"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

Cidade do Vaticano (RV) - Publicamos abaixo o discurso integral proferido pelo Papa à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2014.

“Tu estás acima dos querubins, tu que transformaste a miserável condição do mundo quando te fizeste como nós” (Santo Agostinho)

Amados irmãos,

Ao final do Advento, encontramo-nos para as tradicionais saudações. Dentro de alguns dias teremos a alegria de celebrar o Natal do Senhor; o evento de Deus que se faz homem para salvar os homens; a manifestação do amor de Deus que não se limita a dar-nos algo ou a enviar-nos uma mensagem ou alguns mensageiros, doa-se-nos a si mesmo; o mistério de Deus que toma sobre si a nossa condição humana e os nossos pecados para revelar-nos a sua Vida divina, a sua graça imensa e o seu perdão gratuito. É o encontro com Deus que nasce na pobreza da gruta de Belém para ensinar-nos a potência da humildade. Na realidade, o Natal é também a festa da luz que não é acolhida pala gente “eleita”, mas pela gente pobre e simples que esperava a salvação do Senhor.

Em primeiro lugar, gostaria de desejar a todos vós – cooperadores, irmãos e irmãs, Representantes pontifícios disseminados pelo mundo – e a todos os vossos entes queridos um santo Natal e um feliz Ano Novo. Desejo agradecer-vos cordialmente, pelo vosso compromisso quotidiano a serviço da Santa Sé, da Igreja Católica, das Igrejas particulares e do Sucessor de Pedro.

Como somos pessoas e não números ou somente denominações, lembro de maneira especial os que, durante este ano, terminaram o seu serviço por terem chegado ao limite de idade ou por terem assumido outras funções ou ainda porque foram chamados à Casa do Pai. Também a todos eles e a seus familiares dirijo o meu pensamento e gratidão.

Desejo juntamente convosco erguer ao Senhor vivo e sentido agradecimento pelo ano que está a nos deixar, pelos acontecimentos vividos e por todo o bem que Ele quis generosamente realizar mediante o serviço da Santa Sé, pedindo-lhe humildemente perdão pelas faltas cometidas “por pensamentos, palavras, obras e omissões”

E partindo precisamente deste pedido de perdão, desejaria que este nosso encontro e as reflexões que partilharei convosco se tornassem, para todos nós, apoio e estímulo a um verdadeiro exame de consciência a fim de preparar o nosso coração ao Santo Natal.

Pensando neste nosso encontro veio-me à mente a imagem da Igreja como Corpo místico de Jesus Cristo. É uma expressão que, como explicou o Papa Pio XII “brota e como que germina do que é frequentemente exposto na Sagrada Escritura e nos Santos Padres”. A este respeito, São Paulo escreveu: “Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (1 Cor 12,12).

Neste sentido, o Concílio Vaticano II lembra-nos que “na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui seus vários dons segundo suas riquezas e as necessidades dos ministérios (cf. 1 Cor 12,1-11)”. Por isto “Cristo e a Igreja formam o «Cristo total» - Christus totus -. A Igreja é una com Cristo».

É belo pensar na Cúria Romana como sendo um pequeno modelo da Igreja, ou seja, um “corpo” que procura séria e cotidianamente ser mais vivo, mais sadio, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo.

Na realidade, a Cúria Romana é um corpo complexo, composto de muitos Dicastérios, Conselhos, Departamentos, Tribunais, Comissões e de numerosos elementos que não têm todos a mesma tarefa, mas são coordenados para um funcionamento eficaz, edificante, disciplinado e exemplar, não obstante as diversidades culturais, linguísticas e nacionais dos seus membros.

Em todo o caso, sendo a Cúria um corpo dinâmico, ela não pode viver sem alimentar-se e sem cuidar de si. De fato, a Cúria – como a Igreja – não pode viver sem ter uma ralação vital, pessoal, autêntica e sólida com Cristo. Um membro da Cúria que não se alimenta cotidianamente com aquele Alimento tornar-se-á um burocrata (um formalista, um funcionalista, um mero empregado): um ramo que seca e pouco a pouco morre e é lançado fora. A oração diária, a participação assídua nos Sacramentos, de modo especial, da Eucaristia e da reconciliação, o contato cotidiano com a palavra de Deus e a espiritualidade traduzida em caridade vivida são o alimento vital para cada um de nós. Que todos nós tenhamos bem claro que sem Ele nada poderemos fazer(cf Jo 15, 8).

Consequentemente, a relação viva com Deus alimenta e fortalece também a comunhão com os outros, ou seja, quanto mais estivermos intimamente unidos a Deus tanto mais estaremos unidos entre nós porque o Espírito de Deus une e o espírito do maligno divide.

A Cúria está chamada a melhorar-se, a melhorar-se sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria a fim de realizar plenamente a sua missão. No entanto, ela, como todo corpo, como todo corpo humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais. São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria. São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor. Penso que nos ajudará o “catálogo” das doenças – nas pegadas dos Padres do deserto, que faziam aqueles catálogos – dos quais falamos hoje: ajudar-nos-á na nossa preparação ao Sacramento da Reconciliação, que será um passo importante de todos nós em preparação do Natal.

1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” transcurando os controles necessários e habituais. Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se atualiza, que não procura melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez que eram imortais, imunes e indispensáveis! É a doença do rico insensato do Evangelho que pensava viver eternamente (cf Lc 12, 13-21) e também daqueles que se transformam em senhores e se sentem superiores a todos e não a serviço de todos. Esta doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo dos Eleitos”, do narcisismo que fixa apaixonadamente a sua imagem e não vê a imagem de Deus impressa na face dos outros, principalmente dos mais fracos e necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e de dizer com todo o coração «Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).

2. Outra doença:  doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés de Jesus (cf Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a “descansar um pouco’” (cf Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina o Coélet que «para tudo há um tempo» (3,1-15).

3. Há ainda a doença do “empedernimento” mental e spiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e são de “dura cerviz” (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade interior, a vivacidade a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel, tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus” (cf Hb 3,12). É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem “os sentimentos de Jesus ” (cf Fl 2,5-11) porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e o próximo (cf Mt 22,34-40). Ser cristão, com efeito, significa ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2,5), sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade.

4. A doença do planejamento excessivo e do funcionalismo. Quando o apóstolo planeja tudo minuciosamente e pensa que, fazendo um perfeito planejamento, as coisas efetivamente progridem, tornando-se, assim, um contador ou um comercialista. Preparar tudo bem é necessário, mas sem jamais cair na tentação de querer encerrar e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que todo planejamento humano (cf Jo 3,8). Cai-se nesta doença porque  «é sempre mais fácil e cômodo adaptar-se às suas posições estáticas e imutadas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão de regulamentá-lo e de domesticá-lo… - domesticar o Espírito Santo! - … Ele é frescor, fantasia, novidade».

5. A doença da má coordenação. Quando os membros perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz barulho, porque os seus membros não cooperam e não vivem o espírito de comunhão e de equipe. Quando o pé diz ao braço: “não preciso de ti”, ou a mão à cabeça: “quem manda sou eu”, causando, assim, mal-estar ou escândalo.

6. Há também a doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas atividades autônomas, vivendo num estado de absolta dependência das suas visões, tantas vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronômico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com suas próprias mãos.

7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objetivo primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses , e sim os dos outros» (Fl 2,1-4). É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos, e a vivermos um falso “misticismo” e um falso “quietismo”. O mesmo São Paulo os define «inimigos da Cruz de Cristo» porque se envaidecem da própria ignomínia e só têm prazer no que é terreno» (Fl 3,19).

8. A doença da esquizofrenia existencial. É a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos acadêmicos não podem preencher. Uma doença que atinge frequentemente aquele que, abandonando o serviço pastoral, se limitam aos afazeres burocráticos, perdendo, assim, o contato com a realidade, com as pessoas concretas. Criam, assim, um seu mundo paralelo, onde colocam à parte tudo o que ensinam severamente aos outros e começam a viver uma vida oculta e muitas vezes dissoluta. A conversão é por demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32).

9. A doença das fofocas, das murmurações e do mexerico. Já falei muitas vezes desta doença, mas nunca é suficiente. É uma doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e se apodera da pessoa, transformando-a em “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e confrades. É a doença das pessoas velhacas que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas. São Paulo nos adverte: «Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes» (Fl 2,14-18). Irmãos, guardemo-nos do terrorismo das maledicências!

10. A doença de divinizar os chefes: é a dos que cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12). São pessoas que vivem o serviço, pensando exclusivamente no que devem obter e não no que devem dar. Pessoas mesquinhas, infelizes e inspiradas só pelo seu próprio egoísmo (cf Gal 5,16-25). Esta doença poderia atingir também os Superiores, quando cortejam alguns seus colaboradores para obter a sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade.

11. A doença da indiferença para com os outros. Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas. Quando o mais experto não coloca o seu conhecimento a serviço dos colegas menos expertos. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde para si, ao invés de compartilhar positivamente com os outros. Quando, por ciúme ou por astúcia, se sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo.

12. A doença da cara funérea. Quer dizer, das pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros – principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa amável, serena e alegre que transmite alegria por toda parte onde quer se encontre. Um coração repleto de Deus é um coração feliz que irradia e contagia de alegria todos os que estão à sua volta: é o que se vê imediatamente! Não percamos, portanto, aquele espírito jovial, cheio de humor, e até auto irônico, que nos torna pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de sadio humorismo! Far-nos-á muito bem recitar muitas vezes a oração de São Tomás Moro: rezo-a todos os dias; me faz bem.

13. A doença de acumular: quando o apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro. Na realidade, nada de material poderemos levar conosco, porque “a mortalha não tem bolsos” e todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam presentes – jamais poderão preencher aquele vazio; pelo contrário, torná-lo-ão cada vez mais exigente e mais profundo. A estas pessoas o Senhor repete: «Dizes: sou rico, faço bons negócios, de nada necessito – e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu ... Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te» (Ap 3,17-19). A acumulação só pesa e freia inexoravelmente o caminho! E penso numa anedota: um tempo, os jesuítas espanhóis descreviam que a Companhia de Jesus era como a “cavalaria leve da Igreja”. Lembro-me da mudança de um jovem jesuíta que, enquanto carregava num caminhão os seus muitos bens: bagagens, livros, objetos e presentes, ouvi um velho jesuíta, que estava a observá-lo, dizer com um sorriso sábio: e esta seria a “cavalaria leve da Igreja?”. As nossas mudanças são um sinal desta doença.

14. A doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo, e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também esta doença começa sempre de boas intenções, mas com o passar do tempo, escraviza os membros, tornando-se um câncer que ameaça a harmonia do Corpo e causa tanto mal – escândalos – especialmente aos nossos irmãos menores. A autodestruição ou o “tiro amigo” dos camaradas é o perigo mais sorrateiro. É o mal que atinge a partir de dentro; e, como diz Cristo, «todo o reino dividido contra si mesmo será destruído» (Lc 11,17).

15. E a última: a doença do proveito mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros, até mesmo nos jornais e nas revistas. Naturalmente para se exibirem e se demonstrarem mais capazes do que os outros. Também esta doença faz muito mal ao Corpo porque leva as pessoas a justificar o uso de todo meio, contanto que atinja o seu objetivo, muitas vezes em nome da justiça e da transparência! E vem-me aqui à mente a lembrança de um sacerdote que chamava os jornalistas para lhes contar – e inventar – coisas privadas e reservadas dos seus confrades e paroquianos. Para ele a única coisa importante era ver-se nas primeiras páginas, porque assim se sentia “potente e convincente”, causando tanto mal aos outros e à Igreja. Pobrezinho!

Irmãos, estas doenças e tais tentações são naturalmente um perigo para todo cristão e para toda cúria, comunidade, congregação, paróquia, movimento eclesial e podem atingir quer em nível individual quer comunitário.

É necessário esclarecer que só o Espírito Santo - a alma do Corpo Místico de Cristo, como afirma o Credo Niceno-Costantinopolitano: «Creio... no Espírito Santo, Senhor e vivificador» - pode curar todas as enfermidades. É o Espírito Santo que sustenta todo esforço sincero de purificação e toda boa vontade de conversão. É Ele que nos faz compreender que todo membro participa da santificação do corpo ou do seu enfraquecimento. É Ele o promotor da harmonia: “Ipse harmonia est”, diz São Basílio. Santo Agostinho diz-nos: «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».

O restabelecimento é também fruto da consciência da doença e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando pacientemente e com perseverança a terapia.

Somos chamados, portanto – neste tempo de Natal e por todo o tempo do nosso serviço e da nossa existência - a viver «pela prática sincera da caridade, crescendo em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo o corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria – efetua esse crescimento, visando à sua plena edificação na caridade » (Ef 4,15-16).

Amados irmãos!

Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam. Muitos criticam e poucos rezam por eles. É uma frase muito simpática, mas também muito verdadeira, porque delineia a importância e a delicadeza do nosso serviço sacerdotal e quanto mal poderia causar um só sacerdote que “cai”, a todo o corpo da Igreja.

Portanto, para não cair nestes dias em que nos preparamos à Confissão, peçamos à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, que cure as feridas do pecado que cada um de nós tem no seu coração e que ampare a Igreja e a Cúria a fim de que sejam sadias e saneadoras; santas e santificadoras para a glória do seu Filho e para a nossa salvação e do mundo inteiro. Peçamos a Ela que nos faça amar a Igreja como a amou Cristo, seu Filho e nosso Senhor, e que tenhamos a coragem de nos reconhecermos pecadores e necessitados da sua misericórdia e que não tenhamos medo de abandonar a nossa mão entre as suas mãos maternais.

 Os melhores votos de um santo Natal a todos vós, às vossas famílias e aos vossos colaboradores. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim! Obrigado de coração!

(Tradução livre de João da Ponte Lopes)

Fonte: Radio Vaticano – 23/12/2014

Publicado em Palavra Viva

O Papa Francisco afirmou que “o choro da criança é a voz de Deus”.

“As crianças choram, fazem barulho em todos os lugares. Mas nunca podemos expulsar as crianças que choram na igreja”, completou.

Falando de maneira improvisada, segundo o jornal romano “Il Messaggero”, o Papa recordou que, quando alguém se sente incomodado ao ver uma criança chorando na igreja e pede que ela seja retirada, está apagando a voz de Deus. Segundo Francisco, o choro das crianças “é a melhor pregação”.

Falando com a simplicidade de um pároco, o Papa recordou o que Jesus disse: “Deixai que as crianças venham a mim e não as impeçais, porque o Reino dos céus é daqueles que se assemelham a elas” (Mt 19, 14).

O contexto é significativo: o Papa visitou a paróquia de São José, na periferia de Roma, no dia 14 de dezembro.

Assim, o Bispo de Roma responde à tão comum situação de constrangimento dos pais nas missas de domingo, pois, se por um lado não querem perder a missa, por outro, não sabem com quem deixar seus filhos pequenos; muitos acabam deixando de ir à igreja para não receber olhares acusadores de outros fiéis.

O Papa Francisco recordou que o Natal é das crianças. E recordou aos adultos a alegria do significado profundo do nascimento de Jesus em um presépio.

O Natal não é só a ceia

A glória do Natal não se reduz a uma ceia pomposa, recordou o Papa durante a visita à paróquia.

Sem um texto preparado, acrescentou: “Mas, padre, nós fazemos uma grande ceia... Isso é ótimo, mas esta não é a verdadeira alegria cristã. A Igreja quer fazer entender o que é a verdadeira glória. Não podemos chegar ao dia 24 de dezembro dizendo que falta isso, falta aquilo... Esta não é a verdadeira glória cristã”.

O Papa se encontrou com crianças, jovens catequistas, ciganos e doentes. Nesta mesma visita, ele confessou 5 paroquianos. No final, celebrou a santa missa na paróquia romana sem apagar a voz de Deus: as crianças.

 

Fonte: www.aleteia.org – 15.12.14

Publicado em Palavra Viva

Diretamente de Roma, o representante da secretaria de Programação para a Prevenção da Dependência Química e da Luta contra o Narcotráfico (Sedronar) revelou uma conversa que teve com o Papa Francisco em um dos seus últimos encontros.

“Eu disse ao Papa: ‘Cuide-se, porque podem querer matá-lo’, e ele me respondeu: ‘Isso seria a melhor coisa que poderia me acontecer, e a você também’”, recordou o Pe. Juan Carlos Molina, quem voltou a se encontrar na última quarta-feira com o Sumo Pontífice para apresentar-lhe um grupo de jovens recuperados de sua dependência das drogas.

Jornalistas do programa de Dady Brieva na Rádio América lhe perguntaram sobre esta estranha frase, e o funcionário relacionou as palavras do Papa ao “olhar do martírio” de Francisco. “Ele tem claro que seu papel não é fácil”, disse a respeito disso.

Também esclareceu que esta frase não foi uma advertência sobre um possível risco de assassinato: “Não foi uma referência a um assassinato; foi uma conversa e ele tem isso claro”, disse o funcionário em uma reportagem com Luis Novaresio, na rádio La Red.

Após comparar o encontro com o Papa com o de um padre que recebe um irmão menor, Molina insistiu: “Ele tem claro que, com as coisas que diz, está dando sua vida”.

Ao mesmo tempo, o titular da Sedronar revelou agora que Francisco “não usa colete antibalas”; sua batina é de tecido comum e “é assim que ele vive seu papado”, destacou.

Molina revelou também que, no encontro desta semana, o Papa Francisco deu seu apoio ao projeto de não criminalizar os consumidores de drogas para ir contra os grandes traficantes.

Mas, para conseguir que isso se torne lei, será preciso superar a rejeição por parte da oposição, e até de um setor do próprio governo italiano. Um deles é o secretário de Segurança, Sergio Berno, quem já manifestou que não concorda com a proposta.

Consultado a respeito disso, Molina reconheceu as diferenças, mas não deu importância a isso: “Sempre, nas equipes, há confrontação de ideias. Mas isso não quer dizer que estejamos brigando nem nada disso”.

“Temos diferenças metodológicas no campo da polícia, mas não é um problema entre Sergio e eu, de modo algum”, insistiu. No entanto, apenas alguns minutos antes, acusou as forças de segurança de plantar provas nos jovens. “Às vezes não se sabe se a polícia vai achar algo ou colocar algo no bolso da pessoa”, advertiu.

Fonte: Aleteia – Mundo – 14/11/2014

(Artigo publicado originalmente por Valores Religiosos)

Publicado em Palavra Viva

Em outro gesto que sinaliza tempos mais progressistas para Igreja Católica e a reabilitação da Teologia da Libertação no âmbito da referida Igreja, o Papa Francisco anunciou esta semana a revogação da suspensão [‘suspensión a divinis’] do sacerdote nicaraguense Miguel d´Escoto, de 81 anos. Durante 30 anos, d´Escoto foi impedido pelo Vaticano de ministrar missa, confessar fiéis e dar outros sacramentos. A suspensão do sacerdote ocorreu por sua forte ligação com a Teologia da Libertação e, consequentemente, com a revolução sandinista na Nicarágua, então combatidas pelo Papa João Paulo II e o Governo dos Estados Unidos, respectivamente.


Padre d´Escoto era forte apoiador dos rebeldes sandinistas, que se uniram com a finalidade de derrubar a ditadura da família Somoza do Governo da Nicarágua. Nos anos 1970, grupos guerrilheiros de várias tendências políticas formaram a Frente Sandinista. Em 1979, a Revolução Sandinistasaiu vitoriosa. Nesse ano, o sacerdote assumiu a titularidade do Ministério das Relações Exteriores, onde ficou durante 10 anos. Na década de 80 do século XX, João Paulo II e seu fiel colaborador, o então cardeal Joseph Ratzinger – depois Papa Bento XVI, que renunciou ao pontificado no início de 2013 – declararam guerra à Teologia da Libertação, perseguindo todo o clero que a apoiava.

 

O padre nicaraguense foi punido por sua militância política e a participação no governo sandinista, que enfrentava abertamente os Estados Unidos. O Governo da Nicarágua chegou a denunciar ante a Corte Internacional de Haia os EUA por bloqueios militares. A Corte deu razão à Nicarágua, mas os EUA ignoraram a decisão.

 

Outros dois sacerdotes nicaraguenses também foram punidos: o jesuíta Fernando Cardenal e seu irmão Ernesto. Em 1996, Fernando foi reincorporado à ordem jesuíta, após a revogação da suspensão. Ernesto, por sua vez, continua no ostracismo.

 

Padre d’Escoto também, nos anos 1970, fundou a editora Orbis, que se desenvolveu publicando livros sobre espiritualidade, teologia e temas da atualidade, muitas vezes na perspectiva do Terceiro Mundo. D'Escoto pertence à congregação missionária Maryknoll e escreveu, no semestre passado, uma carta ao Papa para expressar seu desejo de voltar a celebrar a Eucaristia "antes de morrer”. O pontífice argentino não demorou a lhe responder. Além de aceitar a revogação da suspensão, pediu ao principal prelado da congregação que inicie o quanto antes o processo de reintegração do sacerdote nicaraguense.

 

Fonte: Adital – 07/08/2014

Publicado em Palavra Viva

Desde o início, o Opus Dei apoiou o novo percurso do Papa Francisco: a crise na Igreja e, em particular, da Cúria Romana eram por demais evidentes; a reviravolta considerada necessária por muitos; e a maioria que defendia no conclave uma mudança radical tornavam-se amplas.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Linkiesta, 04-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assim, ao longo desses primeiros 12 meses, a Companhia de Jesus e a Obra fundada por Josemaria Escrivá de Balaguer se encontraram, embora à distância, unidas na mesma obra depois de serem, por muito tempo, adversários irredutíveis.

Mas agora algo está mudando: de fato, o papa, além de reforma da Cúria vaticana, de uma ação de transparência financeira levada adiante com uma certa decisão e da promoção de um modelo de Igreja mais austero e atento às necessidades das pessoas, deixou claro que pretende também proceder profundas modificações no magistério sobre temas delicados como os da família.

Mas Francisco foi ainda mais longe, assumindo de peito aberto as temáticas econômicas e sociais. As suas críticas ao modelo capitalista expressadas no documento Evangelii gaudium provocaram fortes reações dos think tanks conservadores do exterior, da direita católica norte-americana nostálgica do wojtylianismo, do Tea Party e daquela parte da imprensa que apoia a inoxidabilidade da religião neoliberal apesar da crise.

É toda uma área que começa a se incomodar diante das muitas novidades do pontificado: assim, nos últimos dias, em Roma, por iniciativa do Acton Institute, laboratório econômico conservador norte-americano de inspiração católica, realizou-se um dia de estudos sobre "Fé, Estado e Economia: perspectivas do Oriente e do Ocidente".

O conferencista de excelência foi o sacerdote e professor Martin Rhonheimer, pertencente ao Opus Dei, professor de ética e filosofia política da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, ou seja, a prestigiosa universidade da Obra na capital italiana.

Rhonheimer defendeu, em síntese, que o estado social, assim como toda forma de proteção pública, acaba limitando a liberdade das empresas e o livre mercado; são estes, ao invés, os únicos e verdadeiros pilares da difusão do bem-estar, os reguladores – juntamente com a responsabilidade individual fundamentada em princípios éticos – do progresso econômico e social. Não só: para o estudioso do Opus Dei, o próprio conceito de redistribuição econômica é um engano.

É o mercado que "trabalha" pelo bem comum, destacou Rhonheimer. Portanto, é dentro dele que se desenvolvem empresas voltadas ao lucro e sem fins lucrativos, e, consequentemente, iniciativas de caridade. Não há necessidade do Estado. O essencial é encorajar a livre iniciativa dos cidadãos.

Mesmo na tradição católica, ressaltou Rhonheimer, foi alimentado o mito de "um capitalismo cruel e selvagem", que deve ser regulamentado pelo Estado através de intervenções sobre os preços e salários para se chegar a mecanismos de redistribuição da riqueza. Tudo errado. Uma forma de subsidiariedade absoluta é a via mestra para garantir formas de solidariedade social (privadas e não públicas). O governo deve se retirar dentro de limites bem definidos, as forças do mercado e da responsabilidade do indivíduo são capazes de se autorregulamentar sozinhas. Nada de novo, mas a radicalidade dos tons é surpreendente.

A posição expressada pelo Papa Francisco tanto na Evangelii gaudium quanto em várias entrevistas, incluindo a concedida ao jornal La Stampa, era o oposto dessa postura. Bergoglio reafirmou várias vezes as suas críticas às "teorias da 'recaída favorável', segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo". "Havia a promessa – destacava o pontífice – de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres". Isso, observava depois o bispo de Roma, não significa ser marxista; mas o esclarecimento não foi suficiente para deter os críticos suspeitos do exterior.

Além disso, o próprio Bergoglio parece quase provocar a ala teocon quando tuíta – como ocorreu no dia 28 de abril – afirmações do tipo: "A desigualdade é a raiz dos males sociais". Além disso, são incontáveis os discursos do papa nos quais se pedem "políticas" para reduzir a pobreza e as desigualdades sociais, isto é, intervenções públicas.

E não só: está prestes a chegar uma encíclica ambientalista que será escrita com a contribuição dos bispos da Amazônia (em particular, com a contribuição de Dom Erwin Kräutler, que recebeu ameaças pela sua defesa das populações indígenas). É difícil que surja dela uma laudatio do mercado livre e selvagem. Assim, do Financial Times à Forbes, o papa sul-americano que põe em discussão a globalização financeira provoca descontentamentos que se ampliam cada vez mais na área católica próxima dos teocons.

Além disso, quem está à frente do Acton Institute é um sacerdote, Robert Sirico, reaganiano de primeira hora e defensor de um liberalismo radical na economia, segundo um modelo em que o empregador é livre para demitir a qualquer momento, assim como o trabalhador pode mudar de emprego quando quiser, porque os dois sujeitos, na realidade, estão no mesmo plano.

A sua teoria foi definida de "a opção preferencial pela liberdade", em oposição à "opção preferencial pelos pobres", cunhada pelos bispos da América Latina na segunda metade dos anos 1960, quando surgia a teologia da libertação.

Também se deve notar que, entre os promotores do dia de estudos organizada pelo Acton Institute, figura também o Dignitas Humanae Institute, presidido pelo cardeal norte-americano ultratradicionalista Raymond Leo Burke.

No conselho do órgão, encontramos também o arcebispo de Milão, Angelo Scola, e depois os purpurados conservadores Elio Sgreccia, Francis Arinze, Malcolm Ranjth e Walter Brandmüller, além do ex-arcebispo de Hong Kong, Joseph Zen Ze-Kiun – contrário à linha diálogo com Pequim sobre temas da liberdade religiosa –, que também foi um dos conferencistas do congresso. O evento, por outro lado, além de gozar do apoio de outras estruturas do Opus Dei, foi promovido também por várias outras organizações, dentre as quais se destacava o Instituto Sturzo.

Talvez, de modo ainda incerto, estaria se coagulando uma primeira oposição interna ao papa? É o que se saberá nos próximos meses, quando o sínodo sobre a família também começará seus trabalhos.

Ao mesmo tempo, deve-se lembrar que o prelado do Opus Dei, Javier Echevarria, ainda nos últimos dias, repetiu em uma entrevista ao jornal Tempo como, por parte da Obra, não há nenhuma oposição em relação ao que o pontífice está fazendo.

Este último, de sua parte, continua a se mover com atenção em relação à prelazia: aprovou, dentre outras coisas, a beatificação de Alvaro del Portillo, o primeiro sucessor de Balaguer como prelado do Opus Dei; no dia 29 de abril, nomeou o bispo Carlos Lema Garcia como auxiliar da diocese de São Paulo, no Brasil, uma das maiores do mundo.

Dado que o Opus Dei, com o jovem bispo José Gomez, já "governa" a megadiocese de Los Angeles, deve-se notar que alguns homens do Opus Dei estão em ascensão. Nem todos, no entanto: no Peru, o arcebispo de Lima e poderoso cardeal opusiano Juan Cipriani Thorne é fortemente contestado pelo episcopado local. O jogo, em suma, está em aberto.

Fonte: www.ihu.unisinos.br/noticias - 08/05/2014

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Sábado, 12 Abril 2014 12:35

Carta ao papa Francisco

Querido irmão Francisco:

Desde que foste eleito para ser a humilde ‘Rocha’ sobre a qual Jesus quer continuar construindo hoje sua Igreja, acompanhei com atenção tuas palavras. Agora, acabo de chegar de Roma, onde pude te ver abraçando crianças, bendizendo enfermos e inválidos e saudando a multidão.

Dizem que és vizinho, simples, humilde, simpático... E não sei quantas coisas mais. Penso que há em você alguma coisa mais, muito mais. Pude ver a Praça de São Pedro e a Via dela Conciliazione cheias de gente entusiasmada. Não creio que essa multidão se sinta atraída somente por tua simplicidade e simpatia. Em poucos meses você se converteu em uma ‘boa notícia’ para a Igreja e, também, para além da Igreja. Por quê?

Quase sem dar-nos conta, você está introduzindo no mundo a Boa Notícia de Jesus Cristo. Você está criando na Igreja um clima novo, mais evangélico e mais humano. Você está nos oferecendo o Espírito de Jesus Cristo. Pessoas afastadas da fé cristã me dizem que as ajudas a confiar mais na vida e na bondade do ser humano. Alguns que vivem sem um caminho para Deus me confessam que acordou em seu interior uma pequena luz que os convida a revisar sua atitude frente ao mistério último da existência.

Eu sei que na Igreja precisamos de reformas muito profundas para corrigir desvios alimentados durante muitos séculos, porém, nestes últimos anos, foi crescendo dentro de mim uma convicção. Para que se possam realizar estas reformas, precisamos, previamente, de uma conversão num nível mais profundo e radical. Precisamos, sinceramente, voltar a Jesus, colocar as raízes de nosso cristianismo com mais verdade e mais fidelidade em sua pessoa, sua mensagem e seu projeto do Reino de Deus. Por isso, quero exprimir-te que é isso o que mais me atrai de seu serviço como Bispo de Roma neste começo de tua tarefa.

Eu te agradeço que abraces as crianças e as apertes ao teu peito. Estás nos ajudando a recuperar aquele gesto profético de Jesus, tão esquecido na Igreja, porém tão importante para entender o que esperava de seus seguidores. Segundo relatam os Evangelhos, Jesus chamou os doze, pôs uma criança no meio deles, o apertou entre seus braços e lhes disse: "O que acolhe a uma criança como esta em meu nome, está acolhendo a mim.”

Tínhamos esquecido que no centro da Igreja, atraindo a atenção de todos, devem estar sempre os pequenos, os mais frágeis e vulneráveis. É importante que estejas entre nós como ‘Rocha’ sobre a qual Jesus constrói sua Igreja, porém é tão importante ou mais que estejas em nosso meio abraçando os pequenos e bendizendo aos enfermos e os que não têm valor, para nos lembrar como acolher a Jesus. Este gesto me parece decisivo nestes momentos em que o mundo corre o risco de se desumanizar criando incompreensão com os últimos.

Eu te agradeço que nos chames de forma tão repetida a sair da Igreja para entrar na vida onde sofremos e nos alegramos, lutamos e trabalhamos: esse mundo onde Deus quer construir uma convivência mais humana, justa e solidária. Creio que a heresia mais grave e sutil que penetrou no cristianismo é de ter feito da Igreja o centro de tudo, afastando do horizonte o projeto do Reino de Deus.

João Paulo II nos lembrou que a igreja não é um fim em si mesma, mas somente ‘semente, sinal e instrumento do Reino de Deus’, porém suas palavras se perderam no meio de muitos outros discursos. Agora desperta em mim uma alegria grande quando nos chamas a sair da ‘autorreferência’ para caminhar em direção às ‘periferias existenciais’.

Aproveito sublinhando tuas palavras: "Devemos construir pontes, não muros para defender a fé”; precisamos de "uma igreja de portas abertas, não de controladores da fé”; "a igreja não cresce com o proselitismo, mas com a atração, o testemunho e a pregação”. Parece-me escutar a voz de Jesus que, do Vaticano, nos empurra: "Ide anunciar que o Reino de Deus está perto”, "ide e curai os enfermos”, "o que há recebido de graça, devolva-o de graça”.

Também te agradeço pelos teus apelos contínuos a converter-nos ao Evangelho. Como bem conhece à Igreja. Surpreende-me tua liberdade em dar nomes aos nossos pecados. Não o fazes com linguagem de moralista, mas com a força do Evangelho: as invejas, a ansiedade de fazer carreira e o desejo do dinheiro; "a desinformação, a difamação e a calúnia”; a arrogância e a hipocrisia clerical; "a espiritualidade mundana” e a "burguesia do espírito”; os "cristãos de salão”, os ‘crentes de museu’, os cristãos com ‘cara de funeral’. Preocupa-te muito ‘um sal sem sabor’, ‘um sal que não sabe de nada’, e nos chamas a sermos discípulos que aprendem a viver com o estilo de Jesus.

Não nos chamas só a uma conversão individual. Empurra-nos a uma renovação eclesial, estrutural. Não estamos acostumados a escutar essa linguagem. Surdos ao chamado renovador do Vaticano II, esquecemos que Jesus convidava seus seguidores a ‘por o vinho novo em odres novos’. Por isso, me enche de esperança tua homilia da festa de Pentecostes: "A novidade nos da sempre um pouco de medo porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós os que constroem, programamos e planificamos nossa vida segundo nossos esquemas, seguranças e gostos... Temos medo que Deus nos leve por caminhos novos, nos tire de nossos horizontes, muitas vezes bem limitados, fechados, egoístas, para abrir-nos aos seus”.

Por isso nos pedes que nos perguntemos sinceramente: "Estamos abertos às surpresas de Deus ou nos fechamos com medo às novidades do Espírito Santo? Estamos decididos a percorrer os novos caminhos que a novidade de Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em estruturas caducas que perderam a capacidade de dar respostas?” Tua mensagem e teu espírito estão anunciando um futuro novo para a Igreja.

Quero terminar estas linhas expressando-te humildemente um desejo. Talvez não poderás fazer grandes reformas, porém podes dar um impulso à renovação evangélica em toda a Igreja. Com certeza podes tomar as medidas oportunas para que os futuros bispos das dioceses do mundo inteiro tenham um perfil e um estilo pastoral capaz de promover esta conversão a Jesus que tu queres encorajar desde Roma.

Francisco, és um presente de Deus. Obrigado!

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

Fonte: Adital - 12/04/2014

(José Antônio Pagola é padre e teólogo)

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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
AOS FIÉIS BRASILEIROS POR OCASIÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2014

Queridos brasileiros

Sempre lembrado do coração grande e da acolhida calorosa com que me estenderam os braços na visita de fins de julho passado, peço agora licença para ser companheiro em seu caminho quaresmal, que se inicia no dia 5 de março, falando-lhes da Campanha da Fraternidade que lhes recorda a vitória da Páscoa: «É para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal 5,1). Com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus Cristo libertou a humanidade das amarras da morte e do pecado. Durante os próximos quarenta dias, procuraremos conscientizar-nos mais e mais da misericórdia infinita que Deus usou para conosco e logo nos pediu para fazê-la transbordar para os outros, sobretudo aqueles que mais sofrem: «Estás livre! Vai e ajuda os teus irmãos a serem livres!». Neste sentido, visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para uma chaga social qual é o tráfico de seres humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõem este ano o tema "Fraternidade e Tráfico Humano".

Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! «A este nível, há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência» (Discurso aos novos Embaixadores, 12 de dezembro de 2013). Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da própria convivência social! Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada?

Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais… E isso – pasmem! – a troco da minha dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito Santo que clama dentro de nós: «Abbá, Pai!» (cf.Gal 4,6). A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida em abundância (cf.Evangelii gaudium, 75).

Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21), despertando em cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica.

Vaticano, 25 de fevereiro de 2014.

Franciscus PP.

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Fez-se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2Cor 8,9)


Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2Cor 8,9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de tudo, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fl 2,7; Hb 4,15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez conosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Hb 1,2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10,25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11,30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8,29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para aliviá-las. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2Cor 6,10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013

Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

Fonte:(http://www.vatican.va/holy_father/francesco/messages/lent/documents/papa-francesco_20131226_messaggio-quaresima2014_po.html) 12/02/2014

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Sexta, 24 Janeiro 2014 03:07

Loris Capovilla, o poder de um símbolo

Entre os novos cardeais escolhidos pelo papa Francisco em seu primeiro consistório aparece uma figura simbólica: a de Loris Capovilla, de 99 anos, que foi secretário pessoal do papa João XXIII, o papa do século passado com quem Francisco guarda a maior semelhança.

Ninguém até agora tinha lembrado de dar o barrete de cardeal àquele que foi a figura chave, o confidente e o criador da imagem do chamado “papa bom”. Ele tinha sido relegado ao esquecimento, e, desde se aposentar como arcebispo, vivia em Sotto il Monte, a cidadezinha na qual nasceu o futuro papa João XXIII, filho de camponeses. E ali Capovilla, durante anos e quase em silêncio, fez um trabalho discreto de ajuda e conselho aos mais necessitados.

Dias depois de eleito, o papa Francisco telefonou a Capovilla e lhe disse, brincando: “O senhor tem voz de jovem”.

Hoje ele o nomeou cardeal. O escolheu como símbolo, muito ao seu estilo.

O reconhecimento dado a Capovilla pelo papa jesuíta possui forte valor simbólico, porque foi como ressuscitar um papa que não apenas foi um dos mais contestados pela Cúria Romana, como também um dos mais amados, até mesmo pelos não católicos.

Quando, já idoso e em um momento crítico da política mundial, João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, foi visto como louco pelos cardeais conservadores, como Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova. Eles chegaram a estudar a possibilidade de buscar sua deposição.

Capovilla é a única testemunha ainda viva dos maiores segredos do pontificado breve, mas fecundo de João XXIII, o pontífice que dizia a seu secretário que, se fosse mais jovem, abriria os jardins do Vaticano às crianças pobres do bairro de Trastevere, para que “não precisassem brincar na rua, entre o tráfego de automóveis”.

Era o papa que lhe dizia, também, que se “entediava” nas tardes do Vaticano, porque ao papa “já dão tudo feito e mastigado”. Para vingar-se, convocou um Concílio Ecumênico. E nesse concílio, para o qual chamou à basílica de São Pedro os 3.000 bispos da Igreja, menos os que estavam encarcerados nos países da Cortina de Ferro comunista, tanto Capovilla quanto sua sobrinha, a freira Sor Angela, puderam ver que o papa possuía grande senso de humor, observando em circuito fechado de televisão as discussões dos cardeais, em latim: “Veja aquele bispo ali, como dorme profundamente”, ele comentava. Ou então: “Que latim horrível o daquele arcebispo”. E se divertia enviando aos bispos fotos deles dormindo durante as sessões, com uma frase em latim: “Hoc non placet” (não me agrada). E a assinava. João XXIII fez isso, por exemplo, com um dos cardeais progressistas mais importantes do Concílio, o holandês Suenens, que ensinou a nós, os jornalistas que cobrimos o Concílio, que devíamos enfatizar a simplicidade do papa.

Foi Capovilla, por exemplo, a única testemunha presente no momento em que João XXIII abriu o envelope lacrado que lhe tinha deixado seu antecessor, Pio XII, sobre o “terceiro milagre de Fátima”. Apenas ele sabe o que comentou o papa, que acabou colocando o famoso envelope num caixão.

Capovilla era jornalista e teve participação grande na criação da imagem pública de João XXIII. Foi ele quem me contou durante uma entrevista, após a morte do papa, quando estava dirigindo o Santuário de Loreto, que João XXIII às vezes lhe dizia: “Loris, vamos ter que consultar o papa sobre isso”, esquecendo que ele próprio era o papa. Também lhe contava, por exemplo, que Pio XII estava muito preocupado com a possibilidade de “comunistas se infiltrarem” nas audiências públicas e que, quando voltava a seus aposentos, lavava as mãos com álcool porque “as pessoas tinham tocado nele”. E comentava com seu secretário: “Eu não me preocupo quando as pessoas chegam perto de mim. Acho que se fazem isso é porque gostam de mim”. Sobre o sofrimento de alguns papas devido à responsabilidade de serem “representantes de Cristo na Terra”, João XXIII dizia a Capovilla: “Eu me poupei esse sofrimento porque me considero apenas o ‘secretário’ dele”.

Foi Capovilla quem revisou o testamento de João XXIII e seu “Diário da Alma”. Enquanto o antecessor do pontífice, Pio XII, antes de morrer tinha concedido títulos de nobreza a seus familiares mais próximos, João XXIII escreveu à sua família em seu testamento: “Não deixo nada a vocês porque nasci pobre e morro pobre”. E acrescentou: “Não tenho que pedir perdão a ninguém porque por nunca me senti ofendido por ninguém”.

O quase centenário cardeal tinha conhecido muito bem as condições em que fizeram Pio XII morrer dentro do Vaticano. Tinha sido um dos momentos mais tenebrosos da história dos papas. O mantiveram isolado de tudo e de todos, sob os cuidados únicos da freira suíça Sor Pasqualina, que ele tinha trazido de quando era núncio em Berlim. Ela era a todo-poderosa. E ela decidiu não dizer ao papa que ele estava morrendo, e menos ainda dizê-lo à opinião pública. Por isso é quase certo que ele morreu sem receber os sacramentos e que seu médico pessoal, Galleazzi, o traiu. Ele fotografou o papa em seus momentos de agonia, chegando a vender as fotos a algumas revistas estrangeiras, e acabou sendo expulso da Ordem dos Médicos da Itália.

Ciente desses precedentes, Capovilla decidiu que a morte de João XXIII seria contada a todos. De acordo com Capovilla, quando o papa soube que estava chegando perto de seu fim, decidiu que seus últimos dias fossem levados a público por meio do Rádio Vaticano, para informar o mundo inteiro. No estilo que o caracterizava, João XXIII disse a seu secretário: “Cheguei ao dia da grande viagem. Avise ao mundo que o papa está preparando as malas”. E pediu que lhe dessem a extrema-unção.

E foi Capovilla quem me relatou sua angústia quando, na noite em que o papa ainda estava de corpo presente, alguns irmãos deles se apresentaram no Vaticano para pedir que os deixassem dormir ali, porque não tinham dinheiro para ir a um hotel. E no Vaticano lhes responderam que ali não havia lugar para eles. Os irmãos então procuraram Capovilla, que tinha sido secretário pessoal de Roncalli (João XXIII) desde que este era cardeal patriarca de Veneza. Sem avisar a ninguém, este conseguiu encontrar alguns colchões para que os irmãos do papa pudessem dormir no corredor dos aposentos papais.

E foram esses aposentos que o papa Francisco, que nomeou Capovilla cardeal, recusou ao ser eleito pontífice, alegando que eram grandes demais para ele: “Até 300 pessoas poderiam viver aqui”, comentou. E preferiu morar no Hotel de Santa Marta, até hoje.

Capovilla pôde constatar, ainda em vida, que o papa Francisco, o mais parecido com “seu” papa João XXIII, não se esqueceu dele e, sobretudo, não esqueceu o papa do Concílio.

 (Fonte: El País - Sociedade)

 

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“Católicos e luteranos podem pedir perdão pelo mal que causaram uns aos outros e pelas culpas cometidas diante de Deus, e invocar “o dom da unidade”; “as dificuldades não faltam e não faltarão e serão necessários, paciência, diálogo, e compreensão recíproca”! Foi o que disse o Papa Francisco, recebendo em audiência nesta manhã, no Vaticano, uma delegação da Federação Luterana Mundial e os membros da Comissão luterano-católico para a Unidade.

“O ecumenismo espiritual constitui a alma do nosso caminho em direção da plena comunhão, e nos permite provar já agora qualquer fruto, ainda que imperfeito”, disse o Santo Padre, acrescentando:

“Na medida em que nos aproximamos com humildade de espírito ao Nosso Senhor Jesus Cristo, estamos certos de nos aproximarmos também entre nós e na medida que invocaremos do Senhor o dom da unidade, podemos estar certos de que Ele nos tomará pela mão e Ele será o nosso guia. É preciso deixar-se tomar pelas mãos do Senhor Jesus”.

O Papa Francisco congratulou-se ainda com o fato de ter sido publicado recentemente, em vista da comemoração dos 500 anos da Reforma, um texto da Comissão luterano-católica para a unidade intitulado “Do conflito à comunhão. A interpretação luterano-católica da Reforma em 2017”.

Olho com profunda gratidão a Jesus Cristo, aos numerosos passos que as relações entre luteranos e católicos deram nas últimas décadas, explicou o Papa, sublinhando que isso foi possível “não só através do diálogo teológico, mas também através da colaboração fraterna em vários âmbitos pastorais e, sobretudo, no compromisso a prosseguir no ecumenismo espiritual.

“Sabemos bem – como várias vezes nos recordou Bento XVI – que a unidade não é primariamente fruto do nosso esforço” – finalizou o Papa Francisco -, “mas da ação do Espírito Santo ao qual é necessário abrir os nossos corações com confiança para que nos conduza pelas estradas da reconciliação e da comunhão”. (SP)

Fonte: Radio Vaticano em 21.10.2013

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