"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

Ocupados somente em tirar proveito imediato de um bem estar maior e atraídos por pequenas aspirações e esperanças, corremos o risco de empobrecer o horizonte de nossa existência perdendo a união com a eternidade. É um progresso? É um erro?

Há dois fatos que não é difícil comprovar neste novo milênio em que vivemos nos últimos anos. Por uma parte, está crescendo na sociedade humana a expectativa e o desejo de um mundo melhor. Não nos contentamos com qualquer coisa: necessitamos progredir para um mundo mais digno, mais humano, mais feliz.

Por outro lado, está crescendo o desencanto, o ceticismo e as incertezas diante do futuro. Há tanto sofrimento absurdo na vida das pessoas e dos povos, tantos conflitos envenenados, tantos abusos contra o planeta, que não é fácil manter a fé no ser humano.

Sem duvida, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia está conseguindo resolver muitos males e sofrimentos. No futuro se conseguirão, sem duvida, êxitos ainda mais espetaculares. Ainda não somos capazes de intuir a capacidade que se encerra no ser humano para desenvolver o bem estar físico, psíquico e social.

Mas não seria honesto esquecer que esse desenvolvimento prodigioso não está “salvando” somente de alguns males e de maneira limitada. Agora precisamente que desfrutamos cada vez mais do progresso humano, começamos a perceber melhor que o ser humano não pode dar-se a si mesmo o que sonha e busca.

Quem nos salvará do envelhecimento, da morte inevitável ou do poder estranho do mal? Não nos há de surpreender que muitos comecem a sentir a necessidade de algo que não é nem técnica nem ciência nem doutrina ideológica ser humano resiste em viver fechado para sempre nesta condição caduca e mortal.

Sem duvida, não poucos cristãos vivem hoje olhando exclusivamente a terra. Parece que não nos atrevemos a olhar mais além do que o imediato de cada dia. Na festa cristã da Ascensão do Senhor quero recordar algumas palavras do grande cientista e místico que foi Theilhard de Chardin: Cristãos, a somente vinte séculos da Ascensão, que havereis feito da esperança cristã?

Em meio a interrogações e incertezas, os seguidores de Jesus seguem caminhando pela vida, trabalhados por uma confiança e uma convicção. Quando parece que a vida se fecha ou termina, Deus permanece. O mistério ultimo da realidade é um mistério de Bondade e de Amor. Deus é uma Porta aberta para a vida que ninguém pode fechar.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Jesus está se despedindo de seus discípulos. Ele os vê tristes e abatidos. Logo não o terão mais com Ele. Quem poderá preencher seu vazio? Até agora foi Ele quem cuidou deles, os defendeu dos escribas e fariseus, sustentou sua fé fraca e vacilante, os fez descobrir a verdade de Deus e os iniciou em seu projeto humanizador.

Jesus lhes fala apaixonadamente do Espírito. Não quer deixa-los órfãos. Ele mesmo pedirá ao Pai que não os abandone que lhe dê “outro defensor” para que “esteja sempre com eles”. Jesus o chama de “Espírito da Verdade”. O que se esconde nestas palavras de Jesus?

Esse “Espírito da Verdade” não pode ser confundido com uma doutrina. Esta verdade não se busca nos livros dos teólogos nem nos documentos da hierarquia. É algo muito mais profundo. Jesus diz que “vive conosco e está entre nós”. É um alento, força, luz, amor... Que nos deixa o mistério ultimo de Deus. Nós temos que acolher com o coração simples e confiante.

Este “Espírito da Verdade” não nos converte em “proprietários” da verdade. Não vem para que imponhamos aos outros a nossa fé nem para que controlemos sua ortodoxia. Vem para não nos deixar órfãos de Jesus, e nos convida a abrirmos à sua verdade, escutando, acolhendo e vivendo o Evangelho.

Este “Espírito da Verdade” não nos faz tampouco “guardiões” da verdade, e sim testemunhas. Nosso o que fazer não é disputar, combater nem derrotar adversários, e sim viver a verdade do Evangelho e “amar a Jesus guardando seus mandamentos”,

Este “Espírito da Verdade” está no interior de cada um de nós defendendo-nos de tudo o que nos pode afastar de Jesus. Convida-nos a abrirmo-nos com simplicidade ao mistério de um Deus, Amigo da Vida. Quem busca esse Deus com honra e verdade não está longe D’Ele. Jesus disse em certa ocasião: “Todo aquele que é da Verdade, escuta minha voz”. Isso é certo.

Este “Espírito da Verdade” nos convida a viver na verdade de Jesus em meio de uma sociedade onde com frequência a mentira se chama estratégia; exploração é negócio; a irresponsabilidade é tolerância; a injustiça é ordem estabelecida; a arbitrariedade é liberdade; a falta de respeito é sinceridade...

Que sentido pode ter a Igreja de Jesus se deixar que se perca em nossas comunidades o “Espírito da Verdade”? Quem poderá salvá-la do autoengano. Dos desvios e da mediocridade generalizada? Quem anunciará a Boa Notícia de Jesus em uma sociedade necessitada de ânimo e esperança?

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Terça, 13 Maio 2014 10:56

O Caminho (5° Dom Páscoa)

Ao final da última ceia, os discípulos começam a perceber que Jesus já não estará muito tempo com eles. A saída precipitada de Judas, o anuncio de que Pedro o negará logo, as palavras de Jesus falando de sua próxima partida deixaram todos desconcertados e abatidos. O que acontecerá com eles? Jesus percebe sua tristeza e sua perturbação. Seu coração se comove. Esquecendo-se de si mesmo e do que o espera, Jesus trata de animá-los: “Que não se perturbe vosso coração; crê em Deus, creiam em mim também”. Mais tarde, durante a conversa, Jesus lhes faz esta confissão: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim”. Não esqueçam nunca.

“Eu sou o caminho” O problema de não poucos não é que vivem perdidos ou desencaminhados. Simplesmente, vivem sem caminho, perdidos numa espécie de labirinto: andando e se perdendo por mil caminhos que, por fora, lhes vão indicando os sinais e modas do momento.

E, que pode fazer um homem ou uma mulher quando se encontra sem caminho? A quem pode se dirigir? Quem pode os socorrer? Se se chega a Jesus, o que encontrará não é uma religião, mas um caminho. As vezes, avançará com fé; outras vezes, encontrará dificuldades; inclusive poderá retroceder, mas estará no caminho certo que conduzirá ao Pai. Esta é a promessa de Jesus.

“Eu sou a verdade”. Estas palavras fecham um convite escandaloso aos ouvidos modernos. Nem tudo se reduz a razão. A teoria científica não contém toda a verdade. O mistério ultimo da realidade não se deixa atrapalhar pelas análises mais sofisticadas. O ser humano há de viver diante do mistério ultimo da realidade.

Jesus se apresenta como o caminho que conduz perto desse mistério ultimo. Deus não se impõe. Não força a ninguém com provas e evidencias. O mistério ultimo é o silencio e a atração respeitosa. Jesus é o caminho que nos pode abrir à sua Bondade.

“Eu sou a vida”. Jesus pode ir transformando nossa vida. Não como um mestre longínquo que deixou um legado de sabedoria admirável para a humanidade, mas como alguém vivo que, a partir do fundo de nosso ser, nos infunde uma semente de vida nova.

Esta ação de Jesus em nós se produz quase sempre de forma discreta e silenciosa. O mesmo crente só intui uma presença imperceptível. As vezes, sem dúvida, nos invade a certeza, a alegria incontida, a confiança total: Deus existe, nos ama, tudo é possível, inclusive a vida eterna. Nunca entenderemos a fé cristã se não acolhemos Jesus como o caminho, a verdade e a vida.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Os fariseus não quiseram entender a parábola de Jesus porque não eram suas ovelhas. Eles pertenciam ao redil das leis e não da liberdade. Jesus quer nos conduzir para fora, para a verdadeira liberdade, para o pasto verdejante e partilhado, onde não haverá mais cercas e domínios.

Jesus se coloca como aquele que vem libertar. Ele entra pela porta da frente, as ovelhas o reconhecem e o seguem, não para um novo cativeiro, que certamente as levará à morte, mas para outras pastagens verdejantes e sem cerca.

Tomemos muito cuidado com os falsos pastores. Eles entram em silencio, pelos fundos, não para conduzir à liberdade, mas para colocá-los em seu redil. São aqueles que salvam para matar. Para tirar proveito próprio.

Muitas são as vozes que se apresentam hoje. A maioria vozes mentirosas. Tornamo-nos presas fáceis porque não aprendemos ainda a ouvir a voz de Jesus. Não o conhecemos. Apenas nos ensinaram a adorá-lo. Conhecer Jesus significa seguir seus passos. Não podemos e não devemos ficar com os fragmentos dominicais, mas aprofundarmo-nos verdadeiramente daquele que dá a vida.

Aqueles que seguem Jesus abrem caminhos para que todos tenham vida em abundância. Vida mesmo. Não sobrevida. Não vida esmolada, mas vida partilhada.

Criar uma nova relação com Jesus. Não apenas acreditar no que dizem a respeito dele, mas crer n’Ele, ou seja, fazer o que ele fez. Francisco nos encoraja a criar novos espaços de conhecimento e convivência a partir de Jesus.

Não idolatrar Jesus, dando-lhe adjetivos como bondoso, carinhoso, doce, amável, amante, mas colocá-lo como centro de nossas vidas e de nossa fé. Revigorar o mundo através daquilo que cremos, isto é, a Boa Noticia.

Pe Dervile Alonço

Publicado em Roteiro Homilético

Desde o início, o Opus Dei apoiou o novo percurso do Papa Francisco: a crise na Igreja e, em particular, da Cúria Romana eram por demais evidentes; a reviravolta considerada necessária por muitos; e a maioria que defendia no conclave uma mudança radical tornavam-se amplas.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Linkiesta, 04-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assim, ao longo desses primeiros 12 meses, a Companhia de Jesus e a Obra fundada por Josemaria Escrivá de Balaguer se encontraram, embora à distância, unidas na mesma obra depois de serem, por muito tempo, adversários irredutíveis.

Mas agora algo está mudando: de fato, o papa, além de reforma da Cúria vaticana, de uma ação de transparência financeira levada adiante com uma certa decisão e da promoção de um modelo de Igreja mais austero e atento às necessidades das pessoas, deixou claro que pretende também proceder profundas modificações no magistério sobre temas delicados como os da família.

Mas Francisco foi ainda mais longe, assumindo de peito aberto as temáticas econômicas e sociais. As suas críticas ao modelo capitalista expressadas no documento Evangelii gaudium provocaram fortes reações dos think tanks conservadores do exterior, da direita católica norte-americana nostálgica do wojtylianismo, do Tea Party e daquela parte da imprensa que apoia a inoxidabilidade da religião neoliberal apesar da crise.

É toda uma área que começa a se incomodar diante das muitas novidades do pontificado: assim, nos últimos dias, em Roma, por iniciativa do Acton Institute, laboratório econômico conservador norte-americano de inspiração católica, realizou-se um dia de estudos sobre "Fé, Estado e Economia: perspectivas do Oriente e do Ocidente".

O conferencista de excelência foi o sacerdote e professor Martin Rhonheimer, pertencente ao Opus Dei, professor de ética e filosofia política da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, ou seja, a prestigiosa universidade da Obra na capital italiana.

Rhonheimer defendeu, em síntese, que o estado social, assim como toda forma de proteção pública, acaba limitando a liberdade das empresas e o livre mercado; são estes, ao invés, os únicos e verdadeiros pilares da difusão do bem-estar, os reguladores – juntamente com a responsabilidade individual fundamentada em princípios éticos – do progresso econômico e social. Não só: para o estudioso do Opus Dei, o próprio conceito de redistribuição econômica é um engano.

É o mercado que "trabalha" pelo bem comum, destacou Rhonheimer. Portanto, é dentro dele que se desenvolvem empresas voltadas ao lucro e sem fins lucrativos, e, consequentemente, iniciativas de caridade. Não há necessidade do Estado. O essencial é encorajar a livre iniciativa dos cidadãos.

Mesmo na tradição católica, ressaltou Rhonheimer, foi alimentado o mito de "um capitalismo cruel e selvagem", que deve ser regulamentado pelo Estado através de intervenções sobre os preços e salários para se chegar a mecanismos de redistribuição da riqueza. Tudo errado. Uma forma de subsidiariedade absoluta é a via mestra para garantir formas de solidariedade social (privadas e não públicas). O governo deve se retirar dentro de limites bem definidos, as forças do mercado e da responsabilidade do indivíduo são capazes de se autorregulamentar sozinhas. Nada de novo, mas a radicalidade dos tons é surpreendente.

A posição expressada pelo Papa Francisco tanto na Evangelii gaudium quanto em várias entrevistas, incluindo a concedida ao jornal La Stampa, era o oposto dessa postura. Bergoglio reafirmou várias vezes as suas críticas às "teorias da 'recaída favorável', segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo". "Havia a promessa – destacava o pontífice – de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres". Isso, observava depois o bispo de Roma, não significa ser marxista; mas o esclarecimento não foi suficiente para deter os críticos suspeitos do exterior.

Além disso, o próprio Bergoglio parece quase provocar a ala teocon quando tuíta – como ocorreu no dia 28 de abril – afirmações do tipo: "A desigualdade é a raiz dos males sociais". Além disso, são incontáveis os discursos do papa nos quais se pedem "políticas" para reduzir a pobreza e as desigualdades sociais, isto é, intervenções públicas.

E não só: está prestes a chegar uma encíclica ambientalista que será escrita com a contribuição dos bispos da Amazônia (em particular, com a contribuição de Dom Erwin Kräutler, que recebeu ameaças pela sua defesa das populações indígenas). É difícil que surja dela uma laudatio do mercado livre e selvagem. Assim, do Financial Times à Forbes, o papa sul-americano que põe em discussão a globalização financeira provoca descontentamentos que se ampliam cada vez mais na área católica próxima dos teocons.

Além disso, quem está à frente do Acton Institute é um sacerdote, Robert Sirico, reaganiano de primeira hora e defensor de um liberalismo radical na economia, segundo um modelo em que o empregador é livre para demitir a qualquer momento, assim como o trabalhador pode mudar de emprego quando quiser, porque os dois sujeitos, na realidade, estão no mesmo plano.

A sua teoria foi definida de "a opção preferencial pela liberdade", em oposição à "opção preferencial pelos pobres", cunhada pelos bispos da América Latina na segunda metade dos anos 1960, quando surgia a teologia da libertação.

Também se deve notar que, entre os promotores do dia de estudos organizada pelo Acton Institute, figura também o Dignitas Humanae Institute, presidido pelo cardeal norte-americano ultratradicionalista Raymond Leo Burke.

No conselho do órgão, encontramos também o arcebispo de Milão, Angelo Scola, e depois os purpurados conservadores Elio Sgreccia, Francis Arinze, Malcolm Ranjth e Walter Brandmüller, além do ex-arcebispo de Hong Kong, Joseph Zen Ze-Kiun – contrário à linha diálogo com Pequim sobre temas da liberdade religiosa –, que também foi um dos conferencistas do congresso. O evento, por outro lado, além de gozar do apoio de outras estruturas do Opus Dei, foi promovido também por várias outras organizações, dentre as quais se destacava o Instituto Sturzo.

Talvez, de modo ainda incerto, estaria se coagulando uma primeira oposição interna ao papa? É o que se saberá nos próximos meses, quando o sínodo sobre a família também começará seus trabalhos.

Ao mesmo tempo, deve-se lembrar que o prelado do Opus Dei, Javier Echevarria, ainda nos últimos dias, repetiu em uma entrevista ao jornal Tempo como, por parte da Obra, não há nenhuma oposição em relação ao que o pontífice está fazendo.

Este último, de sua parte, continua a se mover com atenção em relação à prelazia: aprovou, dentre outras coisas, a beatificação de Alvaro del Portillo, o primeiro sucessor de Balaguer como prelado do Opus Dei; no dia 29 de abril, nomeou o bispo Carlos Lema Garcia como auxiliar da diocese de São Paulo, no Brasil, uma das maiores do mundo.

Dado que o Opus Dei, com o jovem bispo José Gomez, já "governa" a megadiocese de Los Angeles, deve-se notar que alguns homens do Opus Dei estão em ascensão. Nem todos, no entanto: no Peru, o arcebispo de Lima e poderoso cardeal opusiano Juan Cipriani Thorne é fortemente contestado pelo episcopado local. O jogo, em suma, está em aberto.

Fonte: www.ihu.unisinos.br/noticias - 08/05/2014

Publicado em Palavra Viva

Em nossas comunidades cristãs necessitamos viver uma experiência nova de Jesus, renovando nossa relação com Ele. Colocá-lo decididamente no centro de nossa vida. Passar de um Jesus apenas confessado de maneira rotineira a um Jesus acolhido vitalmente. O Evangelho de João faz algumas sugestões importantes ao falar da relação das ovelhas com seu Pastor.

O primeiro é “escutar sua voz” com todo o seu frescor e originalidade. Não confundir com o respeito às tradições nem com a novidade das modas. Não deixarmo-nos distrair nem nos enganar por outras vozes estranhas que, ainda que se escutem no interior das Igrejas, não comunicam sua Boa Noticia. É importante sentirmos chamados por Jesus “por nosso nome”. Deixarmos atrair por Ele pessoalmente. Descobrir pouco a pouco, e cada vez com mais alegria, que ninguém responde como Ele a nossas perguntas mais decisivas, nossos anseios mais profundos e nossas necessidades mais urgentes.

É decisivo “seguir” Jesus. A fé cristã não consiste em acreditar coisas sobre Jesus, mas em acreditar n’Ele: viver confiando em sua pessoa. Inspirar-nos em seu estilo de vida para orientar nossa própria existência com lucidez e responsabilidade.

É fundamental caminhar tendo Jesus “à nossa frente”. Não fazer o caminho de nossa vida sozinho. Experimentar em algum momento, ainda que seja de maneira comum, que é possível viver a vida desde seu princípio: desde esse Deus que a nós se oferece em Jesus, mais humano, mais amigo, mais perto e salvador que todas as nossas teorias.

Esta relação viva com Jesus não nasce em nós de maneira automática. Ela vai se despertando em nosso interior de forma frágil e humilde. No início, é quase um desejo. No geral, cresce rodeada de dúvidas, interrogações e resistências. Mas, não sei como, chega a um momento em que o contato com Jesus começa a marcar decisivamente nossa vida.

Estou convencido de que o futuro da fé entre nós se está decidindo, em boa parte, na consciência de que nesses momentos nos sentimos cristãos. Agora mesmo, a fé está se reavivando ou se vai extinguindo em nossas paroquias e comunidades, no coração dos sacerdotes e fiéis que nós formamos.

A descrença começa a penetrar em nós a partir do momento em que nossa relação com Jesus perde força, ou fica adormecido pela rotina, pela indiferença e pela despreocupação, Por isso, o Papa Francisco reconhece que “necessitamos criar espaços motivadores e saudáveis... lugares onde possamos regenerar a fé em Jesus”. Devemos escutar seu chamado.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

O drama de centenas e centenas de haitianos, vítimas de devastador terremoto, que, via o Estado do Acre, buscam hospitalidade no Brasil, representa um teste de quanto humana é ou não é a nossa sociedade. Não queremos nos restringir somente aos haitinos, mas aos tantos que são expulsos de suas terras, posseiros, indígenas, quilombolas e outros, pelo avanço do agronegócio, das hidrelétricas   ou desalojados  como recentemente do prédio da OI no Rio de Janeiro e que tiveram que se refugiar na praça da Catedral da cidade. Organismos da ONU nos dão conta de que existem no mundo alguns milhões de refugiados por guerras, por problemas de fome ou climáticos e outras causas semelhantes. Quais Abraãos andam por ai buscando quem os acolha e terra para trabalhar e viver. E não encontram. E quantas naves são rejeitadas tendo que vagar pelos mares no meio de todo tipo de necessidades e desesperanças.


Basta lembrar os refugiados de África que chegam à ilha italiana de Lampeduza. Receberam a solidariedade do Papa Francisco, ocasião em que fez as mais duras críticas à nossa civilização por ser insensível e perder a capacidade de chorar sobre a desgraça de seus semelhantes. Todos estes padecem sob a falta de hospitalidade e de solidariedade.


No Brasil, nos jornais mas especialmente na mídias sociais, se  deslanchou acirrada polêmica sobre como tratar os haitianos desesperados e depauperados que estão chegando ao Brasil. O Governador Tião Viana do Acre  mostrou profunda sensibilidade e hospidade acolhendo-os a ponto de, com os meios parcos de um Estado pobre, não dar conta da situação. Teve  que pedir socorro ao Governo Central. Mas foi de forma desavergonhada injuriado por muitos nas redes sociais e no twitter. Aí nos damos conta quão desumanos e sem piedade algumas pessoas podem ser. Nem respeitam a regra de ouro universal de tratar os outros como gostariam de ser tratados. Segundo o notável biólogo chileno Humberto Maturana, tais pessoas retrocedem ao estágio pre-humano dos chimpanzés que são societários mas autoritários e pouco hospitaleiros.


É neste contexto que a virtude da hospitalidade ganha especial relevância. A hospitalidade disse-o o filósofo Kant em seu último livro A Paz Perpétua  (1795): é a primeira virtude de uma república mundial. É um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade.


Um dos mais belos  mitos gregos concerne   à hospitalidade. Dois velhinhos muito pobres, Baucis e Filemon, deram acolhida a Júpiter e a Hermes que se travestiram de andarilhos miseráveis para testar quanta hospitalidade ainda restava sobre a  Terra. Foram repelidos por todos. Mas  foram calorosamente acolhidos pelos bons velhinhos que oferecem comida e a própria cama. Quando as divindades se despiram de seus trapos e mostraram a sua glória, transformaram a choupa num esplênido templo. Os bons velhinhos se prostraram em reverência. As divindades pediram que fizessem um pedido e que seria prontamente atendido. Como se tivessem combinado previamente,  ambos disseram que queriam continuar no templo recebendo os peregrinos e que no final da vida, os dois, depois de tão longo amor, pudessem morrer juntos. E foram atendidos. Anos após, num mesmo momento, Filemon foi transformado num enorme carvalho e Baucis numa frondosa amoreira. Os galhos se entrelaçaram no alto e assim ficaram até os dias de hoje, como se ainda se conta. Disso foi tirada uma lição que passou para todas as tradições: quem acolhe um pobre, hospeda o próprio Deus.


A hospitalidade exige uma boa vontade incondicional para acolher o necessitado e o que se encontra sob grande sofrimento.


Ela exige também escutar atentamente o outro, mais com o coração do que com os ouvidos para captar a sua angústia e as suas expectativas.


Ela exige outrossim uma acolhida generosa, sem preconceitos de cor, de religião e de condição social. Evitar tudo o que o fizer sentir-se um indesejado e um estranho.


Estar aberto ao diálogo sincero para captar sua história de vida, os riscos que passou e como chegou até aqui.


Responsabilizar-se conscientemente junto com outros para que encontre oum lugar onde morar e um trabalho para ganhar sua vida.


A hospitalidade é um dos critérios básicos do humanismo de uma civilização. A ocidental vem marcada  lamentavelmente por preconceitos de larga tradição, por  nacionalismos, pela xenofobia e pelos vários fundamentalismos. Todos estes fecham as portas aos imigrados ao invés de abri-las e, compassivos, compartilhar  de sua dor.


É nesse espírto que a hospitalidade para com nossos irmãos e irmãs haitianos deve ser vivida e testemunhada. Aqui se mostra se somos, como se diz, de fato, um povo de cordialidade e de acolhida aberta a todos; o quanto temos crescido em nossa humanidade e melhorado nossa civilização ainda em formação.


Leonardo Boff

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com - 04/05/2014

 

Publicado em Palavra Viva
Segunda, 05 Maio 2014 05:04

Dom Tomás Balduíno, doutor da fé

Nosso profeta foi para o céu. Essa pode ter sido a reação espontânea de muitos irmãos e irmãs, companheiros de caminho de Dom Tomás Balduíno que, ao longo da vida, sentiram-se ajudados e estimulados por ele a seguir Jesus Cristo e a testemunhar no mundo o projeto divino de justiça e paz. Principalmente os índios e lavradores, povo da predileção do coração de Dom Tomás, podem hoje sentir-se órfãos pela partida de alguém que a eles serviu desde a juventude até o seu último suspiro aos quase 92 anos. Entretanto, tantos eles como nós que convivemos mais profundamente, ao longo dos anos, com esse verdadeiro pastor da Igreja, choramos a saudade de sua presença visível, mas nos consolamos por tantos exemplos e ensinamentos que ele nos deixa como grande profeta de uma Igreja renovada e renovadora a serviço de um mundo mais justo e de uma humanidade mais irmã.

Tive a graça de Deus de conviver com ele e, por um bom tempo, morar na mesma casa. Fui seu amigo e assessor desde 1977 até agora, quando a sua partida nos separou. Ainda há poucos dias, conversávamos sobre como apoiar a renovação da Igreja proposta pelo papa Francisco e ajudar as Igrejas locais a assumí-la. Assim como Dom Hélder Câmara, no Brasil, Dom Oscar Romero, em El Salvador e Dom Samuel Ruiz, no sul do México, Dom Tomás soube revitalizar a missão do bispo como  profeta da Palavra de Deus para o mundo. Para os oprimidos do mundo, ele foi realmente, como escreveu o profeta João no Apocalipse: “irmão e companheiro nas tribulações e no testemunho do reino” (Ap 1, 9).

Exatamente, por essa sua compreensão da fé e do ministério episcopal, Dom Tomás tornou-se mesmo para não crentes testemunha autorizada de Jesus, ilustre doutor da fé e de uma espiritualidade libertadora. Ele nunca restringiu sua missão ao âmbito da Igreja. Soube sempre ser uma presença de irmão e companheiro solidário com as lutas sociais do povo, aliado incondicional dos lavradores e dos índios na sua legítima e evangélica luta pela terra e por uma vida digna. Com 85 anos, Dom Tomás participou comigo da delegação brasileira que se reuniu na Bolívia com militantes sociais e intelectuais de todo o mundo para recordar a figura de Che Guevara no 40º aniversário de sua morte em Valle Grande, Bolívia. Um ano depois, viajamos juntos a Caracas, como observadores internacionais das eleições presidenciais da Venezuela. E até o fim de sua vida, sua palavra profética foi sempre de apoio claro ao caminho bolivariano que aquele povo irmão, com tanto esforço e incompreensões, empreende. Sua voz forte e clara ressoou em todos os continentes. A todos ele deixa um testemunho de coragem, confiança no futuro e opção pela justiça e pela paz.

A tendência natural é que as pessoas sejam mais abertas e livres quando jovens. À medida que a idade vai chegando, se tornam menos livres e mais conservadoras. É verdade que, hoje, em certos ambientes do clero e de algumas congregações, encontramos jovens mais conservadores e preocupados com a lei do que a geração mais velha. Mas, isso não é natural. Tem razões e explicações mais estratégicas e menos espirituais. Não tem nada a ver com o que Deus fez acontecer na vida de profetas como Dom Hélder Câmara e Dr. Alceu Amoroso Lima ou do papa bom João XXIII que, quanto mais idosos, mais se abriram interiormente. Eles souberam renovar-se permanentemente. Quanto mais idosos, mais se tornaram homens livres e testemunhas da liberdade do Espírito. Dom Tomás percorreu esse processo espiritual e humano. Nesse caminho, agora, do céu, ele nos convida, a prosseguir e a aprofundar sempre a mística do reino de Deus e vivê-la no compromisso social e político junto com os empobrecidos e pequeninos desse mundo. A essas alturas, Tomás já ouviu de Jesus, seu mestre, a palavra esperada: “Muito bem, servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor” (Mt 25, 21). Dom Tomás, doutor da fé e profeta desses tempos conturbados, rogai por nós.

Marcelo Barros

Fonte: Adital - 03/05/2014

Publicado em Palavra Viva

Dois discípulos de Jesus estão se afastando de Jerusalém. Caminham tristes e desconsolados. Em seu coração apagou-se a esperança que tinham colocado em Jesus, quando o viram morrer na cruz. Sem dúvida, continuam pensando n’Ele. Teria sido tudo uma ilusão?

Enquanto conversam e discutem de tudo o que viveram, Jesus se aproxima deles e começa a caminhar junto. Sem dúvida, os discípulos não o reconhecem. Aquele Jesus em que tanto haviam confiado e que tinham amado, talvez com paixão, lhes parece agora um caminhante estranho.

Jesus entra em suas conversas. Os caminhantes o escutam primeiro surpresos, mas pouco a pouco algo se vai despertando em seus corações. Não sabem exatamente o que é. Mais tarde dirão: “Não estava ardendo nosso coração enquanto nos falava pelo caminho?”.

Os caminhantes se sentem atraídos pelas palavras de Jesus. Chega um momento em que necessitam de sua companhia. Não querem deixa-lo partir: “Fica conosco”. Durante a refeição, seus olhos se abrem e eles o reconhecem. Esta é a primeira mensagem do relato: Quando acolhemos Jesus como companheiro de caminho, suas palavras podem despertar em nós a esperança perdida.

Durante estes anos, muitas pessoas perderam sua confiança em Jesus. Pouco a pouco, Ele se transformou em um personagem estranho e irreconhecível. Tudo o que sabem d’Ele é o que podem reconstruir, de maneira parcial e fragmentada, a partir do que escutaram dos pregadores e catequistas.

Sem dúvida, a homilia dos domingos cumpre uma tarefa insubstituível, mas fica claramente insuficiente para que as pessoas de hoje possam entrar em contato direto e vivo com o Evangelho. De tal forma que, ao fim, diante de um povo que permanece mudo, sem expor suas inquietações, interrogações e problemas, é difícil que consiga recuperar a fé vacilante de tantas pessoas que buscam, às vezes sem saber, encontrar com Jesus.

Não é chegado o momento de instaurar, fora do contexto da liturgia dominical, um espaço novo e diferente para escutarmos juntos o Evangelho de Jesus? Por que não reunirmos leigos e sacerdotes, mulheres e homens, cristãos convencidos e pessoas que se interessam pela fé, a escutar, compartilhar, dialogar e acolher o Evangelho de Jesus?

Devemos dar ao Evangelho a oportunidade de entrar com toda a sua força transformadora em contato direto e imediato com os problemas, crises, medos e esperanças das pessoas de hoje. Logo será demasiado tarde para recuperar entre nós o frescor original do Evangelho.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

Assustados com a execução de Jesus, os discípulos se escondem em uma casa conhecida. De novo estão reunidos, mas Jesus não está com eles. Na comunidade há um vazio que ninguém pode encher. Falta-lhes Jesus. A quem seguirão agora? Que poderão fazer sem Ele? “Está anoitecendo” em Jerusalém e também no coração dos discípulos.

Dentro da casa, estão “com as portas fechadas”. É uma comunidade sem missão e sem horizonte, fechada em si mesma, sem capacidade de acolhida. Ninguém pensa em sair já pelos caminhos e anunciar o Reino de Deus e curar a vida. Com as portas fechadas não é possível chegar ao sofrimento das pessoas.

Os discípulos estão cheios de “medo dos judeus”.  É uma comunidade paralisada pelo medo, em atitude defensiva. Só veem hostilidade e afastamento por todas as partes. Com medo não é possível amar o mundo como amava Jesus, nem convencer ninguém com coragem e esperança. De imediato, Jesus ressuscitado toma a iniciativa. Vem resgatar a seus seguidores. “Entra na casa e se coloca no meio deles”. A pequena comunidade começa a se transformar. Do medo passam a paz que lhes assegura Jesus. Da escuridão da noite, passam a alegria de voltar a vê-lo cheio de vida. Das portas fechadas irão passar a abertura da missão.

Jesus lhes fala colocando naqueles pobres homens toda a sua confiança: “Como o Pai me enviou, assim também eu os envio”. Não lhes diz a quem se vão dirigir, que irão anunciar nem como irão atuar.  Eles já aprenderam com Jesus pelos caminhos da Galiléia. Serão no mundo o que Jesus havia sido.

Jesus conhece a fragilidade de seus discípulos. Muitas vezes lhes criticou sua fé pequena e vacilante. Necessitam a força de seu Espírito para cumprir sua missão. Por isso faz com eles um gesto especial. Não lhes impõe as mãos nem os abençoa como aos doentes.  Sopra sobre eles e lhes diz: “Recebei o Espírito Santo”.

Só Jesus salvará a Igreja. Só Ele nos libertará dos medos que nos paralisam, quebrará os esquemas viciosos em que pretendemos encerrá-lo, abrirá tantas portas que fomos fechando ao longo dos séculos, endireitará tantos caminhos que nos desviaram d’Ele.

O que nos pede é revitalizar muito mais em toda a Igreja a confiança em Jesus ressuscitado, mobilizarmos para coloca-lo sem medo no centro de nossas paróquias e comunidades, e concentrar nossas forças para escutar bem o que seu Espírito está nos dizendo hoje, a nós, que somos seus seguidores e seguidoras.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético

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