"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."
Segunda, 18 Janeiro 2016 14:25

Na mesma direção (3° Dom TC)

Antes de começar a narrar a atividade de Jesus, Lucas quer deixar muito claro aos seus leitores qual é a paixão que impulsiona o Profeta da Galileia e qual é a meta de toda a Sua atuação. Os cristãos têm de saber em que direção empurra Jesus o Espírito de Deus, pois segui-lo é precisamente caminhar na Sua mesma direção.

Lucas descreve com todo o detalhe o que faz Jesus na sinagoga da Sua aldeia: põem-se de pé, recebe o livro sagrado, procura ele mesmo uma passagem de Isaías, lê o texto, fecha o livro, devolve-o e senta-se. Todos hão de escutar com atenção as palavras escolhidas por Jesus pois expõem a tarefa a que se sente enviado por Deus.

Surpreendentemente, o texto não fala de organizar uma religião mais perfeita ou de implantar um culto mais digno, mas de comunicar libertação, esperança, luz e graça aos mais pobres e desgraçados. Eis o que lê. «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Me ungiu. Enviou-me a anunciar a Boa Nova aos pobres, para anunciar aos cativos a liberdade, e aos cegos a vista. Para dar liberdade aos oprimidos; para anunciar o ano da graça do Senhor». Ao terminar, diz-lhes: «Hoje cumpre-se esta Escritura que acabais de ouvir».

O Espírito de Deus está em Jesus enviando-O aos pobres, orientando toda a Sua vida para os mais necessitados, oprimidos e humilhados. É nesta direção que têm de trabalhar os Seus seguidores. Esta é a orientação que Deus, encarnado em Jesus, quer imprimir à história humana. Os últimos hão de ser os primeiros em conhecer essa vida mais digna, liberta e ditosa que Deus quer já desde agora para todos os Seus filhos e filhas.

Não temos de o esquecer. A «opção pelos pobres» não é uma invenção de uns teólogos do século vinte, nem uma moda posta em circulação depois do Vaticano II. É a opção do Espírito de Deus que anima a vida inteira de Jesus, e que os Seus seguidores têm de introduzir na história humana. Dizia-o Paulo VI: é um dever da Igreja «ajudar a que nasça a libertação…e fazer que seja total».

Não é possível viver e anunciar Jesus Cristo se não é desde a defesa dos últimos e a solidariedade com os excluídos. Se o que fazemos e proclamamos desde a Igreja de Jesus não é captado como algo bom e libertador pelos que mais sofrem, que evangelho estamos a predicar? Que Jesus estamos a seguir? A que nos estamos a dedicar? Dito de forma mais clara: que impressão têm os cristãos? Estamos caminhando na mesma direção que Jesus?

 

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 11 Janeiro 2016 08:51

Linguagem de gestos (2° Dom TC)

O evangelista João diz-nos que Jesus fez «milagres» e «prodígios». Ele chama-lhes «sinais» porque são gestos que apontam em direção a algo mais profundo do que podem ver os nossos olhos. Em concreto, os sinais que Jesus realiza, orientam para a Sua pessoa e mostra-nos a Sua força salvadora.

O sucedido em Canaan da Galileia é o começo de todos os sinais. O protótipo dos que Jesus irá levando a cabo ao longo da Sua vida. Nessa «transformação da água em vinho» é-nos proposta a chave para captar o tipo de transformação salvadora que opera Jesus e o que, em Seu nome, hão de oferecer os Seus seguidores.

Tudo ocorre durante um casamento, a festa humana por excelência, o símbolo mais expressivo do amor, a melhor imagem da tradição bíblica para evocar a comunhão definitiva de Deus com o ser humano. A salvação de Jesus Cristo tem de ser vivida e oferecida pelos Seus seguidores como uma festa que dá plenitude às festas humanas quando estas ficam vazias «sem vinho» e sem capacidade de encher o nosso desejo de felicidade total.

O relato sugere algo mais. A água só pode ser saboreada como vinho quando, seguindo as palavras de Jesus, é «retirado» de seis grandes tinas de pedra, utilizadas pelos judeus para as suas purificações. A religião da lei escrita em tábuas de pedra está exausta; não há água capaz de purificar o ser humano. Essa religião há de ser liberta pelo amor e a vida que comunica Jesus.

Não se pode evangelizar de qualquer forma. Para comunicar a força transformadora de Jesus não bastam as palavras, são necessários os gestos. Evangelizar não é só falar, predicar ou ensinar; menos ainda, julgar, ameaçar ou condenar. É necessário atualizar, com fidelidade criativa, os sinais que Jesus fazia para introduzir a alegria de Deus tornando mais ditosa a vida dura de aqueles camponeses.

A muitos contemporâneos a palavra da Igreja deixa-os indiferentes. As nossas celebrações aborrecem-nos. Necessitam conhecer mais sinais próximos e amistosos por parte da Igreja para descobrir nos cristãos a capacidade de Jesus para aliviar o sofrimento e a dureza da vida.

Quem quererá escutar hoje o que já não se apresenta como notícia gozosa, especialmente se se faz invocando o evangelho com tom autoritário e ameaçador? Jesus Cristo é esperado por muitos como uma força e um estímulo para existir, e um caminho para viver de forma mais sensata e gozosa. Se só conhecem uma «religião aguada» e não podem saborear algo da alegria festiva que Jesus contagiava, muitos continuarão a afastar-se.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Quarta, 06 Janeiro 2016 06:48

Nova espiritualidade (Batismo do Senhor)

Espiritualidade é uma palavra desafortunada. Para muitos só pode significar algo inútil, afastado da vida real. Para que pode servir? O que interessa é o concreto e prático, o material, não o espiritual.

No entanto, o espírito de uma pessoa é algo valorizado na sociedade moderna, pois indica o mais profundo e decisivo da sua vida: a paixão que a anima, a sua inspiração última, o que contagia os outros, o que essa pessoa vai colocando no mundo.

O espírito alenta os nossos projetos e compromissos, configura o nosso horizonte de valores e a nossa esperança. Segundo o nosso espírito, assim será a nossa espiritualidade. E assim será também nossa religião e a nossa vida inteira.

Os textos que nos deixaram os primeiros cristãos mostram-nos que vivem a sua fé em Jesus Cristo como um forte movimento espiritual. Sentem-se habitados pelo Espírito de Jesus. Só é cristão quem foi batizado com esse Espírito. O que não tem o Espírito de Cristo não lhe pertence. Animados por esse Espírito, vivem-No todo de forma nova.

O primeiro que muda radicalmente é a sua experiência de Deus. Não vivem já com espírito de escravos, cansados pelo medo a Deus, mas com espírito de filhos que se sentem amados de forma incondicional e sem limites por um Pai. O Espírito de Jesus faz gritar-lhes do fundo do seu coração: Abbá, Pai! Esta experiência é o primeiro que todos deveriam encontrar nas comunidades de Jesus.

Muda também a sua forma de viver a religião. Já não se sentem prisioneiros da lei, das normas e dos preceitos, mas libertos pelo amor. Agora conhecem o que é viver com um espírito novo, escutando a chamada do amor e não com a letra velha, ocupados em cumprir obrigações religiosas. Este é o clima que entre todos temos de cuidar e promover nas comunidades cristãs, se queremos viver como Jesus.

Descobrem também o verdadeiro conteúdo do culto a Deus. O que agrada ao Pai não são os ritos vazios de amor, mas que vivamos no espírito e na verdade. Essa vida vivida com o espírito de Jesus e da verdade do Seu evangelho é para os cristãos o seu autêntico culto espiritual.

Não temos de esquecer o que Paulo de Tarso dizia às suas comunidades: Não apagueis o Espírito. Uma igreja apagada, vazia do espírito de Cristo, não pode viver nem comunicar a sua verdadeira Natividade. Não pode saborear nem contagiar a sua Boa Nova. Cuidar da espiritualidade cristã é reavivar a nossa religião.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Terça, 22 Dezembro 2015 09:43

Que família? (Festa da Sagrada Família)

Sua mãe guardava tudo em seu coração.

Hoje é o Dia da Família Cristã. Uma festa estabelecida recentemente para que nós, cristãos, celebremos e investiguemos como que pode ser um projeto familiar entendido e vivido a partir do espírito de Jesus.

Não basta defender de maneira abstrata o valor da família. Tampouco é suficiente imaginar a vida familiar segundo o modelo da família de Nazaré, idealizada desde nossa concepção de uma família tradicional. Seguir Jesus pode exigir as vezes questionar e transformar esquemas e costumes muito enraizados em nós.

A família não é para Jesus algo absoluto e intocável. Mais ainda. O decisivo não é a família de sangue, e sim essa grande família que devemos ir construindo a partir dos humanos, escutando o desejo do único Pai de todos. Inclusive seus pais terão que aprender, não sem problemas e conflitos.

Segundo o relato de Lucas, os pais de Jesus o buscam enlutados, ao descobrir que Ele os abandonara sem preocupar-se com eles. Como pode fazer assim? Sua mãe o repreende quando o encontra: “Filho, por que nos trata assim? Veja como teu pai e eu o procurávamos angustiados.”

Jesus os surpreende com uma resposta inesperada: “Por que me procuravas? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”.

Seus pais “não o compreenderam”. Só investigando em suas palavras e em seu comportamento de pronto, sua família descobriu progressivamente que, para Jesus, o primeiro é a família humana: uma sociedade mais fraterna, justa e solidária, tal como quer Deus.

Não podemos celebrar responsavelmente a festa de hoje sem escutar direito nossa fé. Como são nossas famílias? Vivem comprometidas com uma sociedade melhor e mais humana, ou fechadas exclusivamente em seus próprios interesses? Educam para a solidariedade, a busca da paz, a sensibilidade aos necessitados, a compaixão, ou ensinam a viver para seu próprio bem estar insaciável,  ao máximo de lucro e esquece dos demais?

Que está acontecendo em nossos lares? Cuida-se da fé, recorda-se de Jesus Cristo, aprende-se a rezar, ou só transmite indiferença, incredulidade e vazio de Deus? Educa-se para viver a partir de uma consciência moral responsável, sadia, coerente com a fé cristã, ou se favorece um estilo de vida superficial, sem metas nem ideais, sem critérios e sem sentido?

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradução livre: Dervile Alonço)

 

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 14 Dezembro 2015 10:04

Traços de Maria (4° Dom Advento)

A visita de Maria a Isabel permite ao evangelista Lucas colocar em contato João Batista e Jesus antes inclusive de terem nascido. A cena está carregada de uma atmosfera muito especial. As duas vão ser mães. As duas foram chamadas a colaborar no plano de Deus. Não há homens. Zacarias ficou mudo. José está surpreendentemente ausente. As duas mulheres ocupam toda a cena.

Maria chegou depressa desde Nazaré e converte-se na figura central. Tudo gira em torno dela e do seu Filho. A sua imagem brilha com uns traços mais genuínos que muitos outros que lhe foram acrescentados posteriormente a partir de atributos e títulos mais afastados do clima dos evangelhos.

Maria, «a mãe do meu Senhor». Assim o proclama Isabel aos gritos e cheia do Espírito Santo. É certo: para os seguidores de Jesus, Maria é, antes que nada, a Mãe do nosso Senhor. Este é o ponto de partida de toda a sua grandeza. Os primeiros cristãos nunca separam Maria de Jesus. São inseparáveis. «Bendita por Deus entre todas as mulheres», ela oferece-nos Jesus, «fruto bendito do seu ventre».

Maria, a crente. Isabel declara-a ditosa porque «acreditou». Maria é grande não apenas pela sua maternidade biológica, mas por ter acolhido com fé a chamada de Deus para ser Mãe do Salvador. Soube escutar Deus; guardou a Sua palavra dentro do seu coração; meditou; pôs em prática cumprindo fielmente a sua vocação. Maria é Mãe crente.

Maria, a evangelizadora. Maria oferece a todos a salvação de Deus que acolheu no seu próprio Filho. Esse é o seu grande mistério e o seu serviço. Segundo o relato, Maria evangeliza não só com os seus gestos e palavras, mas porque além onde se vai leva consigo a pessoa de Jesus e o Seu Espírito. Isto é o essencial do ato evangelizador.

Maria, portadora de alegria. A saudação de Maria contagia a alegria que brota do Seu Filho Jesus. Ela foi a primeira a escutar o convite de Deus: «Alegra-te… o Senhor está contigo». Agora, desde una atitude de serviço e de ajuda a quem a necessita, Maria irradia a Boa Nova de Jesus, o Cristo, a quem sempre leva consigo. Ela é para a Igreja o melhor modelo de uma evangelização gozosa.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 07 Dezembro 2015 08:23

Repartir com os que não tem (3° Dom Advento)

A palavra do Batista a partir do deserto tocou o coração das pessoas. A sua chamada à conversão e ao início de uma vida mais fiel a Deus despertou em muitos deles uma pergunta concreta: Que devemos fazer? É a pergunta que brota sempre em nós quando escutamos uma chamada radical e não sabemos como concretizar a nossa resposta.

O Batista não lhes propõe ritos religiosos nem tampouco normas nem preceitos. Não se trata propriamente de fazer coisas nem de assumir deveres, mas de ser de outra maneira, viver de forma mais humana, desenvolver algo que está já no nosso coração: o desejo de uma vida mais justa, digna e fraterna.

O mais decisivo e realista é abrir o nosso coração a Deus olhando atentamente as necessidades dos que sofrem. O Batista sabe resumir-lhes a sua resposta com uma fórmula genial pela sua simplicidade e verdade: «O que tenha duas túnicas, que as reparta com o que não tem; e o que tenha comida faça o mesmo». Assim simples e claro.

Que podemos dizer ante estas palavras, quem vive num mundo onde mais de um terço da humanidade vive na miséria lutando cada dia por sobreviver, enquanto nós continuamos a encher os nossos armários com todo o tipo de túnicas e temos os nossos frigoríficos repletos de comida?

E que podemos dizer, os cristãos, ante esta chamada tão simples e tão humana? Não teremos de começar a abrir os olhos do nosso coração para tomar uma consciência mais viva dessa insensibilidade e escravidão que nos mantém, submetidos a um bem-estar que nos impede ser mais humanos?

Enquanto nós continuamos preocupados, e com razão, com muitos aspectos do momento atual do cristianismo, não nos damos conta de que vivemos «cativos de uma religião burguesa». O cristianismo, tal como nós o vivemos, não parece ter força para transformar a sociedade do bem-estar. Pelo contrário, é esta que está a desvirtuar o melhor da religião de Jesus, esvaziando a nossa capacidade de seguir Cristo em valores tão genuínos como a solidariedade, a defesa dos pobres, a compaixão e a justiça.

Por isso, temos de valorizar e agradecer muito mais o esforço de tantas pessoas que se revoltam contra este «cativeiro», comprometendo-se em gestos concretos de solidariedade e cultivando um estilo de vida mais simples, austero e humano.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 30 Novembro 2015 10:21

No marco do deserto (2° Dom Advento)

Lucas tem interesse em indicar com detalhes o nome dos personagens que controlam naquele momento as diferentes esferas do poder político e religioso. Eles são quem planifica e dirige tudo. No entanto, o acontecimento decisivo de Jesus Cristo prepara-se e acontece fora do seu âmbito de influência e poder, sem que eles tomem conhecimento nem decidam nada.

Assim aparece sempre o essencial no mundo e nas nossas vidas. Assim penetra na história humana a graça e a salvação de Deus. O essencial não está nas mãos dos poderosos. Lucas diz concisamente que «a Palavra de Deus veio sobre João no deserto», não na Roma imperial nem no recinto sagrado do Templo de Jerusalém.

Em nenhuma parte se pode escutar melhor que no deserto, a chamada de Deus para mudar o mundo. O deserto é um território da verdade. O lugar onde se vive do essencial. Não há sítio para o supérfluo. Não se pode viver acumulando coisas sem necessidade. Não é possível o luxo nem a ostentação. O decisivo é procurar o caminho acertado para orientar a vida.

Por isso, alguns profetas recordam tanto o deserto, símbolo de uma vida mais simples e melhor enraizada no essencial, uma vida todavia sem distorções por tantas infidelidades a Deus e tantas injustiças com o povo. Neste marco do deserto, João Batista anuncia o símbolo grandioso do «Batismo», ponto de partida de conversão, purificação, perdão e início de vida nova.

Como responder hoje a esta chamada? O Batista resume-o numa imagem tomada de Isaías: «Preparai o caminho do Senhor». As nossas vidas estão semeadas de obstáculos e resistências que impedem ou dificultam a chegada de Deus aos nossos corações e comunidades, à nossa Igreja e ao nosso mundo. Deus está sempre próximo. Somos nós os que temos de abrir caminhos para acolhe-Lo encarnado em Jesus.

As imagens de Isaías convidam a compromissos muito básicos e fundamentais: cuidar melhor do essencial sem nos distrairmos com o secundário; retificar o que temos vindo a deformar entre todos; tomar caminhos difíceis; afrontar a verdade real das nossas vidas para recuperar um perfil de conversão. Temos de cuidar bem dos batismos das nossas crianças, mas o que necessitamos todos é um «batismo de conversão».

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 23 Novembro 2015 11:42

Estejam sempre despertos (1° Dom Advento)

Os discursos apocalípticos recolhidos nos evangelhos refletem os medos e a incerteza daquelas primeiras comunidades cristãs, frágeis e vulneráveis, que viviam no meio do vasto Império romano, entre conflitos e perseguições, com um futuro incerto, sem saber quando chegaria Jesus, o Seu amado Senhor.

Também as exortações desses discursos representam, em boa parte, as exortações que faziam uns aos outros aqueles cristãos recordando a mensagem de Jesus. Essa chamada a viver despertos cuidando da oração e da confiança são um traço original e característico do Seu Evangelho e da Sua oração.

Por isso, as palavras que escutamos hoje, depois de muitos séculos, não estão dirigidas a outros destinatários. São chamadas que temos de escutar os que vivemos agora na Igreja de Jesus no meio das dificuldades e incertezas destes tempos.

A Igreja atual marcha por vezes como uma anciã «curvada» pelo peso dos séculos, as lutas e trabalhos do passado. «Com a cabeça baixa», consciente dos seus erros e pecados, sem poder mostrar com orgulho a glória e o poder de outros tempos.

Este é o momento de escutar a chamada que Jesus nos faz a todos.

«Levantai-vos», animai-vos uns aos outros. «Erguei a cabeça» com confiança. Não olheis o futuro apenas a partir dos vossos cálculos e previsões. «Aproxima-se a vossa libertação». Um dia já não vivereis encurvados, oprimidos nem tentados pelo desalento. Jesus Cristo é o vosso Libertador.

Mas há formas de viver que impedem a muitos caminhar com a cabeça levantada confiando nessa libertação definitiva. Por isso, «tende cuidado de que não se entorpeça a mente». Não vos acostumeis a viver com um coração insensível e endurecido, procurando levar a vossa vida de bem-estar e prazer, de costas ao Pai do Céu e aos Seus filhos que sofrem na terra. Esse estilo de vida vos fará cada vez menos humanos.

«Estai sempre despertos». Despertai a fé nas vossas comunidades. Estai mais atentos ao Meu Evangelho. Cuidai melhor da Minha presença no meio de vos. Não sejais comunidades adormecidas. Vivei «pedindo força». Como seguiremos os passos de Jesus se o Pai não nos sustem? Como poderemos «manter-nos em pé ante o Filho do Homem»?

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético

Dentro do processo em que se vai decidir a execução de Jesus, o evangelho de João oferece um surpreendente diálogo privado entre Pilatos, representante do império mais poderoso da Terra e Jesus, um réu algemado que se apresenta como testemunha da verdade.

Precisamente, Pilatos quer, ao que parece, saber a verdade que se encerra naquele estranho personagem que tem ante o seu trono: «És Tu o Rei dos judeus?». Jesus vai responder expondo a Sua verdade nas afirmações fundamentais, muito queridas ao evangelista João.

«O Meu reino não é deste mundo». Jesus não é rei ao estilo que Pilatos pode imaginar. Não pretende ocupar o trono de Israel nem disputar a Tibério o seu poder imperial. Jesus não pertence a esse sistema em que se move o prefeito de Roma, sustentado pela injustiça e a mentira. Não se apoia nas forças das armas. Tem um fundamento completamente diferente. A Sua realeza provem do amor de Deus ao mundo.

Mas acresce na continuação algo de muito importante: «Sou rei e vim ao mundo para ser testemunha da verdade». É neste mundo onde quer exercer a Sua realeza, mas de una forma surpreendente.

Não vem governar como Tibério mas ser «testemunha da verdade» introduzindo o amor e a justiça de Deus na história humana.

Esta verdade que Jesus trás consigo não é uma doutrina teórica. É uma chamada que pode transformar a vida dos personagens. Tinha dito Jesus: «Se vos mantendes fiéis à Minha Palavra… conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres». Ser fiéis ao Evangelho de Jesus é uma experiência única pois leva a conhecer uma verdade libertadora, capaz de fazer a nossa vida mais humana.

Jesus Cristo é a única verdade para a vivência dos cristãos.

- Não necessitaremos na Igreja de Jesus de fazer um exame de consciência coletivo ante o «Testemunho da Verdade»?

- Atrever-nos a discernir com humildade o que há de verdade e o que há de mentira no nosso seguir a Jesus?

- Onde há verdade libertadora e onde há mentira que nos escraviza?

- Não necessitamos dar passos para maiores níveis da verdade humana e evangélica em nossas vidas, nossas comunidades e nossas instituições?


José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

 

Publicado em Roteiro Homilético
Segunda, 09 Novembro 2015 12:26

Convicções cristãs (33° Dom TC)

Pouco a pouco iam morrendo os discípulos que tinham conhecido Jesus. Os que ficavam, acreditavam Nele sem o ter visto. Celebravam a Sua presença invisível nas eucaristias, mas quando veriam o Seu rosto cheio de vida? Quando se cumpriria o seu desejo de encontrarem-se com Ele para sempre?

Continuavam a recordar com amor e com fé as palavras de Jesus. Eram o seu alimento naqueles tempos difíceis de perseguição. Mas, quando poderiam comprovar a verdade que encerravam? Não se iriam esquecendo pouco a pouco? Passavam os anos e não chegava o Dia Final tão esperado, que podiam pensar?

O discurso apocalíptico que encontramos em Marcos quer oferecer algumas convicções que hão de alimentar a sua esperança. Não o temos de entender em sentido literal, mas procurando descobrir a fé contida nessas imagens e símbolos que hoje nos resulta tão estranhos.

Primeira convicção: A história apaixonante da Humanidade chegará um dia ao seu fim

«sol» que assinala a sucessão dos anos apagar-se-á. A «lua» que marca o ritmo dos meses já não brilhará. Não haverá dias e noites, não haverá tempo. Também, «as estrelas cairão do céu», a distância entre o céu e a terra se apagará, já não haverá espaço. Esta vida não é para sempre. Um dia chegará a Vida definitiva, sem espaço nem tempo. Viveremos no Mistério de Deus.

Segunda convicção: Jesus voltará e os Seus seguidores poderão ver por fim o Seu desejado rosto: «verão vir o Filho do Homem»

O sol, a lua e os astros apagar-se-ão, mas o mundo não ficará sem luz. Será Jesus quem o iluminará para sempre pondo verdade, justiça e paz na história humana tão escrava hoje de abusos, injustiças e mentiras.

Terceira convicção: Jesus irá trazer consigo a salvação de Deus

Vem com o poder grande e salvador do Pai. Não se apresenta com aspecto ameaçador. O evangelista evita falar aqui de juízos e condenações. Jesus vem a «reunir os Seus eleitos», os que esperam com fé a sua salvação.

Quarta convicção: As palavras de Jesus «não passarão»

Não perderão a sua força salvadora. Seguirão alimentando a esperança dos seus seguidores e o alento dos pobres. Não caminhamos em direção ao nada e ao vazio. Espera-nos o abraço com Deus.

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

(Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez)

Publicado em Roteiro Homilético
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