"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."
Segunda, 22 Abril 2013 05:07

O sentido do dízimo nos dias de hoje

Escrito por  Enio Felipin
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Olhar o dízimo apenas através das necessidades financeiras da comunidade é muito pobre. É evidente que a igreja necessita de recursos, para manter-se pastoralmente ativa, mas essa necessidade deverá incluir muitos outros critérios que coloquem todo o sentido da ação da Igreja no mundo, como comunidade sinal de salvação, perspectiva da dignidade da pessoa humana, criatura dependente de seu Criador.

Historicamente notamos que o sistema de manutenção das comunidades passou por variações dependendo da época. Nota-se, portanto, que foi experimentado no decorrer dos anos: o sistema de doações espontâneas como expressão da disponibilidade religiosa do homem e do espírito de sacrifício; o sistema de dízimo, fruto de uma legislação, com correspondente obrigação jurídica, portando, inclusive sanções; sistema de côngruas, no qual os ministros do culto eram “pagos” pelos governos; e o sistema de taxas, pagas por ocasião de certos serviços religiosos.

As doações espontâneas nunca foram suprimidas. Teologicamente elas são ricas de sentido, quando trazidas pelo homem com generosidade diante de Deus. Quando se fala do sistema do dízimo como forma de sustentação da comunidade, não se tem em vista suprir tais doações. O que acontece é que a comunidade nem sempre consegue viver exclusivamente de doações, que geralmente são ocasionais e então é extremamente necessário uma forma perene de subsistência da comunidade.

O sistema de dízimo manifesta-se infinitamente mais pastoral do que o sistema de taxas. Sucede que no sistema de taxas, cada cristão tem apenas visão do quanto contribui pessoalmente por ocasião de certos atos de culto. Por outro lado, não parece absolutamente pastoral se for sob forma de legislação com obrigação jurídica e sanção correspondente. Tão pouco parece viável a restauração do dízimo em seu sentido aritmético (10% dos rendimentos), como igualmente não seria equitativa a fixação de outra porcentagem qualquer (1% dos rendimentos ou centésimo). Isso imporia uma obrigação aritmética igual todos sem olhar as diferenças financeiras de cada. Estar-se-ia pedindo mais de quem tem menos e menos de quem tem mais. Repetimos novamente o princípio do direito que nos ensina: “Devemos tratar de forma desigual os desiguais”.

O sistema do dízimo parece pastoralmente rico, enquanto sistema de devolução sistemática (mensal, por exemplo); de compromisso moral com a comunidade (não jurídico); fixado de acordo com a consciência formada de cada um (sem índice aritmético). O mundo dos bens materiais só se dignifica através do dom livre, e jamais por imposição de uma lei que reduz de novo à faixa dos meros impostos, taxas e obrigações financeiras.

Dessa forma tirar-se-ia da palavra dízimo suas conotações aritméticas, conservando seu sentido religioso. Segundo os bispos do Brasil, não parece útil ou aconselhável substituí-la por outra palavra, como centésimo, por exemplo. A palavra dízimo tem toda uma ressonância bíblica e tradicional na consciência cristã, que pode e deve ser valorizada dentro de um novo contexto e sentido histórico.

O dízimo focalizado na Palavra de Deus tem toda uma atitude religiosa, de reconhecimento do poder absoluto de Deus e da relatividade do poder do homem. Essa é a lição que podemos tomar nas primeiras paginas do Gênesis, numa preocupação catequética de ensinar ao homem sua posição diante de Deus e do mundo.

O dízimo nos dias atuais deve conter essa visão teológica/pastoral. Dessa forma seria uma catequese viva, uma verdadeira educação de atitude religiosa para o homem do mundo moderno, técnico, que descobriu seu poder frente a natureza. Pastoralmente, a renovação do sistema em si, se situaria dentro do esforço da Igreja frente aos desafios do mundo de hoje, no sentido de fazer o homem descobrir seus limites e abrir-se a Deus e aos irmãos.

A devolução do dízimo sob pressão não é o caminho pastoral verdadeiro, seja oferecendo benefícios e privilégios aos dizimistas ou negando certos serviços ou impondo obrigações especiais aos não dizimistas. Quando se encontra essa forma em muitas comunidades, nota-se aí uma incapacidade fundamental, por parte da Igreja, daquilo que está no coração de sua missão: formar a consciência dos homens. Mesmo diante da frieza de muitos católicos, o sistema do dízimo, nos dias atuais, contará sempre com a única força de seu élan original, a formação e a vivência do espírito comunitário. É bom entender que a conscientização para o dízimo não é uma simples etapa, mas um trabalho constante da comunidade junto aos seus membros.

A devolução do dízimo é feita a Deus, que dela necessita, mas com o sentido preciso de socorrer as necessidades da comunidade, em termos de culto, de manutenção dos serviços apostólicos, e de socorrer os irmãos mais necessitados.

(Fonte: FELIPIN, E. Dízimo e oferta na Igreja Católica. CNBB-8-Pastoral do Dízimo, 2013. p. 15 -18)

 

 

Ler 10634 vezes Última modificação em Segunda, 22 Abril 2013 17:19

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