças, nesses lábios que não podem pronunciar seu perdão aos pecadores, Deus está nos revelando como em nenhum outro gesto, seu amor incondicional à Humanidade.

Por isso, ser fiel ao Crucificado não é buscar cruzes e sofrimentos, sim viver como ele em uma atitude de entrega e solidariedade, aceitando, se necessário, a crucificação e os males que nos podem chegar como consequência. Esta fidelidade ao Crucificado não é dolorida e sim esperançada. A uma vida “crucificada”, vivida com o mesmo espirito de amor com que viveu Jesus, só se espera ressurreição.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 25 Agosto 2014 07:00

Aprender a perder (22° Dom TC)

Essa frase está contida em todos os Evangelhos e se repete até seis vezes: “Se alguém quer salvar sua vida, a perderá, mas aquele que a perde por causa de mim, a encontrará” Jesus não está falando de um tema religioso. Está pedindo a seus discípulos que encontrem o verdadeiro valor da vida.

O que Ele diz está expresso de maneira paradoxa e provocativa. Há duas maneiras muito diferentes de orientar a vida: uma conduz a salvação, a outra a perdição. Jesus convida a todos a seguir o caminho que parece mais difícil e menos atrativo, pois conduz o ser humano a salvação definitiva.

O primeiro caminho consiste em se apegar a vida vivendo exclusivamente para si mesmo: fazer do próprio “eu” a razão ultima e o objetivo supremo de sua existência. Este modo de viver, buscando sempre a própria ganancia ou vantagem, conduz o ser humano à perdição.

O segundo caminho consiste em saber perder, vivendo como Jesus, abertos ao objetivo ultimo do projeto humanizador do Pai: saber renunciar a sua própria segurança ou ganancia, buscando não só o próprio bem, mas também o bem dos outros. Este modo generoso de viver conduz o ser humano a sua salvação.

Jesus está falando a partir de sua fé em um Deus Salvador, mas suas palavras são uma grave advertência para todos. Que futuro se espera de uma humanidade dividida e fragmentada, onde os poderes econômicos buscam seu próprio beneficio; os países, seu próprio bem estar; os indivíduos, seu próprio interesse?

A lógica que dirige nestes momentos a caminhada do mundo é irracional. Os povos e as pessoas estão caindo pouco a pouco numa escravidão de “ter cada vez mais”. Tudo é pouco para nos sentirmos satisfeitos. Para viver bem, necessitamos sempre mais produtividade, mais consumo, mais bem estar material, mais poder sobre os demais.

Buscamos insaciavelmente o bem estar, mas não estamos nos desumanizando sempre um pouco mais? Queremos “progredir” cada vez mais, mas, que progresso é esse que nos leva a abandonar a milhões de seres humanos na miséria, na fome e na desnutrição? Quantos anos poderemos desfrutar de nosso bem estar, fechando nossas fronteiras aos famintos?

Se os países privilegiados só buscam “salvar” nosso nível de bem estar, se não queremos perder nosso potencial econômico, jamais daremos passos até uma solidariedade em nível mundial. Porém, não nos enganemos. O mundo será cada vez mais inseguro e mais inabitável para todos, também para nós. Para salvar a vida humana no mundo, precisamos aprender a perder.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Os evangelistas apresentam a Virgem com recursos que podem reavivar nossa devoção a Maria, a Mãe de Jesus. Sua visão nos ajuda a amá-la, meditá-la, imitá-la e confiar nela com espírito novo e mais evangélico.

Maria é uma grande crente. A primeira seguidora de Jesus. A mulher que sabe meditar em seu coração os feitos e as palavras de seu Filho. A profetisa que canta ao Deus, salvador dos pobres, anunciado por Ele. A mãe fiel que permanece junto ao seu Filho perseguido, condenado e executado na cruz. Testemunho de Cristo ressuscitado, que acolhe junto aos discípulos ao Espirito que acompanhará sempre a Igreja de Jesus.

Lucas, de sua parte, nos convida a fazer nosso o canto de Maria, para deixarmo-nos guiar por seu espírito até Jesus, pois no “Magnificat” brilha em todo o seu esplendor a fé de Maria e sua identificação maternal com seu Filho Jesus.

Maria começa proclamando a grandeza de Deus: “meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, porque olhou para a humilhação de sua escrava”. Maria é feliz porque Deus olhou para sua pequenez. Assim é Deus com os simples. Maria canta com o mesmo prazer que bendiz Jesus ao Pai, porque esconde aos “sábios e entendidos” e se revela aos “simples”. A fé de Maria no Deus dos pequenos nos faz sintonizar com Jesus.

Maria proclama a Deus Poderoso porque “sua misericórdia chega a seus fiéis de geração em geração”. Deus põe seu poder a serviço da compaixão. Sua misericórdia acompanha a todas as gerações. O mesmo prega Jesus: Deus é misericordioso com todos. Por isso diz a seus discípulos de todos os tempos: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”.

Desde seu coração de mãe, Maria compreende como ninguém a ternura de Deus Pai e Mãe, e nos introduz ao núcleo da mensagem de Jesus: Deus é amor compassivo.

Maria proclama também ao Deus dos pobres porque “derruba do trono os poderosos” e os deixa sem poder para seguir oprimindo; e ao contrário “eleva os humildes” para que recuperem sua dignidade. Aos ricos reclama que tenham roubado os pobres e “os despede de mãos vazias”; e pelo contrário, aos famintos “os cobre de bens para que desfrutem de uma vida mais humana”. O mesmo gritava Jesus: “os últimos serão os primeiros”. Maria nos leva a acolher a Boa Noticia de Jesus: Deus é o Deus dos pobres.

Maria nos ensina como ninguém a seguir Jesus, anunciando o Deus de compaixão, trabalhando por um mundo mais fraterno e confiando no Pai dos pequenos.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

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