"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

Aos estimados Bispos Auxiliares,

ao clero e aos religiosos/as

e a todos os leigos/as da Arquidiocese de São Paulo

 

Nossa Igreja vive momentos de intensa alegria! No segundo dia do Conclave, foi eleito o novo Papa. Francisco é seu nome, em memória de São Francisco de Assis. Até agora, ele era o arcebispo de Buenos Aires, na Argentina. Daqui por diante será o Bispo de Roma e Sumo Pontífice de toda a Igreja Católica. É o primeiro papa não europeu, um papa latino-americano, e também o primeiro papa jesuíta. Tem grande coração de pastor e a escolha de seu nome - Francisco - é muito indicativa: escolha de Deus acima de tudo, simplicidade, fraternidade, amor aos pequenos e pobres, bondade, missionariedade...

 

Alegremo-nos todos! Agradeçamos a Deus pelo novo Pastor universal da Igreja! No Ano da Fé, Deus está nos dando muitos sinais de esperança e chamados para a renovação da nossa fé.

 

Que o Espírito Santo inspire sempre as decisões do novo Papa, fortaleça-o no governo da Igreja, como Pastor universal visível do rebanho do Supremo Pastor. Que nos conforme na fé dos apóstolos e dos santos, como Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Assis.  Nossa Igreja é bonita pelo que tem de divino. Deixemo-nos santificar pelo Santo que nela habita e a conduz.

 

Convido todos a acompanharem com sua intensa oração, desde agora, o papa Francisco. A Missa de inauguração do seu Pontificado será celebrada no dia 19 de março, outro momento significativo: São José é Patrono universal da Igreja. Que ele interceda pelo Papa Francisco e por toda a "família de Jesus" - a Igreja e a humanidade inteira.

 

Deus abençoe e guarde a todos e sua paz e alegria. Até breve, em São Paulo


Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo


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Mensagem de D. Tarcísio Scaramussa, SDB

Vigário Geral


São Paulo, 13.03.2013

Ao clero e ao Povo da Arquidiocese de São Paulo

Caríssimos/as irmãos e irmãs,

 

Francisco é o nosso novo Papa. Recebemos a boa notícia esperada. A alegria habita em nosso coração. Obrigado, Senhor, porque nos destes um novo Papa. Sabemos que nos destes um Papa segundo o vosso coração. Nós renovamos nosso amor à Igreja. Nós amamos e acolhemos o novo Papa com amor de cristãos católicos e com amor de brasileiros, ou seja, amor demonstrado, expansivo, acolhedor.

 

Neste Ano da Fé, recordamos que o Papa é, para a Igreja, sucessor de São Pedro, "perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos, quer da multidão dos fiéis" (CIC 882).

 

Professar a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, e confirmar os irmãos na fé, é a primeira missão do sucessor de Pedro. O evangelista Mateus relata o diálogo de Jesus com seus discípulos. Pergunta-lhes: “quem sou eu para vocês”? Simão Pedro se adianta e responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus então lhe diz: “Feliz és tu, Simão, … porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não poderão vencê-la” (Mt 16,15-18).

 

A segunda missão prioritária é ser expressão do amor de Cristo para com todos, reunir a todos na comunhão para o seguimento do Senhor. “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes”? É a pergunta repetida três vezes por Jesus, antes de entregar-lhe o ministério de pastor do povo de Deus. À resposta, por três vezes afirmativa, o Senhor entregou confiante a

 

Simão o cuidado do rebanho. Depois disse que ele deveria consumar sua vida nesta entrega de amor. “E acrescentou: Segue-me” (Cf. Jo 21,15-19). Na tradição da Igreja, o apóstolo Pedro é modelo na profissão de fé e no amor. O amor é o distintivo dos cristãos, como é ressaltado nos Atos dos Apóstolos: “Vede como eles se amam”. As primeiras palavras do Papa Francisco foram uma forte convocação para a fraternidade!

 

Como decorrência do amor, o Papa é sinal de comunhão e de unidade, daquela unidade querida por Jesus e deixada como um testamento, na última ceia: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21).

 

São inúmeros os desafios que o Papa deve enfrentar todos os dias em sua missão, mas contará sempre com nosso apoio e oração, e será sustentado pelo Senhor.

 

A Arquidiocese de São Paulo renova sua profissão de fé na Igreja, “una, santa, católica e apostólica”, e manifesta a sua comunhão com a Sé Apostólica.

 

A Virgem Maria, mãe da Igreja, acompanhe o nosso novo Papa, como acompanhou Jesus Cristo e os apóstolos, e com ela, agradecemos cheios de alegria ao Senhor pelo dom de ter um novo Papa na pessoa de Francisco: “A minh'alma engrandece o Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador”.

 

Fraternalmente,

Dom Tarcísio Scaramussa, SDB

Vigário Geral

Publicado em Palavra Viva

Integra da entrevista dada à Folha de São Paulo, que pouco aproveitou do que foi dito...

“Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi. Então publico a entrevista inteira aqui no blog para reflexão e discussão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica. As perguntas foram reordenadas. (Leonardo Boff - 15/02/2013)”

1. Como o Sr. recebeu a renúncia de Bento XVI?

R. Eu desde o principio sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez, imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças. Eu tinha certeza de que um dia ele, aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites físicos de sua saúde e menor vigor mental para renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de Papa. Eu fiquei aliviado porque a Igreja está sem liderança espiritual que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor que professor, não um homem da instituição-Igreja mas um representante de Jesus que disse: "se alguém vem a mim eu não mandarei embora" (Evangelho de João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transexual.

2. Como é a personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?

R. Conheci Bento XVI nos meus anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele, mas não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: "O lugar da Igreja no mudo secularizado" e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um calhamaço de mais de 500 pp. Depois trabalhamos juntos na revista internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em português. Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta eu e ele passeávamos e conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje os frequento a miúde. Depois em 1984 nos encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do ex-Santo Ofício, movido contra meu livro "Igreja: carisma e poder" (Vozes 1981). Ai tive que sentar na cadeirinha onde Galileu Galilei e Giordano Bruno entre outros sentaram. Submeteu-me a um tempo de "silêncio obsequioso"; tive que deixar a cátedra e proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.

3. Ele como Cardeal foi o seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?

R. Quando foi nomeado Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé(ex-Inquisição) fiquei sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamente a cada livro que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma. Havia aqui bispos conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que aí trabalham no Vaticano rapidamente encontram mil razões para serem moderados e até conservadores. Então sim fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.

4. Como o Sr. recebeu a punição do "silêncio obsequioso"?

R. Após o interrogatório e a leitura de minha defesa escrita que está como adendo da nova edição de Igreja: charisma e poder (Record 2008) são 13 cardeais que opinam e decidem. Ratzinger é um apenas entre eles. Depois submetem a decisão ao Papa. Creio que ele foi voto vencido porque conhecia outros livros meus de teologia, traduzidos para alemão e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez, diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o "silêncio obsequioso" como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o acolhi. Lembro que disse: "é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha teologia". Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição porque a Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais Dom Aloysio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns me acompanharam a Roma e depois participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Card. Ratzinger e comigo. Ai éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Card. Ratzinger em certo constrangimento pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas contra a teologia da libertação que ele fizera num documento saído recentemente eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento positivo; ele acolheu a ideia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a mim e ao meu irmão teólogo Clodovis que estava em Roma que escrevêssemos um esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação. E num dia e numa noite o fizemos e o entregamos.

5. O Sr deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?

R. Eu nunca deixei a Igreja. Deixei uma função dentro dela que é de padre. Continuei como teólogo e professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do país. Quem entende a lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem e trocam) sabe que, se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante aos regime de segurança nacional que temos conhecido na A. Latina sob os regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta lógica o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio, ex-Inquisição), o Card. J. Ratzinger condenou, silenciou, depôs de cátedra ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles estão condenados fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas como dizia Blaise Pascal: "Nunca se faz tão perfeitamente o mal como quando se faz de boa vontade". Só que esta boa-vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo nenhuma mágoa ou ressentimento pois exerci compaixão e misericórdia por aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros luz da prática de Jesus. Aliás é coisa do século passado, já passado. E evito voltar a isso.

6. Como o Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e externas da Igreja?

R.  Bento XVI foi um eminente teólogo mas um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da comunidade, como tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de forma reducionista, como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos USA negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos que fizeram uma séria opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da vida e da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus irmãos de fé, e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli da Argentina e Dom Oscar Romero de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não mataram. Mas a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além desta vida. Hoje sabemos pelo Vatileaks que dentro da Cúria romana se trava uma feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado Bertone e o ex-secretário Sodano já emérito. Ambos tem seus aliados. Bertone, aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo. Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa e do Banco do Vaticano, usado pelos milionários italianos, alguns da máfia, para lavar dinheiro e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades mas agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e que ele não soube ou não pode atalhar a tempo.

7. O Papa João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu mas uma casa com janelas e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transfomar a Igreja novamente em algo como um museu?

R. Bento XVI é um nostálgico da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas de papas renascentistas e de outros tempos passados, manteve os hábitos e os cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé que existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente comentava. Quando na Universidade onde ele estudou e eu também, em Munique, viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as novas fronteiras da teologia da libertação pediu o reitor que protelasse sine dia o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São Boaventura que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É uma das razões que explicam sua oposição à modernidade que a vê sob a ótica do secularismo e do relativismo e for a do campo de influência do cristianismo que ajudou a formar a Europa.

8. A igreja vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a moral sexual?

R. A Igreja deverá manter as suas convicções, algumas que estima irrenunciáveis como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fora a única portadora da verdade. Ele deve se entender dentro do espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo ela precisa ser mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à fé não é o ateismo, mas o medo. O medo paraliza e isola as pessoas das outras pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente mas não se apropria com exclusividade desta realidade.

9. O que um futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras igrejas, e especialmente pentecostais?

R. Bento XVI freou a renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a tradição. Ocorre que a tradição a partir do século  XVIII e XIX se opôs a todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros direitos. Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas modernidades. E via no Vaticano II o cavalo de Tróia por onde elas poderiam entrar. Não negou o Vaticano II mas o interpretou à luz do Vaticano I que é todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível. Assim se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamanho da China. Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados como o alemão e francês e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas, criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras na Igreja não se vivia mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos. O perfil do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus que já citei anteriormente: "Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora", pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como Nicodemos. Não deveria ser um homem do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto mundo globalizado sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas mas alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se orientaria pelo Evangelho mas sem espírito proselitista, com a consciência de que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que vem a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos para juntos manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença de Deus. E por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil. Como age o Espírito Santo ai é mistério. Ele não tem outra voz e outra cabeça do que aquela dos cardeais. Que o Espírito não lhes falte.

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Sexta, 01 Março 2013 12:16

Bento XVI, Bispo Emérito!

Dom Angélico Sândalo Bernardino

Bispo Emérito de Blumenau (SC)

 

Nosso amado Papa Bento XVI renunciou; agora, é Bispo emérito de Roma ! Após seu histórico gesto de renúncia, marcado por grandeza de alma, humildade, fé,esperança e imenso amor à Igreja, choveram indagações, especulações, do que estaria por trás da atitude do Papa ao renunciar. Não faltaram inclusive, calúnias, intrigas, de tradicionais inimigos da Igreja. Ao anunciar sua renuncia,o Papa foi claro  e preciso,dizendo: “Após ter examinado perante Deus reiteradamente minha consciência, cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério petrino”.

Ao contrário de muita gente, não me surpreendí,como bispo emérito que sou, com a atitude de Bento XVI, pois há 50 anos atrás, o decreto  Christus Dominus, do Vaticano II, promulgado no dia 28 de outubro de l965, pedia, “ com empenho,aos bispos apresentassem sua renúncia à Autoridade competente em caso de idade avançada” (C.D.21). O Papa Paulo VI, no “motu próprio” denominado “ Ecclesiae Sanctae, regulamentou esta recomendação do Concílio fixando a idade de 75 anos para a renúncia dos Bispos. Esta matéria está claramente legislada no cânon 401 do Código de Direito Canônico, sendo que, no cânon 332, se prevê também a possibilidade de renúncia do Papa. O Papa, Bispo de Roma, não foi porém incluído na fixação dos 75 anos para a renúncia. Os  Cardeais o foram, conservando-se contudo aptos para participar do  conclave eletivo do Papa até os 80 anos de idade, motivo pelo qual Dom Cláudio Hummes e Dom Geraldo M. Agnelo, Bispos eméritos, com menos de 80 anos participam da eleição do Papa. As razões alegadas por Bento XVI para sua renúncia são claramente as indicadas pelo Concílio há 50 anos atrás!

A Igreja, Mãe e Mestra, na longa história do papado, reconhece que somente Celestino V renunciou. Ele era monge e ficou no governo da Igreja somente cinco meses, renunciando já bastante idoso,no ano l294, por se sentir incapaz para o cargo. Dante Alighieri o colocou no inferno pela renuncia e a Igreja o declarou santo!

Acredito que a generosa, profética, atitude do Papa Bento, agora bispo emérito de Roma, aprofundará o estudo sobre as questões práticas que envolvem os  EMÉRITOS, abrangendo todos os ministros ordenados, do Papa ao Diácono. A Conferência dos Bispos do Brasil já avançou muito no campo dos Bispos eméritos, tendo inclusive, constituído no dia 19 de outubro de 2012 uma Comissão Especial para os Bispos Eméritos. O Papa Bento, em seu ato oficial de renúncia, afirma  que “ no mundo de hoje, sujeito a rápidas transformações e sacudido por questões de grave relevo para a vida da fé, para conduzir a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor tanto do corpo como do espírito, vigor que nos últimos meses, diminuiu em mim...”

Firmada em Jesus Mestre, Caminho, Verdade, Vida, iluminada pelo Espírito Santo, a Igreja não  deve ter medo de lançar redes em mares mais profundos, de efetuar reformas que vão, desde o veemente apelo à conversão pessoal, à santidade de vida, às mais urgentes mudanças em muitas de suas estruturas em todos os níveis. O Santo Padre  João Paulo II, em se tratando  de questões ecumênicas,na encíclica “ Ut unum sint”, convidava responsáveis eclesiais e teólogos de nossas Igrejas a amplo diálogo com o objetivo de “ encontrar uma forma de exercício do primado que,mesmo sem renunciar de modo algum ao essencial de sua missão, se abra a uma situação nova”.

Bendito seja o Papa Bento, Bispo emérito de Roma, por sua atitude profética! Que, em seu amor profundo à Igreja, à humanidade toda, reze de maneira especial por nós, conservando-nos em seu coração, pois em nossos corações, ele tem morada permanente e imensa gratidão!

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Sábado, 16 Fevereiro 2013 08:12

Rasgar os corações para reinventar a Igreja

Faustino Teixeira

Doutor em Ciências da Religião, Professor de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Em sua primeira missa depois da renúncia, na cerimônia de quarta feira de cinzas, Bento XVI serve-se da leitura do profeta Joel para sinalizar a presença de difíceis conflitos e divisões na vida da igreja católica romana. O profeta diz: “Rasgai os vossos corações e não as vossas roupas” (Jl 2,13). Diz o papa: “Mesmo nos nossos dias, muitos estão prontos para rasgar-se as vestes diante de escândalos e injustiças, naturalmente cometidas por outros, mas poucos parecem disponíveis para agir sobre seu próprio coração”.  Tudo indica que entre as razões de sua renúncia não esteja apenas as referidas razões de saúde, mas também o esgotamento provocado pelas “lutas de poder internas” que contaminam a cúria romana.

Em editorial do jornal italiano Corriere della Sera (13/02/2013), seu diretor, Ferrucio de Bortoli trata do anúncio da renúncia de Bento XVI. O título é forte: “Uma frágil grandeza”. Aborda o delicado tema do “tormento interior” que também contribuiu para a decisão de Bento XVI. Teólogo de relevo, mas de gabinete, o papa Ratzinger não estava preparado para lidar com as querelas cotidianas da cúria romana e das espinhosas questões da vida da igreja. O autor sugere que nos últimos tempos, o sentimento de solidão deve ter sido “devastador” para ele. Foi se sentindo cada vez mais só...  Em clássica obra sobre o pontificado do papa Ratzinger, Marco Politi sublinha que o papa “experimenta o fracasso de decisões que imaginava profícuas, dá-se conta da ineficiência de quem na cúria deveria sustentá-lo e assiste impotente a uma revolta que se propaga nos meios de comunicação. Coisa ainda mais amarga: é obrigado a abrir os olhos para a rachadura radical do mundo católico com respeito à sua linha”. Encorajado pela insensibilidade de uma cúria mais voltada para os “jogos de poder” e pelas “lutas fratricidas”, acabou firmando sua decisão de renunciar ao cargo.

As resistências da cúria foram crescendo na medida em que o papa assumiu para si a responsabilidade de questionar certos abusos em curso na igreja, sobretudo no âmbito da pedofilia. Num dos documentos mais contundentes de seu pontificado, a carta aos católicos da Irlanda, em março de 2009, resolve denunciar “o grito dos inocentes” e reconhecer os graves pecados da igreja nesse campo dos abusos sexuais. Expressa com vigor, em nome da igreja, sua “vergonha e remorso”. É a primeira vez que um papa reconhece coletivamente a culpa da instituição eclesiástica pelos abusos cometidos ao longo dos anos por seus membros. Bento XVI rompe também com outro “muro de silêncio” ao ordenar uma investigação mais séria sobre o fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel Degollado, acusado de abusos sexuais reincidentes contra seminaristas. Tudo isso irritou segmentos conservadores da cúria, que preferiam manter o tradicional silêncio a respeito.

Mas como diz com acerto Marco Politi, em artigo publicado no dia 14/02/2013 no Il Fatto Quotidiano, a solidão em que o papa se viu envolvido, tem a ver com os colaboradores que ele próprio escolheu ao longo de sua atuação no Vaticano e a carência de eficiência nas estratégias de realização de seu projeto. Como diz o adágio espanhol: “Cria cuervos que ellos te sacarán los ojos”. Essa é a verdade. O que acabou ocorrendo em âmbito mundial, foi uma crescente desafeição dos fiéis e da opinião pública com respeito à instituição igreja e também ao seu líder, como também mostrou Politi em seu ousado artigo.

Trata-se de um pontificado turbulento, dizem os analistas, pontuado por muitas indefinições e gafes: envolvendo posicionamentos negativos sobre os gays e os preservativos, sobre o celibato eclesial, a atuação das mulheres, de impasses na relação com o islã, titubeios ecumênicos, concessões aos lefebvrianos, infeliz reedição da oração de sexta feira santa que tanto desagradou segmentos do judaísmo e posicionamentos críticos contra o pensamento teológico mais aberto. Politi sublinha que a obsessiva repetição dos “princípios não negociáveis” provocou, na verdade, “um cisma subterrâneo, silencioso mas profundo, no âmbito do Povo de Deus”.

A renúncia do papa foi talvez sua “única grande reforma”, como salientou Politi. Não foi um gesto qualquer, mas um ato de governo de grande alcance, um profundo ato de “magistério spiritual”. Daí ter provocado novamente a irritação da ala conservadora da igreja. Um ato que guarda consigo um significado preciso, de “dessacralização” de um cargo, de visualização de seu limitado alcance. Como pontuou Ernesto Galli em editorial do jornal Corriere della Sera (13/02/2013), o gesto de Bento XVI coloca em discussão “o modo de ser da estrutura central do governo da igreja”, abrindo também espaço para sinalizar os limites da própria instituição, os costumes arraigados e os sombrios jogos de poder.

Com a renúncia abrem-se novas possibilidades de mudança no campo eclesial, como mostrou John L. Allen Jr., em artigo publicado na Folha de São Paulo (14/02/2013). Ela pode, “na realidade, abrir espaço para um conclave mais inclinado a colocar a igreja num rumo diferente”, e ele indica três razões: a quebra de normalidade, com a possibilidade de surpresas no âmbito de uma tradição tão conservadora; o indício de que “a igreja precisa de um reinício”; e a realização de um conclave “livre do efeito funeral”, favorecendo um espaço de mais liberdade para decisões novidadeiras.

Coloca-se agora em evidência a necessidade de uma reinvenção da igreja, de um novo tonus spiritual que ilumine a instituição e seus fiéis para fazer frente à crise atual da cristandade. Trata-se de um aceno importante para o conclave que se anuncia. A necessidade da presença de um pastor autêntico para guiar a comunidade dos cristãos, de alguém que saiba comunicar, antes de tudo, vida e esperança, mais que simples conhecimento teológico. Que saiba erguer sua voz ativa e profética contra as dores do mundo e mostrar a dignidade de todos, sobretudo dos mais excluídos e espoliados. O novo pontífice deve ser alguém, como mostrou com acerto Juan Arias, “capaz de entender que o mundo está mudando rapidamente e que de nada serve à igreja continuar levantando muros para impedir que lhe cheguem os gritos de mudança que provêm de grande parte da própria cristandade”.  

(Fonte: REDE de CRISTÃOS – Ano 18 – 15.02.13)

Publicado em Palavra Viva
Quarta, 13 Fevereiro 2013 09:14

Mensagem do Presidente da CNBB sobre CF 2013

“Nós queremos os jovens protagonistas integrados na comunidade que os acolhe, demonstrando a confiança que a Igreja deposita em cada um deles”: esta é a finalidade da Campanha da Fraternidade (CF) deste ano segundo o Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Card. Raymundo Damasceno Assis.

A CF deste ano tem como tema “Fraternidade e Juventude” e o lema “Envia-me”. Eis o que disse o Card. Raymundo entrevistado pela Rádio Vaticano:

Primeiramente, nós estamos celebrando os 50 anos da Campanha da Fraternidade. Ela começou em Natal em 1962. A CF deste ano se insere dentro da preparação da visita do Papa para a próxima Jornada Mundial da Juventude. Sabemos que o Papa Bento XVI havia prometido estar no Rio de Janeiro para presidir a JMJ, mas com a sua renúncia nós esperamos e cremos que seu sucessor estará presente no Rio no mês de julho próximo.

A CF com este tema, Fraternidade e Juventude, tem seus antecedentes. Em 2011, a Assembleia dos Bispos do Brasil criou a Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude – uma Comissão que tem como objetivo acompanhar as pastorais da juventude aqui no Brasil: as pastorais da juventude, os movimentos apostólicos, novas comunidades e acompanhar também aquelas congregações que têm como carisma a dedicação, a formação dos nossos jovens, para que o trabalho da juventude aqui em nosso país seja feito na unidade dentro da diversidade dos carismas e de cada um dos movimentos e das novas comunidades. Visando criar em cada uma das dioceses o chamado “setor da juventude” – um setor que compreende todos aqueles que trabalham com a juventude.

A CF visa também preparar de uma forma “mais próxima” a JMJ e nós queremos com esta CF, e queremos fazê-la com os jovens e para os jovens, procurar despertar na nossa sociedade, nas nossas comunidades essa importância dos jovens. Nós devemos, como diz o Papa na sua mensagem para CF, ajudar os jovens a tornarem-se protagonistas de uma sociedade mais justa, mais fraterna, inspirada no Evangelho. E o Papa afirma que se os jovens forem o presente, eles serão também o futuro. Nós queremos os jovens protagonistas integrados na comunidade que os acolhe, demonstrando a confiança que a Igreja deposita em cada um deles.
(Fonte CNBB/Radio Vaticano - 13.02.2013)
Publicado em Notícias

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota na tarde desta segunda-feira, 11 de fevereiro, sobre o anúncio da renúncia do papa Bento XVI feito na manhã de hoje. A seguir, a íntegra da nota:

Brasília, 11 de fevereiro de 2013
P. Nº 0052/13

“Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt 16,18)


A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB recebe com surpresa, como todo o mundo, o anúncio feito pelo Santo Padre Bento XVI de sua renúncia à Sé de Pedro, que ficará vacante a partir do dia 28 de fevereiro próximo. Acolhemos com amor filial as razões apresentadas por Sua Santidade, sinal de sua humildade e grandeza, que caracterizaram os oito anos de seu pontificado.

Teólogo brilhante, Bento XVI entrará para a história como o “Papa do amor” e o “Papa do Deus Pequeno”, que fez do Reino de Deus e da Igreja a razão de sua vida e de seu ministério. O curto período de seu pontificado foi suficiente para ajudar a Igreja a intensificar a busca da unidade dos cristãos e das religiões através de um eficaz diálogo ecumênico e inter-religioso, bem como para chamar a atenção do mundo para a necessidade de voltar-se ao Deus criador e Senhor da vida.

A CNBB é grata a Sua Santidade pelo carinho e apreço que sempre manifestou para com a Igreja no Brasil. A sua primeira visita intercontinental, feita ao nosso País em 2007, para inaugurar a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, e, também, a escolha do Rio de Janeiro para sediar a Jornada Mundial da Juventude, no próximo mês de julho, são uma prova do quanto trazia no coração o povo brasileiro.

Agradecemos a Deus o dom do ministério de Sua Santidade Bento XVI a quem continuaremos unidos na comunhão fraterna, assegurando-lhe nossas preces.


Conclamamos a Igreja no Brasil a acompanhar com oração e serenidade o legítimo processo de eleição do sucessor de Bento XVI. Confiamos na assistência do Espírito Santo e na proteção de Nossa Senhora Aparecida, neste momento singular da vida da Igreja de Cristo.

Dom Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís
Vice-presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

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No próximo dia 13 de fevereiro, quarta-feira de Cinzas, haverá o lançamento de mais uma edição da Campanha da Fraternidade (CF), com o tema será “Fraternidade e Juventude” e o lema “Eis-me aqui, envia-me!” (Is 6,8). O material para ser veiculado nas emissoras de rádio e TV de todo o país já está disponível no site da CNBB.

O objetivo geral da CF é acolher os jovens no contexto de mudança de época, propiciando caminhos para seu protagonismo no seguimento de Jesus Cristo, na vivência eclesial e na construção de uma sociedade fraterna, fundamentada na cultura da vida, da justiça e da paz.
(Fonte: CNBB - 06.02.2013)

 

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Sexta, 08 Fevereiro 2013 02:46

Campanha da Fraternidade 2013 - CNBB

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Segunda, 21 Janeiro 2013 07:52

A Conversão de São Paulo

Dom Demétrio Valentini

Bispo de Jales(SP) e Presidente da Cáritas Brasileira até novembro de 2011


Nesta última sexta-feira do mês de janeiro, dia 25, celebra-se a festa do Apóstolo São Paulo, enquanto a cidade, e o Estado, revivem sua história, que permanece ligada ao nome deste grande apóstolo.

Com certeza, não existe no mundo monumento maior, dedicado a São Paulo, do que a cidade que leva o seu nome, e que o estendeu a todo o Estado.

Neste "Ano da Fé”, a figura de São Paulo comparece com força exemplar. A partir da fé em Cristo, sua vida tomou outro rumo, e assumiu uma excepcional importância histórica. Tanto que para muitos historiadores, São Paulo poderia ser considerado fundador do cristianismo. Ele colaborou, em todo o caso, de maneira decisiva, na sistematização e difusão da fé cristã. A partir dele, a nova fé foi tomando organicidade, assumindo o formato que ainda caracteriza a Igreja.

Se há um santo que não necessitaria de data especial, é São Paulo. Ele é lembrado com insistência na liturgia, onde suas cartas comparecem com muita frequência.

Mas a Igreja lhe reserva duas datas. Uma agora em janeiro, para destacar sua conversão. E outra em junho, onde sempre é lembrado na companhia de São Pedro.

Diz a tradição que Paulo era, humanamente, de estatura franzina. Mas se agigantou por sua intrepidez apostólica e pela profundidade dos seus ensinamentos, registrados em suas cartas cheias de solicitude por suas comunidades.

A Igreja faz questão de destacar duas dimensões da vida de Paulo. Sua integração com a Igreja é apontada pelo fato de ser colocado ao lado de São Pedro, com quem partilhou a missão apostólica, e com quem se assemelhou pelo martírio em Roma.

A outra dimensão é a sua conversão, celebrada especialmente no dia 25 de janeiro.

A conversão de São Paulo continua paradigmática. De um lado, ela nos faz pensar nos desígnios de Deus, que soube suscitar a pessoa certa para assumir a causa do Evangelho, dando-lhe dimensão universal. Com Paulo, a fé cristã ultrapassou os limites estreitos do povo judeu, abrindo caminho para ser acolhida por qualquer cultura humana.

Por outro lado, sua conversão é o exemplo mais acabado da força do Evangelho. Para todo espírito humano, mesmo que comece se intrigando com suas propostas, como aconteceu com Paulo, o Evangelho abre a porta para a adesão da inteligência e para o compromisso da vontade.

A festa da conversão de São Paulo continua nos dizendo que o Cristo se coloca no caminho de toda pessoa humana. Mesmo para os que pensam combatê-lo, ele oferece sua graça. São Paulo experimentou este "bom combate”.

Neste ano dedicado à fé cristã, ele nos estimula a seguir seu exemplo.

Fonte: Adital, 24.01.2013

Publicado em Palavra Viva
Segunda, 21 Janeiro 2013 11:52

Como falar de Deus às crianças

A gente nasce, cresce, se reproduz e morre. Luta dia a dia pela comida, pelo melhor espaço na “matilha” e no ambiente; defende-se das agressões, tenta sobreviver e assegurar sobrevivência à prole. Como todo animal.

A gente faz um pouquinho mais. A gente faz arte: música, teatro, literatura, dança, cinema, criando linguagens para expressar o inexprimível... A gente faz ciência: tornamo-nos capazes de voar, sem sermos pássaro; nadar no fundo do mar, sem sermos peixe; viver nos lugares mais gelados da terra, sem sermos pingüim nem urso polar; e nos mais quentes, sem sermos cobra nem escorpião; viver no fundo da terra, sem sermos tatu; e no alto das montanhas, sem sermos águia; exploramos o espaço sideral, sem sermos E.T. Reflorestamos desertos e desertificamos florestas; criamos e extinguimos espécies, sem sermos Deus...

Aliás, podemos destruir todo o nosso planeta! Inteirinho! De uma vez, apertando apenas um botão; ou aos pouquinhos, desrespeitando a Natureza.

Desenvolvemos a Medicina e temos a cura para a maioria das doenças, e sabemos fazer adoecer o planeta inteiro. Podemos interferir em como vai ser quem ainda nem nasceu, seja gente, bicho ou planta.

A gente se organiza política e socialmente, criando modos de conviver com as outras pessoas. A gente faz Filosofia, perguntando, desde que a gente é gente: Quem sou eu? De onde vim? Quem me fez?  Para quê vim ao mundo? O que é o tempo?  O que é a morte? O que há depois da morte? A gente busca entender os segredos da Psicologia humana e animal: O que nos move? Como controlar essas motivações? Quais são os nossos limites?  Como ir além deles? Mais além, perscrutamos os segredos profundos e muitas vezes insondáveis da Parapsicologia, da Metempsicologia, do Esoterismo...

A gente ama, a gente sonha, a gente extrapola limites naturais! Mais - há gente (como, por exemplo, a Madre Teresa de Calcutá) que chega a abdicar de tudo que poderia ter: amor romântico, prazer, conforto, segurança, prosperidade, reconhecimento social e até mesmo da própria vida - por um ideal, como animal nenhum faria!

Nessa rápida pincelada, percebemos que o ser humano é um ser BIO-PSICO-ESPIRITUAL: a dimensão BIOlógica busca ESTAR BEM / SOBREVIVÊNCIA: saúde, higiene, conforto físico e sanitário, alimentação e reprodução – em resumo, a satisfação das necessidades básicas que qualquer animal requer para estar bem.

A dimensão PSICOlógica busca SENTIR-SE BEM: reconhecimento social, realização profissional, tudo o que torna a vida “gostosa”. Na verdade, refere-se mais à capacidade de usufruir tudo isso do que à posse em si.

A esfera ESPIRITUAL / MORAL relaciona-se a QUERER E FAZER O BEM: consiste em realizar nossa dimensão especificamente humana, através de valores, como honra, fidelidade, solidariedade, responsabilidade, oblatividade e tantos outros, que nos levam à transcendência!

No homem, essas dimensões interagem dinamicamente entre si: não “somos o que somos”, mas o que nos tornamos ao longo de nossa vida, pelas decisões que tomamos, pelas escolhas que fazemos, pelos valores que priorizamos.

Sendo uma palhinha no físico, o ser humano, pela imaginação, racionalidade e força moral se torna uma potência! A Bíblia o denomina “co-criador”.  Foi criado para ser feliz num universo harmonioso, onde tudo fala de um Deus de Amor: a música dos astros, as estrelas no firmamento, os ritmos da Natureza, o prazer inerente a todas as funções vitais do homem (já pensaram se comer doesse?).

O relator inspirado afirma na Bíblia que Deus contemplou a Criação “e viu que tudo era bom”. De onde vem, então, tanta desordem? Tanta injustiça? Tanta dor? Em sua encíclica "Reconciliação e Penitência", João Paulo II (que foi um grande Papa, um grande filósofo e um grande homem, com profundos conhecimentos de psicologia e teologia e uma vida muito rica de experiências) ensina que, pelo mau uso da liberdade que Deus lhe deu para manifestar sua potência no mundo (isso é que é pecado), o homem perde o Paraíso: sofre uma ruptura consigo mesmo, perde o rumo do que lhe traria a verdadeira felicidade. Ele fica confuso, ele fica dividido, ele escolhe como bem o que lhe fará mal. Confuso quanto ao que é bom, ele transmite a sua confusão, rompendo com os demais seres humanos, gerando problemas familiares, sociais, políticos, internacionais. Essa escalada de desarmonia culmina com a ruptura com o mundo e a destruição de toda a Natureza. 

João Paulo II afirma que por baixo de toda problemática humana existe uma problemática religiosa. A mentalidade do mundo faz do próximo um inimigo, do mundo uma selva, da vida um inferno! Quem nos eleva acima dessa mentalidade pragmática, nos faz buscar os valores humanizantes acima do prazer e dos interesses mais imediatos é Deus. Religião quer dizer: re-ligar, voltar a Deus, reconciliar-se com o Plano de Deus para a humanidade.

Como falar de Deus às crianças? Como quem as ama profundamente e deseja ardentemente o melhor para elas; como quem aponta o Norte, o Caminho, a Verdade e a Vida! Como quem deseja ensiná-las a usar as coisas do mundo com a liberdade de filhos de Deus; como quem acredita que – mais que seres humanos capazes de, quiçá, viver uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana: “Deus soprou nas narinas de Adão”, nosso primeiro pai, e comunicou a ele e a toda a sua descendência um pouco de Seu espírito, imagem e semelhança.

Depois que rompemos com Ele, enviou-nos Jesus Cristo para dar testemunho da Verdade e, ao participar de nossa humanidade, permitir-nos participar de Sua divindade. Jesus é o modelo, não o mundo. A gente não é chamado a se comparar com os valores do mundo, mas com Jesus, para ser feliz.  

Se entendermos nossa verdadeira natureza, que desde sempre nos impele a buscar à transcendência, a buscar a Deus, saberemos falar disso às crianças, com naturalidade e verdade, sem fantasias, sem imposições, respeitando-as profundamente, dando-lhes o melhor de nosso entendimento. Se acreditarmos, saberemos falar disso no momento e do jeito certo.

Se soubermos buscar a esse Deus por Quem nossa alma anseia, tornar-nos-emos, não apenas mestres, mas verdadeiros PROFETAS e MISSIONÁRIOS que, cultivando essa vida interior à luz do Espírito de Deus, a manifestam depois no mundo, de modo transformador.

A dimensão religiosa nasce com o homem; ela nasceu com a humanidade, que vem buscando a Deus desde os primeiros tempos, como evidenciam indícios deixados ao longo de toda a história humana. Educar a religiosidade é dar às crianças parâmetros críticos para o que é aceitável e o que não é, em termos de religião; é educar para a liberdade, para a escolha, para a felicidade.

Não somos todos chamados a nos tornar padres ou religiosos. Mas todos somos chamados a um SACERDÓCIO REAL, como POVO DE DEUS. Todos somos chamados a ser SACRAMENTOS para o próximo, ou seja, sinais da presença de Deus no mundo. - “Pode ser que você venha a ser o único Evangelho que o seu próximo terá a oportunidade de ler” (Madre Teresa de Calcutá).

Finalmente e sobretudo,  podemos ensinar as crianças a rezar, a dialogar com Deus em seu coração. O resto é entre os dois.

Sílvia Maria Noel-Morgan

(Fonte: Portal Católico)

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