"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

Será um sinal de contradição”.

Simeão é um personagem estranho. Nós o imaginamos sempre como um sacerdote ancião do Templo, mas nada disso diz o texto. Simeão é um bom homem do povo que guarda em seu coração a esperança de ver um dia “o consolo” que tantos necessitam. “Inspirado pelo Espírito de Deus”, sobe ao templo no momento que estão entrando Maria, José e seu menino Jesus.

O encontro é comovente. Simeão reconhece no menino que traz consigo aquele casal pobre de judeus piedosos, o Salvador que esperavam há anos. O homem se sente feliz. É um gesto corajoso e maternal, “pega o menino em seus braços” com um grande amor e carinho. Agradece a Deus e agradece a seus pais. Sem dúvida, o evangelista o apresenta como modelo.  Assim devemos acolher o Salvador.

Mas, logo se dirige a Maria e seu rosto muda. Suas palavras não anunciam nada tranquilizador. “Uma espada lhe transpassará a alma”. Este menino que tem em seus braços será um “sinal de contradição”: fonte de conflitos e enfrentamentos.  Jesus fará que “uns caiam e outros se levantem” Algum o acolherão e suas vidas adquirirão uma nova dignidade: sua existência se encherá de luz e esperança. Outros o expulsarão e colocarão a suas vidas a perder.  A rejeição a Jesus será sua ruina.

Ao tomar posição diante de Jesus, “ficará clara a atitude de muitos corações”. Ele colocará a descoberto o que há de mais profundo nas pessoas. A acolhida deste menino pede uma mudança profunda. Jesus não vem para trazer tranquilidade, sim para gerar um processo doloroso e conflitivo de conversão radical.

Sempre é assim. Também hoje. Uma Igreja que leve a serio sua conversão a Jesus Cristo, não será nunca um espaço de tranquilidade e sim de conflito. Não é possível uma relação mais vital com Jesus sem dar passos bem maiores aos níveis da verdade. E isto é sempre doloroso para todos.

Quanto mais nos aproximamos de Jesus, melhor veremos nossas incoerências e desvios; o que ha de verdade ou de mentira em nosso cristianismo; o que há de pecado em nossos corações e nossas estruturas, em nossas vidas e nossas teologias.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

 

Publicado em Roteiro Homilético

Cidade do Vaticano (RV) - Publicamos abaixo o discurso integral proferido pelo Papa à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2014.

“Tu estás acima dos querubins, tu que transformaste a miserável condição do mundo quando te fizeste como nós” (Santo Agostinho)

Amados irmãos,

Ao final do Advento, encontramo-nos para as tradicionais saudações. Dentro de alguns dias teremos a alegria de celebrar o Natal do Senhor; o evento de Deus que se faz homem para salvar os homens; a manifestação do amor de Deus que não se limita a dar-nos algo ou a enviar-nos uma mensagem ou alguns mensageiros, doa-se-nos a si mesmo; o mistério de Deus que toma sobre si a nossa condição humana e os nossos pecados para revelar-nos a sua Vida divina, a sua graça imensa e o seu perdão gratuito. É o encontro com Deus que nasce na pobreza da gruta de Belém para ensinar-nos a potência da humildade. Na realidade, o Natal é também a festa da luz que não é acolhida pala gente “eleita”, mas pela gente pobre e simples que esperava a salvação do Senhor.

Em primeiro lugar, gostaria de desejar a todos vós – cooperadores, irmãos e irmãs, Representantes pontifícios disseminados pelo mundo – e a todos os vossos entes queridos um santo Natal e um feliz Ano Novo. Desejo agradecer-vos cordialmente, pelo vosso compromisso quotidiano a serviço da Santa Sé, da Igreja Católica, das Igrejas particulares e do Sucessor de Pedro.

Como somos pessoas e não números ou somente denominações, lembro de maneira especial os que, durante este ano, terminaram o seu serviço por terem chegado ao limite de idade ou por terem assumido outras funções ou ainda porque foram chamados à Casa do Pai. Também a todos eles e a seus familiares dirijo o meu pensamento e gratidão.

Desejo juntamente convosco erguer ao Senhor vivo e sentido agradecimento pelo ano que está a nos deixar, pelos acontecimentos vividos e por todo o bem que Ele quis generosamente realizar mediante o serviço da Santa Sé, pedindo-lhe humildemente perdão pelas faltas cometidas “por pensamentos, palavras, obras e omissões”

E partindo precisamente deste pedido de perdão, desejaria que este nosso encontro e as reflexões que partilharei convosco se tornassem, para todos nós, apoio e estímulo a um verdadeiro exame de consciência a fim de preparar o nosso coração ao Santo Natal.

Pensando neste nosso encontro veio-me à mente a imagem da Igreja como Corpo místico de Jesus Cristo. É uma expressão que, como explicou o Papa Pio XII “brota e como que germina do que é frequentemente exposto na Sagrada Escritura e nos Santos Padres”. A este respeito, São Paulo escreveu: “Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (1 Cor 12,12).

Neste sentido, o Concílio Vaticano II lembra-nos que “na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui seus vários dons segundo suas riquezas e as necessidades dos ministérios (cf. 1 Cor 12,1-11)”. Por isto “Cristo e a Igreja formam o «Cristo total» - Christus totus -. A Igreja é una com Cristo».

É belo pensar na Cúria Romana como sendo um pequeno modelo da Igreja, ou seja, um “corpo” que procura séria e cotidianamente ser mais vivo, mais sadio, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo.

Na realidade, a Cúria Romana é um corpo complexo, composto de muitos Dicastérios, Conselhos, Departamentos, Tribunais, Comissões e de numerosos elementos que não têm todos a mesma tarefa, mas são coordenados para um funcionamento eficaz, edificante, disciplinado e exemplar, não obstante as diversidades culturais, linguísticas e nacionais dos seus membros.

Em todo o caso, sendo a Cúria um corpo dinâmico, ela não pode viver sem alimentar-se e sem cuidar de si. De fato, a Cúria – como a Igreja – não pode viver sem ter uma ralação vital, pessoal, autêntica e sólida com Cristo. Um membro da Cúria que não se alimenta cotidianamente com aquele Alimento tornar-se-á um burocrata (um formalista, um funcionalista, um mero empregado): um ramo que seca e pouco a pouco morre e é lançado fora. A oração diária, a participação assídua nos Sacramentos, de modo especial, da Eucaristia e da reconciliação, o contato cotidiano com a palavra de Deus e a espiritualidade traduzida em caridade vivida são o alimento vital para cada um de nós. Que todos nós tenhamos bem claro que sem Ele nada poderemos fazer(cf Jo 15, 8).

Consequentemente, a relação viva com Deus alimenta e fortalece também a comunhão com os outros, ou seja, quanto mais estivermos intimamente unidos a Deus tanto mais estaremos unidos entre nós porque o Espírito de Deus une e o espírito do maligno divide.

A Cúria está chamada a melhorar-se, a melhorar-se sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria a fim de realizar plenamente a sua missão. No entanto, ela, como todo corpo, como todo corpo humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais. São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria. São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor. Penso que nos ajudará o “catálogo” das doenças – nas pegadas dos Padres do deserto, que faziam aqueles catálogos – dos quais falamos hoje: ajudar-nos-á na nossa preparação ao Sacramento da Reconciliação, que será um passo importante de todos nós em preparação do Natal.

1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” transcurando os controles necessários e habituais. Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se atualiza, que não procura melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez que eram imortais, imunes e indispensáveis! É a doença do rico insensato do Evangelho que pensava viver eternamente (cf Lc 12, 13-21) e também daqueles que se transformam em senhores e se sentem superiores a todos e não a serviço de todos. Esta doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo dos Eleitos”, do narcisismo que fixa apaixonadamente a sua imagem e não vê a imagem de Deus impressa na face dos outros, principalmente dos mais fracos e necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e de dizer com todo o coração «Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).

2. Outra doença:  doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés de Jesus (cf Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a “descansar um pouco’” (cf Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina o Coélet que «para tudo há um tempo» (3,1-15).

3. Há ainda a doença do “empedernimento” mental e spiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e são de “dura cerviz” (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade interior, a vivacidade a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel, tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus” (cf Hb 3,12). É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem “os sentimentos de Jesus ” (cf Fl 2,5-11) porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e o próximo (cf Mt 22,34-40). Ser cristão, com efeito, significa ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2,5), sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade.

4. A doença do planejamento excessivo e do funcionalismo. Quando o apóstolo planeja tudo minuciosamente e pensa que, fazendo um perfeito planejamento, as coisas efetivamente progridem, tornando-se, assim, um contador ou um comercialista. Preparar tudo bem é necessário, mas sem jamais cair na tentação de querer encerrar e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que todo planejamento humano (cf Jo 3,8). Cai-se nesta doença porque  «é sempre mais fácil e cômodo adaptar-se às suas posições estáticas e imutadas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão de regulamentá-lo e de domesticá-lo… - domesticar o Espírito Santo! - … Ele é frescor, fantasia, novidade».

5. A doença da má coordenação. Quando os membros perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz barulho, porque os seus membros não cooperam e não vivem o espírito de comunhão e de equipe. Quando o pé diz ao braço: “não preciso de ti”, ou a mão à cabeça: “quem manda sou eu”, causando, assim, mal-estar ou escândalo.

6. Há também a doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas atividades autônomas, vivendo num estado de absolta dependência das suas visões, tantas vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronômico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com suas próprias mãos.

7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objetivo primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses , e sim os dos outros» (Fl 2,1-4). É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos, e a vivermos um falso “misticismo” e um falso “quietismo”. O mesmo São Paulo os define «inimigos da Cruz de Cristo» porque se envaidecem da própria ignomínia e só têm prazer no que é terreno» (Fl 3,19).

8. A doença da esquizofrenia existencial. É a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos acadêmicos não podem preencher. Uma doença que atinge frequentemente aquele que, abandonando o serviço pastoral, se limitam aos afazeres burocráticos, perdendo, assim, o contato com a realidade, com as pessoas concretas. Criam, assim, um seu mundo paralelo, onde colocam à parte tudo o que ensinam severamente aos outros e começam a viver uma vida oculta e muitas vezes dissoluta. A conversão é por demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32).

9. A doença das fofocas, das murmurações e do mexerico. Já falei muitas vezes desta doença, mas nunca é suficiente. É uma doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e se apodera da pessoa, transformando-a em “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e confrades. É a doença das pessoas velhacas que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas. São Paulo nos adverte: «Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes» (Fl 2,14-18). Irmãos, guardemo-nos do terrorismo das maledicências!

10. A doença de divinizar os chefes: é a dos que cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12). São pessoas que vivem o serviço, pensando exclusivamente no que devem obter e não no que devem dar. Pessoas mesquinhas, infelizes e inspiradas só pelo seu próprio egoísmo (cf Gal 5,16-25). Esta doença poderia atingir também os Superiores, quando cortejam alguns seus colaboradores para obter a sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade.

11. A doença da indiferença para com os outros. Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas. Quando o mais experto não coloca o seu conhecimento a serviço dos colegas menos expertos. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde para si, ao invés de compartilhar positivamente com os outros. Quando, por ciúme ou por astúcia, se sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo.

12. A doença da cara funérea. Quer dizer, das pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros – principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa amável, serena e alegre que transmite alegria por toda parte onde quer se encontre. Um coração repleto de Deus é um coração feliz que irradia e contagia de alegria todos os que estão à sua volta: é o que se vê imediatamente! Não percamos, portanto, aquele espírito jovial, cheio de humor, e até auto irônico, que nos torna pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de sadio humorismo! Far-nos-á muito bem recitar muitas vezes a oração de São Tomás Moro: rezo-a todos os dias; me faz bem.

13. A doença de acumular: quando o apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro. Na realidade, nada de material poderemos levar conosco, porque “a mortalha não tem bolsos” e todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam presentes – jamais poderão preencher aquele vazio; pelo contrário, torná-lo-ão cada vez mais exigente e mais profundo. A estas pessoas o Senhor repete: «Dizes: sou rico, faço bons negócios, de nada necessito – e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu ... Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te» (Ap 3,17-19). A acumulação só pesa e freia inexoravelmente o caminho! E penso numa anedota: um tempo, os jesuítas espanhóis descreviam que a Companhia de Jesus era como a “cavalaria leve da Igreja”. Lembro-me da mudança de um jovem jesuíta que, enquanto carregava num caminhão os seus muitos bens: bagagens, livros, objetos e presentes, ouvi um velho jesuíta, que estava a observá-lo, dizer com um sorriso sábio: e esta seria a “cavalaria leve da Igreja?”. As nossas mudanças são um sinal desta doença.

14. A doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo, e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também esta doença começa sempre de boas intenções, mas com o passar do tempo, escraviza os membros, tornando-se um câncer que ameaça a harmonia do Corpo e causa tanto mal – escândalos – especialmente aos nossos irmãos menores. A autodestruição ou o “tiro amigo” dos camaradas é o perigo mais sorrateiro. É o mal que atinge a partir de dentro; e, como diz Cristo, «todo o reino dividido contra si mesmo será destruído» (Lc 11,17).

15. E a última: a doença do proveito mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros, até mesmo nos jornais e nas revistas. Naturalmente para se exibirem e se demonstrarem mais capazes do que os outros. Também esta doença faz muito mal ao Corpo porque leva as pessoas a justificar o uso de todo meio, contanto que atinja o seu objetivo, muitas vezes em nome da justiça e da transparência! E vem-me aqui à mente a lembrança de um sacerdote que chamava os jornalistas para lhes contar – e inventar – coisas privadas e reservadas dos seus confrades e paroquianos. Para ele a única coisa importante era ver-se nas primeiras páginas, porque assim se sentia “potente e convincente”, causando tanto mal aos outros e à Igreja. Pobrezinho!

Irmãos, estas doenças e tais tentações são naturalmente um perigo para todo cristão e para toda cúria, comunidade, congregação, paróquia, movimento eclesial e podem atingir quer em nível individual quer comunitário.

É necessário esclarecer que só o Espírito Santo - a alma do Corpo Místico de Cristo, como afirma o Credo Niceno-Costantinopolitano: «Creio... no Espírito Santo, Senhor e vivificador» - pode curar todas as enfermidades. É o Espírito Santo que sustenta todo esforço sincero de purificação e toda boa vontade de conversão. É Ele que nos faz compreender que todo membro participa da santificação do corpo ou do seu enfraquecimento. É Ele o promotor da harmonia: “Ipse harmonia est”, diz São Basílio. Santo Agostinho diz-nos: «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».

O restabelecimento é também fruto da consciência da doença e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando pacientemente e com perseverança a terapia.

Somos chamados, portanto – neste tempo de Natal e por todo o tempo do nosso serviço e da nossa existência - a viver «pela prática sincera da caridade, crescendo em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo o corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria – efetua esse crescimento, visando à sua plena edificação na caridade » (Ef 4,15-16).

Amados irmãos!

Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam. Muitos criticam e poucos rezam por eles. É uma frase muito simpática, mas também muito verdadeira, porque delineia a importância e a delicadeza do nosso serviço sacerdotal e quanto mal poderia causar um só sacerdote que “cai”, a todo o corpo da Igreja.

Portanto, para não cair nestes dias em que nos preparamos à Confissão, peçamos à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, que cure as feridas do pecado que cada um de nós tem no seu coração e que ampare a Igreja e a Cúria a fim de que sejam sadias e saneadoras; santas e santificadoras para a glória do seu Filho e para a nossa salvação e do mundo inteiro. Peçamos a Ela que nos faça amar a Igreja como a amou Cristo, seu Filho e nosso Senhor, e que tenhamos a coragem de nos reconhecermos pecadores e necessitados da sua misericórdia e que não tenhamos medo de abandonar a nossa mão entre as suas mãos maternais.

 Os melhores votos de um santo Natal a todos vós, às vossas famílias e aos vossos colaboradores. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim! Obrigado de coração!

(Tradução livre de João da Ponte Lopes)

Fonte: Radio Vaticano – 23/12/2014

Publicado em Palavra Viva

O Papa Francisco afirmou que “o choro da criança é a voz de Deus”.

“As crianças choram, fazem barulho em todos os lugares. Mas nunca podemos expulsar as crianças que choram na igreja”, completou.

Falando de maneira improvisada, segundo o jornal romano “Il Messaggero”, o Papa recordou que, quando alguém se sente incomodado ao ver uma criança chorando na igreja e pede que ela seja retirada, está apagando a voz de Deus. Segundo Francisco, o choro das crianças “é a melhor pregação”.

Falando com a simplicidade de um pároco, o Papa recordou o que Jesus disse: “Deixai que as crianças venham a mim e não as impeçais, porque o Reino dos céus é daqueles que se assemelham a elas” (Mt 19, 14).

O contexto é significativo: o Papa visitou a paróquia de São José, na periferia de Roma, no dia 14 de dezembro.

Assim, o Bispo de Roma responde à tão comum situação de constrangimento dos pais nas missas de domingo, pois, se por um lado não querem perder a missa, por outro, não sabem com quem deixar seus filhos pequenos; muitos acabam deixando de ir à igreja para não receber olhares acusadores de outros fiéis.

O Papa Francisco recordou que o Natal é das crianças. E recordou aos adultos a alegria do significado profundo do nascimento de Jesus em um presépio.

O Natal não é só a ceia

A glória do Natal não se reduz a uma ceia pomposa, recordou o Papa durante a visita à paróquia.

Sem um texto preparado, acrescentou: “Mas, padre, nós fazemos uma grande ceia... Isso é ótimo, mas esta não é a verdadeira alegria cristã. A Igreja quer fazer entender o que é a verdadeira glória. Não podemos chegar ao dia 24 de dezembro dizendo que falta isso, falta aquilo... Esta não é a verdadeira glória cristã”.

O Papa se encontrou com crianças, jovens catequistas, ciganos e doentes. Nesta mesma visita, ele confessou 5 paroquianos. No final, celebrou a santa missa na paróquia romana sem apagar a voz de Deus: as crianças.

 

Fonte: www.aleteia.org – 15.12.14

Publicado em Palavra Viva
Quarta, 17 Dezembro 2014 08:46

Uma notícia surpreendente (4° Dom Advento)

O Anjo lhe disse: Alegra-te!

Lucas narra o anuncio de Jesus nesta passagem paralela com a do Batista. O contraste entre ambas as cenas é tão surpreendente que nos permite ver com luzes novas o Mistério de Deus encarnado em Jesus.

O anuncio do nascimento do Batista acontece em Jerusalém, a grandiosa capital de Israel, centro político e religioso do povo judeu. O nascimento de Jesus é anunciado em um povoado desconhecido nas montanhas da Galileia. Uma aldeia sem importância nenhuma, chamada “Nazaré”, de onde ninguém espera que possa sair algo bom. Anos mais tarde, estes povoados humildes acolheram a mensagem de Jesus anunciando a bondade de Deus. Jerusalém ao contrário, a recusará. Quase sempre, são os pequenos e insignificantes os que melhor entendem e acolhem ao Deus encarnado em Jesus.

O anuncio do nascimento do nascimento do Batista tem lugar em um espaço sagrado do “templo”. O anuncio do nascimento de Jesus é em uma casa pobre de uma “aldeia” Jesus se fará presente ali onde as pessoas vivem, trabalham se alegram e sofrem. Vive entre eles aliviando o sofrimento e oferecendo o perdão do Pai. Deus se faz carne, não para permanecer nos templos, sim para “se fazer morada entre os homens” e compartilhar nossa vida.

O anuncio do nascimento do Batista é ouvido por um “homem”, o sacerdote Zacarias, durante uma celebração solene. O nascimento de Jesus se faz em Maria, uma “jovem” de uns doze anos. Não se indica onde está e nem o que está fazendo. A quem pode interessar o trabalho de uma mulher? Sem duvida, Jesus, o Filho de Deus encarnado, olhará para as mulheres de modo diferente, defenderá sua dignidade e as acolherá entre seus discípulos.

Por fim, do Batista se anuncia que nascerá de Zacarias e Isabel, um casal estéril, bendita por Deus. De Jesus se diz algo absolutamente novo. O Messias nascerá de Maria, uma jovem virgem. O Espírito de Deus estará na origem de sua aparição ao mundo. Por isso, “será chamado Filho de Deus”. O Salvador do mundo não nasce como fruto do amor dos esposos que se querem mutuamente. Nasce fruto do Amor de Deus a toda a humanidade. Jesus não é um presente que nos dá Maria e José. É um presente que nos dá Deus.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Suavizar os caminhos do Senhor

“Entre vocês, há um que não conheceis”. Estas palavras, o Batista as pronuncia referindo-se a Jesus, que se movimenta já entre aqueles que chegam ao Jordão para batizar-se, mas ainda não se manifestou. Precisamente toda sua preocupação é “preparar o caminho” para que aquela gente possa crer nele. Assim apresentavam as primeiras gerações cristãs à pessoa do Batista.

Mas as palavras do Batista estão atualizadas de forma que, lidas hoje pelos que se dizem cristãos, não deixam de provocar em nós perguntas inquietantes. Jesus está em nosso meio, mas, o conhecemos de verdade? Nós o seguimos de perto?

É certo que na Igreja estamos falando sempre de Jesus. Na teoria nada há de mais importante para nós. Mas logo nos passa pelas nossas cabeças nossas ideias, projetos e atividades que, não poucas vezes fica Jesus em segundo plano. Somos nós mesmos quem, sem nos darmos conta, o “ocultamos” com nosso protagonismo.

Talvez, a maior desgraça do cristianismo é que haja tantos homens e mulheres que se dizem “cristãos”, em cujo coração Jesus está ausente. Não o conhecem. Não vibram com Ele. Jesus não os atrai nem seduz. Jesus é uma figura inerte e apagada.

Está mudo. Não lhes diz nada especial que alimente suas vidas. Sua existência não está marcada por Jesus.

Esta Igreja necessita urgentemente “testemunhas” de Jesus, crentes que se pareçam mais com Ele, cristãos que, com sua maneira de ser e de viver, facilitem o caminho para se crer em Cristo.

Necessitamos testemunhos que falem de Deus como falava Ele, que comuniquem mensagem de compaixão como fazia Ele, que contagiem confiança no Pai como ele.

De que servem nossas catequeses e homilias se não conduzem a conhecer, amar e seguir com mais fé e mais alegria a Jesus Cristo? Em que ficam nossas eucaristias se não ajudam a comungar de maneira mais viva com Jesus, com seu projeto e com sua entrega crucificada a todos? Na Igreja, ninguém é “a luz”, mas todos nós podemos irradiá-la com nossas vidas. Ninguém é “a Palavra de Deus”, mas todos nós podemos ser uma voz que convida e anima a centrar o cristianismo em Jesus Cristo.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Quarta, 03 Dezembro 2014 14:06

Confessar nossos pecados (2º Dom Advento)

“Preparai o caminho do Senhor”

“Inicio da Boa Notícia de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Este é o inicio solene e alegre do evangelho de Marcos. Mas, de maneira abrupta e sem advertência nenhuma, começa a falar da urgente conversão que é necessário viver todo o povo para acolher a seu Messias e Senhor.

No deserto aparece um profeta diferente. “Vem para “preparar o caminho do Senhor”“. Este é sua grande missão a Jesus. Seu chamado não se dirige somente à consciência individual de cada um. O que busca João vai mais além de uma simples conversão moral de cada pessoa. Trata-se de preparar o caminho do Senhor”, um caminho concreto e bem definido, o caminho que vai seguir Jesus decepcionando as expectativas convencionais de muitos.

A reação do povo é comovente. Segundo o evangelista, deixam Judeia e Jerusalém e caminham para o deserto para escutar a voz que os chama. O deserto lhes recorda sua antiga fidelidade a Deus, seu amigo e aliado, mas, sobretudo, é o melhor lugar para escutar o chamado para a conversão.

Ali o povo toma consciência da situação em que vivem; experimentam a necessidade de mudar; reconhecem seus pecados sem colocar a culpa uns nos outros; sentem necessidade de salvação.

Segundo Marcos, confessam seus pecados” e João os “batizava”.

A conversão que é necessária para nosso modo de viver o cristianismo não se pode improvisar. Requer um tempo longo de recolhimento e trabalho interior. Passarão anos até que façamos mais verdade na Igreja e reconheçamos a conversão que necessitamos para acolher mais fielmente a Jesus Cristo como centro de nosso cristianismo.

Esta pode ser hoje nossa tentação. Não ir ao deserto. Manipular a necessidade de conversão. Não escutar nenhuma voz que nos convide a mudar.  Distraímos com qualquer coisa, para esquecer nossos medos e dissimular nossa falta de coragem para acolher a verdade de Jesus Cristo.

A imagem do povo judeu confessando seus pecados é admirável. Não precisamos nós, cristãos de hoje, fazer um exame de consciência coletivo, em todos os níveis, para reconhecer nossos erros e pecados? Sem este reconhecimento, é possível preparar o caminho do Senhor”?

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol 

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Sexta, 28 Novembro 2014 11:10

Uma Igreja desperta (1º Dom Advento)

Digo a todos: Vigiai!

As primeiras gerações cristãs viveram obcecadas pela rápida vinda de Jesus. O ressuscitado não poderia tardar. Viviam tão atraídos por Ele que queriam encontrar-se de novo o quanto antes. Os problemas começaram quando viram que o tempo passava e a vinda do Senhor se demorava.

Logo se deram conta de que essa demora poderia ser um perigo mortal. Poderiam apagar o primeiro amor. Com o tempo, aquelas pequenas comunidades poderiam cair pouco a pouco na indiferença e no esquecimento. Preocupava- lhes uma coisa: “Que, ao chegar, Cristo não nos encontre dormindo”.

A vigília se converteu em uma palavra chave. Os Evangelhos a repetem constantemente: “Vigiai”, “estai alertas”, “vivei acordados”. Segundo Marcos, a ordem de Jesus não é só para os discípulos que o estão escutando. “O que digo a vocês, digo a todos: Vigiai”. Não é apenas um chamado. A ordem é para todos seus seguidores em todos os tempos.

Já se passaram vinte séculos de cristianismo. Como tem sido essa ordem de Jesus? Como nós, cristãos vivemos hoje? Seguimos acordados? Nossa fé se mantém viva ou foi se apagando na indiferença e na mediocridade?

Não vemos que a Igreja necessita de um coração novo? Não sentimos a necessidade em sairmos da apatia e do autoengano? Não queremos despertar o melhor que há na Igreja? Não vamos reacender essa fé humilde e limpa de tantos crentes simples?

Não vamos recuperar o rosto vivo de Jesus que atrai, chama, interpela e desperta? Como podemos seguir falando e discutindo tanto de Cristo, sem que sua pessoa nos enamore e transforme um pouco mais? Não nos damos conta de que uma Igreja “adormecida” de Jesus Cristo não seduz nem toca o coração, é uma Igreja sem futuro, que irá se apagando e envelhecendo por falta de vida?

Não sentimos a necessidade de despertar e intensificar nossa relação com Ele? Quem como ele pode despertar nosso cristianismo da imobilidade, da inercia, do peso do passado, da falta de criatividade? Quem poderá contagiar sua alegria? Quem nos dará sua força criadora e sua vitalidade?

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

 

 

Publicado em Roteiro Homilético
Terça, 18 Novembro 2014 09:11

O Decisivo (Cristo Rei)

Este relato não é propriamente uma parábola e sim uma evocação do juízo final de todos os povos. Toda a cena se concentra em um diálogo longo entre o Juiz que é Jesus ressuscitado e dois grupos de pessoas: os que aliviaram o sofrimento dos mais necessitados e os que viveram negando-lhes ajuda.

Ao longo dos séculos os cristãos viram neste diálogo fascinante “a melhor interpretação do Evangelho”, “o elogio absoluto do amor solidário”, ou a advertência mais grave aos que vivem refugiados falsamente na religião”. Vamos assinalar as afirmações básicas.

Todos os homens e mulheres sem exceção serão julgados pelo mesmo critério. O que dá um valor imprescindível a vida não é a condição social, o talento pessoal ou o êxito conquistado ao longo dos anos. O decisivo é o amor prático e solidário aos necessitados de ajuda.

Este amor se traduz em feitos muito concretos. Por exemplo, “dar de comer”, “dar de beber”, “acolher o imigrante”, “vestir aquele que está nu”, “visitar o enfermo e o preso”. O decisivo diante de Deus não são as ações religiosas, sim estes gestos humanos de ajuda aos necessitados. Podem brotar de uma pessoa crente ou de coração de um agnóstico que pensa nos que sofrem.

O grupo dos que tem ajudado aos necessitados que são encontrados em seu caminho, não o fizeram por motivos religiosos. Não pensaram em Deus e nem no Ressuscitado. Simplesmente buscaram aliviar um pouco o sofrimento que há no mundo. Agora, convidados por Jesus, entram no Reino de Deus como “benditos do Pai”.

Por que é tão decisivo ajudar os necessitados e tão condenável negar-lhes ajuda? Porque segundo revela o Juiz, o que se faz ou o que se deixa de fazer a eles, se está fazendo ou deixando de fazer ao mesmo Deus encarnado em Cristo. Quando abandonamos a um necessitado, estamos abandonando a Deus. Quando aliviamos seu sofrimento, estamos fazendo com Deus.

Esta surpreendente mensagem nos põe a todos olhando para os que sofrem. Não há religião verdadeira, não há pratica progressista, não há proclamação responsável dos direito humanos se não é defendendo aos mais necessitados, aliviando seu sofrimento e restaurando sua dignidade.

Em cada pessoa que sofre, Jesus sai ao nosso encontro, nos olha, nos interroga e nos suplica. Nada nos aproxima mais a Ele do que aprender a olhar detidamente o rosto dos que sofrem com compaixão. Em nenhum lugar poderemos reconhecer com mais verdade o rosto de Jesus.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Diretamente de Roma, o representante da secretaria de Programação para a Prevenção da Dependência Química e da Luta contra o Narcotráfico (Sedronar) revelou uma conversa que teve com o Papa Francisco em um dos seus últimos encontros.

“Eu disse ao Papa: ‘Cuide-se, porque podem querer matá-lo’, e ele me respondeu: ‘Isso seria a melhor coisa que poderia me acontecer, e a você também’”, recordou o Pe. Juan Carlos Molina, quem voltou a se encontrar na última quarta-feira com o Sumo Pontífice para apresentar-lhe um grupo de jovens recuperados de sua dependência das drogas.

Jornalistas do programa de Dady Brieva na Rádio América lhe perguntaram sobre esta estranha frase, e o funcionário relacionou as palavras do Papa ao “olhar do martírio” de Francisco. “Ele tem claro que seu papel não é fácil”, disse a respeito disso.

Também esclareceu que esta frase não foi uma advertência sobre um possível risco de assassinato: “Não foi uma referência a um assassinato; foi uma conversa e ele tem isso claro”, disse o funcionário em uma reportagem com Luis Novaresio, na rádio La Red.

Após comparar o encontro com o Papa com o de um padre que recebe um irmão menor, Molina insistiu: “Ele tem claro que, com as coisas que diz, está dando sua vida”.

Ao mesmo tempo, o titular da Sedronar revelou agora que Francisco “não usa colete antibalas”; sua batina é de tecido comum e “é assim que ele vive seu papado”, destacou.

Molina revelou também que, no encontro desta semana, o Papa Francisco deu seu apoio ao projeto de não criminalizar os consumidores de drogas para ir contra os grandes traficantes.

Mas, para conseguir que isso se torne lei, será preciso superar a rejeição por parte da oposição, e até de um setor do próprio governo italiano. Um deles é o secretário de Segurança, Sergio Berno, quem já manifestou que não concorda com a proposta.

Consultado a respeito disso, Molina reconheceu as diferenças, mas não deu importância a isso: “Sempre, nas equipes, há confrontação de ideias. Mas isso não quer dizer que estejamos brigando nem nada disso”.

“Temos diferenças metodológicas no campo da polícia, mas não é um problema entre Sergio e eu, de modo algum”, insistiu. No entanto, apenas alguns minutos antes, acusou as forças de segurança de plantar provas nos jovens. “Às vezes não se sabe se a polícia vai achar algo ou colocar algo no bolso da pessoa”, advertiu.

Fonte: Aleteia – Mundo – 14/11/2014

(Artigo publicado originalmente por Valores Religiosos)

Publicado em Palavra Viva
Sábado, 15 Novembro 2014 11:06

Busca criativa (33° Dom TC)

Apesar de sua aparente inocência, a parábola dos talentos carrega uma carga explosiva. Surpreendentemente, o “o terceiro servo” é condenado sem ter cometido nenhuma ação má. Seu único erro consiste em “não fazer nada”: não arrisca seu talento, não o faz frutificar, o conserva intacto em um lugar seguro. A mensagem de Jesus é clara. Não ao conservadorismo, sim a criatividade.  Não a uma vida estéril, sim a uma resposta ativa a Deus. Não a obsessão pela segurança, sim ao esforço arriscado por transformar o mundo. Não a uma fé fechada debaixo do conformismo, sim ao trabalho comprometido em abrir caminhos em direção ao Reino de Deus.

O grande pecado dos seguidores de Jesus pode ser sempre o não nos arriscarmos a segui-lo de maneira criativa. É significativo observar a linguagem que se emprega entre os cristãos ao longo dos anos para ver em que temos centralizado com frequência a atenção: conservar o depósito da fé; conservar a tradição; conservar os bons costumes; conservar a graça; conservar a vocação...

Esta tentação de conservadorismo é mais forte em tempos de crises religiosas. É fácil então invocar a necessidade de controlar a ortodoxia, reforçar a disciplina e as normas; assegurar a pertença a Igreja... Tudo pode ser explicado, mas não é com frequência uma maneira de desvirtuar o Evangelho e congelar a criatividade do Espírito?

Para os dirigentes religiosos e os responsáveis das comunidades cristãs pode ser mais cômodo “repetir” de maneira monótona os caminhos herdados do passado, ignorando os questionadores, as contradições e os pedidos do homem moderno, mas de que serve tudo isso se não somos capazes de transmitir luz e esperança aos problemas e sofrimentos que sacodem os homens e mulheres de nossos dias?

As atitudes que temos que cuidar hoje no interior da Igreja não se chamam “prudência”, “fidelidade ao passado”, “resignação”... Levam muito mais outro nome: “busca criativa”, “audácia”, “capacidade de entrega”, “escuta ao Espírito” que tudo faz novo.

O mais grave pode ser que, o mesmo que aconteceu ao terceiro servo da parábola, também nós que acreditamos estar respondendo fielmente a Deus com nossas atitudes conservadoras, quando na verdade, estamos frustrando suas expectativas. O principal “do que fazer” na Igreja de hoje não pode ser conservar o passado, senão aprender a comunicar a Boa Noticia de Jesus em uma sociedade sacudida por mudanças socioculturais sem precedentes.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

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