"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."
Segunda, 22 Abril 2013 09:13

As grandes surpresas

Durante semanas, desde o início de 2013, temos sido inundados por extraordinárias novidades eclesiais:

– A renúncia de Bento XVI. Desmistificando assim a imagem do Sumo Pontífice. Na nobreza do gesto, mostrou sua profunda humildade e realismo, como ele nos disse – “Eu cheguei onde eu pude. Sigam a caminhada com um novo Papa! ”

- O conclave de fevereiro chamou alguém lá dos confins da terra. E a nossa Igreja se viu, empurrada pelo Espírito, a considerar-se a si mesma localizada, pela primeira vez, fora da Europa e do Mediterrâneo.

- Os “200 anos de atraso” denunciada pelo Cardeal Martini, pesaram na consciência do último conclave?

Ter presente que:

-Estamos vivendo um tempo de esperança e desejos de reforma. Não se pode perder essa oportunidade histórica por tanto tempo sonhada.

-Os conservadores foram pegados de surpresa e ainda não tiveram suficiente para se articular e lutar de uma forma mais sistemática e eficaz. No entanto, não se deve subestimar que a maioria do episcopado foi cuidadosamente escolhida por João Paulo II e Bento XVI.

O MINI- MAGISTÉRIO DO PAPA FRANCISCO

Ainda é cedo para configurar um novo modelo de Igreja. As dúvidas continuam: as novas sementes que Francisco está lançando, vão germinar? São suficientemente abundantes para permitir sonhar com uma nova colheita, apesar de a terra pisada pela burocracia dos que vão e vêm, o enredo de espinhos da cúria e as áreas de grandes estruturas de pedra e de cimento que estão aí ”para ficar” e não se mover facilmente …? Quanto sobra de terra boa não ressecada pelas decepções, não dominada pelas sementes ruins que foram caindo, século após século?

É verdade que se sente  um ar muito semelhante ao tempo do Concílio. De repente, o mundo inteiro, como nunca tinha sido possível nas últimas décadas, sentiu irromper uma abundância de gestos e mensagens surpreendentes, provenientes da autoridade suprema da Igreja. Estamos diante de um mini-magistério papal que orienta o futuro próximo da Igreja. Resumimos em dez pontos:

1. VOLTAR ÀS FONTES : “EU FUI ESCOLHIDO BISPO DE ROMA”

Desde o primeiríssimo momento em que o novo Papa se apresentou na Sacada de São Pedro, se auto-identificou como o bispo de Roma. Coerência teológica e pastoral. Ele é o “Primus inter pares” (primeiro entre iguais). É ele que também recebe o ministério de Pedro, de confirmar os seus irmãos e irmãs. A identidade papal se revela de corpo inteiro. O mito de um poder sobre todos, se apresenta como um servidor – o primeiro entre iguais – com a responsabilidade de a todos confirmar na fé e continuar a missão de Jesus. Ganha força a Igreja local. Surgem oportunidades privilegiadas para o ecumenismo entre “iguais”, com a ajuda do irmão, que é Bispo de Roma.

ENTÃO: O futuro pede uma leitura inteligente, comunitária e criativa do que estão dizendo os sinais dos tempos, e, ao mesmo tempo, uma constante  retomada de nossas fontes bíblicas, místicas e missionárias, a partir de uma visão menos europeia e mais universal. A Igreja na América Latina, por exemplo, precisa de integrar em sua caminhada atual “o que os seus antepassados lhe ​​legaram” desde Bartolomé de las Casas, Pablo de la Torre, Diego de Medellín, Nóbrega, Anchieta, Helder, Romero, Luciano Mendes, os índios e escravos …, as mulheres anônimas …

2. A PARTIR DO SE QUE TOMAVA COMO PERIFERIA

A Igreja não é Europa, não se reduz a um continente, a uma cultura, a uma geopolítica. São legítimas e necessárias as diferenças teológicas, buscando compreender e comunicar o conteúdo da Revelação. As diferentes línguas, tradições, símbolos,  gestos e músicas potencialmente “litúrgicas”, permitem a uma comunidade expressar e aprofundar a sua fé e seus valores fundamentais.

Nesse processo, as Igrejas locais não são secundárias, ou sucursais de Roma. Em cada uma delas acontece a totalidade da una, santa, católica e apostólica comunidade de Jesus. O que é alcançado em uma delas é patrimônio comum, em razão da comunhão radical que há entre todas elas. As diferenças não são ameaças, mas graças. Neste sentido, Ásia, Oceania, África, América Latina não são apêndices, mas o corpo da Igreja, juntamente com a Europa. Nem mais, nem menos.

3. A IGREJA LOCAL É A PROTAGONISTA

O esquema de pirâmide ainda não foi superado no imaginário pastoral e teológica. Temos um  Papa maravilhoso, que nos inspira e nos ama e um conjunto eclesial, muitas vezes medíocre em seu clero, em seus seminaristas e seus membros que estão deixando a Igreja Católica. A nova imagem do Pastor enche o horizonte eclesial contemporânea. Mas ainda não conseguimos, com igual intensidade e clareza, desenvolver uma comunidade crente.

O ministro, mesmo quando Papa, continua a ser mais importante que o povo de Deus. Negando o que Lumen Gentium diz no capítulo II.

Os bispos do Brasil estão discutindo sobre a paróquia, comunidade de comunidades. Mas as comunidades têm ainda de ser criadas. Não se trata de reunir todas as experiências de grupos existentes e lhes dar o nome da comunidade, mantendo as estruturas paroquiais de sempre.

As igrejas locais devem decidir sobre suas teologias e liturgias com a liberdade de acolher o que as outras experiências ao longo dos séculos conseguiram interpretar e comunicar. Todo nominalismo é desastroso. Sem igrejas menores na base, a paróquia nunca vai ser uma instância de articulação, inspiração e pastoral de conjunto.

4. VISÃO UNIVERSAL E AÇÃO COLEGIADA LOCAL

Foram buscar Jorge M. Bergoglio na Argentina, para ele se tornar o pastor de todos. Já não pertence a um país, a uma ordem religiosa, ou a um movimento. Estritamente falando, não pode haver um papa polaco, alemão ou latino-americano. É o papa, nada mais. Isso é tudo. Ninguém se vai sentir alheio na frente dele. Foi colocada por Deus. Ele é, igualmente, o pastor de todos e de cada um.

Jesus, neste momento, nos deu um novo pastor. Com ele, houve uma sintonia global com essa figura branca de uma pessoa humilde, acolhedora e simples. Não foi a majestade, a manifestação de seu poder, a inteligência, a pompa que conquistou a gente. Rapidamente ele se tornou um ícone de um modelo de igreja que oferece sintonia única com o Jesus que a gente amou, escutou, sentiu, às margens do Mar da Galileia, pelos caminhos da sua terra, trazendo esperança para os mais necessitados, orientando os que buscavam os caminhos de Deus.

Muitos se perguntavam se, através de Bergoglio, também a contribuição da Igreja na América Latina chegava a todo o mundo.

ENTÃO:

Estamos com o dom de um pastor, simples, amável, nobre e com personalidade forte. Ele nos vem presenteando com gestos acompanhado também por palavras,  poucas, mas centrais: misericórdia, perdão, alegria, ir àté às pessoas, caminhar, edificar, confessar, cheiro de povo, discernir, criar, nada de ”carreirismo” ou pompas, e mostrando que poder é serviço …  Se repete o que já se costuma repetir: “Gente simples, em lugares pouco importantes, continuam a causar grandes mudanças” (Provérbio Africano). Mas o importante agora é que os colegas e pastores do baixo clero também sigam seus exemplos no seu espaço local, coerentes com a visão papal que está a ser compartilhada com eles.

5. O NOME QUE É UMA BANDEIRA

Se dar o nome de Francisco é fazer uma declaração de intenções e um programa de vida. É não só deixar os sapatos vermelhos, mas caminhar descalço. Fazer-se povo, “um de nós”, como dizia a gente praça de S. Pedro depois de se encontrar com o pontífice recém-eleito. “Ele vai reconstruir a Igreja”, como aconteceu com São Damião, em Assis.

É urgente relançar o VATICANO II. O que se vislumbrou:

- uma Igreja samaritana, pobre e servidora dos mais necessitados, chegando aos últimos. Com a simplicidade, pobreza e coerência evangélica dos líderes e dos ministros. Comunidade que não se encerre em seus edifícios e estruturas (ou “fique doente”, segundo o Papa Francisco, no discurso de Quinta-feira Santa de 2013). Pastores da Igreja, que “têm o cheiro de povo”, por estarem com ele (idem)

- a pequena Igreja (LG 26), não ao lado dos movimentos, mas como primeira instância eclesial (Med 15,10). Na base da vida, onde os batizados são sujeitos e não meros membros passivos. Fermentos missionários da Boa Nova de Jesus.

- Comunidades presentes onde o Concílio não pôde chegar.

- A mulher com um protagonismo real e eficaz, presente nos ministérios.

- Uma igreja com um coração jovem acolhendo as multidões das novas gerações que já não se sentem saciadas com a mediocridade do consumismo, a vulgaridade sexo irresponsável e sem amor.

6. AS PESSOAS, NÃO O EDIFÍCIO

Nas paróquias e dioceses, estamos quase inteiramente dedicados ao atendimento dos fiéis. Esperando que as pessoas venham até nós, aos nossos edifícios. Esta prática tem se demonstrado não só inadequada, mas desastrosa. A Igreja é, por natureza, itinerante, deve mover-se em direção às direção das periferias.

A paróquia atual tornou-se uma meta de chegada, quando deveria ser ponto de partida. Sofre da síndrome do gueto.

A itinerância da Igreja não pode acontecer se as estruturas eclesiásticas são tão complexas e pesadas que se torna impossível se mover. As  superficiais reformas paroquiais estão traindo as esperanças de uma Igreja missionária. Ao mesmo tempo, se está perdendo a oportunidade histórica de apoiar a proposta das CEBs.

7. A GRAÇA SILENCIOSA

A devoção popular, é a espiritualidade do povo cristão. Ela é particularmente mariana e permanece, apesar de todas as dificuldades que vem encontrando numa sociedade técnica, científica e auto-suficiente. É confundida com esoterismo, rituais cabalísticos, sincretismos religiosos.

Esta fé do povo, que não se separa de gestos de gratuidade e de profunda caridade silenciosa, humilde, perseverante, não depende da presença dos ministros ordenados. Vem sendo passada de geração em geração.

8. MÉTODO: O POVO QUE FAZ TEOLOGIA

Desenvolve uma Teologia ascendente, a partir da vida. Não privilegia uma reflexão que parte dos dogmas para chegar à vida. E que acaba chegando tarde, respondendo a situações que já passaram. Em outras circunstâncias se concentra de tal maneira em salvar a pureza das verdades (o que obviamente é importante), mas descuidando de criar os meios e instrumentos para implementar os valores proclamados. Isto foi o que aconteceu com o Vaticano II que ajustou turbinas poderosas do Boeing 777 na fuselagem dos pequenos DC 3.

9. NICEIA III E VATICANO III (Não mais a atitude de: “ou … ou”, mas a convicção de que tem de ser “, e …e”)

A Igreja não pode ser a apresentação de algo imutável, porque ela é “fermento” , está dentro do mundo. É como uma semente que, sendo coerente com o seu próprio ser, muda continuamente em contato com a terra. Continua sempre em perigo de transformar em verdade imutável ou  em Instituição Divina o que é o resultado de situações históricas.

O Concílio de Niceia I, nos apresenta o mistério de Deus e de Cristo, mas na língua grega. O que mais temos entendido do Deus Inesgotável, ao longo dos últimos 1.700 anos? Isso é o que diria o Concílio Niceia III.

O Vaticano III teria que pegar o que foi plantado pelo Concílio Vaticano II, e começou a se desenvolver ao longo dos últimos 50 anos (Reino de Deus, povo de Deus, Colegiado, Igreja no mundo, teologia das realidades terrenas, liberdade de consciência, ecumenismo, diálogo com as religiões, etc.) e os novos desafios da história da humanidade.

10. O QUE SE ESTÁ PEDINDO DE NÓS A PARTIR DO COMEÇO DO NOVO PONTIFICADO

Não reduzir a Igreja a um Papa extraordinário, identificado com o modo do Jesus histórico. A igreja não é o Papa. Não se trata de uma pessoa, mas da Comunidade.

Somos todos nós, não só um papa dos pobres, simples, evangélico … ele é um ícone de uma igreja pobre e servidora.

Simplificar, deixar a burocracia, as pompas, a ostentação do poder.

Se abrir ao povo, sem elitismo de movimentos, de grupos especiais. O objetivo não é uma nova Igreja, mas um mundo segundo o coração de Deus, família humana pluralista na qual estamos para servir e não para conquistar.

Anunciar o que se vive e se ama. Com um diálogo real e ecumênico, dizendo ao mundo que é possível se aproximar dos diferentes e até mesmo daqueles que eram considerados inimigos.

Perdoar erros, pedir perdão pelos erros históricos, dar credibilidade. O objetivo é o Reino.

Os sujeitos mais importantes: não o clero, mas os pobres, os jovens, a mulher, a comunidade.

O método não tem por objetivo conquistar, dar mais poder ou o monopólio à Igreja Católica.

Estamos em Tempo de salvação.

Padre José Marins

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Segunda, 22 Abril 2013 05:07

O sentido do dízimo nos dias de hoje

Olhar o dízimo apenas através das necessidades financeiras da comunidade é muito pobre. É evidente que a igreja necessita de recursos, para manter-se pastoralmente ativa, mas essa necessidade deverá incluir muitos outros critérios que coloquem todo o sentido da ação da Igreja no mundo, como comunidade sinal de salvação, perspectiva da dignidade da pessoa humana, criatura dependente de seu Criador.

Historicamente notamos que o sistema de manutenção das comunidades passou por variações dependendo da época. Nota-se, portanto, que foi experimentado no decorrer dos anos: o sistema de doações espontâneas como expressão da disponibilidade religiosa do homem e do espírito de sacrifício; o sistema de dízimo, fruto de uma legislação, com correspondente obrigação jurídica, portando, inclusive sanções; sistema de côngruas, no qual os ministros do culto eram “pagos” pelos governos; e o sistema de taxas, pagas por ocasião de certos serviços religiosos.

As doações espontâneas nunca foram suprimidas. Teologicamente elas são ricas de sentido, quando trazidas pelo homem com generosidade diante de Deus. Quando se fala do sistema do dízimo como forma de sustentação da comunidade, não se tem em vista suprir tais doações. O que acontece é que a comunidade nem sempre consegue viver exclusivamente de doações, que geralmente são ocasionais e então é extremamente necessário uma forma perene de subsistência da comunidade.

O sistema de dízimo manifesta-se infinitamente mais pastoral do que o sistema de taxas. Sucede que no sistema de taxas, cada cristão tem apenas visão do quanto contribui pessoalmente por ocasião de certos atos de culto. Por outro lado, não parece absolutamente pastoral se for sob forma de legislação com obrigação jurídica e sanção correspondente. Tão pouco parece viável a restauração do dízimo em seu sentido aritmético (10% dos rendimentos), como igualmente não seria equitativa a fixação de outra porcentagem qualquer (1% dos rendimentos ou centésimo). Isso imporia uma obrigação aritmética igual todos sem olhar as diferenças financeiras de cada. Estar-se-ia pedindo mais de quem tem menos e menos de quem tem mais. Repetimos novamente o princípio do direito que nos ensina: “Devemos tratar de forma desigual os desiguais”.

O sistema do dízimo parece pastoralmente rico, enquanto sistema de devolução sistemática (mensal, por exemplo); de compromisso moral com a comunidade (não jurídico); fixado de acordo com a consciência formada de cada um (sem índice aritmético). O mundo dos bens materiais só se dignifica através do dom livre, e jamais por imposição de uma lei que reduz de novo à faixa dos meros impostos, taxas e obrigações financeiras.

Dessa forma tirar-se-ia da palavra dízimo suas conotações aritméticas, conservando seu sentido religioso. Segundo os bispos do Brasil, não parece útil ou aconselhável substituí-la por outra palavra, como centésimo, por exemplo. A palavra dízimo tem toda uma ressonância bíblica e tradicional na consciência cristã, que pode e deve ser valorizada dentro de um novo contexto e sentido histórico.

O dízimo focalizado na Palavra de Deus tem toda uma atitude religiosa, de reconhecimento do poder absoluto de Deus e da relatividade do poder do homem. Essa é a lição que podemos tomar nas primeiras paginas do Gênesis, numa preocupação catequética de ensinar ao homem sua posição diante de Deus e do mundo.

O dízimo nos dias atuais deve conter essa visão teológica/pastoral. Dessa forma seria uma catequese viva, uma verdadeira educação de atitude religiosa para o homem do mundo moderno, técnico, que descobriu seu poder frente a natureza. Pastoralmente, a renovação do sistema em si, se situaria dentro do esforço da Igreja frente aos desafios do mundo de hoje, no sentido de fazer o homem descobrir seus limites e abrir-se a Deus e aos irmãos.

A devolução do dízimo sob pressão não é o caminho pastoral verdadeiro, seja oferecendo benefícios e privilégios aos dizimistas ou negando certos serviços ou impondo obrigações especiais aos não dizimistas. Quando se encontra essa forma em muitas comunidades, nota-se aí uma incapacidade fundamental, por parte da Igreja, daquilo que está no coração de sua missão: formar a consciência dos homens. Mesmo diante da frieza de muitos católicos, o sistema do dízimo, nos dias atuais, contará sempre com a única força de seu élan original, a formação e a vivência do espírito comunitário. É bom entender que a conscientização para o dízimo não é uma simples etapa, mas um trabalho constante da comunidade junto aos seus membros.

A devolução do dízimo é feita a Deus, que dela necessita, mas com o sentido preciso de socorrer as necessidades da comunidade, em termos de culto, de manutenção dos serviços apostólicos, e de socorrer os irmãos mais necessitados.

(Fonte: FELIPIN, E. Dízimo e oferta na Igreja Católica. CNBB-8-Pastoral do Dízimo, 2013. p. 15 -18)

 

 

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Durante a 51ª Assembléia da CNBB, 10 a 19 de abril em Aparecida, foi feita uma análise do quadro religioso do Brasil, em base aos dados do censo de 2010.

Conforme já foi noticiado, houve uma nova diminuição do número dos que se professam católicos, que seriam ainda cerca de 64% da população brasileira; houve quedas igualmente de adeptos das Igrejas Protestantes tradicionais ou históricas, como a Luterana, a Presbiteriana, a Congregacional e outras Igrejas Evangélicas de missão; mas também houve queda acentuada dos aderentes à Igreja Universal do Reino de Deus e de outros grupos pentecostais livres. Novos grupos “livres”, de inspiração neopentecostal surgiram e conquistaram adeptos.

Essa mudança religiosa não deixa de nos questionar. Há explicações culturais, sociais e religiosos na base dessa mobilidade religiosa que assistimos no Brasil nas ultimas décadas. Mas não basta compreender o fenômeno: como católicos, não podemos ficar indiferentes. E como Arcebispo da Igreja, expresso minha viva dor e preocupação por todo o católico que abandona a sua fé e me pergunto sobre os motivos que estão na base da sua escolha. Evidentemente, partimos do pressuposto de que a liberdade religiosa e de consciência das pessoas deve ser respeitada.

Mas quando isso nos envolve, devemos dar respostas adequadas. Os motivos do abandono da fé católica, no entanto, devem ser examinados por nós, levando-nos às decisões que nos cabem tomar, com o coração movido pela caridade pastoral, por amor às pessoas, respeito e amor à verdade. Não podemos cair no indiferentismo religioso, em que uma coisa vale a outra e a verdade da Igreja fica relativizada pelo irenismo ou até pelo comodismo.

Causa do abandono da fé católica pode ser o conhecimento insuficiente ou apenas superficial da fé e da própria Igreja Católica. Muitas pessoas nunca foram verdadeiramente evangelizadas, nem tiveram a oportunidade de fazer uma experiência genuína e gratificante da fé em Deus na nossa Igreja. Não se ama o que não conhece. E, não havendo raízes profundas nem identificação pessoal sólida com a fé e a Igreja Católica, o abandono acontece com facilidade.

O que devemos fazer nesses casos? Certamente, é preciso evangelizar mais e melhor, dando aos fiéis a oportunidade de conhecerem melhor a Deus e a Igreja, e de fazerem a experiência gratificante e profunda da fé. Devemos propor a verdade integral do Evangelho, sem poupar esforços para convidar as pessoas a fazerem um caminho de crescimento e amadurecimento na fé.

Acontece também que as pessoas abandonam a fé católica e a Igreja porque ficam decepcionadas com o nosso atendimento, nem sempre acolhedor. Isso nos deve levar, evidentemente a rever nossos modos de tratar as pessoas. Ninguém espera ser tratado mal, ainda mais por quem representa a Igreja e fala em nome de Deus. E isso vale para nossos atos oficiais, como as celebrações, mas também para as relações pessoais dos católicos.

Entre as causas do abandono da fé e da Igreja Católica também está a discordância com a nossa doutrina moral ou mesmo com artigos da nossa fé. Nesse caso, por certo, não devemos renunciar à nossa fé, nem ocultar as exigências morais que decorrem do Evangelho. Mas, devemos cuidar de não transformar a fé em moralismo superficial, nem deixar de propor o encontro vital com Deus por meio de Jesus Cristo, antes de tratar das exigências morais do Evangelho. O resto será obra da graça de Deus, que conta com o diálogo paciente e respeitoso, o testemunho pessoal de vida cristã e o desejo sincero de ganhar irmãos para Cristo, para que tenham, por ele, a vida verdadeira.

Há também o fato da pregação contrária à Igreja católica e sua doutrina, que leva muitos irmãos ao engano, ao abandono da fé e ao desprezo da Igreja. Nesse caso, cabe-nos defender as ovelhas do nosso rebanho e vigiar, mostrando-lhes a verdade e esclarecendo os aspectos em que sua fé e seu amor à Igreja são abalados.

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

(Fonte: O SÃO PAULO, ed. de 16.04.2013)

 

 

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Terça, 16 Abril 2013 10:46

E agora, Francisco?

 Outro dia, após celebração eucarística em comunidade simples da periferia, linda e sábia senhora com mais de 80 anos me disse: “não acha que nosso papa Francisco se parece muito com Jesus?”. Perguntei-lhe: “por quê?”. “É que ele”, respondeu-me, “é humilde, sorri para a gente, abraça e beija as crianças, fala em misericórdia e chama a atenção de todos para os pobres!”

 Estando de pleno acordo com ela, disse-lhe que Francisco tem a cara de Jesus, podendo dizer, como São Paulo: “vivo, não eu, vive em mim, Cristo”. Acrescentei, ainda, que suas atitudes estão encantando o mundo. Ele quer a Igreja entregue à evangelização; uma Igreja pobre. Proclama que somos irmãos e que sua autoridade como Bispo de Roma é serviço! Encontra-se com jornalistas e dialoga com irmãos de outras igrejas cristãs, não cristãos e com descrentes também. Com vigor, proclama à Igreja a urgência de termos os olhos fixos em Jesus, repetindo aquilo que, unido a seus irmãos bispos na Conferência de Aparecida, proclamamos: “Conhecer a Jesus Cristo é nossa alegria e transmitir este tesouro aos demais é tarefa que o Senhor nos confiou” (DA18).

 O papa Francisco insiste no fato de que a Igreja existe para evangelizar e tem bem presente aquilo que afirmou com os seus irmãos, na 5ª Conferência dos Bispos da América Latina e Caribe: “Nenhuma comunidade deve isentar-se de entrar decididamente com todas as forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DA365). Ainda, “a conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação, para uma pastoral decididamente missionária” (DA370).

 E agora, incentivados por Francisco, somos convidados a mudanças de comportamento, de estruturas ultrapassadas que dificultam o avanço da nova evangelização, a começar pelas periferias! O convite de Jesus para que “sejamos perfeitos, como o Pai celeste é perfeito” é, entre as urgências, a primeira! Sobre os ombros de Francisco pesam as esperadas mudanças na Cúria Romana; na revisão da missão da Nunciatura Apostólica; na convocação de peritos, incluindo casais, psicólogos leigos, para respostas às questões propostas pela bioética, genética, sexualidade, casais de segundas núpcias; no aprofundamento da missão, papel da mulher na Igreja!

               Estamos unidos ao querido papa Francisco, olhos fixos em Jesus que, no vigor do Espírito Santo, nos convoca e envia à construção do Reino do Pai, feito de misericórdia, justiça, amor e paz.

Dom Angélico Sândalo Bernardino

(Fonte: O São Paulo - Espaço Aberto - 16 a 22/04/2013)

 

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Quinta, 14 Março 2013 09:31

A História da Páscoa

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Aos estimados Bispos Auxiliares,

ao clero e aos religiosos/as

e a todos os leigos/as da Arquidiocese de São Paulo

 

Nossa Igreja vive momentos de intensa alegria! No segundo dia do Conclave, foi eleito o novo Papa. Francisco é seu nome, em memória de São Francisco de Assis. Até agora, ele era o arcebispo de Buenos Aires, na Argentina. Daqui por diante será o Bispo de Roma e Sumo Pontífice de toda a Igreja Católica. É o primeiro papa não europeu, um papa latino-americano, e também o primeiro papa jesuíta. Tem grande coração de pastor e a escolha de seu nome - Francisco - é muito indicativa: escolha de Deus acima de tudo, simplicidade, fraternidade, amor aos pequenos e pobres, bondade, missionariedade...

 

Alegremo-nos todos! Agradeçamos a Deus pelo novo Pastor universal da Igreja! No Ano da Fé, Deus está nos dando muitos sinais de esperança e chamados para a renovação da nossa fé.

 

Que o Espírito Santo inspire sempre as decisões do novo Papa, fortaleça-o no governo da Igreja, como Pastor universal visível do rebanho do Supremo Pastor. Que nos conforme na fé dos apóstolos e dos santos, como Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Assis.  Nossa Igreja é bonita pelo que tem de divino. Deixemo-nos santificar pelo Santo que nela habita e a conduz.

 

Convido todos a acompanharem com sua intensa oração, desde agora, o papa Francisco. A Missa de inauguração do seu Pontificado será celebrada no dia 19 de março, outro momento significativo: São José é Patrono universal da Igreja. Que ele interceda pelo Papa Francisco e por toda a "família de Jesus" - a Igreja e a humanidade inteira.

 

Deus abençoe e guarde a todos e sua paz e alegria. Até breve, em São Paulo


Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo


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Mensagem de D. Tarcísio Scaramussa, SDB

Vigário Geral


São Paulo, 13.03.2013

Ao clero e ao Povo da Arquidiocese de São Paulo

Caríssimos/as irmãos e irmãs,

 

Francisco é o nosso novo Papa. Recebemos a boa notícia esperada. A alegria habita em nosso coração. Obrigado, Senhor, porque nos destes um novo Papa. Sabemos que nos destes um Papa segundo o vosso coração. Nós renovamos nosso amor à Igreja. Nós amamos e acolhemos o novo Papa com amor de cristãos católicos e com amor de brasileiros, ou seja, amor demonstrado, expansivo, acolhedor.

 

Neste Ano da Fé, recordamos que o Papa é, para a Igreja, sucessor de São Pedro, "perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos, quer da multidão dos fiéis" (CIC 882).

 

Professar a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, e confirmar os irmãos na fé, é a primeira missão do sucessor de Pedro. O evangelista Mateus relata o diálogo de Jesus com seus discípulos. Pergunta-lhes: “quem sou eu para vocês”? Simão Pedro se adianta e responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus então lhe diz: “Feliz és tu, Simão, … porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não poderão vencê-la” (Mt 16,15-18).

 

A segunda missão prioritária é ser expressão do amor de Cristo para com todos, reunir a todos na comunhão para o seguimento do Senhor. “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes”? É a pergunta repetida três vezes por Jesus, antes de entregar-lhe o ministério de pastor do povo de Deus. À resposta, por três vezes afirmativa, o Senhor entregou confiante a

 

Simão o cuidado do rebanho. Depois disse que ele deveria consumar sua vida nesta entrega de amor. “E acrescentou: Segue-me” (Cf. Jo 21,15-19). Na tradição da Igreja, o apóstolo Pedro é modelo na profissão de fé e no amor. O amor é o distintivo dos cristãos, como é ressaltado nos Atos dos Apóstolos: “Vede como eles se amam”. As primeiras palavras do Papa Francisco foram uma forte convocação para a fraternidade!

 

Como decorrência do amor, o Papa é sinal de comunhão e de unidade, daquela unidade querida por Jesus e deixada como um testamento, na última ceia: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21).

 

São inúmeros os desafios que o Papa deve enfrentar todos os dias em sua missão, mas contará sempre com nosso apoio e oração, e será sustentado pelo Senhor.

 

A Arquidiocese de São Paulo renova sua profissão de fé na Igreja, “una, santa, católica e apostólica”, e manifesta a sua comunhão com a Sé Apostólica.

 

A Virgem Maria, mãe da Igreja, acompanhe o nosso novo Papa, como acompanhou Jesus Cristo e os apóstolos, e com ela, agradecemos cheios de alegria ao Senhor pelo dom de ter um novo Papa na pessoa de Francisco: “A minh'alma engrandece o Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador”.

 

Fraternalmente,

Dom Tarcísio Scaramussa, SDB

Vigário Geral

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Integra da entrevista dada à Folha de São Paulo, que pouco aproveitou do que foi dito...

“Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi. Então publico a entrevista inteira aqui no blog para reflexão e discussão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica. As perguntas foram reordenadas. (Leonardo Boff - 15/02/2013)”

1. Como o Sr. recebeu a renúncia de Bento XVI?

R. Eu desde o principio sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez, imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças. Eu tinha certeza de que um dia ele, aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites físicos de sua saúde e menor vigor mental para renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de Papa. Eu fiquei aliviado porque a Igreja está sem liderança espiritual que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor que professor, não um homem da instituição-Igreja mas um representante de Jesus que disse: "se alguém vem a mim eu não mandarei embora" (Evangelho de João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transexual.

2. Como é a personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?

R. Conheci Bento XVI nos meus anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele, mas não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: "O lugar da Igreja no mudo secularizado" e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um calhamaço de mais de 500 pp. Depois trabalhamos juntos na revista internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em português. Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta eu e ele passeávamos e conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje os frequento a miúde. Depois em 1984 nos encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do ex-Santo Ofício, movido contra meu livro "Igreja: carisma e poder" (Vozes 1981). Ai tive que sentar na cadeirinha onde Galileu Galilei e Giordano Bruno entre outros sentaram. Submeteu-me a um tempo de "silêncio obsequioso"; tive que deixar a cátedra e proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.

3. Ele como Cardeal foi o seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?

R. Quando foi nomeado Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé(ex-Inquisição) fiquei sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamente a cada livro que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma. Havia aqui bispos conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que aí trabalham no Vaticano rapidamente encontram mil razões para serem moderados e até conservadores. Então sim fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.

4. Como o Sr. recebeu a punição do "silêncio obsequioso"?

R. Após o interrogatório e a leitura de minha defesa escrita que está como adendo da nova edição de Igreja: charisma e poder (Record 2008) são 13 cardeais que opinam e decidem. Ratzinger é um apenas entre eles. Depois submetem a decisão ao Papa. Creio que ele foi voto vencido porque conhecia outros livros meus de teologia, traduzidos para alemão e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez, diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o "silêncio obsequioso" como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o acolhi. Lembro que disse: "é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha teologia". Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição porque a Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais Dom Aloysio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns me acompanharam a Roma e depois participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Card. Ratzinger e comigo. Ai éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Card. Ratzinger em certo constrangimento pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas contra a teologia da libertação que ele fizera num documento saído recentemente eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento positivo; ele acolheu a ideia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a mim e ao meu irmão teólogo Clodovis que estava em Roma que escrevêssemos um esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação. E num dia e numa noite o fizemos e o entregamos.

5. O Sr deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?

R. Eu nunca deixei a Igreja. Deixei uma função dentro dela que é de padre. Continuei como teólogo e professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do país. Quem entende a lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem e trocam) sabe que, se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante aos regime de segurança nacional que temos conhecido na A. Latina sob os regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta lógica o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio, ex-Inquisição), o Card. J. Ratzinger condenou, silenciou, depôs de cátedra ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles estão condenados fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas como dizia Blaise Pascal: "Nunca se faz tão perfeitamente o mal como quando se faz de boa vontade". Só que esta boa-vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo nenhuma mágoa ou ressentimento pois exerci compaixão e misericórdia por aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros luz da prática de Jesus. Aliás é coisa do século passado, já passado. E evito voltar a isso.

6. Como o Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e externas da Igreja?

R.  Bento XVI foi um eminente teólogo mas um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da comunidade, como tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de forma reducionista, como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos USA negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos que fizeram uma séria opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da vida e da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus irmãos de fé, e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli da Argentina e Dom Oscar Romero de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não mataram. Mas a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além desta vida. Hoje sabemos pelo Vatileaks que dentro da Cúria romana se trava uma feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado Bertone e o ex-secretário Sodano já emérito. Ambos tem seus aliados. Bertone, aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo. Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa e do Banco do Vaticano, usado pelos milionários italianos, alguns da máfia, para lavar dinheiro e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades mas agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e que ele não soube ou não pode atalhar a tempo.

7. O Papa João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu mas uma casa com janelas e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transfomar a Igreja novamente em algo como um museu?

R. Bento XVI é um nostálgico da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas de papas renascentistas e de outros tempos passados, manteve os hábitos e os cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé que existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente comentava. Quando na Universidade onde ele estudou e eu também, em Munique, viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as novas fronteiras da teologia da libertação pediu o reitor que protelasse sine dia o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São Boaventura que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É uma das razões que explicam sua oposição à modernidade que a vê sob a ótica do secularismo e do relativismo e for a do campo de influência do cristianismo que ajudou a formar a Europa.

8. A igreja vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a moral sexual?

R. A Igreja deverá manter as suas convicções, algumas que estima irrenunciáveis como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fora a única portadora da verdade. Ele deve se entender dentro do espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo ela precisa ser mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à fé não é o ateismo, mas o medo. O medo paraliza e isola as pessoas das outras pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente mas não se apropria com exclusividade desta realidade.

9. O que um futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras igrejas, e especialmente pentecostais?

R. Bento XVI freou a renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a tradição. Ocorre que a tradição a partir do século  XVIII e XIX se opôs a todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros direitos. Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas modernidades. E via no Vaticano II o cavalo de Tróia por onde elas poderiam entrar. Não negou o Vaticano II mas o interpretou à luz do Vaticano I que é todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível. Assim se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamanho da China. Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados como o alemão e francês e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas, criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras na Igreja não se vivia mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos. O perfil do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus que já citei anteriormente: "Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora", pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como Nicodemos. Não deveria ser um homem do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto mundo globalizado sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas mas alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se orientaria pelo Evangelho mas sem espírito proselitista, com a consciência de que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que vem a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos para juntos manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença de Deus. E por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil. Como age o Espírito Santo ai é mistério. Ele não tem outra voz e outra cabeça do que aquela dos cardeais. Que o Espírito não lhes falte.

Publicado em Palavra Viva
Sexta, 01 Março 2013 15:33

Iniciação Cristã com Adultos

 

Numa sociedade fortemente marcada pela secularização e o individualismo, o adulto procura cada vez menos à Igreja, para receber os Sacramentos da Iniciação Cristã (Batismo, Crisma e Eucaristia).

À Catequese com Adultos é uma ação evangelizadora em nossa comunidade, que visa introduzir e iniciar, aqueles com mais de 18 anos, que ainda não receberam os Sacramentos da Iniciação Cristã, motivando-os a caminhar à maturidade cristã, bem como, introduzi-los na comunidade, possibilitando assim caminharem no seguimento e na doutrina de Jesus Cristo, na maneira de viver e na necessidade de transformar o mundo. Portanto, interagindo entre fé e vida e serviço fraterno, de acordo com os valores do Reino.

Os encontros acontecem sempre as quartas-feiras a partir da 20:00 hs, onde serão preparadas aquelas pessoas que querem receber os Sacramentos de Iniciação.

Todos os encontros são apostilados em linguagem própria, facilitando assim a participação de todos.

As inscrições podem ser feitas no expediente da Paróquia.

Quinta, 21 Fevereiro 2013 13:33

3ª noite do Tríduo à N. S. de Lourdes

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Domingo, 17 Fevereiro 2013 08:44

1ª noite do Tríduo à N. S. de Lourdes

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