"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."
Sábado, 14 Dezembro 2013 15:30

És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro? (3° Dom Advento)

Escrito por  Pe. Alberto Maggi
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É a crise de João Batista!  Ele mesmo que já havia reconhecido em Jesus o próprio Cristo! De fato no capítulo 3 vers. 14 do Evangelho de Mateus se lê que João Batista havia dito a Jesus: “Sou eu que devo ser batizado por ti”, portanto ele tinha reconhecido em Jesus o Messias. No entanto, João Batista entra em crise. Em crise porque havia anunciado um Messias justiceiro, um Messias que teria severamente castigado os pecadores.

João Batista havia usado imagens terríveis como ‘a palha lançada ao fogo’, ‘a arvore que não dá fruto e que é cortada’.

Pois bem, em Jesus não vai manifestar-se nada de tudo isso. Jesus, expressão do amor de Deus, oferece o seu amor a todos e todas. Para fazer compreender este amor, Jesus o compara ao sol, que brilha para todos, bons e maus, à água que cai sobre todos, merecedores e indignos, porque Deus é Amor e o seu amor não julga, não condena, mas simplesmente é oferecido a todos.

E João Batista entra em crise.

Vamos ler o evangelho: “João estava na prisão”. Em seguida, no capítulo 14, Mateus nos dirá o porquê: ele havia denunciado o rei Herodes que tinha tomado como esposa a própria cunhada, tirando-a do seu irmão. Por isso estava na prisão!     “Quando ouviu falar das obras do Messias”... Mas estas obras de Cristo não eram as que ele havia anunciado!

Estas obras são bem diferentes, são comunicações de vida. “Enviou a Ele alguns discípulos...”.  Aqui aparecem os discípulos de João. Neste evangelho estes discípulos já foram muito críticos em relação a Jesus sobre a questão do jejum, tanto é que se associaram até com os inimigos de Jesus, os fariseus. “... Para lhe perguntarem”. Aqui essa pergunta tem todo o sabor de um ‘ultimato’, de uma ‘excomunhão’. "És tu aquele que há de vir” - expressão que indicava o Messias - “ou devemos esperar outro”?

Porque Jesus opera exatamente o contrário de quanto João Batista tinha anunciado! João Batista tinha apresentado Jesus como o novo Moisés que deveria de novo fazer acontecer as famosas dez pragas para libertar o povo e punir e expulsar os inimigos. Pois bem, neste evangelho, no evangelho de Mateus, no lugar das dez pragas são relatadas dez ações de Jesus, com as quais Ele comunica vida até mesmos aos inimigos: ressuscita a filha do chefe da sinagoga.

Enquanto nas pragas havia sido morto o filho do Faraó, Jesus ressuscita a filha do chefe da sinagoga.

Pois bem, Jesus não polemiza e sim apresenta fatos. Diz: “voltem e contem a João o que vocês estão ouvindo e vendo”. E aqui Jesus enumera seis ações anunciadas como ações tradicionais do Messias como encontramos nos capítulos 35 e 61 de Isaias, “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia”. Isso significa que “é anunciado o Evangelho”.

Está certo, porém tem mais: Jesus, mesmo citando Isaias, o censura. De fato, evita nestas duas citações dos capítulos 35 e 61 os dois versículos que falam de vingança contra os inimigos, contra os pagãos. Deus é Amor que comunica vida e, portanto, não vem para julgar, nem para condenar ou destruir.

E eis aqui a advertência de Jesus: “E bem-aventurado” – isto é, plenamente feliz – “aquele que não se escandaliza por causa de mim!”.

O escândalo é o da misericórdia! Um Deus que não recompensa os bons, nem castiga os maus, mas a todos - bons e maus - oferece seu amor: isto sim era motivo de escândalo para todos aqueles que estavam acostumados a uma mentalidade religiosa tradicional.

 “Os discípulos de João partiram”. A falta de reação dos discípulos indica desaprovação.

Jesus elogia João Batista, apesar de que ele o tivesse criticado e quase ameaçado! De fato pergunta ao povo, à multidão: "O que é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento”? Este caniço agitado pelo vento, além de referir-se a uma famosa e conhecida fábula de Esopo - o caniço que é flexível, mas resiste e a oliveira, árvore forte, que, porém é arrancada pela tempestade - tem também uma clara referência a Herodes, porque quando ele construiu sua capital, Tiberíades, nas margens do lago da Galiléia, cunhou também moedas (na cultura hebraica não era possível representar formas humanas) com caniços do lago de Tiberíades.

O caniço, portanto, o que é? O caniço é a imagem do oportunista, que consegue sempre ficar à tona e, para se garantir no poder, está pronto a sujeitar-se a qualquer situação.     

Eis o sentido da pergunta: “Foram ver um caniço agitado pelo vento”?  Não, porque João Batista não chegou a nenhum compromisso, nem pactuou acordos, aliás, teve a coragem de denunciar o seu rei.

“O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de reis”.  Aqueles que vestem roupas de luxo moram nos palácios dos reis: cortesãos, sempre obsequiosos aos poderosos do momento, os vira-casaca capazes de mudar sempre de ideias e de time desde que possam conservar seu prestígio e seu poder!

 “Então, o que é que vocês foram ver? Um profeta? Eu lhes afirmo que sim: alguém que é mais do que um profeta”. E, citando o livro do Êxodo e também com uma referência ao profeta Malaquias, Jesus diz: “'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente”. Portanto João Batista é visto como o mensageiro que preparou o caminho para o seu povo e preparou a estrada ao Messias! “Ele vai preparar o teu caminho diante de ti”. 

Portanto, Jesus, diante da pergunta/ultimato de João Batista: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?”, confirma que é Ele mesmo o que há de vir.

E logo aponta João Batista como quem foi o seu ‘abre-caminho’, o seu precursor. E depois, em forma solene, Jesus afirma: “Eu garanto - Amém - a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista”.  Elogio maravilhoso: João Batista é o maior de todos os homens que já nasceram até agora, porém Jesus acrescenta: “No entanto, o menor no Reino do Céu...”, isto é, na comunidade que Jesus veio inaugurar, “...é maior do que ele”.  

Porque? João Batista é como Moisés. Guiou o povo para a libertação, mas como Moisés não entrou na terra prometida, também João Batista não conseguiu entrar no Reino do céu. Não basta ser o maior de todos os nascidos até agora, é preciso um novo nascimento, que acontece através da escolha da conversão e da mudança de vida.  É o Nascimento no Espírito. Só assim pode- se entrar no Reino de Deus, isto é, a nova comunidade, a nova sociedade que Jesus veio inaugurar.

E João Batista não foi capaz de chegar lá!

Pe. Alberto Maggi

Teólogo e biblista italiano

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