"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

Fez-se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2Cor 8,9)


Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2Cor 8,9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de tudo, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fl 2,7; Hb 4,15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez conosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Hb 1,2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10,25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11,30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8,29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para aliviá-las. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2Cor 6,10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013

Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

Fonte:(http://www.vatican.va/holy_father/francesco/messages/lent/documents/papa-francesco_20131226_messaggio-quaresima2014_po.html) 12/02/2014

Publicado em Palavra Viva
Quinta, 27 Fevereiro 2014 06:29

Olhai os lírios dos campos... (8° Dom TC)

Prosseguimos hoje a Leitura do Sermão da Montanha, no qual Jesus proclama as atitudes básicas do discípulo para acolher o Reino de Deus.

A Liturgia nos dá a oportunidade de contemplar a verdadeira imagem de Deus: É uma MÃE carinhosa e um PAI providente.

Na 1ª Leitura, o povo de Deus, perseguido e longe de sua terra, sente-se "abandonado" por Deus. Isaías responde a esse "sentimento de abandono", comparando Deus a uma MÃE CARINHOSA, que não esquece de seu filhinho:

"Poderá uma mãe esquecer de seu filhinho, e não amar o fruto do seu ventre? Mesmo se houvesse alguma mulher capaz de esquecê-lo, eu não te esqueceria jamais".  (Is 49,14-15)

* É a expressão bíblica mais profunda e eloqüente da ternura maternal de Deus e de seu amor ao povo eleito e ao homem. A Mãe não ama seu filho porque ele é bom, mas porque é seu filho...

Na 2ª Leitura, Paulo não se preocupa com o que possam dizer ou pensar dele. Ele põe toda a confiança em Deus. "Cada um receberá de Deus o devido louvor". (1Cor 4,1-5)

No Evangelho, Deus é comparado a um PAI PROVIDENTE que cuida dos filhos, e provê as suas necessidades. Por isso, "não vos preocupeis com o dia de amanhã". (Mt 6,24-34)

+ Jesus adverte a DOIS PERIGOS:

1) O Apego ao Dinheiro: O cristão não deve amarrar o seu coração aos bens deste mundo. O Dinheiro não pode se transformar em Senhor de sua vida. Quem adora o dinheiro tem tudo, mas torna-se um escravo. "Ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro". A preocupação excessiva com os bens materiais se opõe à confiança devida a Deus e reivindica o lugar de Deus

2) As vãs Preocupações: Não se afirma que não se deve trabalhar, mas não se deixar levar pela angústia. O compromisso para resolver os problemas da vida não deve nos fazer perder a alegria da vida. Por isso, propõe servir ao Senhor, abandonando-se à Providência amorosa do Pai.

- Duas belíssimas imagens da natureza ilustram essa idéia: Se os pássaros e os lírios do campo são objeto do cuidado de Deus, que provê gratuitamente sua subsistência espontânea, quanto mais o será o homem que vale muito mais que eles.

- Jesus conclui com um duplo convite:

1. "Não vos preocupeis com a vida, com o alimento, com as vestes, o Pai do céu já sabe que temos necessidade de tudo isso".

2. "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado em acréscimo".

- O Reino é a transparência de Deus em nossa vida;

- A sua Justiça é um ordenamento sob seu olhar de tudo o que somos e fazemos.

- O Senhor não diz "unicamente", mas buscai "primeiro" o Reino de Deus.

Jesus não nega a importância do trabalho para a alimentação, a saúde e o vestuário, mas quer ressaltar a atenção que devemos dar àquilo que constrói o Reino de Deus.

+ A Proposta do Mundo leva ao Culto do Dinheiro e ao Consumismo. E as conseqüências são terríveis:

- Degrada a dignidade humana, convertendo as pessoas em puras máquinas de produção e consumo de bens.

- Bloqueia a solidariedade, a partilha, a fraternidade e favorece o egoísmo e a exploração.

- Torna-nos escravo das coisas e dos bens.

+ A Proposta de Jesus: pede confiança e abandono nas mãos de Deus a quem servimos com amor, e por quem nos sentimos amados.

Essa confiança em Deus não é alienante, não nos exime de nossa responsabilidade nas tarefas temporais, nem nos permite fugir de nosso compromisso cristão no mundo.

+ A qual deus servimos?

Não podemos servir a Deus e ao dinheiro. Devemos buscar primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais nos será dado em acréscimo. Deixemos de ser servos do dinheiro e escravos de nós mesmos, para servir ao Senhor com alegria e livres da angústia possessiva.

Quem se preocupa pela comida?

Quem tem pai e mãe, ou quem é órfão?

Pois bem, nós não somos órfãos, Deus é para nós Pai e Mãe!...

Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 02.03.2014

Publicado em Roteiro Homilético
Quinta, 27 Fevereiro 2014 11:30

Não à idolatria do dinheiro (8° Dom TC)

O dinheiro, convertido em ídolo absoluto, é para Jesus o maior inimigo de um mundo mais digno, justo e solidário como quer Deus. Já faz vinte séculos que o Profeta da Galiléia denunciou de maneira radical que o culto ao Dinheiro será sempre o maior obstáculo que encontrará a humanidade para progredir em direção de uma convivência mais humana.

A lógica de Jesus é arrasadora: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Deus não pode reinar num mundo e ser o Pai de todos, sem reclamar justiça para os que estão excluídos de uma vida digna. Por isso, não podem trabalhar por este mundo mais humano e querido por Deus os que, dominados pela ânsia de acumular riqueza, promovem uma economia que exclui aos mais frágeis e os abandona à fome e à miséria.

É surpreendente o que está acontecendo com o Papa Francisco. Enquanto os meios de comunicação e as redes sociais que circulam pela internet nos informam, com todo modo de detalhes, dos gestos mais pequenos de sua personalidade admirável, se esconde de modo vergonhoso seu grito mais urgente a toda a Humanidade: “Não à uma economia de exclusão e iniquidade. ESSA ECONOMIA MATA”.

Sem dúvida, Francisco não precisa de muitos argumentos e nem de profundas análises para expor seu pensamento. Sabe resumir sua indignação em palavras claras e expressivas que poderiam abrir a manchete de qualquer jornal televisivo, ou ser titular de qualquer jornal em qualquer país. Somente alguns exemplos.

“Não pode ser que não seja notícia que morra de frio um idoso em situação de rua e que seja notícia alarmante a queda de dois pontos na bolsa de valores. Isso é exclusão. Não se pode tolerar que se tire comida quando há pessoas que passam fome. Isso é iniquidade”.

Vivemos “na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano”. Como consequência, “enquanto a ganancia de uns poucos crescem admiravelmente, a maioria fica cada vez mais longe do bem estar dessa minoria feliz”.

“A cultura do bem estar nos anestesia, e perdemos a calma se o mercado oferece alguma coisa que por acaso não temos comprado, enquanto todas essas vidas proibidas pela falta de possibilidades  nos parecem um espetáculo que de maneira nenhuma queremos ver”.

Como ele mesmo tem dito: “esta mensagem não é marxismo e sim EVANGELHO PURO”. Uma mensagem que tem que ter eco permanente em nossas comunidades cristãs. O contrário pode ser sinal do que disse o Papa: “Nós estamos vivendo incapazes de compadecermo-nos com os clamores dos outros, já não choramos diante do drama dos demais”.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Sábado, 15 Fevereiro 2014 07:47

Não à guerra entre nós (6° Dom TC)

Os judeus falavam com orgulho da Lei de Moisés. Segundo a tradição, foi mesmo Deus quem a ofereceu ao Seu povo. Era o melhor que tinham recebido Dele. Nessa Lei apresenta-se a vontade do único Deus verdadeiro. Aí podem encontrar tudo o que necessitam para ser fiéis a Deus.

Também para Jesus a Lei é importante, mas já não ocupa o lugar central. Ele vive e comunica outra experiência: está a chegar o reino de Deus; o Pai procura abrir o caminho entre nós para fazer um mundo mais humano. Não basta ficarmos com cumprir a Lei de Moisés. É necessário abrir-nos ao Pai e colaborar com Ele para fazer uma vida mais justa e fraterna.

Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a lei que ordena “Não matarás”. É necessário, também, arrancar da nossa vida a agressividade, o desprezo pelo outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata, cumpre a lei, mas se não se liberta da violência, no seu coração não reina todavia esse Deus que procura construir conosco uma vida mais humana.

Segundo alguns observadores, está-se a estender na sociedade atual uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade. Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos proferidos só para humilhar, desprezar e ferir. Palavras nascidas da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança.

Por outra lado, as conversações estão frequentemente tecidas de palavras injustas que distribuem condenações e semeiam suspeitas. Palavras ditas sem amor e sem respeito, que envenenam a convivência e fazem mal. Palavras nascidas quase sempre da irritação, da mesquinhez ou da baixeza.

Não é este um fato que se dê só na convivência social. É também um grave problema na Igreja atual. O Papa Francisco sofre ao ver divisões, conflitos e confrontos de “cristãos em guerra contra outros cristãos”. É um estado de coisas tão contrário ao Evangelho que sentiu a necessidade de dirigir-nos uma chamada urgente: “Não à guerra entre nós”.

Assim fala o Papa: “Doí-me comprovar como em algumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, consentimos diversas formas de ódios, calunias, difamações, vinganças, ciúmes, desejos de impor as próprias ideias à custa de qualquer coisa, e até de perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. A quem vamos evangelizar com estes comportamentos?”. O Papa quer trabalhar por uma Igreja em que “todos podem admirar como vos cuidais uns aos outros, como vos dais alento mutuamente e como vos acompanhais”.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução: Antonio Manuel Álvarez Pérez)

 

Publicado em Roteiro Homilético
Terça, 04 Fevereiro 2014 09:17

Sair para as periferias (5° Dom TC)

Jesus dá a conhecer com duas imagens audazes e surpreendentes o que pensa e espera de seus seguidores. Não devem viver pensando sempre em seus próprios interesses, seu prestígio ou seu poder. Ainda que sejam um grupo pequeno em meio ao imenso Imperio de Roma, deverão ser o “sal” que necessita a terra e a “luz” que faz falta no mundo.

“Vós sois o sal da terra”. As pessoas simples da Galileia percebem espontaneamente a linguagem de Jesus. Todo mundo sabe que o sal serve, sobretudo, para dar sabor à comida e para preservar os alimentos para que não se estraguem. Do mesmo modo, os discípulos de Jesus terão que contribuir para que as pessoas saboreiem a vida sem cair na corrupção.

“Vós sois a luz do mundo”. Sem a luz do sol, o mundo fica as escuras e não podemos orientar-nos nem desfrutar da vida em meios às trevas. Os discípulos de Jesus podem carregar a luz que necessitamos para orientarmos, aprofundar o sentido ultimo da existência e caminhar com esperança.

As duas metáforas coincidem em algo muito importante. Se permanece fechado em um recipiente,  o sal não serve para nada. Somente quando em contato com os alimentos  e se mistura com a comida, pode dar sabor ao que comemos. O mesmo acontece com a luz. Se permanece fechada e oculta, não pode iluminar ninguém. Somente quando está no meio das sombras pode iluminar e orientar. Uma Igreja fechada ao mundo não pode ser nem sal nem luz.

O Papa Francisco já viu que a Igreja vive hoje fechada em si mesma, paralisada pelos medos e demasiada distante dos ,problemas e sofrimentos como para dar sabor para a vida moderna e para oferecer a luz genuína do Evangelho. Sua reação foi imediata: “Devemos sair às periferias”.

O Papa insiste outra vez: “Prefiro uma Igreja machucada, ferida e manchada por sair para a rua, do que uma Igreja doente pelo seu fechamento e comodismo por agarrar-se às suas próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro e que termina fechada em um emaranhado de obsessões e procedimentos”.

A chamada de Francisco está dirigida a todos os cristãos: “Não podemos ficarmos tranquilos numa espera passiva em nossos templos”. “O Evangelho nos convida a correr o risco do encontro com o rosto do outro”. O Papa quer introduzir na Igreja o que ele chama “a cultura do encontro”. Está convencido de que “o que necessita hoje a Igreja é a capacidade de curar feridas e dar calor aos corações”.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 27 Janeiro 2014 02:33

13º INTERECLESIAL DAS CEBs

O QUE É UM INTERECLESIAL DAS CEBs?

INTER vem do Latim inter, “entre”.

ECLESIAL: grego ekklesía+al – Relativo à Igreja

INTERECLESIAL DAS CEBs – é um encontro que reúne os representantes das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) de todo o Brasil, da América e de outros países do mundo. 

O primeiro INTERECLESIAL foi realizado em 1975, na cidade de Vitória, Espírito Santo. Muitos outros encontros aconteceram. É o trem (símbolo da caminhada das CEBs) que recebe um vagão a mais a cada encontro, o que aconteceu no 13º Intereclesial das CEBs realizado de 07 a 11/01/14, na cidade de Juazeiro do Norte – terra do Pe. Cícero – na Diocese de Crato/CE, cujo tema foi: “Justiça e profecia a serviço da vida” e o lema: “Romeiros do Reino no campo e na cidade”. Da Diocese de Crato, o trem partiu para Londrina/PR, onde acontecerá o 14º Intereclesial das CEBs, em 2018. Cabe a nós, POVO DE DEUS, embarcar nesse trem aproveitando tudo que ele tem para nos oferecer desde o primeiro vagão, principalmente nos últimos que falam da nossa realidade de fé e luta pelo Reino de Deus, atualmente.  


 

Os intereclesiais nasceram com a finalidade de partilhar as experiências de fé e de vida, partilha feita pelos que representam as CEBs, nas suas realidades locais.  

Participaram e colaboraram com a realização do 13º Intereclesial, 5.036 pessoas, sendo: 4.036, delegados/as dos 18 regionais da CNBB: 2.248 mulheres e 1.788 homens; 75 representantes de comunidades indígenas; 146 religiosos e religiosas; 232 padres; 20 de outras Igrejas cristãs e 72 bispos presentes. 

O 13º Intereclesial da CEBs foi uma experieência de fé e mística; um momento de encontro das comunidades; um espaço para troca de experiências, celebrações e avaliação da caminhada das comunidades no Brasil.


Papa Francisco envia mensagem ao 13º Intereclesial das CEBs

Pela primeira vez que o Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) recebe uma mensagem do Papa. No dia 17 de dezembro, o papa Francisco enviou uma carta aos participantes do 13º Intereclesial das CEBs.

O que diz a mensagem do Papa Francisco? Que as CEBs “trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja” e assegura suas orações para que o Intereclesial seja um encontro abençoado.

Sobre o lema do evento, o papa disse que deve ser como uma chamada para que as CEBs assumam cada vez mais seu papel na missão evangelizadora da Igreja: “Todos devemos ser romeiros, no campo e na cidade, levando a alegria do Evangelho a cada homem e a cada mulher”, acrescenta Francisco.   

 

Queridos irmãos e irmãs,

É com muita alegria que dirijo esta mensagem a todos os participantes no 13º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que tem lugar entre os dias 7 e 11 de janeiro de 2014, na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, sob o tema “Justiça e Profecia a Serviço da Vida”.

Primeiramente, quero lhes assegurar as minhas orações para que este Encontro seja abençoado pelo nosso Pai dos Céus, com as luzes do Espírito Santo que lhes ajudem a viver com renovado ardor os compromissos do Evangelho de Jesus no seio da sociedade brasileira. De fato, o lema deste encontro “CEBs, Romeiras do Reino, no Campo e na Cidade” deve soar como uma chamada para que estas assumam sempre mais o seu importantíssimo papel na missão Evangelizadora da Igreja.

Como lembrava o Documento de Aparecida, as CEBs são um instrumento que permite ao povo “chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos” (n.178). E recentemente, dirigindo-me a toda a Igreja, escrevia que as Comunidades de Base “trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja”, mas, para isso é preciso que elas “não percam o contato com esta realidade muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja particular” (Exort. Ap. Evangelii gaudium, 29).

Queridos amigos, a evangelização é um dever de toda a Igreja, de todo o povo de Deus: todos devemos ser romeiros, no campo e na cidade, levando a alegria do Evangelho a cada homem e a cada mulher. Desejo do fundo do meu coração que as palavras de São Paulo: “Ai de mim se eu não pregar o Evangelho” (I Co 9,16) possam ecoar no coração de cada um de vocês!

Por isso, confiando os trabalhos e os participantes do 13º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base à proteção de Nossa Senhora Aparecida, convido a todos a vivê-lo como um encontro de fé e de missão, de discípulos missionários que caminham com Jesus, anunciando e testemunhando com os pobres a profecia dos “novos céus e da nova terra”, ao conceder-lhes a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 17 de dezembro de 2013

Nossos irmãos e irmãs indígenas estiveram presentes e deram seu grito pela justiça. O líder do Guarani-Kaiowá, Anastácio Peralta, explica que é preciso valorizar a terra. “A natureza não é para ser explorada, mas admirada e cuidada. Aprendemos isso com os nossos antepassados e sabemos fazer”, afirmou. 

 

Para o cacique Valério Vera Gonçalves e sua esposa Ana Lúcia, é urgente a necessidade da demarcação.

 

“Queremos a demarcação da nossa terra. Ela é o nosso meio de sobrevivência que Deus deixou pra nós”. Para os indígenas, o apoio da Igreja tem ajudado muito na luta. “Sentimos o apoio da Igreja que está a favor de nossa luta. Estou feliz porque este encontro das CEBs sempre lembra a demarcação das terras”.

“Terra de Deus, terra de irmãos”.


Celebração dos mártires e profetas da caminhada


“Enquanto houver martírio haverá esperança, enquanto houver profetas e mártires haverá CEBs lutando por justiça e profecia a serviço da vida”, disse dom Edson aos romeiros presentes na celebração. “Não deixem morrer a esperança”, acrescentou o bispo citando as palavras de dom Helder Câmara”.

“Para dom Edson, é preciso ‘ter a coragem de viver defendendo nossa identidade e a vontade teimosa de seguir anunciando o Reino, contra o vento e a maré do antirreino neoliberal’”.

As CEBs não deixam de celebrar a memória dos mártires da caminhada. São inúmeras pessoas que deram suas vidas nas comunidades eclesiais de base por serem coerentes no serviço da missão evangelizadora, bem como pela coragem de anunciar e denunciar. Por força das convicções profundas no seguimento de Jesus, há um grande número dos que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Elas andam na contramão do mundo na luta por justiça e igualdade social e por isso incomodam tanto. Assim, muito sangue derramado e muitas vidas se vão. Nas CEBs essas vidas não são esquecidas estão na memória porque são verdadeiras testemunhas de fidelidade ao Reino. Elas tombaram por causa da atitude de resistência de não ceder ou não mudar suas convicções de fé no Projeto de Jesus Cristo por ideologias que a sociedade impõe. 

“Os 72 bispos participantes do 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), enviaram uma carta ao povo de Deus, na qual demonstram sensibilidade aos "gritos dos excluídos que ecoaram" no evento. ‘(...) gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde...’, afirmam”.

“Na carta, os bispos também reafirmam o "empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão".

“Igreja é povo que se organiza. Gente oprimida buscando a libertação. Em Jesus Cristo, a Ressurreição”. 


Carta dos Bispos participantes do 13º Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base ao Povo de Deus

 

Irmãs e Irmãos,

“Vós sois o sal da terra (...) Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14).

Nós, bispos participantes do 13º Intereclesial de CEBs, em número de setenta e dois, como pastores do Povo de Deus, dirigimos nossa palavra a vocês participantes das Comunidades Eclesiais de Base com seus animadores e animadoras e demais irmãs e irmãos que assumem ministérios e outras responsabilidades.

Em Juazeiro do Norte (CE), terra do Padre Cícero Romão Batista, na centenária diocese de Crato, nos encontramos com romeiros e romeiras, e com eles também nos fizemos romeiros do Reino.

Acolhemos com muita a alegria a carta que o Papa Francisco enviou ao Bispo Diocesano D. Fernando Pânico trazendo a mensagem aos participantes do 13º intereclesial das CEBs e que foi lida na celebração de abertura.

Participamos das conferências; dos testemunhos no Ginásio poliesportivo, denominado Caldeirão Beato José Lourenço; de debates e grupos em diversas escolas (ranchos e chapéus) situadas em diversas áreas das cidades de Juazeiro e do Crato; das visitas missionárias às famílias e a algumas instituições; da celebração em memória dos profetas e mártires da fé, da vida, dos direitos humanos, da justiça, da terra e das águas realizada no Horto onde se encontra a grande estátua de Pe. Cícero comungando com a causa dos pobres: povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e demais sofredores e com a causa do ecumenismo na promoção da cultura da vida e da paz, do encontro. Tivemos também a grande alegria de participar da celebração eucarística de encerramento na Basílica de Nossa Senhora das Dores quando todos os presentes foram enviados para que no retorno às comunidades de origem possamos ser de fato sal da terra e luz do mundo.

Estamos vendo como as CEBs estando enraizadas na Palavra de Deus, aí encontram luzes para levar adiante sua missão evangelizadora vivenciando o que nos pede a todos o lema: “Justiça e Profecia a serviço da vida”. Desse modo, cada comunidade eclesial vai sendo sal da terra e luz do mundo animando os seus participantes a darem esse mesmo testemunho.

Muito nos sensibilizaram os gritos dos excluídos que ecoaram neste 13º intereclesial: gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde...

Sabemos dos muitos desafios que as comunidades enfrentam na área rural e nas áreas urbanas (centro e periferias). Nossa palavra é de esperança e de ânimo junto às comunidades eclesiais de base que, espalhadas por todo este Brasil, pelo continente latino-americano e caribenho e demais continentes representados no encontro, assumem a profecia e a luta por justiça a serviço da vida. Desejamos que sejam de modo muito claro e ainda mais forte comunidades guiadas pela Palavra de Deus, celebrantes do Mistério Pascal de Jesus Cristo, comunidades acolhedoras, missionárias, atentas e abertas aos sinais da ação do Espírito de Deus, samaritanas e solidárias.

Reconhecendo nas CEBs o jeito antigo e novo da Igreja ser, muito nos alegraram os sinais de profecia e de esperança presentes na Igreja e na sociedade, dos quais as CEBs se fazem sujeito. Que não se cansem de ser rosto da Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas e não de uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças, como nos exorta o querido Papa Francisco (cf. EG 49).

Para tanto, reafirmamos, junto às Cebs, nosso empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão.

Com o coração cheio de gratidão e esperança, imploramos proteção materna da Virgem Mãe das Dores e das Alegrias.

Juazeiro do Norte, 11 de janeiro de 2014, festa do Batismo do Senhor. 

O encontro programado na metodologia do VER, JULGAR e AGIR, foi concluído com uma grande celebração na Praça do Santuário Nossa Senhora das Dores. 

Nessa celebração da festa do Batismo de Jesus, a multidão com vela acesa na mão, se comprometeu ir avante seguindo Jesus, uma vez ungidos/as para a missionariedade a serviço do Reino no campo e na cidade.

As 4.036 pessoas delegadas ao 13º Intereclesial, na chegada foram recebidas com animação pelas comunidades paroquiais e muito carinho pelas famílias que as receberam em suas casas durante o encontro. 

Agora chegou a hora da despedida. Como todas as despedidas de gente que se quer bem foi um momento difícil para a delegação e para as famílias que hospedaram uma ou mais pessoas em suas casas.

Voltamos para nossas casas com gratidão em primeiro lugar ao nosso Deus Trino, em seguida, a gratidão de coração à Igreja e ao povo de Juazeiro do Norte. 

O 13º Intereclesial das CEBs suscitou em nossas vidas uma forte experiência da presença trinitária de Deus. “hora de Deus”!  Possibilitou-nos crescer na convivência comunitária sintonizando-nos com a experiência do Pai, do Filho e do Espírito Santo, “a verdadeira comunidade”. 


Irmã Leonízia Izabel da Silva Congregação das Irmãs de Santa  Doroteia da Frassinetti   

Fonte: CNBB; CEBs Uai.

Fotos: Internet

 

 

 

 

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Sexta, 24 Janeiro 2014 03:07

Loris Capovilla, o poder de um símbolo

Entre os novos cardeais escolhidos pelo papa Francisco em seu primeiro consistório aparece uma figura simbólica: a de Loris Capovilla, de 99 anos, que foi secretário pessoal do papa João XXIII, o papa do século passado com quem Francisco guarda a maior semelhança.

Ninguém até agora tinha lembrado de dar o barrete de cardeal àquele que foi a figura chave, o confidente e o criador da imagem do chamado “papa bom”. Ele tinha sido relegado ao esquecimento, e, desde se aposentar como arcebispo, vivia em Sotto il Monte, a cidadezinha na qual nasceu o futuro papa João XXIII, filho de camponeses. E ali Capovilla, durante anos e quase em silêncio, fez um trabalho discreto de ajuda e conselho aos mais necessitados.

Dias depois de eleito, o papa Francisco telefonou a Capovilla e lhe disse, brincando: “O senhor tem voz de jovem”.

Hoje ele o nomeou cardeal. O escolheu como símbolo, muito ao seu estilo.

O reconhecimento dado a Capovilla pelo papa jesuíta possui forte valor simbólico, porque foi como ressuscitar um papa que não apenas foi um dos mais contestados pela Cúria Romana, como também um dos mais amados, até mesmo pelos não católicos.

Quando, já idoso e em um momento crítico da política mundial, João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, foi visto como louco pelos cardeais conservadores, como Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova. Eles chegaram a estudar a possibilidade de buscar sua deposição.

Capovilla é a única testemunha ainda viva dos maiores segredos do pontificado breve, mas fecundo de João XXIII, o pontífice que dizia a seu secretário que, se fosse mais jovem, abriria os jardins do Vaticano às crianças pobres do bairro de Trastevere, para que “não precisassem brincar na rua, entre o tráfego de automóveis”.

Era o papa que lhe dizia, também, que se “entediava” nas tardes do Vaticano, porque ao papa “já dão tudo feito e mastigado”. Para vingar-se, convocou um Concílio Ecumênico. E nesse concílio, para o qual chamou à basílica de São Pedro os 3.000 bispos da Igreja, menos os que estavam encarcerados nos países da Cortina de Ferro comunista, tanto Capovilla quanto sua sobrinha, a freira Sor Angela, puderam ver que o papa possuía grande senso de humor, observando em circuito fechado de televisão as discussões dos cardeais, em latim: “Veja aquele bispo ali, como dorme profundamente”, ele comentava. Ou então: “Que latim horrível o daquele arcebispo”. E se divertia enviando aos bispos fotos deles dormindo durante as sessões, com uma frase em latim: “Hoc non placet” (não me agrada). E a assinava. João XXIII fez isso, por exemplo, com um dos cardeais progressistas mais importantes do Concílio, o holandês Suenens, que ensinou a nós, os jornalistas que cobrimos o Concílio, que devíamos enfatizar a simplicidade do papa.

Foi Capovilla, por exemplo, a única testemunha presente no momento em que João XXIII abriu o envelope lacrado que lhe tinha deixado seu antecessor, Pio XII, sobre o “terceiro milagre de Fátima”. Apenas ele sabe o que comentou o papa, que acabou colocando o famoso envelope num caixão.

Capovilla era jornalista e teve participação grande na criação da imagem pública de João XXIII. Foi ele quem me contou durante uma entrevista, após a morte do papa, quando estava dirigindo o Santuário de Loreto, que João XXIII às vezes lhe dizia: “Loris, vamos ter que consultar o papa sobre isso”, esquecendo que ele próprio era o papa. Também lhe contava, por exemplo, que Pio XII estava muito preocupado com a possibilidade de “comunistas se infiltrarem” nas audiências públicas e que, quando voltava a seus aposentos, lavava as mãos com álcool porque “as pessoas tinham tocado nele”. E comentava com seu secretário: “Eu não me preocupo quando as pessoas chegam perto de mim. Acho que se fazem isso é porque gostam de mim”. Sobre o sofrimento de alguns papas devido à responsabilidade de serem “representantes de Cristo na Terra”, João XXIII dizia a Capovilla: “Eu me poupei esse sofrimento porque me considero apenas o ‘secretário’ dele”.

Foi Capovilla quem revisou o testamento de João XXIII e seu “Diário da Alma”. Enquanto o antecessor do pontífice, Pio XII, antes de morrer tinha concedido títulos de nobreza a seus familiares mais próximos, João XXIII escreveu à sua família em seu testamento: “Não deixo nada a vocês porque nasci pobre e morro pobre”. E acrescentou: “Não tenho que pedir perdão a ninguém porque por nunca me senti ofendido por ninguém”.

O quase centenário cardeal tinha conhecido muito bem as condições em que fizeram Pio XII morrer dentro do Vaticano. Tinha sido um dos momentos mais tenebrosos da história dos papas. O mantiveram isolado de tudo e de todos, sob os cuidados únicos da freira suíça Sor Pasqualina, que ele tinha trazido de quando era núncio em Berlim. Ela era a todo-poderosa. E ela decidiu não dizer ao papa que ele estava morrendo, e menos ainda dizê-lo à opinião pública. Por isso é quase certo que ele morreu sem receber os sacramentos e que seu médico pessoal, Galleazzi, o traiu. Ele fotografou o papa em seus momentos de agonia, chegando a vender as fotos a algumas revistas estrangeiras, e acabou sendo expulso da Ordem dos Médicos da Itália.

Ciente desses precedentes, Capovilla decidiu que a morte de João XXIII seria contada a todos. De acordo com Capovilla, quando o papa soube que estava chegando perto de seu fim, decidiu que seus últimos dias fossem levados a público por meio do Rádio Vaticano, para informar o mundo inteiro. No estilo que o caracterizava, João XXIII disse a seu secretário: “Cheguei ao dia da grande viagem. Avise ao mundo que o papa está preparando as malas”. E pediu que lhe dessem a extrema-unção.

E foi Capovilla quem me relatou sua angústia quando, na noite em que o papa ainda estava de corpo presente, alguns irmãos deles se apresentaram no Vaticano para pedir que os deixassem dormir ali, porque não tinham dinheiro para ir a um hotel. E no Vaticano lhes responderam que ali não havia lugar para eles. Os irmãos então procuraram Capovilla, que tinha sido secretário pessoal de Roncalli (João XXIII) desde que este era cardeal patriarca de Veneza. Sem avisar a ninguém, este conseguiu encontrar alguns colchões para que os irmãos do papa pudessem dormir no corredor dos aposentos papais.

E foram esses aposentos que o papa Francisco, que nomeou Capovilla cardeal, recusou ao ser eleito pontífice, alegando que eram grandes demais para ele: “Até 300 pessoas poderiam viver aqui”, comentou. E preferiu morar no Hotel de Santa Marta, até hoje.

Capovilla pôde constatar, ainda em vida, que o papa Francisco, o mais parecido com “seu” papa João XXIII, não se esqueceu dele e, sobretudo, não esqueceu o papa do Concílio.

 (Fonte: El País - Sociedade)

 

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Sábado, 18 Janeiro 2014 10:29

Intereclesial emblemático

O 13º Intereclesial das CEBs tem, pelo menos, três elementos emblemáticos, como se fossem um divisor de águas entre os anteriores e o futuro das comunidades eclesiais de base.

Primeiro, ele foi realizado no Juazeiro do Norte, Ceará, nas terras do Pe. Cícero. Esse padre, influenciado por seu predecessor nas missões do sertão nordestino, Pe. Ibiapina, fez de sua vida uma radical opção pelos pobres. São das mesma linhagem os “beatos e beatas”, como Zé Lourenço, Maria Araújo e Conselheiro, pessoas que sentiram chamadas a dedicar suas vidas às populações esquecidas daquele tempo. Influenciados por Ibiapina, esses homens e mulheres fundaram suas comunidades inspirados nas primeiras comunidades citadas nos Atos dos Apóstolos.

É bom lembrar que há 150 anos, em tempos de seca, o sertão era praticamente um deserto. Foi aos famintos, sedentos, vítimas do cólera pela água contaminada, aos órfãos, que esses homens e mulheres dedicaram a plenitude de suas vidas. Por isso, para muitos, eles são os pioneiros no Brasil das atuais comunidades eclesiais de base e também da Teologia da Libertação, já que o ponto de partida eram os pobres, não como objetos de caridade, mas como sujeitos de sua história já ao final do século XIX.

Segundo, pela primeira vez um papa envia uma carta de apoio às comunidades eclesiais de base. O contentamento dos presentes era visível. Afinal, durante as últimas décadas, em grande parte do Brasil e do continente, essas comunidades foram abandonadas, quando não perseguidas e caluniadas, sobretudo por aqueles que desejam uma Igreja distante do povo e fechada em si mesma. Por isso, o povo também enviou uma carta de gratidão ao Papa.

Terceiro elemento é que não havia euforia e nem triunfalismo no Juazeiro do Norte, mesmo que tenha sido um evento grandioso, com belíssima liturgia e momentos de entusiasmo. Todos estão conscientes que, se a Igreja quer ser mesmo uma “rede de comunidades”, como diz o documento 104 da CNBB, então cabe um desafio pastoral imenso de formação das comunidades eclesiais de base, de retomada de sua organização, de apoio na formação em todos os níveis, da criação de espaços que lhes sejam próprios, liberação de pessoas, recursos e tudo mais que se faz necessário no cotidiano pastoral.

O novo é que elas sejam também missionárias, formando novas comunidades e novas lideranças. Além do mais, agora estamos em pleno século XXI, um contexto de mudança de época, com as novas tecnologias, as redes sociais, a pluralidade religiosa, pluralidade de valores, as mudanças radicais no clima do planeta, assim por diante. Esse é o desafio: como continuar tendo a inspiração originárias das primeiras comunidades num mundo em imensurável transformação?

Como será o futuro só a história dirá. Porém, quem tiver um pouco de boa vontade, pode ver aí claros sinais dos tempos.

Roberto Malvezzi (Gogó)

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Querido irmão, bispo de Roma e pastor primaz da unidade, Papa Francisco,

Nós, cristãos e cristãs, leigos das comunidades eclesiais de base, agentes de pastoral, religiosos/as, diáconos, padres e bispos, assim como irmãos de Igrejas evangélicas e de outras tradições religiosas. Também tivemos conosco nesse encontro representantes de povos indígenas, quilombolas e ainda irmãos e irmãs, vindos de outros países da América Latina e Caribe, assim como de outros continentes. Todos nós que participamos do 13º Encontro intereclesial das comunidades eclesiais de base queremos expressar ao senhor nosso agradecimento pela bela e profunda carta que nos enviou e foi lida no início desse encontro. Sua carta nos chegou como uma luz a iluminar o caminho, reacendendo em nós a esperança numa Igreja, Povo de Deus.

Aproveitamos a oportunidade para nos unir ao seu esforço por renovar as Igrejas da comunhão católico-romana, de acordo com a teologia e a espiritualidade do Concílio Vaticano II, relidas e atualizadas pelas necessidades do mundo atual e pela urgência de que nós, cristãos, escutemos “o que o Espírito diz hoje às Igrejas” (Cf. Ap 2, 7).

Percebemos que a maioria da humanidade acolhe com gratidão o seu testemunho de homem de profunda simplicidade e que se revela discípulo de Jesus na linha do evangelho. Nós lhe agradecemos por fazer do ministério papal uma profecia contra a economia de exclusão, que hoje domina o mundo e defender os migrantes e clandestinos pobres da África e de outros continentes. Igualmente lhe agradecemos por reconhecer o papel da mulher na caminhada eclesial e esperamos que essa reflexão seja aprofundada.

Aqui em Juazeiro do Norte, CE, diocese de Crato, as comunidades eclesiais de base reafirmam sua vocação, no jeito de ser Igreja das primeiras comunidades e também no espírito das missões populares e das casas de caridade do Padre Ibiapina, do padre Cícero Romão Batista, do leigo José Lourenço, assim como de tantas mulheres santas como Maria Araújo, irmãos e irmãs que nos precederam nesse caminho de sermos Igreja dos pobres e com os pobres, cebs romeiras do campo e da cidade, na comunhão com a Mãe Terra e toda a natureza. Aqui, acolhemos e nos solidarizamos com os povos indígenas, ameaçados no seu direito à posse de suas terras ancestrais e todos os dias vítimas de violência e até de assassinato. Também nos impressionou o relato de extermínio de jovens pobres e negros, em várias regiões do nosso país. E nos solidarizamos com a luta e resistência dos quilombolas e do povo lavrador, ameaçados pelos grandes projetos do Capitalismo depredador do ambiente e injusto para com a maioria da humanidade.

Entre suas palavras e gestos, algo que nos toca muito de perto é o fato do senhor se apresentar como bispo de Roma e primaz da unidade das Igrejas. Essa atitude básica permitirá retomar o reconhecimento que o Concílio Vaticano II fez da plena eclesialidade das Igrejas locais e encontrar a profunda verdade que esse nosso encontro quer expressar, ao se chamar “intereclesial” de Cebs: um encontro de igrejas locais, reunidas a partir das comunidades eclesiais de base e desse modo da Igreja ser. Conte conosco nesse caminho e que Deus o ilumine e o fortaleça sempre.

Despedimo-nos, nos comprometemos de sempre orar pelo senhor e por todas as suas intenções. Pedimos sua bênção apostólica e nos colocamos à sua disposição para vivermos juntos a justiça e a profecia a serviço da vida. Na festa do Batismo de Jesus de 2014.

13º Encontro Intereclesial das CEBs, Juazeiro do Norte, Ceará, 11 de janeiro de 2014.


 (Criado por: Secretariado do 13ª Intereclesial – 11/01/2014)

 

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É a crise de João Batista!  Ele mesmo que já havia reconhecido em Jesus o próprio Cristo! De fato no capítulo 3 vers. 14 do Evangelho de Mateus se lê que João Batista havia dito a Jesus: “Sou eu que devo ser batizado por ti”, portanto ele tinha reconhecido em Jesus o Messias. No entanto, João Batista entra em crise. Em crise porque havia anunciado um Messias justiceiro, um Messias que teria severamente castigado os pecadores.

João Batista havia usado imagens terríveis como ‘a palha lançada ao fogo’, ‘a arvore que não dá fruto e que é cortada’.

Pois bem, em Jesus não vai manifestar-se nada de tudo isso. Jesus, expressão do amor de Deus, oferece o seu amor a todos e todas. Para fazer compreender este amor, Jesus o compara ao sol, que brilha para todos, bons e maus, à água que cai sobre todos, merecedores e indignos, porque Deus é Amor e o seu amor não julga, não condena, mas simplesmente é oferecido a todos.

E João Batista entra em crise.

Vamos ler o evangelho: “João estava na prisão”. Em seguida, no capítulo 14, Mateus nos dirá o porquê: ele havia denunciado o rei Herodes que tinha tomado como esposa a própria cunhada, tirando-a do seu irmão. Por isso estava na prisão!     “Quando ouviu falar das obras do Messias”... Mas estas obras de Cristo não eram as que ele havia anunciado!

Estas obras são bem diferentes, são comunicações de vida. “Enviou a Ele alguns discípulos...”.  Aqui aparecem os discípulos de João. Neste evangelho estes discípulos já foram muito críticos em relação a Jesus sobre a questão do jejum, tanto é que se associaram até com os inimigos de Jesus, os fariseus. “... Para lhe perguntarem”. Aqui essa pergunta tem todo o sabor de um ‘ultimato’, de uma ‘excomunhão’. "És tu aquele que há de vir” - expressão que indicava o Messias - “ou devemos esperar outro”?

Porque Jesus opera exatamente o contrário de quanto João Batista tinha anunciado! João Batista tinha apresentado Jesus como o novo Moisés que deveria de novo fazer acontecer as famosas dez pragas para libertar o povo e punir e expulsar os inimigos. Pois bem, neste evangelho, no evangelho de Mateus, no lugar das dez pragas são relatadas dez ações de Jesus, com as quais Ele comunica vida até mesmos aos inimigos: ressuscita a filha do chefe da sinagoga.

Enquanto nas pragas havia sido morto o filho do Faraó, Jesus ressuscita a filha do chefe da sinagoga.

Pois bem, Jesus não polemiza e sim apresenta fatos. Diz: “voltem e contem a João o que vocês estão ouvindo e vendo”. E aqui Jesus enumera seis ações anunciadas como ações tradicionais do Messias como encontramos nos capítulos 35 e 61 de Isaias, “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia”. Isso significa que “é anunciado o Evangelho”.

Está certo, porém tem mais: Jesus, mesmo citando Isaias, o censura. De fato, evita nestas duas citações dos capítulos 35 e 61 os dois versículos que falam de vingança contra os inimigos, contra os pagãos. Deus é Amor que comunica vida e, portanto, não vem para julgar, nem para condenar ou destruir.

E eis aqui a advertência de Jesus: “E bem-aventurado” – isto é, plenamente feliz – “aquele que não se escandaliza por causa de mim!”.

O escândalo é o da misericórdia! Um Deus que não recompensa os bons, nem castiga os maus, mas a todos - bons e maus - oferece seu amor: isto sim era motivo de escândalo para todos aqueles que estavam acostumados a uma mentalidade religiosa tradicional.

 “Os discípulos de João partiram”. A falta de reação dos discípulos indica desaprovação.

Jesus elogia João Batista, apesar de que ele o tivesse criticado e quase ameaçado! De fato pergunta ao povo, à multidão: "O que é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento”? Este caniço agitado pelo vento, além de referir-se a uma famosa e conhecida fábula de Esopo - o caniço que é flexível, mas resiste e a oliveira, árvore forte, que, porém é arrancada pela tempestade - tem também uma clara referência a Herodes, porque quando ele construiu sua capital, Tiberíades, nas margens do lago da Galiléia, cunhou também moedas (na cultura hebraica não era possível representar formas humanas) com caniços do lago de Tiberíades.

O caniço, portanto, o que é? O caniço é a imagem do oportunista, que consegue sempre ficar à tona e, para se garantir no poder, está pronto a sujeitar-se a qualquer situação.     

Eis o sentido da pergunta: “Foram ver um caniço agitado pelo vento”?  Não, porque João Batista não chegou a nenhum compromisso, nem pactuou acordos, aliás, teve a coragem de denunciar o seu rei.

“O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de reis”.  Aqueles que vestem roupas de luxo moram nos palácios dos reis: cortesãos, sempre obsequiosos aos poderosos do momento, os vira-casaca capazes de mudar sempre de ideias e de time desde que possam conservar seu prestígio e seu poder!

 “Então, o que é que vocês foram ver? Um profeta? Eu lhes afirmo que sim: alguém que é mais do que um profeta”. E, citando o livro do Êxodo e também com uma referência ao profeta Malaquias, Jesus diz: “'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente”. Portanto João Batista é visto como o mensageiro que preparou o caminho para o seu povo e preparou a estrada ao Messias! “Ele vai preparar o teu caminho diante de ti”. 

Portanto, Jesus, diante da pergunta/ultimato de João Batista: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?”, confirma que é Ele mesmo o que há de vir.

E logo aponta João Batista como quem foi o seu ‘abre-caminho’, o seu precursor. E depois, em forma solene, Jesus afirma: “Eu garanto - Amém - a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista”.  Elogio maravilhoso: João Batista é o maior de todos os homens que já nasceram até agora, porém Jesus acrescenta: “No entanto, o menor no Reino do Céu...”, isto é, na comunidade que Jesus veio inaugurar, “...é maior do que ele”.  

Porque? João Batista é como Moisés. Guiou o povo para a libertação, mas como Moisés não entrou na terra prometida, também João Batista não conseguiu entrar no Reino do céu. Não basta ser o maior de todos os nascidos até agora, é preciso um novo nascimento, que acontece através da escolha da conversão e da mudança de vida.  É o Nascimento no Espírito. Só assim pode- se entrar no Reino de Deus, isto é, a nova comunidade, a nova sociedade que Jesus veio inaugurar.

E João Batista não foi capaz de chegar lá!

Pe. Alberto Maggi

Teólogo e biblista italiano

Publicado em Roteiro Homilético

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