"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."
Sábado, 12 Abril 2014 12:35

Carta ao papa Francisco

Querido irmão Francisco:

Desde que foste eleito para ser a humilde ‘Rocha’ sobre a qual Jesus quer continuar construindo hoje sua Igreja, acompanhei com atenção tuas palavras. Agora, acabo de chegar de Roma, onde pude te ver abraçando crianças, bendizendo enfermos e inválidos e saudando a multidão.

Dizem que és vizinho, simples, humilde, simpático... E não sei quantas coisas mais. Penso que há em você alguma coisa mais, muito mais. Pude ver a Praça de São Pedro e a Via dela Conciliazione cheias de gente entusiasmada. Não creio que essa multidão se sinta atraída somente por tua simplicidade e simpatia. Em poucos meses você se converteu em uma ‘boa notícia’ para a Igreja e, também, para além da Igreja. Por quê?

Quase sem dar-nos conta, você está introduzindo no mundo a Boa Notícia de Jesus Cristo. Você está criando na Igreja um clima novo, mais evangélico e mais humano. Você está nos oferecendo o Espírito de Jesus Cristo. Pessoas afastadas da fé cristã me dizem que as ajudas a confiar mais na vida e na bondade do ser humano. Alguns que vivem sem um caminho para Deus me confessam que acordou em seu interior uma pequena luz que os convida a revisar sua atitude frente ao mistério último da existência.

Eu sei que na Igreja precisamos de reformas muito profundas para corrigir desvios alimentados durante muitos séculos, porém, nestes últimos anos, foi crescendo dentro de mim uma convicção. Para que se possam realizar estas reformas, precisamos, previamente, de uma conversão num nível mais profundo e radical. Precisamos, sinceramente, voltar a Jesus, colocar as raízes de nosso cristianismo com mais verdade e mais fidelidade em sua pessoa, sua mensagem e seu projeto do Reino de Deus. Por isso, quero exprimir-te que é isso o que mais me atrai de seu serviço como Bispo de Roma neste começo de tua tarefa.

Eu te agradeço que abraces as crianças e as apertes ao teu peito. Estás nos ajudando a recuperar aquele gesto profético de Jesus, tão esquecido na Igreja, porém tão importante para entender o que esperava de seus seguidores. Segundo relatam os Evangelhos, Jesus chamou os doze, pôs uma criança no meio deles, o apertou entre seus braços e lhes disse: "O que acolhe a uma criança como esta em meu nome, está acolhendo a mim.”

Tínhamos esquecido que no centro da Igreja, atraindo a atenção de todos, devem estar sempre os pequenos, os mais frágeis e vulneráveis. É importante que estejas entre nós como ‘Rocha’ sobre a qual Jesus constrói sua Igreja, porém é tão importante ou mais que estejas em nosso meio abraçando os pequenos e bendizendo aos enfermos e os que não têm valor, para nos lembrar como acolher a Jesus. Este gesto me parece decisivo nestes momentos em que o mundo corre o risco de se desumanizar criando incompreensão com os últimos.

Eu te agradeço que nos chames de forma tão repetida a sair da Igreja para entrar na vida onde sofremos e nos alegramos, lutamos e trabalhamos: esse mundo onde Deus quer construir uma convivência mais humana, justa e solidária. Creio que a heresia mais grave e sutil que penetrou no cristianismo é de ter feito da Igreja o centro de tudo, afastando do horizonte o projeto do Reino de Deus.

João Paulo II nos lembrou que a igreja não é um fim em si mesma, mas somente ‘semente, sinal e instrumento do Reino de Deus’, porém suas palavras se perderam no meio de muitos outros discursos. Agora desperta em mim uma alegria grande quando nos chamas a sair da ‘autorreferência’ para caminhar em direção às ‘periferias existenciais’.

Aproveito sublinhando tuas palavras: "Devemos construir pontes, não muros para defender a fé”; precisamos de "uma igreja de portas abertas, não de controladores da fé”; "a igreja não cresce com o proselitismo, mas com a atração, o testemunho e a pregação”. Parece-me escutar a voz de Jesus que, do Vaticano, nos empurra: "Ide anunciar que o Reino de Deus está perto”, "ide e curai os enfermos”, "o que há recebido de graça, devolva-o de graça”.

Também te agradeço pelos teus apelos contínuos a converter-nos ao Evangelho. Como bem conhece à Igreja. Surpreende-me tua liberdade em dar nomes aos nossos pecados. Não o fazes com linguagem de moralista, mas com a força do Evangelho: as invejas, a ansiedade de fazer carreira e o desejo do dinheiro; "a desinformação, a difamação e a calúnia”; a arrogância e a hipocrisia clerical; "a espiritualidade mundana” e a "burguesia do espírito”; os "cristãos de salão”, os ‘crentes de museu’, os cristãos com ‘cara de funeral’. Preocupa-te muito ‘um sal sem sabor’, ‘um sal que não sabe de nada’, e nos chamas a sermos discípulos que aprendem a viver com o estilo de Jesus.

Não nos chamas só a uma conversão individual. Empurra-nos a uma renovação eclesial, estrutural. Não estamos acostumados a escutar essa linguagem. Surdos ao chamado renovador do Vaticano II, esquecemos que Jesus convidava seus seguidores a ‘por o vinho novo em odres novos’. Por isso, me enche de esperança tua homilia da festa de Pentecostes: "A novidade nos da sempre um pouco de medo porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós os que constroem, programamos e planificamos nossa vida segundo nossos esquemas, seguranças e gostos... Temos medo que Deus nos leve por caminhos novos, nos tire de nossos horizontes, muitas vezes bem limitados, fechados, egoístas, para abrir-nos aos seus”.

Por isso nos pedes que nos perguntemos sinceramente: "Estamos abertos às surpresas de Deus ou nos fechamos com medo às novidades do Espírito Santo? Estamos decididos a percorrer os novos caminhos que a novidade de Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em estruturas caducas que perderam a capacidade de dar respostas?” Tua mensagem e teu espírito estão anunciando um futuro novo para a Igreja.

Quero terminar estas linhas expressando-te humildemente um desejo. Talvez não poderás fazer grandes reformas, porém podes dar um impulso à renovação evangélica em toda a Igreja. Com certeza podes tomar as medidas oportunas para que os futuros bispos das dioceses do mundo inteiro tenham um perfil e um estilo pastoral capaz de promover esta conversão a Jesus que tu queres encorajar desde Roma.

Francisco, és um presente de Deus. Obrigado!

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

Fonte: Adital - 12/04/2014

(José Antônio Pagola é padre e teólogo)

Publicado em Palavra Viva
Terça, 18 Março 2014 06:46

A luta contra a amnésia

A fé cristã vive de memórias perigosas. Vive da memória próxima e personalizada de quem crê na Santíssima Trindade e na revelação de Jesus. Vive da memória viva da entrega de Jesus na cruz para nos salvar. Vive deste amor que se faz semente que morre para dar vida abundante. Memória celebrada e atualizada a cada Eucaristia. Memória da presença de Deus Libertador na vida humana e na história dos povos. “Fazei isto em memória de mim”, diz Jesus na última ceia. A fé cristã é sempre um memorial que atualiza no tempo a experiência eterna da misericórdia e da compaixão. Sem memória perdemos este tesouro divino, e sem sua atualização congelamos e mumificamos a epifania de Deus. Memória e esperança sempre caminham juntas. Não podemos aceitar a amnésia e lutamos contra ela. Os teólogos da América Latina assumiram a memória como uma categoria essencial para dar sentido e valor à ação da Igreja no contexto conflitivo de nossas sociedades desiguais e injustas. A teologia na América Latina pensa a fé cristã respondendo às perguntas dos aflitos e faz memória das cruzes para viver a ressurreição proposta e realizada por Cristo. A teologia é viva quando se preocupa com os pobres do continente e se assume como teologia da cruz e memória dos crucificados. Diz o Martirológio Romano, no número 13, na edição de 2013 em língua portuguesa, publicada pela Conferência Episcopal Portuguesa: “A Igreja peregrina celebrou, desde os primeiros tempos da sua existência, os Apóstolos e mártires de Cristo, que, pelo derramamento do seu sangue, a exemplo do Salvador padecente sobre a Cruz, na esperança da ressurreição deram o supremo testemunho da fé e da caridade (Ap 22,14)”. Esta fidelidade litúrgica é mantida pela Igreja há séculos e foi assumida pelas Igrejas locais como um testemunho de amor aos pobres na defesa do Evangelho integral. O papa João Paulo II afirmava em carta aos bispos do Brasil em 09.04.1986: "Os pobres deste país, que tem nos senhores os seus pastores, os pobres deste continente são os primeiros a sentir urgente necessidade deste evangelho da libertação radical e integral. Sonegá-lo seria defraudá-los e desiludi-los".

Nestes cinco séculos de presença cristã na América Latina recordamos uma lista de patriarcas que não podem ser esquecidos pelas novas gerações e novas igrejas. São nomes marcantes para a Igreja dos pobres comprometida com a liberdade e o Evangelho encarnado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Destacamos alguns nomes: Bartolomeu de las Casas, Pedro Claver, Martinho de Lima, Francisco Solano, Toríbio de Mongrovejo, Rosa de Lima, Antônio Maria Claret, José Antônio Pereira Ibiapina, Rubens Cândido Padim, Richard Shaull, Hugo Assmann, Fernando Gomes, Manuel Larrain, Milton Schwantes, Orestes Stragliotto, Ronaldo Muñoz, Enrique Angel Angelelli e Oscar Arnulfo Romero Y Gadamez. Somada a esta lista de patriarcas da fé temos a lista daqueles que foram mortos por causa da Igreja e da justiça social. Todos aqueles que mantiveram firme seu amor preferencial aos pobres e são reconhecidos e relembrados como mártires e sementes de novas Igrejas. São os/as filhos/as amados/as desta Igreja que oferece a sua própria vida em oferenda no altar de Deus. Alguns destes nomes a recordar: Santo Dias da Silva, Adelaide Molinari, Cleusa Nascimento, Dorothy Mae Stang, Josimo Moraes Tavares, Ezequiel Ramin, Rodolpho Lunkenbein, João Bosco Penido Burnier, Antonio Pereira Neto, Francisco de Pancas, Purinha de Linhares, Paulo Vinhas de Vitória, Verino Sossai de Nova Venécia e Gabriel Felix Roger Maire.  Esta lista de mártires ainda deve ser completada por alguns profetas da esperança que enfrentaram as ditaduras militares de nosso continente. Do Brasil lembramo-nos de uma lista de padres banidos do Brasil pelo regime ditatorial que vigorou de 1964 a 1985 e que está sendo passado a limpo pela Comissão da Verdade para que aconteça a justiça, a memória e a verdade. Lembramos por obrigação com a verdade dos nomes e das vidas dos padres Lawrence Rosenbaugh, Romano Zufferey, Giorgio Callegari, Vito Miracapillo, Joseph Wauthier, Jan Honoré Talpe, José Pendandola, José Comblin, Francisco Jentel, Giuseppe Fontabella, Francisco Lage. Sofreram o degredo do país que amavam e serviam porque ficaram ao lado dos trabalhadores, dos empobrecidos e principalmente dos camponeses e indígenas. Há também aqueles que foram torturados pelos agentes do Estado e por grupos paramilitares. Gente que pagou caro em seu próprio corpo e mente por defender a justiça, o Evangelho da verdade. Eis alguns nomes de religiosos perseguidos com inquéritos militares: Alípio Cristiano de Freitas, Francisco Lage Pessoa, José Eduardo Augusti, Francisco Benedetti Filho, Leonilde Boscaine, Oscar Albino Fuhr, Affonso Ritter, Hélio Soares do Amaral, Roberto Egídio Pezzi, Mariano Callegari, Carlos Gilberto Machado Moraes, Giulio Vicini, Yara Spadini, Angelo Gianola, Geraldo Oliveira Lima, Gerson da Conceição, Paulo Martinechen Neto, Antônio Alberto Soligo, Jan Talpe, Alexandre Vannucchi Leme entre outros. Nos quatro primeiros séculos da Igreja, serão aproximadamente 200 mil os cristãos perseguidos, torturados e mortos pelo império romano, em 129 anos de perseguição e 120 anos de relativa tranquilidade, dos anos 64 a 313 d.c. Todas as gerações conheceram o sofrimento e tiveram testemunhas e heróis. Todas as Igrejas precisavam estar preparadas para o martírio e prisão. Todos guardavam as memórias destas pessoas e cantavam seus louvores. Ao lado de cada mártir há pelo menos 100 cristãos que tiveram que suportar prisão, tortura, desterro, condenação às minas e confisco de bens. Nos últimos cinquenta anos, depois do final do Concílio Vaticano II em 1965, a Igreja voltou a viver o drama das catacumbas e a honra do martírio em muitos povos e igrejas (cf. Ivo Lesbaupin, A bem-aventurança da perseguição, Petrópolis: Vozes, 1977).

No Brasil houve 695 processos contra cidadãos e entre eles alguns cristãos. E que foram guardados pelo Projeto Brasil Nunca Mais, da Arquidiocese de São Paulo, sob a direção do Cardeal Paulo Evaristo Arns, todos nos anos de chumbo. Neste dossiê imenso constam os nomes de padres, bispos, religiosos e leigos da Igreja Católica que foram perseguidos no Brasil. Três destes processos datam do ano de 1964 e todos os demais são de 1968 e anos posteriores. O mais clamoroso, foi o processo de número 100, contra os frades da Ordem Dominicana em São Paulo. Foram acusados de manter ligações com Carlos Marighella. Foram presos frei Betto; frei Fernando Brito; frei Yves do Amaral Lesbaupin e Frei Tito de Alencar Lima, entre outros frades aprisionados em todo o Brasil, com a tortura de alguns dos freis levando como decorrência de tanta brutalidade à morte, frei Tito de Alencar Lima. 
Lembramos a título de exemplo: o processo BNM 595 contra 34 religiosos de várias congregações, padres, ex-padres e professores de teologia ligados à Igreja de Belo Horizonte - MG, só por terem assinado um manifesto contra o assassinato do estudante Edson Luís Lima Souto, em 29 de março de 1968. Em Porto Alegre-RS foi aberto o processo BNM 453 contra a apresentação de peça teatral no salão paroquial em Vila Niterói, Canoas. Oito pessoas foram denunciadas. A situação era tão patética e absurda que um processo BNM 470 foi aberto contra o seminarista jesuíta espanhol Francisco Carlos Velez Gonzales, residente no Brasil, por ter feito editar e divulgar uma versão da encíclica Populorum Progressio, do papa Paulo VI. O processo BNM 136 foi aberto contra oito padres e ex-padres da diocese de Itabira-MG, para atingir frontalmente o então bispo dom Marcos Antônio Noronha. O processo BNM 65 feito contra Madre Maurina Borges da Silveira, em Ribeirão Preto – SP, sua posterior deportação para o México, e a consequente excomunhão dos delegados torturadores da cidade de Ribeirão Preto: Miguel Lamano e Renato Ribeiro Soares. No processo BNM 467 foram acusados e torturados a professora e educadora Maria Nilde Mascellani, o jornalista Dermi Azevedo, Darcy Andozia Azevedo, e o filho de ambos, Carlos Alexandre Azevedo, também torturado, no Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS) paulista com um ano e oito meses de idade, em 1974. Neste mesmo processo foram presos e torturados os membros da Pastoral Operária de São Paulo, entre os quais Waldemar Rossi. Foram presos sob o comando do então delegado torturador Sérgio Paranhos Fleury. Waldemar Rossi foi julgado e absolvido na Justiça Militar em 1978. Em julho de 1980, seria Waldemar Rossi quem falaria ao Papa João Paulo II, em nome dos trabalhadores brasileiros no Estádio do Pacaembu comentando as dores dos operários e da Igreja com eles comprometida (cf. Mitra Arquidiocesana de São Paulo, Perfil dos atingidos – Projeto Brasil Nunca Mais, Petrópolis: Vozes, 1988).

Toda a perseguição comandada por generais ditadores e organizada em cada estado pelo aparelho de tortura foi financiada por algumas empresas e grupos econômicos, tendo o suporte logístico do governo brasileiro e de agentes do governo norte-americano que ensinou técnicas de tortura para militares brasileiros e supervisionou a repressão através da embaixada e de adidos militares. Tudo inspirado na Ideologia de Segurança Nacional que endeusava o Estado e o poder militar atacando e destruindo a dignidade da pessoa humana e perseguindo a fé cristã que permaneceu fiel aos pobres e aos pequenos. Fazer memória em nossas Igrejas é hoje, redescobrir o sentido da entrega de tantas pessoas e valorizá-las como instrumentos de Deus e de seu Evangelho libertador.

Quem poderia esquecer na Igreja Católica os anos de sofrimento que passou a Igreja no Chile durante a ditadura de direita do general Augusto Pinochet? Quem poderá olvidar o sofrimento do primaz da Ucrânia, Dom Iossep Slipêi, preso pelo regime comunista soviético, submetido a torturas contínuas e trabalhos forçados na Sibéria desde 1940 até sua libertação em 12 de fevereiro de 1963, aos 70 anos?

Como não celebrar a memória da perseguição da Igreja salvadorenha com dezenas de catequistas assassinados em anos de guerra, e muitas religiosas, sacerdotes e inclusive o arcebispo da capital San Salvador, o mártir e santo Oscar Arnulfo Romero?
Como deixar no anonimato os nomes dos 13 sacerdotes e dois bispos assassinados pela ditadura militar argentina? Como esquecer o testemunho de pastor do bispo Enrique Angel Angelelli, ao tomar posse da diocese de La Rioja e pedir: “ajudem-me a que não me prenda a interesses mesquinhos ou de grupos; orem para que seja o bispo e o amigo de todos, dos católicos e dos não católicos; dos que creem e dos que não creem”? 

O século 20 foi um século de martírios e perseguições feitas contra os cristãos de muitas igrejas e países, com grandes testemunhos do Evangelho nos tempos de hoje, configurando uma nova “nuvem de mártires”, como mártires da caridade, na pessoa de tantos que morreram por epidemias e doenças ao trabalhar no meio dos pobres e das calamidades a que estes estão submetidos; mártires da justiça, basicamente vivendo no hemisfério sul do planeta, na América Latina, África e continente asiático; mártires das máfias e do terrorismo, enfim, os inúmeros mártires de extermínios coletivos de tantos totalitarismos e ditaduras no mundo atual (Andrea Riccardi, O século do martírio, Lisboa: Quetzal Editores, 2000).

Sabemos que a Igreja “continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (Santo Agostinho, A cidade de Deus, XVIII, 51,2, Petrópolis: Vozes, vol.2, 2012)”. E fazer memória das perseguições não é opcional. É uma obrigação e uma celebração necessária para manter a fidelidade à mensagem e à prática de Jesus, pois “do mesmo modo que Jesus Cristo consumou a sua obra de redenção na pobreza e na perseguição, assim também, a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho para poder comunicar aos homens os frutos da salvação (Lumen Gentium 8)”.

A celebração e memória dos mártires não é um momento fúnebre e nostálgico. “Não é uma lista de atrocidades repugnantes, analisadas em sua insensatez e ineficácia; não é tampouco um triunfalismo. É muito mais. É a celebração e confirmação da causa pela qual, tantos foram sacrificados; é uma comemoração da vida, da promessa, da plenitude pascal de Jesus e dos seus. É, portanto, a celebração do amor que dá sentido à morte. Se presta respeito e se homenageia aos que levaram a sério a Deus, ao povo, a Igreja e a eles mesmos” (José Marins, Teolide Trevisan, Carolee Chanona, Memoria peligrosa, México: Centro de Reflexión Teológica, 1989, p. 25).

Celebrar os mártires é guardar a memória do sangue derramado pela Igreja e por Cristo como obrigação da fé viva e verdadeira. Não é opcional. Não é sublimar derrotas nem cair em masoquismo dolorista. O mártir é um profeta que segue a cruz de Cristo com humildade e que faz a entrega da sua vida pela vida de outros. É alguém coerente com os valores que prega. A memória de nossa fé passa pela vida daqueles que entregam suas vidas pelos pobres, pela Igreja e por Cristo. A luta contra a amnésia começa com a celebração de suas vidas, de suas lutas, de seus sonhos e de suas causas.

Prof. Dr. Fernando Altemeyer Júnior

Fonte: O Mensageiro de Santo Antonio

 

Publicado em Palavra Viva
Sexta, 07 Março 2014 04:18

Hino da Campanha da Fraternidade 2014

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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
AOS FIÉIS BRASILEIROS POR OCASIÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2014

Queridos brasileiros

Sempre lembrado do coração grande e da acolhida calorosa com que me estenderam os braços na visita de fins de julho passado, peço agora licença para ser companheiro em seu caminho quaresmal, que se inicia no dia 5 de março, falando-lhes da Campanha da Fraternidade que lhes recorda a vitória da Páscoa: «É para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal 5,1). Com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus Cristo libertou a humanidade das amarras da morte e do pecado. Durante os próximos quarenta dias, procuraremos conscientizar-nos mais e mais da misericórdia infinita que Deus usou para conosco e logo nos pediu para fazê-la transbordar para os outros, sobretudo aqueles que mais sofrem: «Estás livre! Vai e ajuda os teus irmãos a serem livres!». Neste sentido, visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para uma chaga social qual é o tráfico de seres humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõem este ano o tema "Fraternidade e Tráfico Humano".

Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! «A este nível, há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência» (Discurso aos novos Embaixadores, 12 de dezembro de 2013). Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da própria convivência social! Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada?

Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais… E isso – pasmem! – a troco da minha dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito Santo que clama dentro de nós: «Abbá, Pai!» (cf.Gal 4,6). A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida em abundância (cf.Evangelii gaudium, 75).

Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21), despertando em cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica.

Vaticano, 25 de fevereiro de 2014.

Franciscus PP.

Publicado em Palavra Viva

Fez-se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2Cor 8,9)


Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2Cor 8,9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de tudo, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fl 2,7; Hb 4,15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez conosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Hb 1,2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10,25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11,30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8,29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para aliviá-las. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2Cor 6,10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013

Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

Fonte:(http://www.vatican.va/holy_father/francesco/messages/lent/documents/papa-francesco_20131226_messaggio-quaresima2014_po.html) 12/02/2014

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Segunda, 20 Janeiro 2014 04:36

Grande Festa da Padroeira

Venham participar com a comunidade Nossa Senhora de Lourdes dessa gradiosa Festa de sua Padroeira.

Nos dia 9 e 16 de fevereiro, após as missas das 10hs até as 21hs, estaremos em festa com muitas brincadeiras para as crianças e alimentação com comidas suculentas e deliciosas o dia todo.

No dia 11 de fevereiro, teremos as missas nos horários costumeiros, sendo as 15hs a celebração presidida pelo Dom Edmar Peron, nosso Bispo da região Belém.

Não deixem de comparecer e trazer sua familia, para juntos desfrutarmos de momentos alegres de muito amor e confraternização.

Maiores informações, procurem o expediente paroquial ou liguem 2606-8309.

 

 

 

Sábado, 18 Janeiro 2014 10:29

Intereclesial emblemático

O 13º Intereclesial das CEBs tem, pelo menos, três elementos emblemáticos, como se fossem um divisor de águas entre os anteriores e o futuro das comunidades eclesiais de base.

Primeiro, ele foi realizado no Juazeiro do Norte, Ceará, nas terras do Pe. Cícero. Esse padre, influenciado por seu predecessor nas missões do sertão nordestino, Pe. Ibiapina, fez de sua vida uma radical opção pelos pobres. São das mesma linhagem os “beatos e beatas”, como Zé Lourenço, Maria Araújo e Conselheiro, pessoas que sentiram chamadas a dedicar suas vidas às populações esquecidas daquele tempo. Influenciados por Ibiapina, esses homens e mulheres fundaram suas comunidades inspirados nas primeiras comunidades citadas nos Atos dos Apóstolos.

É bom lembrar que há 150 anos, em tempos de seca, o sertão era praticamente um deserto. Foi aos famintos, sedentos, vítimas do cólera pela água contaminada, aos órfãos, que esses homens e mulheres dedicaram a plenitude de suas vidas. Por isso, para muitos, eles são os pioneiros no Brasil das atuais comunidades eclesiais de base e também da Teologia da Libertação, já que o ponto de partida eram os pobres, não como objetos de caridade, mas como sujeitos de sua história já ao final do século XIX.

Segundo, pela primeira vez um papa envia uma carta de apoio às comunidades eclesiais de base. O contentamento dos presentes era visível. Afinal, durante as últimas décadas, em grande parte do Brasil e do continente, essas comunidades foram abandonadas, quando não perseguidas e caluniadas, sobretudo por aqueles que desejam uma Igreja distante do povo e fechada em si mesma. Por isso, o povo também enviou uma carta de gratidão ao Papa.

Terceiro elemento é que não havia euforia e nem triunfalismo no Juazeiro do Norte, mesmo que tenha sido um evento grandioso, com belíssima liturgia e momentos de entusiasmo. Todos estão conscientes que, se a Igreja quer ser mesmo uma “rede de comunidades”, como diz o documento 104 da CNBB, então cabe um desafio pastoral imenso de formação das comunidades eclesiais de base, de retomada de sua organização, de apoio na formação em todos os níveis, da criação de espaços que lhes sejam próprios, liberação de pessoas, recursos e tudo mais que se faz necessário no cotidiano pastoral.

O novo é que elas sejam também missionárias, formando novas comunidades e novas lideranças. Além do mais, agora estamos em pleno século XXI, um contexto de mudança de época, com as novas tecnologias, as redes sociais, a pluralidade religiosa, pluralidade de valores, as mudanças radicais no clima do planeta, assim por diante. Esse é o desafio: como continuar tendo a inspiração originárias das primeiras comunidades num mundo em imensurável transformação?

Como será o futuro só a história dirá. Porém, quem tiver um pouco de boa vontade, pode ver aí claros sinais dos tempos.

Roberto Malvezzi (Gogó)

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Querido irmão, bispo de Roma e pastor primaz da unidade, Papa Francisco,

Nós, cristãos e cristãs, leigos das comunidades eclesiais de base, agentes de pastoral, religiosos/as, diáconos, padres e bispos, assim como irmãos de Igrejas evangélicas e de outras tradições religiosas. Também tivemos conosco nesse encontro representantes de povos indígenas, quilombolas e ainda irmãos e irmãs, vindos de outros países da América Latina e Caribe, assim como de outros continentes. Todos nós que participamos do 13º Encontro intereclesial das comunidades eclesiais de base queremos expressar ao senhor nosso agradecimento pela bela e profunda carta que nos enviou e foi lida no início desse encontro. Sua carta nos chegou como uma luz a iluminar o caminho, reacendendo em nós a esperança numa Igreja, Povo de Deus.

Aproveitamos a oportunidade para nos unir ao seu esforço por renovar as Igrejas da comunhão católico-romana, de acordo com a teologia e a espiritualidade do Concílio Vaticano II, relidas e atualizadas pelas necessidades do mundo atual e pela urgência de que nós, cristãos, escutemos “o que o Espírito diz hoje às Igrejas” (Cf. Ap 2, 7).

Percebemos que a maioria da humanidade acolhe com gratidão o seu testemunho de homem de profunda simplicidade e que se revela discípulo de Jesus na linha do evangelho. Nós lhe agradecemos por fazer do ministério papal uma profecia contra a economia de exclusão, que hoje domina o mundo e defender os migrantes e clandestinos pobres da África e de outros continentes. Igualmente lhe agradecemos por reconhecer o papel da mulher na caminhada eclesial e esperamos que essa reflexão seja aprofundada.

Aqui em Juazeiro do Norte, CE, diocese de Crato, as comunidades eclesiais de base reafirmam sua vocação, no jeito de ser Igreja das primeiras comunidades e também no espírito das missões populares e das casas de caridade do Padre Ibiapina, do padre Cícero Romão Batista, do leigo José Lourenço, assim como de tantas mulheres santas como Maria Araújo, irmãos e irmãs que nos precederam nesse caminho de sermos Igreja dos pobres e com os pobres, cebs romeiras do campo e da cidade, na comunhão com a Mãe Terra e toda a natureza. Aqui, acolhemos e nos solidarizamos com os povos indígenas, ameaçados no seu direito à posse de suas terras ancestrais e todos os dias vítimas de violência e até de assassinato. Também nos impressionou o relato de extermínio de jovens pobres e negros, em várias regiões do nosso país. E nos solidarizamos com a luta e resistência dos quilombolas e do povo lavrador, ameaçados pelos grandes projetos do Capitalismo depredador do ambiente e injusto para com a maioria da humanidade.

Entre suas palavras e gestos, algo que nos toca muito de perto é o fato do senhor se apresentar como bispo de Roma e primaz da unidade das Igrejas. Essa atitude básica permitirá retomar o reconhecimento que o Concílio Vaticano II fez da plena eclesialidade das Igrejas locais e encontrar a profunda verdade que esse nosso encontro quer expressar, ao se chamar “intereclesial” de Cebs: um encontro de igrejas locais, reunidas a partir das comunidades eclesiais de base e desse modo da Igreja ser. Conte conosco nesse caminho e que Deus o ilumine e o fortaleça sempre.

Despedimo-nos, nos comprometemos de sempre orar pelo senhor e por todas as suas intenções. Pedimos sua bênção apostólica e nos colocamos à sua disposição para vivermos juntos a justiça e a profecia a serviço da vida. Na festa do Batismo de Jesus de 2014.

13º Encontro Intereclesial das CEBs, Juazeiro do Norte, Ceará, 11 de janeiro de 2014.


 (Criado por: Secretariado do 13ª Intereclesial – 11/01/2014)

 

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“Católicos e luteranos podem pedir perdão pelo mal que causaram uns aos outros e pelas culpas cometidas diante de Deus, e invocar “o dom da unidade”; “as dificuldades não faltam e não faltarão e serão necessários, paciência, diálogo, e compreensão recíproca”! Foi o que disse o Papa Francisco, recebendo em audiência nesta manhã, no Vaticano, uma delegação da Federação Luterana Mundial e os membros da Comissão luterano-católico para a Unidade.

“O ecumenismo espiritual constitui a alma do nosso caminho em direção da plena comunhão, e nos permite provar já agora qualquer fruto, ainda que imperfeito”, disse o Santo Padre, acrescentando:

“Na medida em que nos aproximamos com humildade de espírito ao Nosso Senhor Jesus Cristo, estamos certos de nos aproximarmos também entre nós e na medida que invocaremos do Senhor o dom da unidade, podemos estar certos de que Ele nos tomará pela mão e Ele será o nosso guia. É preciso deixar-se tomar pelas mãos do Senhor Jesus”.

O Papa Francisco congratulou-se ainda com o fato de ter sido publicado recentemente, em vista da comemoração dos 500 anos da Reforma, um texto da Comissão luterano-católica para a unidade intitulado “Do conflito à comunhão. A interpretação luterano-católica da Reforma em 2017”.

Olho com profunda gratidão a Jesus Cristo, aos numerosos passos que as relações entre luteranos e católicos deram nas últimas décadas, explicou o Papa, sublinhando que isso foi possível “não só através do diálogo teológico, mas também através da colaboração fraterna em vários âmbitos pastorais e, sobretudo, no compromisso a prosseguir no ecumenismo espiritual.

“Sabemos bem – como várias vezes nos recordou Bento XVI – que a unidade não é primariamente fruto do nosso esforço” – finalizou o Papa Francisco -, “mas da ação do Espírito Santo ao qual é necessário abrir os nossos corações com confiança para que nos conduza pelas estradas da reconciliação e da comunhão”. (SP)

Fonte: Radio Vaticano em 21.10.2013

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Nesta quarta-feira, mais uma vez a Praça S. Pedro ficou lotada para a Audiência Geral com o Papa Francisco.

Antes das 10h, o Pontífice já estava em meio aos fiéis, a bordo do seu jipe, para cumprimentá-los com bênçãos, carinhos e aperto de mãos. Em sua catequese, o Papa falou de mais uma característica da Igreja professada no Credo: a apostolicidade.

Professar que a Igreja é apostólica, explicou Francisco, significa destacar o elo profundo, constitutivo que ela tem com os Apóstolos. “Apostolo” é uma palavra grega que quer dizer “mandado”, “enviado”. Os Apóstolos foram escolhidos, chamados e enviados por Jesus, para continuar a sua obra. Partindo desta explicação, o Papa destacou brevemente três significados do adjetivo “apostólica” aplicado à Igreja.

Em primeiro lugar, a Igreja é apostólica porque está fundada sobre a pregação dos Apóstolos, que conviveram com Cristo e foram testemunhas da sua morte e ressurreição. “Sem Jesus, a Igreja não existe. Ele é a base e o fundamento da Igreja”, recordou o Papa, afirmando que a Igreja é como uma planta, que cresceu, se desenvolveu e deu frutos ao longo dos séculos, mas mantêm suas raízes bem firmes em Cristo.

Em segundo lugar, a Igreja é apostólica, porque Ela guarda e transmite, com ajuda do Espírito Santo, os ensinamentos recebidos dos Apóstolos, dando-nos a certeza de que aquilo em que acreditamos é realmente o que Cristo nos comunicou.

“Ele é o ressuscitado e suas palavras jamais passam, porque Ele está vivo. Hoje Ele está entre nós, está aqui, nos ouve. Ele está no nosso coração. E esta é a beleza da Igreja. Já pensamos em quanto é importante este dom que Cristo nos fez, o dom da Igreja, onde podemos encontrá-Lo? Já pensamos que é justamente a Igreja – no seu longo caminhar nesses séculos, apesar das dificuldades, dos problemas, das fraquezas, os nossos pecados – que nos transmite a autêntica mensagem de Cristo?”

Enfim, a Igreja é apostólica porque é enviada a levar o Evangelho a todo o mundo. Esta é uma grande responsabilidade que somos chamados a redescobrir: a Igreja é missionária e não pode ficar fechada em si mesma.

“Insisto sobre este aspecto da missionariedade, porque Cristo convida todos a irem ao encontro dos outros. Nos envia, nos pede que nos movamos para levar a alegria do Evangelho. Devemos nos perguntar: somos missionários ou somos cristãos de sacristia, só de palavras mas que vivem como pagãos? Isso não é uma crítica, também eu me questiono. A Igreja tem suas raízes, mas olha sempre para o futuro, com a consciência de ser enviada por Jesus. Uma Igreja fechada trai sua própria identidade. Redescubramos hoje toda a beleza e a responsabilidade de ser Igreja apostólica.”

Após a catequese, o Pontífice saudou os peregrinos de língua portuguesa, em especial os fiéis brasileiros de São José dos Campos, Santos e São Paulo. Em polonês, recordou os 35 anos da eleição à Sé de Pedro de João Paulo II.

Fonte: Rádio Vaticano 16.10.2013

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