"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

Jung Mo Sung

Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo.

A missão das igrejas cristãs é, como sempre foi, uma missão espiritual. O que diferencia as igrejas de outras organizações sociais é, entre outras coisas, o caráter explicitamente espiritual da sua missão, da sua razão de existir. Deixar de tratar da espiritualidade ou colocar esse tema em segundo plano é um caminho que leva à perda da identidade e credibilidade das igrejas.

Mas, em que consiste a espiritualidade? Um dos grandes equívocos das pessoas ou grupos religiosos preocupado com esse tema é pensar que o mundo moderno, por não ser mais religioso como era antigamente, carece de espiritualidade. Isto é, a espiritualidade é entendido como algo que só existe dentro das religiões ou de correntes que se assumem explicitamente como espirituais. Por isso, a missão das igrejas cristãs seria a de levar a espiritualidade a um mundo sem espírito.

Nesse tipo de visão, a espiritualidade é sempre vista positivamente. Há grupos que diferenciam, corretamente, a espiritualidade da religião e defendem a prioridade da espiritualidade sobre a religião; outros chegam a negar a possibilidade de se viver espiritualidade dentro das religiões tradicionais por causa do seu ritualismo mecânico e seus dogmatismos autoritários desvinculados da vida cotidiana. Porém, mesmo esses predomina a ideia essencialmente positiva de todas as espiritualidades.

Penso que esse equívoco se deve em grande parte à aceitação da "falsa propaganda” do mundo moderno que se diz ilustrado, racional, secularizado e, portanto, pós-religioso. Com isso, questões espirituais e religiosos ficariam restritos ao campo privado ou restrito aos grupos religiosos. O aumento do número de religiosos ou crentes em Deus não modificaria o fato de que o "mundo moderno” como tal é regido por razão e princípios da secularização. Diante de um mundo assim, os que não aceitam esse "ateísmo” moderno defendem a espiritualidade de um modo abstrato.

Para sairmos desse equívoco, precisamos repensar o que significa o "espírito”. Tanto em grego (pneuma), quanto em hebraico (ruah), a palavra "espírito” significa também "sopro”, "vento”, mostrando que o espírito é a força que move e dá direção uma pessoa ou uma sociedade. Um grande número de pessoas não formam por si um grupo ou sem não forem movidos por um mesmo "espírito” (temos a expressão "espírito de equipe”), assim como uma sociedade ampla como a atual não caminharia em uma direção mais ou menos definida se não fosse movida por um espírito. O famoso livro de Max Weber "A ética protestante e o espírito do capitalismo” trata exatamente do surgimento de um novo espírito que move um tipo particular de sociedade, a capitalista.

Weber sintetizou, no início do século XX, o que ele entende por esse espírito dizendo: "O homem é dominado pela produção de dinheiro, pela aquisição encarada como finalidade última da sua vida. A aquisição econômica não mais está subordinada ao homem como meio de satisfazer suas necessidades materiais. Esta inversão do que poderíamos chamar de relação natural, tão irracional de um ponto de vista ingênuo, é evidentemente um princípio orientador do capitalismo, tão seguramente quanto ela é estranha a todos os povos fora da influência capitalista”.

A ganância ilimitada e o desejo ilimitado de consumo e ostentação são características fundamentais da espiritualidade que move o capitalismo global hoje. É essa espiritualidade que move o mundo globalizado em direção ao agravamento da crise social (aumento da desigualdade) e ambiental.

É contra esse tipo de espiritualidade que devemos viver e anunciar a vida em Espírito de Jesus Ressuscitado. Espiritualidade verdadeiramente cristã e humanizadora não é aquela que nos retira desse mundo para um mundo "celestial”, nem nos dá força para realizarmos os desejos nos impostos pela cultura de consumo, mas sim nos dá força para vivermos amor-solidário nesse mundo.

Dessa reflexão, podemos tirar algumas conclusões: a) as igrejas não pregam espiritualidade a um mundo sem espírito, mas sim a um mundo onde se vive uma espiritualidade desumanizadora e destruidora da meio ambiente, uma espiritualidade idolátrica; b) nem toda espiritualidade é boa, humanizadora, portanto é preciso desmascarar a espiritualidade capitalista e também discernir se as espiritualidades que as igrejas propõem são realmente nascidas do evangelho ou não; c) espiritualidades religiosas que nos fazem esquecer dos conflitos e problemas do mundo e nos "elevam” para o mundo "celestial”, por mais atraentes que sejam, não são espiritualidades cristãs, pois o Espírito de Deus não vem para nos tirar do mundo (cf Jo 17), mas para nos dar força para vivermos nossa fé, agindo solidariamente na luta pela Vida; d) lutas sociais e políticas não são meramente sociais e políticas, mas são também expressões visíveis de diferentes espiritualidades.

Fonte: ADITAL 10.01.2013

 

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Sábado, 12 Janeiro 2013 05:59

O Direito ao Delirio

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Quinta, 20 Dezembro 2012 04:03

Natal: a festa da fragilidade divina

José Lisboa Moreira de Oliveira

Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasilia.

"Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher” (Gl 4,4). Assim "a Palavra se fez fragilidade (sárx), vindo armar a sua tenda no meio de nós” (Jo 1,14). O Filho abriu mão da sua igualdade com Deus, abraçou o esvaziamento total (kénosis), assumiu livremente uma postura de servo e optou por viver como um homem comum, aceitando inclusive ser assassinado da forma mais ignominiosa então existente (Fl 2,6-8).

 

Este deveria ser o espírito do Natal, mas, infelizmente, não é o que vemos acontecer na prática. A celebração da fragilidade divina foi usurpada pela sociedade de consumo, que, com as bênçãos do próprio cristianismo, transformou o Natal em trocas de coisas inúteis, cujo personagem principal é um velho de barbas brancas, vestido segundo os costumes das regiões frias do polo norte.

 

Porém, biblicamente falando, o Natal é a celebração da fragilidade divina. Fragilidade aqui entendida no sentido de que Deus se humaniza e vem ao encontro da humanidade. Fragilidade aqui não quer dizer frouxidão e incapacidade, pois Deus, com a potência do seu braço, continua dispersando os soberbos e derrubando os poderosos de seus tronos (Lc 1,51-52). Significa que Deus abre mão da sua grandeza e onipotência e vem se comunicar conosco usando a nossa linguagem. Para os simples Deus não se manifesta de forma gloriosa e pomposa, mas na fragilidade da condição humana. Para falar conosco e manifestar a sua bondade e misericórdia, Deus não só se torna humano como nós, mas aceita passar por situações humanas humilhantes, como foi o caso da morte na cruz do Filho Jesus.

 

As anotações do Novo Testamento são poucas, mas suficientes para mostrar a densidade desta verdade. Antes de tudo o registro feito por Paulo na Carta aos Gálatas, afirmando que Jesus, o Filho de Deus Pai, nasceu de uma mulher. Numa cultura andocêntrica, na qual tudo passava pela decisão e pela vontade do macho, Deus decide que o seu Filho nasceria de uma mulher, sem a participação direta do sujeito do sexo masculino. Trata-se de uma revolução fantástica, numa época em que a linhagem era reconhecida através da descendência masculina. Deus, revolucionando e revirando a lógica andocêntrica, coloca o macho numa função secundária. "José levou Maria para a sua casa, e, sem ter relações sexuais com ela, Maria deu à luz um filho. E José deu a ele o nome de Jesus” (Mt 1,24-25).

 

Outro registro importante do Novo Testamento é o fato de que o Filho de Deus vem ao mundo para viver como um homem qualquer, sem nenhum sinal especial, totalmente submetido ao escondimento da condição humana. Este é o verdadeiro significado da expressão grega "sárx” usada por João no seu evangelho (1,14). As traduções "se fez homem” ou "se fez carne” não estão erradas, mas não expressam o sentido do termo grego. Ao dizer que Jesus se fez "sárx” o evangelista está querendo afirmar que o Filho de Deus, pela encarnação, assumiu para si a fragilidade e as fraquezas que marcam qualquer ser humano normal. Jesus não foi alguém que fez de conta que era homem. Ele realmente foi totalmente humano e quis viver assim. Por isso toda imagem de um Jesus divino, brincando de ser homem, é uma tremenda heresia. Como foi plenamente humano, Jesus livremente se submeteu a todos os limites e fragilidades que marcam a vida de um ser humano aqui na Terra. E quando a Carta aos Hebreus diz que ele foi humano em tudo, exceto no pecado (Hb 4,15), está apenas afirmando que ele não cedeu às inúmeras tentações. Porém, experimentou na carne a tentação e as consequências disso.

 

Além disso, Jesus quis experimentar a humilhação e a morte injusta, participando assim do destino da humanidade sofrida. Não quis ser Cristo-Rei, mas Cristo-Servo, lavando os pés da humanidade prostrada. E para completar essa participação na humilhação da humanidade, seguindo fielmente o projeto do Pai, se opôs ao poder religioso e civil e terminou assassinado. Poderia ter escapado de tudo isso se tivesse cedido às pressões dos poderosos e celebrado um pacto com eles. Mas isso faria dele um traidor; alguém que não levaria a sério o compromisso assumido com o Pai de levar até o fim a sua mensagem de libertação da humanidade (Lc 4,18-19).

 

Nós nos acostumamos com certas coisas e, depois de dois milênios, não percebemos mais o caráter revolucionário do Natal. O macho não tendo participação direta na concepção de uma criança. O Filho de Deus vivendo como um homem qualquer, sem manifestação gloriosa nenhuma. E, por fim, vivendo como escravo e sendo ignominiosamente assassinado na cruz. Tudo isso era assustador para a sua época. Por isso José, paradigma de todo macho de ontem e de hoje, tem dificuldade de entender uma gravidez que acontece sem sua participação direta. O povo da época de Jesus não entende como um Filho de Deus seja capaz de aparecer de maneira tão simples (Jo 1,46). Pedro não entende um Jesus, Senhor e Mestre, exercendo funções de um escravo (Jo 13,6-9). A morte dele na cruz causou horror e pânico nas pessoas e foi tida como sinal evidente de que ele não era um homem de Deus (Gl 3,13).

 

Precisamos, pois, rever a atual maneira cristã de celebrar o Natal, infestada de consumo e de consumismo. É claro que não se trata de deixar de lado a alegria, principal característica desse tempo litúrgico (Lc 2,10.20), mas de rimar a alegria com a fragilidade do Menino que nasce num curral (em grego: fátnê) ou numa cocheira de colocar comida para animais (Lc 2,7). Trata-se da necessidade de celebrarmos o Natal como a festa da revelação da bondade, da misericórdia e da ternura de Deus. Trata-se de alegrar-se com a vinda de um Jesus frágil, simples, escondido.

 

Mas para que isso aconteça é indispensável repensar e rever muitas práticas dentro das próprias Igrejas. Antes de tudo transformar atitudes machistas e excludentes que deixam fora de certos espaços eclesiais – como é o caso dos ministérios – mulheres e pessoas consideradas de "má fama”. A prática de Jesus era bem outra (Mc 2,15; Lc 8,1-3). As lideranças (bispos, padres, pastores, ministros, ministras) precisam despir-se de toda pompa, de todo luxo e de toda arrogância, para vestir o avental da simplicidade, humildade e serviço. Além disso, as Igrejas precisam renunciar à pretensão de serem infalíveis, admitindo e confessando publicamente seus erros e pedindo humildemente perdão à comunidade. Fatos como a pedofilia dos padres, o desvio de dinheiro das comunidades e vários outros escândalos revelam a fragilidade das Igrejas. E elas só poderão celebrar de verdade o Natal se admitirem publicamente suas fragilidades e renunciarem à pretensão de "serem como deuses” (Gn 3,5).

 

Oxalá estas e outras coisas aconteçam para que o verdadeiro espírito do Natal seja recuperado e as Igrejas adquiram mais credibilidade, podendo proclamar solenemente: "anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo” (Lc 2,10). Sem isso o Natal seguirá adiante com a lógica do mercado, sendo apenas uma festa de troca de presentes e de mero consumo de coisas inúteis. Portanto, bem distante do seu verdadeiro significado.


Fonte: Adital – 20.12.12 - Mundo

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Quinta, 20 Dezembro 2012 02:41

Natal do menino abandonado

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Assessor das Pastorais Sociais

 

Eu o vi nos grandes centros comerciais, os shopping-centers,

deitado num simulacro de manjedoura, no interior de uma gruta,

rodeado de Maria, José, os pastores, os reis magos e alguns animais;

mas as atenções das pessoas concentravam-se sobre outra figura:

vestida de cores fortes, barbas longas e brancas, sentado num trono,

distribuía sorrisos e carinhos, abraços e presentes às crianças;

o verdadeiro protagonista da festa, acanhado a um canto,

permanecia solitário e ignorado pela imensa maioria,

a exemplo de tantos meninos e meninas abandonados pela cidade.

 

Eu o vi em algumas ruas ou praças da grande metrópole,

ao lado de estátuas de pessoas e animais acima do tamanho normal:

construções artísticas, criativas, profusamente iluminadas e enfeitadas,

os personagens bíblicos fazendo companhia ao menino no seu berço de palha;

mas os transeuntes não dispunham de muito tempo para contemplar a cena,

a ansiedade denunciava o frenesi e a voracidade dos encontros e das compras,

como se todos estivesses embriagados pelo brilho das luzes e presentes;

o protagonista maior desaparecia na torrente da multidão agitada,

como milhares de crianças em busca de abrigo, comida e carinho,

sós, órfãs e perdidas nos becos sem saída do álcool, violência ou droga.

 

Eu o vi no interior de muitas casas, onde a tradição cristã exige o presépio:

o mesmo menino, as mesmas figuras, os mesmos animais, o mesmo arranjo,

com o acréscimo progressivo da árvore, do Papai Noel e de vários enfeites;

a família, porém, tinha mil outros afazeres, próprios do final de ano,

não podendo perder tempo com reflexões sobre semelhante cenário;

roupas e sapatos, eletrônicos e eletrodomésticos, novidades de todo tipo,

exigiam muita pesquisa, variados preparativos e uma série de esforços;

pouca ou nenhuma atenção merecia a imagem do recém nascido,

como milhões de meninos e meninas marcados pelo abandono e a miséria.

 

Eu o vi nas Igrejas, não raro em arquiteturas caras e sofisticadas,

com a sagrada família e as tradicionais figuras ao redor dela

movimentando-se através de mecanismos e engrenagens invisíveis;

as cores e a indumentária das autoridades eclesiásticas, porém,

por vezes ofuscavam a simplicidade, a nudez e a humildade do menino;

outras vezes um liturgismo rígido e ritualista, primando pela formalidade,

afastava os fiéis do contato vivo com a Boa Nova da Encarnação;

como aos saduceus e fariseus de todos os tempos,

a miopia e a cegueira impediam de sentir a aurora do amor divino, incondicional e revestido de perdão, misericórdia e compaixão,

como também de inúmeros meninos que já nascem condenados à morte.

Amor personificado na singela imagem do presépio e do recém nascido.

Fonte: Adital - 19-12-12 - Brasil

 

 

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Segunda, 10 Dezembro 2012 11:27

Nota de solidariedade a Dom Pedro Casaldáliga

Ao se aproximar a desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsèdè, após mais de 20 anos de invasão, quando os não indígenas estão para ser retirados desta área, multiplicam-se as manifestações de fazendeiros, políticos e dos próprios meios de comunicação contra a ação da justiça.

Neste momento de desespero, uma das pessoas mais visadas pelos invasores e pelos que os defendem é Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, a quem estão querendo, irresponsável e inescrupulosamente, imputar a responsabilidade pela demarcação da área Xavante nas terras do Posto da Mata.

As entidades que assinam esta nota querem externar sua mais irrestrita solidariedade a Dom Pedro. Desde o momento em que pisou este chão do Araguaia e mais precisamente, desde a hora em que foi sagrado bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, sua ação sempre se pautou na defesa dos interesses dos mais pobres, os povos indígenas, os posseiros e os peões. Todos sabem que Dom Pedro e a Prelazia sempre deram apoio a todas as ocupações de terra pelos posseiros e sem terra e como estas ocupações foram o suporte que possibilitou a criação da maior parte dos municípios da região.

Em relação à terra indígena Marãiwatsèdè, dos Xavante, os primeiros moradores da região nas décadas de 1930, 40 e 50 são testemunhas da presença dos indígenas na região e como eles perambulavam por toda ela.  Foi com a chegada das empresas agropecuárias, na década de 1960, com apoio do governo militar, que a Suiá Missu se estabeleceu nas proximidades de uma das aldeias e  até mesmo conseguiu o apoio do Serviço de Proteção ao Indio para se ver livre  da presença dos indígenas. A imprensa nacional noticiou a retirada de 289 xavante da região os quais foram transportados em aviões da FAB, em 1966, para a aldeia de São Marcos, no município de Barra do Garça.

Em 1992, a AGIP, empresa italiana que tinha comprado a Suiá Missu das mãos da família Ometto, quis se desfazer destas terras. Por ocasião da ECO-92, sob pressão inclusive internacional, a empresa destinou 165.000 hectares para os Xavante que, durante todo este tempo, sonhavam em voltar à terra de onde tinham sido arrancados. Imediatamente  fazendeiros e políticos da região fizeram uma grande campanha para ocupar a área que fora reservada aos Xavante, precisamente para impedir que os mesmos retornassem. Já no dia 20 de junho de 1992, algumas áreas tinham sido ocupadas e foi feita uma reunião no Posto da Mata, da qual participaram políticos de São Félix do Araguaia e de Alto Boa Vista e também havia repórteres. A reunião foi toda gravada. As falas deixam mais do que claro que a invasão da área era  exatamente para impedir a volta dos  Xavante. “Se a população achou por bem tomar conta dessa terra em vez de dá-la para os índios, nós temos que dar esse respaldo para o povo” (José Antônio de Almeida – Bau, prefeito de São Félix do Araguaia).  “A finalidade dessa reunião é tentarmos organizar mais os posseiros que estão dentro da área... Se for colocar índio no seu habitat natural, tem que mandar índio lá para Jacareacanga, ou Amazonas, ou Pará...” (Osmar Kalil – Mazim, candidato a prefeito do Alto Boa Vista). “Nós ajudamos até todos os posseiros daqui serem localizados... Chegou a um ponto, ou nós ou eles (os Xavante) porque nós temos o direito... Dizer que aqui tem muito índio? Aqueles que estão preocupados com os índios que tem que assentar. Tem um monte de país que não tem índio. Pode levar a metade... Na Itália tem índio? Não, não tem! Leva! Leva pra lá! Carrega pra lá! Agora, não vem jogar em nós, não... ( Filemon Costa Limoeiro, à época funcionário do Fórum de São Félix do Araguaia)

A área reservada aos Xavante foi toda ocupada por fazendeiros, políticos e comerciantes. Muitos pequenos foram incentivados e apoiados a ocupar algumas pequenas áreas para dar cobertura aos grandes. O governo da República, porém estava agindo e logo,  em 1993, declarou a área como Terra Indígena que foi demarcada e, em 1998 homologada pelo presidente FHC.  Só agora é que a justiça está reconhecendo de maneira definitiva o direito maior dos índios.  O que D. Pedro sempre pediu, em relação a esta terra, foi que os pequenos que entraram enganados, fossem assentados em outras terras da Reforma Agrária. Mas o que se vê é que, ontem como hoje, os pequenos continuam sendo massa de manobra nas mãos dos grandes e dos políticos na tentativa de não se garantir aos povos indígenas um direito que lhes é reconhecido pela Constituição Brasileira.

Mais uma vez, queremos manifestar nossa solidariedade a Dom Pedro e denunciar mais esta mentira de parte daqueles que tentam eximir-se da sua responsabilidade sobre a situação de sofrimento, tensão e ameaça de violência que eles mesmos criaram, jogando esta responsabilidade sobre os ombros de nosso bispo emérito.

5 de dezembro de 2012

Conselho Indigenista Missionário – CIMI - Brasília

Comissão Pastoral da Terra – CPT - Goiânia

Escritório de Direitos Humanos da Prelazia de São Félix do Araguaia – São Félix do Araguaia

Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção – ANSA – São Félix do Araguaia

Instituto Humana Raça Fêmina – Inhurafe – São Félix do Araguaia

Associação Terra Viva – Porto Alegre do Norte

Associação Alvorada – Vila Rica

Associação de Artesanato Arte Nossa – São Félix do Araguaia

Grupo de Pesquisa Movimentos Sociais e Educação - GPMSE - Cuiabá

Associação Brasileira de Homeopatia Popular – ABHP - Cuiabá

Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso - FDHT - Cuiabá

Centro Burnier Fé e Justiça - CBFJ - Cuiabá

Fórum Matogrossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento - FORMAD - Cuiabá

Instituto Caracol - ICARACOL - Cuiabá

Rede de Educação Ambiental de Mato Grosso - REMTEA - Cuiabá

 

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Terça, 04 Dezembro 2012 05:15

Advento: memorial da esperança cristã

José Lisboa Moreira de Oliveira

Filósofo. Doutorem teologia. Ex-assessor do Setor de Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Cnetro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião(CREAR) da Universidade Católica de Brasília

 

As ciências da religião mostraram que, desde o surgimento da religiosidade, o ser humano religioso sacraliza o tempo. Ele procura inserir intervalos de tempo sagrado no "tempo profano”. Mircea Eliade afirma que o tempo sagrado serve para reatualizar eventos que tiveram lugar nos primórdios, no passado mítico. No tempo sagrado acontecem as festas religiosas e as liturgias. Elas servem para reintegrar o tempo ordinário ou normal no tempo mítico. Através do tempo sagrado os seres humanos religiosos acreditam recuperar o eterno presente e fazer experiência da presença da divindade. Assim sendo, na concepção da pessoa religiosa o tempo sagrado permite que o mundo renove-se anualmente e reencontre a sua santidade original. Nessa concepção não há apenas a cessação de um tempo, como pensam as pessoas modernas, mas a abolição do passado e a cessão do tempo decorrido. O tempo que existiu até então desaparece por completo e surge um novo tempo. E ao participar das festas sagradas que marcam o tempo sagrado as pessoas também são recriadas e passam para uma nova existência. Neste sentido a festa sagrada não é a comemoração de um acontecimento do passado, mas a sua reatualização.

Por meio dos tempos e das festas sagradas os seres humanos religiosos acreditam que se tornam contemporâneos dos deuses. Creem que por meio delas podem reencontrar a plenitude da vida e experimentar a sensação de existir como criaturas dos deuses. Podemos então afirmar que na sacralização do tempo se encontra uma das grandes aspirações de todo ser humano: voltar àquele estado original do mundo nascente que assegura uma vida realmente feliz. Trata-se do desejo de uma vida autêntica, simples, mas carregada de significado e de sentido. Por isso ele está disposto a colaborar com as divindades, fazendo de tudo para reestabelecer este estado originário de existência. Podemos então afirmar que neste elemento da religiosidade nós encontramos não só a sede do sagrado, mas também a sede do ser, entendendo isso como desejo profundo de autenticidade e de felicidade.

Isso vale também para o cristianismo e para cada um dos seus tempos litúrgicos e para cada uma de suas festas e celebrações. Por meio dos tempos sagrados e de suas celebrações litúrgicas o cristianismo entende trazer para o momento presente o tempo de Cristo. O cristão e a cristã se conectam a Cristo participando das festas dos tempos sagrados, tornando-se ramos verdes e frondosos da grande videira que é Jesus (Jo 15,1-6). Os tempos sagrados do cristianismo querem ajudar os cristãos e as cristas a perceberem que Jesus Cristo não é um personagem do passado, do qual guardamos algumas lembranças bonitas. Querem revelar que "Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje, e será sempre o mesmo” (Hb 13,8).

O objetivo de tudo isso é robustecer a fé, a esperança e a caridade, de modo que os cristãos e as cristãs não precisem de doutrinas estranhas e de certas regras exóticas para viver (Hb 13,9). O objetivo dos tempos e das festas sagradas é alimentar a autonomia e a liberdade de espírito, dadas por Cristo, de maneira tal que as pessoas não precisem viver submetidas a normas esquisitas que escravizam (Gl 5,1-6). Ao participar dos tempos, das festas e das liturgias sagradas, os cristãos e as cristãs experimentam em profundidade o amor e a ternura da Trindade que afastam o medo e o temor (1Jo 4,18).

No cristianismo cada tempo e cada festa litúrgica entende realçar alguns elementos significativos de toda essa dinâmica. Assim, por exemplo, o tempo do Advento, período de quatro semanas que antecede o Natal, procura nos ajudar a refletir sobre a esperança. Esta, a esperança, é uma das características fundamentais do cristianismo. Sem ela a existência humana não teria sentido; seria mero desespero. Isso porque, diz o apóstolo Paulo, "a esperança não engana, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

A esperança, por sua vez, brota da certeza de que o Reinado de Deus já está acontecendo no meio da humanidade. Apesar das nossas fragilidades, da violência e da injustiça, Deus Trindade vai conduzindo a história humana na direção do Pleroma, ou seja, daquela Plenitude que ele mesmo sonhou para todo o cosmos, para todo o universo, e que se encontra no seu Filho Jesus (Cl 1,19-20). É a esperança que alimenta a nossa existência e nos faz, como Abraão, "esperar contra toda esperança” (Rm 4,18). Ou seja, é a esperança que nos impulsiona a seguir, mesmo quando tudo ao nosso redor parece desmoronar e não ter mais sentido. Porém, para que isso aconteça é indispensável não ver a esperança como uma "virtude cristã”, mas como dimensão essencial da existência cristã. Se nós vemos a esperança como "virtude” a conquistar, corremos o risco de nos livrarmos dela exatamente quando mais precisamos. Para que a esperança seja a propulsora do nosso existir é indispensável vê-la e senti-la como graça que já nos foi dada por Cristo. Não é preciso mais conquistá-la. Ela já está dentro de nós. Basta perseverarmos nela: "Na esperança, nós já fomos salvos” e "é na perseverança que aguardamos o fruto que dela virá” (Rm 8,24-25).

O Advento deveria ser o tempo da Igreja que realiza o memorial da esperança cristã. Preparando-nos para celebrar o natal de Jesus, "nossa esperança” (1Tm 1,1), este período litúrgico deveria, por meio de suas celebrações e reflexões, levar os cristãos e as cristãs a serem mais esperançosos. Infelizmente boa parte do povo cristão ainda vive na desesperança. Sinal evidente disto é a corrida desesperada por milagres e curas. É a infinita carga de promessas e o consumo interminável de "kits de salvação” (medalhas, santinhos, frascos de água benta e de óleos etc.) vendidos nos santuários, igrejas e livrarias religiosas.

Esta falta de esperança leva ao descompromisso e à indiferença. Leva ao individualismo religioso: cada um e cada uma querendo se salvar sozinho e para se salvar sozinho quer sempre levar vantagem sobre os outros. O máximo que fazemos são alguns atos assistencialistas, como, por exemplo, distribuição de comidas, roupas e cobertores em determinadas ocasiões. Mas, nos recusamos a exercer a cidadania e a participar ativamente da vida social, como nos pediu o Concílio Vaticano II. E sem este tipo de participação e de engajamento não há como mudar os destinos do mundo.

É verdade que o Reinado de Deus já está acontecendo, mas o Pai quer que, pela esperança ativa, apressemos a sua chegada e a sua plena realização (2Pd 3,12). E a humanidade tem o direito de receber dos cristãos e das cristãs um testemunho concreto de esperança (1Pd 3,15).

E este testemunho concreto não acontece por meio de palavrórios, de rezarias e de esmolinhas, mas da participação ativa em projetos de justiça e de solidariedade. De fato, como nos ensina Tiago, a fé sem ações concretas é um cadáver (Tg 2,26).

Somos, pois, convidados a viver o tempo do Advento como tempo de esperança. Para tanto seria bom fazer algumas mudanças na liturgia católica do Advento, começando por abolir o clima penitencial que o caracteriza e que se expressa pela ausência do Glória e pela cor roxa dos paramentos. A esperança é verde e não roxa! Esperança não rima com tristeza, mesmo quando não vemos com clareza; quando as coisas parecem caminhar para o precipício. Esperança rima com alegria (1Ts 2,19-20). Precisamos, pois, devolver a alegria ao tempo do Advento: "Fiquem sempre alegres no Senhor! Repito: fiquem alegres! Que a alegria de vocês seja notada por todos. O Senhor está próximo. Não se inquietem com nada” (Fl 4,4-6).

Fonte:  Adital - 03/12/12

Publicado em Palavra Viva
Sábado, 01 Dezembro 2012 10:42

Entenda o Ano Litúrgico

O Ano Litúrgico é o “Calendário religioso”. Contém as datas dos acontecimentos da História da Salvação. Não coincide com o ano civil, que começa no dia primeiro de janeiro e termina no dia 31 de dezembro. O Ano Litúrgico começa e termina quatro semanas antes do Natal. Tem como base as fases da lua. Compõe-se de dois grandes ciclos: o Natal e a Páscoa. São como dois pólos em torno dos quais gira todo o Ano Litúrgico.

O Natal tem um tempo de preparação, que é o Advento; e a Páscoa tem também um tempo de preparação, que é a Quaresma. Ao lado do Natal e da Páscoa está um período longo, de 34 semanas, chamado Tempo Comum. O Ano Litúrgico começa com o Primeiro Domingo do Advento e termina com o último sábado do Tempo Comum, que é na véspera do Primeiro Domingo do Advento. A seqüência dos diversos “tempos” do Ano Litúrgico é a seguinte:

CICLO DO NATAL

ADVENTO

(Advento: Inicia-se o ano litúrgico. Compõe-se de 4 semanas. Começa 4 domingos antes do Natal e termina no dia 24 de dezembro. Não é um tempo de festas, mas de alegria moderada e preparação para receber Jesus.)

·         Início: 4 domingos antes do Natal

·         Término: 24 de dezembro à tarde

·         Espiritualidade: Esperança e purificação da vida

·         Ensinamento: Anúncio da vinda do Messias

·         Cor: Roxa

 

NATAL

(Natal: 25 de dezembro. É comemorado com alegria, pois é a festa do Nascimento do Salvador.)

·         Início: 25 de dezembro

·         Término: Na festa do Batismo de Jesus

·         Espiritualidade: Fé, alegria e acolhimento.

·         Ensinamento: O filho de Deus se fez Homem

·         Cor: Branca

 

TEMPO COMUM

1ª PARTE

(1ª parte: Começa após o batismo de Jesus e acaba na terça antes da quarta-feira de Cinzas.)

·         Início: 2ª feira após o Batismo de Jesus

·         Término: Véspera da Quarta-feira das Cinzas

·         Espiritualidade: Esperança e escuta da Palavra

·         Ensinamento: Anúncio do Reino de Deus

·         Cor: Verde

 

2ª PARTE

(2ª parte: Começa na segunda após Pentecostes e vai até o sábado anterior ao 1º Domingo do advento.)

·         Início: Segunda-feira após o Pentecostes

·         Término: Véspera do 1º Domingo do Advento

·         Espiritualidade: Vivência do Reino de Deus

·         Ensinamento: Os Cristãos são o sinais do Reino

·         Cor: Verde

 

CICLO DA PÁSCOA

QUARESMA

Quaresma: Começa na quarta-feira de cinzas e termina na quarta-feira da semana santa. Tempo forte de conversão e penitência, jejum, esmola e oração. É um tempo de 5 semanas em que nos preparamos para a Páscoa.

Não se diz "Aleluia", nem se colocam flores na igreja, não devem ser usados muitos instrumentos e não se canta o Hino de Louvor. É um tempo de sacrifício e penitências, não de louvor.

·         Início: Quarta-Feira das Cinzas

·         Término: Quarta-feira da Semana Santa

·         Espiritualidade: Penitência e conversão

·         Ensinamento: A misericórdia de Deus

·         Cor: Roxa

 

PÁSCOA

Páscoa: Começa com a ceia do Senhor na quinta-feira santa. Neste dia é celebrada a Instituição da Eucaristia e do sacerdote. Na sexta-feira celebra-se a paixão e morte de Jesus. É o único dia do ano que não tem missa. Acontece apenas uma Celebração da Palavra.

No sábado acontece a solene Vigília Pascal. Forma-se então o Tríduo Pascal que prepara o ponto máximo da páscoa: o Domingo da Ressurreição. A Festa da Páscoa não se restringe ao Domingo da Ressurreição. Ela se estende até a Festa de Pentecostes. (Pentecostes: É celebrado 50 dias após a Páscoa. Jesus ressuscitado volta ao Pai e nos envia o Paráclito.)

·         Início: Quinta-feira Santa (Tríduo Pascal)

·         Término: No Pentecostes

·         Espiritualidade: Alegria em Cristo Ressuscitado

·         Ensinamento: Ressurreição e vida eterna

·         Cor: Branca

 

Importante:

Ao todo são 34 semanas. É um período sem grandes acontecimentos. É um tempo que nos mostra que Deus se fez presente nas coisas mais simples. É um tempo de esperança e acolhimento da Palavra de Deus.

"O Tempo comum não é tempo vazio. É tempo de a Igreja continuar a obra de Cristo nas lutas e nos trabalhos  pelo Reino." (CNBB - Doc. 43, 132)

Publicado em Informação
Terça, 13 Novembro 2012 08:59

Crer em Deus ainda faz sentido?

Cardeal D. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

No dia 11 de outubro passado, o papa Bento XVI abriu um “Ano da Fé” para toda a Igreja Católica; a iniciativa coincide com o 50° aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, aberto a seu tempo pelo papa João XXIII. São objetivos do Ano da Fé o reencontro dos fiéis com as raízes e as razões da fé da Igreja, sua melhor compreensão e um novo impulso na transmissão do patrimônio da fé, que os cristãos vivem e partilham com a humanidade há 20 séculos.

Pareceria que não faz mais sentido crer em Deus em nossos dias, sobretudo diante da afirmação da racionalidade científica e tecnológica. Há idéias bem diversas sobre a fé, nem sempre compatíveis entre si; há uma fé natural, que se confunde com um desejo intenso; há fé nos projetos humanos e até fé na ciência e na tecnologia. Sem entrar no mérito de cada uma dessas formas de uso do conceito “fé”, e respeitando a forma como cada um crê ou não crê, desejo tratar aqui da fé sobrenatural em Deus e daquilo que decorre dessa fé, no sentido cristão de crer; mais exatamente, da Igreja Católica, à qual me dedico.

As perguntas que o próprio papa Bento XVI fez na abertura do Ano da Fé, provavelmente, são as mesmas que mais de um leitor já se fez alguma vez: ainda tem sentido crer, quando a ciência e a técnica conferem ao homem uma sensação próxima à onipotência? O homem ainda precisa da fé? A fé não humilha a razão? Que significa crer?

Razão e fé, ciência e religião foram e são contrapostas com freqüência, como se fossem inconciliáveis. Sobre esse tema, o papa João Paulo II escreveu a carta encíclica Fides et ratio (A fé e a razão), de grande profundidade, que permanece plenamente atual. Razão e fé não precisam nem devem, necessariamente, ser contrapostas; são duas vias de acesso à única realidade, percebida de maneiras diferentes; abordagens diversas quanto ao método e complementares, quanto ao seu objeto, que é a verdade.

O ato de crer, no sentido cristão, vai além da mera adesão intelectual a uma verdade, ou a um ideal ético elevado; nem se restringe à afirmação de doutrinas sobre Deus ou sobre realidades sobrenaturais. A fé é um dom de Deus, que se manifesta ao homem e o atrai a si, dando-lhe a capacidade de entrar em sintonia e diálogo com Ele. Ao mesmo tempo, é um ato que envolve plenamente o homem e o faz reconhecer os motivos para crer e a razoabilidade da adesão livre a uma realidade que se lhe apresenta luminosa e forte. A fé, nesse sentido, não é um ato irracional, nem contrário à razão; nem puro sentimento, podendo ser compreendida e explicitada com argumentos, embora não seja fruto desses argumentos.

Nossa fé está ligada a fatos e eventos, mediante os quais Deus envolve o homem e se manifesta a ele; ao longo da história, de diversos modos Ele veio ao encontro do homem, sobretudo por Jesus Cristo; a fé é, portanto, a resposta livre e pessoal do homem a Deus; por ela, nos abrimos para esse encontro misterioso e aderimos a Deus, que é mais que uma verdade intelectual, uma energia ou mesmo o grande caos... Ele se dá a conhecer como um “tu” pessoal, o grande Tu, em referência ao qual tudo passa a ter uma compreensão nova. De fato, a fé, no sentido cristão, oferece uma percepção própria da realidade, à luz de Deus.

O ato de fé é mais que um “crer em qualquer coisa”; é, acima de tudo, abrir-se a Deus e crer nele e, como conseqüência, naquilo que decorre desse ato de fé primeiro; por isso, a fé se traduz numa relação pessoal com esse grande Tu, que Jesus Cristo ensinou a reconhecer como um pai e a ter com Ele uma relação filial. Apesar de parecer a suprema ousadia da parte do homem, isso corresponde, de fato, ao anseio mais profundo do seu coração, que consiste em relacionar-se de maneira próxima e familiar com Deus.

No ato de crer, a dignidade do homem não é anulada; mas supera-se a freqüente tentação de contrapor Deus ao homem. Deus não é a suprema ameaça à autonomia do homem, nem representa o grande obstáculo para ele seja feliz. O ato de fé em Deus, no sentido exposto, proporciona ao homem a máxima possibilidade de compreensão dos mistérios de sua própria existência e de seu ser.

De fato, por muito que explique o mundo e a si mesmo pela ciência e a filosofia, o homem não se dá por satisfeito, nem pode abafar algumas questões de fundo, que permanecem sem resposta: quem somos? Por que somos capazes de pensar, querer, decidir? Que significa essa inquietude, essa espécie de saudade interior, que nos impele a procurar a felicidade, o amor, a liberdade, a vida, algo que nos faz falta, como se um objetivo nos atraísse de maneira sutil, mas irresistível? Como orientar nossas escolhas livres para um êxito bom e feliz na vida? E a morte? Haverá algo além desta vida?

Responder de maneira peremptória a essas interrogações com um seco “não me interessa”, seria levar pouco a sério o próprio mistério humano e fazer um ato de fé negativo, da mesma forma como faz um ato de fé positivo quem crê em Deus e, à sua luz, procura compreender melhor a si mesmo e ao mundo. E a contraposição inconciliável entre fé e razão, entre ciência e religião pode ser cômoda e simplista, levando a reprimir as interrogações humanas mais angustiantes e a estreitar o horizonte da compreensão do mundo e do ser humano; seria diminuir a própria dignidade homem.

Nossa inteligência é “capaz de Deus” e não está fechada para Ele. Crer é um ato humano livre por excelência, mediante o qual nos abrimos ao supremo Tu, ao Deus pessoal, e podemos alcançar uma certeza interior não menos importante que aquela que nos vem das ciências exatas ou naturais. Reduzir nossa capacidade racional às certezas verificáveis seria diminuir essa mesma capacidade. Crer em Deus continua tendo muito sentido.

Fonte: O Estado de São Paulo - 10.11.2012

Publicado em Notícias
Segunda, 12 Novembro 2012 13:15

O importante

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

Um escriba aproxima-se de Jesus. Não vem colocar-Lhe uma armadilha. Tampouco a discutir com Ele. A sua vida está fundamentada em leis e normas que lhe indicam como comportar-se em cada momento. No entanto, no seu coração surgiu uma pergunta: "Que mandamento é o primeiro de todos?" O que é o mais importante para se fazer na vida?

Jesus entende muito bem o que sente aquele homem. Quando na religião se vai acumulando normas e preceitos, costumes e ritos, é fácil viver disperso, sem saber exatamente o que é o fundamental para orientar a vida de forma sã. Algo disso ocorria em certos setores do judaísmo.

Jesus não lhe cita os mandamentos de Moisés. Simplesmente, lhe recorda a oração que essa mesma manhã pronunciaram os dois ao sair o sol, seguindo o costume judeu: "Escuta, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor: amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração".

O escriba pensa num Deus que tem o poder de mandar. Jesus coloca-o ante um Deus cuja voz temos de escutar. O importante não é conhecer preceitos e cumpri-los. O decisivo é parar a escutar esse Deus que nos fala sem pronunciar palavras humanas.

Quando escutamos o verdadeiro Deus, desperta em nós uma atração para o amor. Não é propriamente uma ordem. É o que brota em nós ao nos abrirmos ao Mistério último da vida: "Amarás". Nesta experiência, não há intermediários religiosos, não há teólogos nem moralistas. Não necessitamos que ninguém nos diga desde fora. Sabemos que o importante é amar.

Este amor a Deus não é um sentimento nem uma emoção. Amar ao que é a fonte e a origem da vida é viver amando a vida, a criação, as coisas e, sobretudo, as pessoas. Jesus fala de amar "com tudo o coração, com toda a alma, com todo o ser". Sem mediocridade nem cálculos interesseiros. De forma generosa e confiada.

Jesus acrescenta, todavia, algo que o escriba não preguntou. Este amor a Deus é inseparável do amor ao próximo. Só se pode amar a Deus amando o irmão. De contrário, o amor a Deus é mentira. Como vamos amar o Pai sem amar os Seus filhos e filhas?

Nem sempre cuidamos, nós os cristãos, desta síntese de Jesus. Com frequência, tendemos a confundir o amor a Deus com as práticas religiosas e o fervor, ignorando o amor prático e solidário aos quem vivem excluídos pela sociedade e esquecidos pela religião. Mas, que há de verdade no nosso amor a Deus se vivemos de costas aos que sofrem?

Fonte: Adital 12.11.2012 [Eclesalia Informativo. Tradução: Antonio Manuel Álvarez Pérez.]

Publicado em Palavra Viva

A Pastoral da Criança, desde 2008, desenvolve ações para marcar o Dia Mundial de Oração e Ação pela Criança, em 20 de novembro. No Brasil, as mais de 36 mil comunidades com Pastoral da Criança realizam atividades com crianças e seus responsáveis, rezam a Oração pela Criança com as famílias e alertam para o tema “reduzir a violência, a pobreza e construir a Paz”.

O Dia Mundial de Oração e Ação pela Criança foi instituído pela Rede Global de Religiões pelas Crianças (GNRC) e a data - 20 de novembro - foi escolhida por ser o Dia Internacional da Infância e, também, da assinatura da Convenção sobre os Direitos da Criança.

Na semana do dia 20 de novembro, convidamos as comunidades para realizar atividades inter-religiosas, brincadeiras nas praças e divulgação do dia 20 de novembro nas escolas, murais, rádios e jornais.

 

Gesto concreto

As coordenações receberam o Dicas nº 50, de outubro de 2011. O texto está disponível na página da Pastoral da Criança na internet. O Dicas é um ótimo instrumento para ajudar as comunidades na elaboração do roteiro de atividades para a semana do dia 20 de novembro. Sugerimos a ação brinquedos e brincadeiras. Assim como a criança precisa de amor, de alimento, de cuidados com sua saúde e higiene, ela também precisa brincar. Outra proposta é envolver os jovens da comunidade e também de outras Igrejas ou religiões nesse dia. Eles podem ajudar os brinquedistas, incentivar as crianças a brincarem ao ar livre, realizar oficinas de brinquedos, de leitura e jogos.

Os comunicadores populares também podem ajudar nas atividades. O teatro popular pode alegrar o dia e também trazer a discussão sobre o problema da violência nas comunidades.

Líder, sabemos que a violência existe nas famílias pobres e ricas. Nas comunidades a falta de trabalho para os pais, as drogas, as bebidas alcoólicas e a baixa oferta de oportunidades positivas para as crianças e jovens podem contribuir para a violência. Aproveite esse dia para discutir este assunto. Reúna as outras entidades e tradições religiosas, faça debates sobre os problemas que as crianças enfrentam e como, todos juntos, podem colaborar com pelo menos uma ação de construção da paz nas famílias e na comunidades.

A Dra. Zilda Arns Neumann apoiava o Dia de Oração e Ação pela Criança. Em 2009 ela falou “nós queremos congregar as diferentes religiões num apelo global para que a criança seja respeitada, protegida e amada”. Vamos fazer a nossa parte? Contamos com você.

 

Clóvis Boufleur

Gestor de Relações Institucionais


Fonte: www.pastoraldacrianca.org.br


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