"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

O Santo Padre Francisco, depois da saudação do Cardeal Bagnasco, pronunciou as seguintes palavras:

Agradeço a Vossa Eminência por esta saudação, e cumprimentos também pelo trabalho desta Assembleia. Obrigado a todos vós. Estou certo de que o trabalho foi intenso porque tendes tantas tarefas. Primeiro: a Igreja na Itália – todos – o diálogo com as instituições culturais, sociais, políticas, que é uma tarefa vossa e não é fácil. Também o trabalho de fortificar as Conferências regionais, para que sejam a voz de todas as regiões, tão diversas; e isso é belo. Também o trabalho, sei que há uma Comissão para reduzir um pouco o número das dioceses tão pesado. Não é fácil, mas há uma Comissão para isso. Ide avante com a fraternidade, a Conferência episcopal vá avante com o diálogo, como disse, com as instituições culturais, sociais, políticas. É coisa vossa. Avante! 

Homilia do Santo Padre Francisco

Caros irmãos no Episcopado,

As leituras bíblicas que ouvimos nos fazem refletir. A mim me fizeram refletir muito. Fiz como uma meditação para nós Bispos, primeiro para mim, Bispo como vós, e a partilho convosco.

É significativo – e estou por isso particularmente feliz – que o nosso primeiro encontro aconteça aqui, no lugar que guarda não só a tumba de Pedro, mas a memória viva do seu testemunho de fé, do seu serviço à verdade, de sua entrega até ao martírio pelo Evangelho e pela Igreja.

Nesta tarde este altar da Confissão se torna assim o nosso lago de Tiberíades, em cujas margens ouvimos de novo o estupendo diálogo entre Jesus e Pedro, com a pergunta endereçada ao Apóstolo, mas que deve ressoar também em nosso coração de Bispos.

“Tu me amas? “És meu amigo?” (cfr Jo 21,15ss).

A pergunta é feita a um homem que, apesar de solenes declarações, se havia deixado tomar pelo medo e tinha renegado.

“Tu me amas? “És meu amigo?”

A pergunta é feita a mim e a cada um de nós, a todos nós: se evitamos responder de maneira muito apressada e superficial, ela nos impele a olhar-nos dentro, a entrarmos em nós mesmos.

“Tu me amas? “És meu amigo?”

Aquele que perscruta os corações (cfr Rm 8,27) se faz mendicante de amor e nos interroga sobre a única questão verdadeiramente essencial, premissa e condição para apascentar as suas ovelhas, os seus cordeiros, a sua Igreja. Todo ministério se fundamenta sobre esta intimidade com o Senhor; viver dele é a medida do nosso serviço eclesial, que se expressa na disponibilidade à obediência, ao rebaixamento, como ouvimos na Carta aos Filipenses, e na entrega total (cfr 2,6-11).

Pelo mais, a consequência de amar o Senhor é dar tudo – tudo mesmo, até a própria vida – por ele: é isto o que deve distinguir o nosso ministério pastoral: é o papel tornassol (indicador ácido base) que diz com qual profundidade abraçamos o dom recebido respondendo ao chamado de Jesus e o quanto estamos ligados às pessoas e às comunidades que nos foram confiadas. Não somos expressão de uma estrutura ou de uma necessidade organizativa: até com o serviço da nossa autoridade somos chamados a ser sinal da presença e da ação do Senhor ressuscitado, a edificar, pois, a comunidade na caridade fraterna.

Não que isso seja suposto: até o maior amor, de fato, quando não é continuamente alimentado, se enfraquece e se extingue. Não por nada o apóstolo Paulo adverte: “Vigiai sobre vós mesmos e sobre todo o rebanho, em meio do qual o Espírito Santo vos constituiu como guardas para serem pastores da Igreja de Deus, adquirida com o sangue do próprio Filho” (At 20,28).

A ausência de vigilância – nós o sabemos – torna tépido o pastor; torna-o distraído, esquecido e até impaciente; o seduz com a prospectiva da carreira, da ilusão do dinheiro e os compromissos com o espírito do mundo; torna-o preguiçoso, transformando-o em um funcionário, um clérigo de estado preocupado mais consigo, com as organizações e as estruturas do que com o verdadeiro bem do Povo de Deus. Corre-se então o risco, como o Apóstolo Pedro, de renegar o Senhor, mesmo se formalmente nos apresentamos e falamos em seu nome; ofusca-se a santidade da Mãe Igreja hierárquica, tornando-a menos fecunda.

Quem somos, irmãos, diante de Deus? Quais são as nossas provações? Temos tantas, cada um de nós sabe das suas. O que Deus nos está dizendo por meio delas? Sobre o que nos estamos apoiando para superá-las?

Como para Pedro, a pergunta de Jesus, insistente e de coração, pode deixar-nos doloridos e ainda mais conscientes da fraqueza da nossa liberdade, ameaçada como é por mil condicionamentos internos e externos, que muitas vezes suscitam perda, frustrações, até mesmo incredulidade.

Não são certamente estes os sentimentos e os atitudes que o Senhor pretende suscitar; ao contrário, desses se aproveita o inimigo, o diabo, para isolar na amargura, no queixume e no desencorajamento.

Jesus, bom Pastor, não humilha nem abandona ao remorso: nele fala a ternura do Pai, que consola e impulsiona; faz passar da desagregação da vergonha – porque na verdade a vergonha nos desagrega – ao tecido da confiança, dá de novo coragem, confia de novo responsabilidade, envia à missão.

Pedro, que purificado ao fogo do perdão pode dizer humildemente “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que te amo” (Jo 21,17). Estou certo de que todos nós podemos dizê-lo de coração. E Pedro purificado, na sua primeira carta nos exorta a apascentar “o rebanho de Deus [...] supervisionando-o, não constrangidos, mas de boa vontade [...] não por vergonhoso interesse, mas com ânimo generoso, não como patrões das pessoas a nós confiadas, mas tornando-nos modelos do rebanho” (1Pd 5,2-3).

Sim, ser Pastores significa crer todo dia na graça e na força que nos vem do Senhor, apesar da nossa fraqueza, e assumir até o fundo a responsabilidade de caminhar diante do rebanho, livres dos pesos que entravam a agilidade apostólica, e sem hesitações na direção, para tornar reconhecível a nossa voz seja pelos que abraçaram a fé, seja por aqueles que ainda “não são deste rebanho” (Jo 10,16): somos chamados a fazer nosso o sonho de Deus, cuja casa não conhece exclusão de pessoas ou de povos, como anunciava profeticamente Isaías na primeira leitura (cfr Is 2,2-5).

Por isso, ser Pastores quer dizer também dispor-se a caminhar no meio e atrás do rebanho: capazes de ouvir o relato silencioso de quem sofre e de sustentar o passo de quem tem medo de não alcançar; atentos a levantar, a dar segurança e a infundir a esperança. Da partilha com os humildes a nossa fé sempre sai fortificada: deixemos, pois de lado todo tipo de arrogância, para inclinar-nos sobre aqueles que o Senhor confiou à nossa solicitude. Entre esses, um lugar particular, bem particular, reservamo-lo aos nossos sacerdotes: sobretudo para eles, o nosso coração, a nossa mão e a nossa porta permaneçam abertas em qualquer circunstância. Eles são os primeiros fiéis que nós Bispos temos: os nossos sacerdotes. Amemo-los! Amemo-los de coração! São nossos filhos e os nossos irmãos

Caros irmãos, a profissão de fé que agora renovamos juntos não é um ato formal, mas é renovar a nossa resposta ao “Segue-me” com o qual se conclui o Evangelho de João (21,19): leva a desenvolver a própria vida segundo o projeto de Deus, empenhando-se totalmente para o Senhor Jesus. Daí BR

ota o discernimento que conhece e assume os pensamentos, as expectativas e as necessidades dos homens do nosso tempo.

Com este espírito agradeço de coração a cada um de vós pelo vosso serviço, pelo vosso amor à Igreja.

E a Mãe está aqui! Coloco-vos e me coloco também sob o manto de Maria, nossa Senhora.

Mãe do silêncio, que guarda o mistério de Deus,

Livra-nos da idolatria do presente, à qual se condena quem esquece.

Purifica os olhos dos pastores com o colírio da memória:

Voltaremos ao frescor das origens, por uma Igreja orante e penitente.

Mãe da beleza, que floresce da fidelidade ao trabalho cotidiano,

Desperta-nos do torpor da preguiça, da mesquinhez e do derrotismo

Reveste os Pastores da compaixão que unifica e integra: descobriremos a alegria de uma Igreja serva, humilde e fraterna.

Mãe da ternura, que envolve de paciência e de misericórdia,

ajuda-nos a queimar tristezas, impaciências e rigidez de quem não conhece pertença.

Intercede junto a teu Filho para que nossas mãos sejam ágeis, os nossos pés e os nossos corações:

Edificaremos a Igreja com a verdade na caridade.

Mãe, seremos o povo de Deus, peregrino rumo ao Reino. Amém.

Basílica Vaticana – 23/05/2013

(Tradução Conêgo Celso Pedro da Silva)

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Quinta, 16 Maio 2013 09:21

Resposta ao padre Marcelo Rossi

Lendo a "Entrevista Padre Marcelo Rossi” (Folha de S. Paulo, 29/04/13, p. A14), fiquei abismado com a superficialidade com a qual o entrevistado trata das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Demonstra claramente que não tem nenhuma experiência pessoal de CEBs e nenhum conhecimento teológico a respeito das mesmas.

Antes de tudo, Pe. Marcelo, comprometer-se socialmente e fazer "a opção pelos pobres” não é só -como você diz- "ter trabalhos com recuperação de drogados e arrecadação de alimentos”. Os pobres não são objetos da nossa ação assistencial e/ou caritativa, mas sujeitos e protagonistas de sua própria história.

As obras de misericórdia, principalmente em determinadas situações sociais de emergência, são necessárias, mas é preciso ter sempre presente sua ambiguidade. Vale o alerta: "A misericórdia sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais para um sistema econômico iníquo. Requer-se que as obras de misericórdia sejam acompanhadas pela busca de verdadeira justiça social (...)” (DA, 385).

Comprometer-se socialmente e fazer "a opção pelos pobres”, significa, sobretudo, ser uma Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres; uma Igreja despojada, sem poder, sem ostentação, sem luxo, sem triunfalismo e sem clericalismo; uma Igreja solidária com os pobres e que assume a sua causa, que é a causa de um Mundo Novo, ou, à luz da fé, do Reino de Deus, acontecendo na história humana e cósmica. "Como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres"! (Francisco, bispo de Roma,16 de março de 2013).

É lamentável, Pe. Marcelo, que você critique o incentivo da CNBB às CEBs. Elas -apesar das limitações inerentes à condição humana- devem ser incentivadas não por uma questão de proselitismo, mas pela sua fidelidade ao Evangelho. As CEBs, Pe. Marcelo, não "esquecem a oração e não ficam só na política”. Reconhecem que tudo é político, mas que a política não é tudo.

O perigo, Pe. Marcelo, não é as CEBs "se tornarem mais políticas do que sociais”; não é as pessoas terem nas CEBs "a tentação à política” (a política não é uma tentação, mas uma vocação) ou "caírem na política” (se politizarem), "combinando princípios cristãos a uma visão social de esquerda”.

O perigo é os cristãos/ãs serem alienados e omissos diante das injustiças e violações dos direitos humanos; não denunciarem -muitas vezes por covardia e conivência- as "situações de pecado" (DA, 95) ou as "estruturas de pecado” (DA, 92), que são "estruturas de morte" (DA, 112).

O perigo é os cristãos/ãs serem irresponsáveis frente aos desafios do mundo, fechando-se num "egoísmo religioso”, que nada tem a ver com o Evangelho.

Ao contrário do que você, Pe. Marcelo, afirma, o povo hoje, mais do que de "grandes espaços”, precisa de "pequenos espaços”, para deixar de ser massa, viver a irmandade e ser comunidade.

As CEBs, Pe. Marcelo, são sal, luz e fermento em todas as dimensões da vida humana, inclusive na dimensão política e político-partidária. Elas -a exemplo de Jesus- se encarnam no mundo e estão sempre presentes na vida do povo. Iluminadas pelo Espírito Santo, sabem discernir o que Deus quer nas diversas situações humanas

As CEBs vivem a utopia de um Mundo Novo, que, à luz da fé, é a utopia do Reino de Deus, numa sociedade pluralista e, sem perder sua identidade, respeitam e valorizam o diferente.

É lamentável, também, Pe. Marcelo, que você -indo contra todos os ensinamentos da Igreja- tenha aconselhado várias vezes um cristão (não importa agora o nome) a não entrar na política, dizendo: "não faça isso”. Felizmente, o cristão aconselhado demonstrou mais consciência social do que você e não aceitou a sua orientação.

No Brasil, as CEBs (à luz da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano de Medellín -Colômbia- 1968) são, sem dúvida, a expressão mais significativa do modelo de Igreja do Vaticano II.

Como irmão, Pe. Marcelo, permito-me dar uma sugestão: antes de falar das CEBs, faça nelas uma experiência de vida e estude um pouco de Eclesiologia cristã pós-conciliar.

Goiânia, 14 de maio de 2013.

Fr. Marcos Sassatelli

Frade Dominicano. Doutor em Filosofia e em Teologia Moral. Prof. na Pós-Graduação em DD.HH. (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil/PUC-GO). Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arq. de Goiânia. Admin. Paroq. da Paróquia N. Sra. da Terra

 

 

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Quarta, 15 Maio 2013 23:50

Quando os pastores se tornam lobos

Bispos e sacerdotes que se deixam vencer pela tentação do dinheiro e pela vaidade do carreirismo, de pastores transformam-se em lobos «que devoram a carne das suas ovelhas». Não usou meios-termos o Papa Francisco para estigmatizar o comportamento de quem – disse citando santo Agostinho – «apodera-se da carne da ovelha para a comer, aproveita-se; negocia e é apegado ao dinheiro; torna-se avaro e muitas vezes até simoníaco. Ou aproveita da sua lã para a vaidade, para se vangloriar». Para superar estas «verdadeiras tentações», bispos e sacerdotes devem rezar, mas precisam também da oração dos fiéis. A que o próprio Papa pediu esta manhã, quarta-feira 15 de Maio, a quantos participaram na celebração da missa na capela da Domus Sanctae Marthae.

O Santo Padre comentou as leituras do dia: a primeira (Actos dos Apóstolos 20, 28-38) «é uma das páginas mais bonitas do Novo Testamento» frisou. Narra a relação entre Paulo e os fiéis de Éfeso, portanto a relação do bispo com o seu povo, «feita de amor e de ternura». Desta relação fala-se também no Evangelho de João (17, 11-19), «no qual se encontram outras palavras-chave», explicou o Pontífice, que o Senhor  dirige aos discípulos: «vigiai»; «cuidai do povo»; «edificai, defendei». E «Jesus diz ao Pai: “consagra”». São palavras e gestos que exprimem precisamente uma relação de protecção, de amor entre Deus e o pastor e entre o pastor e o povo. «Esta é uma mensagem para nós bispos, sacerdotes e povo – esclareceu o Papa. Jesus diz-nos: “Vigiai sobre vós mesmos e sobre toda a criação”. O bispo e o padre devem vigiar, exercer a vigilância precisamente sobre o seu povo. Também cuidar do seu povo, fazê-lo crescer. Ser sentinela para o avisar quando os lobos chegam». Tudo isto «indica uma relação muito importante entre bispo, sacerdote e povo de Deus. No final um bispo não é bispo para si mesmo, mas para o povo; e um sacerdote não é sacerdote para si mesmo, mas para o povo». Uma relação «muito bonita» baseada no amor recíproco. E «assim a Igreja torna-se unida. Vós – perguntou aos fiéis – recordais-vos sempre dos bispos e dos sacerdotes? Temos necessidade das vossas orações».

De resto, esclareceu, a relação entre bispos, sacerdotes e povo de Deus não se funda na solidariedade social, portanto «o bispo e o sacerdote são solidários com o povo: nós aqui, vós ali». Trata-se de uma «relação existencial», «sacramental», como a que é descrita no Evangelho, na qual «bispo, sacerdote e povo se ajoelham, rezam e choram. É esta a Igreja unida! O amor mútuo entre bispo, sacerdote e povo. Temos necessidade das vossas orações para fazer isto, porque também o bispo e o sacerdote podem ser tentados»

Fonte: (www.news.va/pt - L´Osservatore Romano - 15/05/2013)

 

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Mais uma quarta-feira de festa na Praça São Pedro no Vaticano; de fato mais de 70 mil fiéis provenientes de todas as partes do mundo se reuniram para ouvir a catequese do Papa Francisco no âmbito da audiência geral. No encontro desta manhã o Santo Padre refletiu sobre três textos do Evangelho que ajudam a entrar no mistério de uma das verdades que se professam no Credo: Jesus “de novo há de vir em sua glória para julgar os vivos e os mortos”; os textos foram o das dez virgens, a dos talentos e o do Juízo Final. Na parábola das dez virgens – disse o Papa – o Esposo que as jovens esperam com as lâmpadas de azeite é o Senhor. O tempo de espera é o tempo que devemos manter acesas as nossas lâmpadas da fé, da esperança e da caridade, é o tempo antes de sua vinda final.

“O que se pede é que devemos estar preparados para o encontro, que significar saber ver os sinais de sua presença, manter viva a nossa fé, com a oração e com os Sacramentos; trata-se de ser vigilantes para não dormirmos, para não se esquecermos de Deus”.

Já na parábola dos talentos, se recorda que Deus concedeu dons, que devem ser usados e multiplicados, pois no seu retorno perguntará como foram utilizados.

Esta parábola – disse o Papa – nos fala que a espera do retorno do Senhor é o tempo da ação, o tempo no qual usar os dons de Deus, não para nós mesmos, mas para Ele, para a Igreja, para os outros, o tempo no qual procurar sempre fazer crescer o bem no mundo. E em particular hoje, neste período de crise, é importante não se fechar em si mesmo, enterrando o próprio talento, mas abrir-se, ser solidário, estar atento ao outro. E falando aos jovens disse:

“A vocês, que estão no início do caminho da vida, peço: vocês pensaram nos talentos que Deus lhe deu? Pensaram como poder colocá-lo ao serviço dos outros? Não enterrem os talentos! Apostem em ideais grandes, que alargam o coração, ideais de serviço que tornam fecundos os seus talentos. A vida não nos foi dada para que a conservemos para nós mesmos, mas nos foi dada para que a doemos. Caros jovens, tenham uma grande coragem! Não tenham medo de sonhar coisas grandes!”

Na parábola do Juízo Final se descreve a segunda vinda do Senhor e se adverte que seremos julgados na caridade, como amamos os demais, especialmente os mais necessitados.

“Queridos irmãos e irmãs, olhar para o Juízo Final jamais nos deve provocar medo; mas ao contrário nos impulsione a viver melhor o presente. Deus oferece-nos, com misericórdia e paciência, este tempo para aprendermos a reconhecê-Lo nos pobres e nos humildes e perseverarmos vigilantes no amor. Possa o Senhor, no fim da nossa vida e da nossa história, reconhecer-nos como servos bons e fiéis!” 

O Santo Padre saudou ainda os diversos grupos de peregrinos presentes, entre os quais o de língua portuguesa!

“Queridos peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! Saúdo com afeto os grupos de Portugal e do Brasil, em particular os fiéis das paróquias Divino Pai Eterno de Goiânia e São Pedro de Vila Rica, encorajando-vos a todos a apostar em ideais grandes, ideais de serviço que engrandecem o coração e tornam fecundos os vossos talentos. Confiai em Deus, como a Virgem Maria!” 

Em italiano, Francisco citou o sequestro dos metropolitas greco-ortodoxo e sírio-ortodoxo de Aleppo, cuja libertação está sendo noticiada mas não foi ainda confirmada: "É mais um sinal da trágica situação que a querida nação síria está vivendo. Armas e violências continuam a semear morte e sofrimento. Rezo para que os dois bispos regressem rapidamente às suas comunidades e peço a Deus que ilumine os corações. Renovo o convite feito no dia de Páscoa para que cesse o derramamento de sangue, seja oferecida a necessária assistência humanitária à população e encontrada o quanto antes uma solução política para a crise". 

Na conclusão do encontro Papa Francisco concedeu a todos a sua Benção Apostólica. (SP)

(Fonte: Radio Vaticano - 24/04/2013)

 

 

 

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Segunda, 22 Abril 2013 09:13

As grandes surpresas

Durante semanas, desde o início de 2013, temos sido inundados por extraordinárias novidades eclesiais:

– A renúncia de Bento XVI. Desmistificando assim a imagem do Sumo Pontífice. Na nobreza do gesto, mostrou sua profunda humildade e realismo, como ele nos disse – “Eu cheguei onde eu pude. Sigam a caminhada com um novo Papa! ”

- O conclave de fevereiro chamou alguém lá dos confins da terra. E a nossa Igreja se viu, empurrada pelo Espírito, a considerar-se a si mesma localizada, pela primeira vez, fora da Europa e do Mediterrâneo.

- Os “200 anos de atraso” denunciada pelo Cardeal Martini, pesaram na consciência do último conclave?

Ter presente que:

-Estamos vivendo um tempo de esperança e desejos de reforma. Não se pode perder essa oportunidade histórica por tanto tempo sonhada.

-Os conservadores foram pegados de surpresa e ainda não tiveram suficiente para se articular e lutar de uma forma mais sistemática e eficaz. No entanto, não se deve subestimar que a maioria do episcopado foi cuidadosamente escolhida por João Paulo II e Bento XVI.

O MINI- MAGISTÉRIO DO PAPA FRANCISCO

Ainda é cedo para configurar um novo modelo de Igreja. As dúvidas continuam: as novas sementes que Francisco está lançando, vão germinar? São suficientemente abundantes para permitir sonhar com uma nova colheita, apesar de a terra pisada pela burocracia dos que vão e vêm, o enredo de espinhos da cúria e as áreas de grandes estruturas de pedra e de cimento que estão aí ”para ficar” e não se mover facilmente …? Quanto sobra de terra boa não ressecada pelas decepções, não dominada pelas sementes ruins que foram caindo, século após século?

É verdade que se sente  um ar muito semelhante ao tempo do Concílio. De repente, o mundo inteiro, como nunca tinha sido possível nas últimas décadas, sentiu irromper uma abundância de gestos e mensagens surpreendentes, provenientes da autoridade suprema da Igreja. Estamos diante de um mini-magistério papal que orienta o futuro próximo da Igreja. Resumimos em dez pontos:

1. VOLTAR ÀS FONTES : “EU FUI ESCOLHIDO BISPO DE ROMA”

Desde o primeiríssimo momento em que o novo Papa se apresentou na Sacada de São Pedro, se auto-identificou como o bispo de Roma. Coerência teológica e pastoral. Ele é o “Primus inter pares” (primeiro entre iguais). É ele que também recebe o ministério de Pedro, de confirmar os seus irmãos e irmãs. A identidade papal se revela de corpo inteiro. O mito de um poder sobre todos, se apresenta como um servidor – o primeiro entre iguais – com a responsabilidade de a todos confirmar na fé e continuar a missão de Jesus. Ganha força a Igreja local. Surgem oportunidades privilegiadas para o ecumenismo entre “iguais”, com a ajuda do irmão, que é Bispo de Roma.

ENTÃO: O futuro pede uma leitura inteligente, comunitária e criativa do que estão dizendo os sinais dos tempos, e, ao mesmo tempo, uma constante  retomada de nossas fontes bíblicas, místicas e missionárias, a partir de uma visão menos europeia e mais universal. A Igreja na América Latina, por exemplo, precisa de integrar em sua caminhada atual “o que os seus antepassados lhe ​​legaram” desde Bartolomé de las Casas, Pablo de la Torre, Diego de Medellín, Nóbrega, Anchieta, Helder, Romero, Luciano Mendes, os índios e escravos …, as mulheres anônimas …

2. A PARTIR DO SE QUE TOMAVA COMO PERIFERIA

A Igreja não é Europa, não se reduz a um continente, a uma cultura, a uma geopolítica. São legítimas e necessárias as diferenças teológicas, buscando compreender e comunicar o conteúdo da Revelação. As diferentes línguas, tradições, símbolos,  gestos e músicas potencialmente “litúrgicas”, permitem a uma comunidade expressar e aprofundar a sua fé e seus valores fundamentais.

Nesse processo, as Igrejas locais não são secundárias, ou sucursais de Roma. Em cada uma delas acontece a totalidade da una, santa, católica e apostólica comunidade de Jesus. O que é alcançado em uma delas é patrimônio comum, em razão da comunhão radical que há entre todas elas. As diferenças não são ameaças, mas graças. Neste sentido, Ásia, Oceania, África, América Latina não são apêndices, mas o corpo da Igreja, juntamente com a Europa. Nem mais, nem menos.

3. A IGREJA LOCAL É A PROTAGONISTA

O esquema de pirâmide ainda não foi superado no imaginário pastoral e teológica. Temos um  Papa maravilhoso, que nos inspira e nos ama e um conjunto eclesial, muitas vezes medíocre em seu clero, em seus seminaristas e seus membros que estão deixando a Igreja Católica. A nova imagem do Pastor enche o horizonte eclesial contemporânea. Mas ainda não conseguimos, com igual intensidade e clareza, desenvolver uma comunidade crente.

O ministro, mesmo quando Papa, continua a ser mais importante que o povo de Deus. Negando o que Lumen Gentium diz no capítulo II.

Os bispos do Brasil estão discutindo sobre a paróquia, comunidade de comunidades. Mas as comunidades têm ainda de ser criadas. Não se trata de reunir todas as experiências de grupos existentes e lhes dar o nome da comunidade, mantendo as estruturas paroquiais de sempre.

As igrejas locais devem decidir sobre suas teologias e liturgias com a liberdade de acolher o que as outras experiências ao longo dos séculos conseguiram interpretar e comunicar. Todo nominalismo é desastroso. Sem igrejas menores na base, a paróquia nunca vai ser uma instância de articulação, inspiração e pastoral de conjunto.

4. VISÃO UNIVERSAL E AÇÃO COLEGIADA LOCAL

Foram buscar Jorge M. Bergoglio na Argentina, para ele se tornar o pastor de todos. Já não pertence a um país, a uma ordem religiosa, ou a um movimento. Estritamente falando, não pode haver um papa polaco, alemão ou latino-americano. É o papa, nada mais. Isso é tudo. Ninguém se vai sentir alheio na frente dele. Foi colocada por Deus. Ele é, igualmente, o pastor de todos e de cada um.

Jesus, neste momento, nos deu um novo pastor. Com ele, houve uma sintonia global com essa figura branca de uma pessoa humilde, acolhedora e simples. Não foi a majestade, a manifestação de seu poder, a inteligência, a pompa que conquistou a gente. Rapidamente ele se tornou um ícone de um modelo de igreja que oferece sintonia única com o Jesus que a gente amou, escutou, sentiu, às margens do Mar da Galileia, pelos caminhos da sua terra, trazendo esperança para os mais necessitados, orientando os que buscavam os caminhos de Deus.

Muitos se perguntavam se, através de Bergoglio, também a contribuição da Igreja na América Latina chegava a todo o mundo.

ENTÃO:

Estamos com o dom de um pastor, simples, amável, nobre e com personalidade forte. Ele nos vem presenteando com gestos acompanhado também por palavras,  poucas, mas centrais: misericórdia, perdão, alegria, ir àté às pessoas, caminhar, edificar, confessar, cheiro de povo, discernir, criar, nada de ”carreirismo” ou pompas, e mostrando que poder é serviço …  Se repete o que já se costuma repetir: “Gente simples, em lugares pouco importantes, continuam a causar grandes mudanças” (Provérbio Africano). Mas o importante agora é que os colegas e pastores do baixo clero também sigam seus exemplos no seu espaço local, coerentes com a visão papal que está a ser compartilhada com eles.

5. O NOME QUE É UMA BANDEIRA

Se dar o nome de Francisco é fazer uma declaração de intenções e um programa de vida. É não só deixar os sapatos vermelhos, mas caminhar descalço. Fazer-se povo, “um de nós”, como dizia a gente praça de S. Pedro depois de se encontrar com o pontífice recém-eleito. “Ele vai reconstruir a Igreja”, como aconteceu com São Damião, em Assis.

É urgente relançar o VATICANO II. O que se vislumbrou:

- uma Igreja samaritana, pobre e servidora dos mais necessitados, chegando aos últimos. Com a simplicidade, pobreza e coerência evangélica dos líderes e dos ministros. Comunidade que não se encerre em seus edifícios e estruturas (ou “fique doente”, segundo o Papa Francisco, no discurso de Quinta-feira Santa de 2013). Pastores da Igreja, que “têm o cheiro de povo”, por estarem com ele (idem)

- a pequena Igreja (LG 26), não ao lado dos movimentos, mas como primeira instância eclesial (Med 15,10). Na base da vida, onde os batizados são sujeitos e não meros membros passivos. Fermentos missionários da Boa Nova de Jesus.

- Comunidades presentes onde o Concílio não pôde chegar.

- A mulher com um protagonismo real e eficaz, presente nos ministérios.

- Uma igreja com um coração jovem acolhendo as multidões das novas gerações que já não se sentem saciadas com a mediocridade do consumismo, a vulgaridade sexo irresponsável e sem amor.

6. AS PESSOAS, NÃO O EDIFÍCIO

Nas paróquias e dioceses, estamos quase inteiramente dedicados ao atendimento dos fiéis. Esperando que as pessoas venham até nós, aos nossos edifícios. Esta prática tem se demonstrado não só inadequada, mas desastrosa. A Igreja é, por natureza, itinerante, deve mover-se em direção às direção das periferias.

A paróquia atual tornou-se uma meta de chegada, quando deveria ser ponto de partida. Sofre da síndrome do gueto.

A itinerância da Igreja não pode acontecer se as estruturas eclesiásticas são tão complexas e pesadas que se torna impossível se mover. As  superficiais reformas paroquiais estão traindo as esperanças de uma Igreja missionária. Ao mesmo tempo, se está perdendo a oportunidade histórica de apoiar a proposta das CEBs.

7. A GRAÇA SILENCIOSA

A devoção popular, é a espiritualidade do povo cristão. Ela é particularmente mariana e permanece, apesar de todas as dificuldades que vem encontrando numa sociedade técnica, científica e auto-suficiente. É confundida com esoterismo, rituais cabalísticos, sincretismos religiosos.

Esta fé do povo, que não se separa de gestos de gratuidade e de profunda caridade silenciosa, humilde, perseverante, não depende da presença dos ministros ordenados. Vem sendo passada de geração em geração.

8. MÉTODO: O POVO QUE FAZ TEOLOGIA

Desenvolve uma Teologia ascendente, a partir da vida. Não privilegia uma reflexão que parte dos dogmas para chegar à vida. E que acaba chegando tarde, respondendo a situações que já passaram. Em outras circunstâncias se concentra de tal maneira em salvar a pureza das verdades (o que obviamente é importante), mas descuidando de criar os meios e instrumentos para implementar os valores proclamados. Isto foi o que aconteceu com o Vaticano II que ajustou turbinas poderosas do Boeing 777 na fuselagem dos pequenos DC 3.

9. NICEIA III E VATICANO III (Não mais a atitude de: “ou … ou”, mas a convicção de que tem de ser “, e …e”)

A Igreja não pode ser a apresentação de algo imutável, porque ela é “fermento” , está dentro do mundo. É como uma semente que, sendo coerente com o seu próprio ser, muda continuamente em contato com a terra. Continua sempre em perigo de transformar em verdade imutável ou  em Instituição Divina o que é o resultado de situações históricas.

O Concílio de Niceia I, nos apresenta o mistério de Deus e de Cristo, mas na língua grega. O que mais temos entendido do Deus Inesgotável, ao longo dos últimos 1.700 anos? Isso é o que diria o Concílio Niceia III.

O Vaticano III teria que pegar o que foi plantado pelo Concílio Vaticano II, e começou a se desenvolver ao longo dos últimos 50 anos (Reino de Deus, povo de Deus, Colegiado, Igreja no mundo, teologia das realidades terrenas, liberdade de consciência, ecumenismo, diálogo com as religiões, etc.) e os novos desafios da história da humanidade.

10. O QUE SE ESTÁ PEDINDO DE NÓS A PARTIR DO COMEÇO DO NOVO PONTIFICADO

Não reduzir a Igreja a um Papa extraordinário, identificado com o modo do Jesus histórico. A igreja não é o Papa. Não se trata de uma pessoa, mas da Comunidade.

Somos todos nós, não só um papa dos pobres, simples, evangélico … ele é um ícone de uma igreja pobre e servidora.

Simplificar, deixar a burocracia, as pompas, a ostentação do poder.

Se abrir ao povo, sem elitismo de movimentos, de grupos especiais. O objetivo não é uma nova Igreja, mas um mundo segundo o coração de Deus, família humana pluralista na qual estamos para servir e não para conquistar.

Anunciar o que se vive e se ama. Com um diálogo real e ecumênico, dizendo ao mundo que é possível se aproximar dos diferentes e até mesmo daqueles que eram considerados inimigos.

Perdoar erros, pedir perdão pelos erros históricos, dar credibilidade. O objetivo é o Reino.

Os sujeitos mais importantes: não o clero, mas os pobres, os jovens, a mulher, a comunidade.

O método não tem por objetivo conquistar, dar mais poder ou o monopólio à Igreja Católica.

Estamos em Tempo de salvação.

Padre José Marins

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Durante a 51ª Assembléia da CNBB, 10 a 19 de abril em Aparecida, foi feita uma análise do quadro religioso do Brasil, em base aos dados do censo de 2010.

Conforme já foi noticiado, houve uma nova diminuição do número dos que se professam católicos, que seriam ainda cerca de 64% da população brasileira; houve quedas igualmente de adeptos das Igrejas Protestantes tradicionais ou históricas, como a Luterana, a Presbiteriana, a Congregacional e outras Igrejas Evangélicas de missão; mas também houve queda acentuada dos aderentes à Igreja Universal do Reino de Deus e de outros grupos pentecostais livres. Novos grupos “livres”, de inspiração neopentecostal surgiram e conquistaram adeptos.

Essa mudança religiosa não deixa de nos questionar. Há explicações culturais, sociais e religiosos na base dessa mobilidade religiosa que assistimos no Brasil nas ultimas décadas. Mas não basta compreender o fenômeno: como católicos, não podemos ficar indiferentes. E como Arcebispo da Igreja, expresso minha viva dor e preocupação por todo o católico que abandona a sua fé e me pergunto sobre os motivos que estão na base da sua escolha. Evidentemente, partimos do pressuposto de que a liberdade religiosa e de consciência das pessoas deve ser respeitada.

Mas quando isso nos envolve, devemos dar respostas adequadas. Os motivos do abandono da fé católica, no entanto, devem ser examinados por nós, levando-nos às decisões que nos cabem tomar, com o coração movido pela caridade pastoral, por amor às pessoas, respeito e amor à verdade. Não podemos cair no indiferentismo religioso, em que uma coisa vale a outra e a verdade da Igreja fica relativizada pelo irenismo ou até pelo comodismo.

Causa do abandono da fé católica pode ser o conhecimento insuficiente ou apenas superficial da fé e da própria Igreja Católica. Muitas pessoas nunca foram verdadeiramente evangelizadas, nem tiveram a oportunidade de fazer uma experiência genuína e gratificante da fé em Deus na nossa Igreja. Não se ama o que não conhece. E, não havendo raízes profundas nem identificação pessoal sólida com a fé e a Igreja Católica, o abandono acontece com facilidade.

O que devemos fazer nesses casos? Certamente, é preciso evangelizar mais e melhor, dando aos fiéis a oportunidade de conhecerem melhor a Deus e a Igreja, e de fazerem a experiência gratificante e profunda da fé. Devemos propor a verdade integral do Evangelho, sem poupar esforços para convidar as pessoas a fazerem um caminho de crescimento e amadurecimento na fé.

Acontece também que as pessoas abandonam a fé católica e a Igreja porque ficam decepcionadas com o nosso atendimento, nem sempre acolhedor. Isso nos deve levar, evidentemente a rever nossos modos de tratar as pessoas. Ninguém espera ser tratado mal, ainda mais por quem representa a Igreja e fala em nome de Deus. E isso vale para nossos atos oficiais, como as celebrações, mas também para as relações pessoais dos católicos.

Entre as causas do abandono da fé e da Igreja Católica também está a discordância com a nossa doutrina moral ou mesmo com artigos da nossa fé. Nesse caso, por certo, não devemos renunciar à nossa fé, nem ocultar as exigências morais que decorrem do Evangelho. Mas, devemos cuidar de não transformar a fé em moralismo superficial, nem deixar de propor o encontro vital com Deus por meio de Jesus Cristo, antes de tratar das exigências morais do Evangelho. O resto será obra da graça de Deus, que conta com o diálogo paciente e respeitoso, o testemunho pessoal de vida cristã e o desejo sincero de ganhar irmãos para Cristo, para que tenham, por ele, a vida verdadeira.

Há também o fato da pregação contrária à Igreja católica e sua doutrina, que leva muitos irmãos ao engano, ao abandono da fé e ao desprezo da Igreja. Nesse caso, cabe-nos defender as ovelhas do nosso rebanho e vigiar, mostrando-lhes a verdade e esclarecendo os aspectos em que sua fé e seu amor à Igreja são abalados.

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo

(Fonte: O SÃO PAULO, ed. de 16.04.2013)

 

 

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Terça, 16 Abril 2013 10:46

E agora, Francisco?

 Outro dia, após celebração eucarística em comunidade simples da periferia, linda e sábia senhora com mais de 80 anos me disse: “não acha que nosso papa Francisco se parece muito com Jesus?”. Perguntei-lhe: “por quê?”. “É que ele”, respondeu-me, “é humilde, sorri para a gente, abraça e beija as crianças, fala em misericórdia e chama a atenção de todos para os pobres!”

 Estando de pleno acordo com ela, disse-lhe que Francisco tem a cara de Jesus, podendo dizer, como São Paulo: “vivo, não eu, vive em mim, Cristo”. Acrescentei, ainda, que suas atitudes estão encantando o mundo. Ele quer a Igreja entregue à evangelização; uma Igreja pobre. Proclama que somos irmãos e que sua autoridade como Bispo de Roma é serviço! Encontra-se com jornalistas e dialoga com irmãos de outras igrejas cristãs, não cristãos e com descrentes também. Com vigor, proclama à Igreja a urgência de termos os olhos fixos em Jesus, repetindo aquilo que, unido a seus irmãos bispos na Conferência de Aparecida, proclamamos: “Conhecer a Jesus Cristo é nossa alegria e transmitir este tesouro aos demais é tarefa que o Senhor nos confiou” (DA18).

 O papa Francisco insiste no fato de que a Igreja existe para evangelizar e tem bem presente aquilo que afirmou com os seus irmãos, na 5ª Conferência dos Bispos da América Latina e Caribe: “Nenhuma comunidade deve isentar-se de entrar decididamente com todas as forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DA365). Ainda, “a conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação, para uma pastoral decididamente missionária” (DA370).

 E agora, incentivados por Francisco, somos convidados a mudanças de comportamento, de estruturas ultrapassadas que dificultam o avanço da nova evangelização, a começar pelas periferias! O convite de Jesus para que “sejamos perfeitos, como o Pai celeste é perfeito” é, entre as urgências, a primeira! Sobre os ombros de Francisco pesam as esperadas mudanças na Cúria Romana; na revisão da missão da Nunciatura Apostólica; na convocação de peritos, incluindo casais, psicólogos leigos, para respostas às questões propostas pela bioética, genética, sexualidade, casais de segundas núpcias; no aprofundamento da missão, papel da mulher na Igreja!

               Estamos unidos ao querido papa Francisco, olhos fixos em Jesus que, no vigor do Espírito Santo, nos convoca e envia à construção do Reino do Pai, feito de misericórdia, justiça, amor e paz.

Dom Angélico Sândalo Bernardino

(Fonte: O São Paulo - Espaço Aberto - 16 a 22/04/2013)

 

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Cidade do Vaticano (RV) - Na habitual missa que preside todas as manhãs na Casa Santa Marta, onde reside, no Vaticano, Francisco pediu esta manhã que o Espírito leve paz às comunidades cristãs e ensine os fiéis a serem ‘pacíficos’ e a 'não falarem mal dos outros'. Nesta terça-feira, estavam presentes alguns funcionários do Plano de Assistência de Saúde e do Governo central do Vaticano. 

Baseando-se nas leituras do dia, o Papa citou o diálogo entre Jesus e Nicodemos, que não entende como o homem possa “nascer de novo”. Francisco explicou que “nascer de novo” significar nascer do Espírito Santo. “É a vida nova que recebemos no Batismo!” – afirmou, ressalvando que esta vida, no entanto, se deve “desenvolver”, pois “não vem automaticamente”. “É um caminho difícil porque depende principalmente do Espírito, mas também de nossa capacidade de nos abrirmos a seu sopro”.

“Os primeiros cristãos – disse ainda Francisco em sua homilia – viviam na unidade, num só coração e alma... no amor mútuo”, e é esta dimensão que devemos redescobrir: o aspecto da “harmonia na comunidade”, uma virtude que anda “meio esquecida”.

A respeito de “ser pacíficos”, Papa Francisco disse que “o primeiro inimigo deste comportamento são as fofocas”. “Bisbilhotar, fofocar sobre o próximo, criticar (que são coisas do cotidiano, que acontecem também comigo, disse), são tentações do maligno, que não quer que o Espírito traga paz e harmonia às comunidades cristãs”. “Esta luta existe sempre e em todos os lugares: nas paróquias, famílias, bairros, entre amigos... mas esta não é vida nova”. 

Como um mestre, de fé e de vida, o Papa recordou que o comportamento justo para o cristão é “não julgar ninguém, porque o único juiz é o Senhor; ficar calados ou se tivermos que dizer algo, dizê-lo apenas aos interessados, e não a todo o bairro. Este seria um passo adiante, que faria bem a todos nós” – completou. (CM)

(Fonte: Rádio Vaticano - 09/04/2013 - 13:11:05)

 

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Quinta, 04 Abril 2013 18:26

A Força da Esperança

Esta semana foi marcada pela celebração do que constitui o cerne da fé cristã : a morte e a ressurreição de Jesus. O objetivo é adentrar com outros olhos no enigma da existência humana. Isto significa que a festa da páscoa implica descer aos porões da vida humana e captar que há poderes presentes que ameaçam aniquilar tudo o que se almeja como bom em todos os projetos humanos. 

O homem pós-moderno interpreta esta existência no horizonte da "perda de sentido”: aí onde a razão moderna encontra grandes soluções a partir de seu ideal de emancipação, a mentalidade contemporânea insiste no peso da vida dilacerada contra todo ideal o que se mostra dolorosamente nas situações de violência de todos os tipos: bilhões de pessoas vivendo em extrema pobreza, o massacre de crianças e adolescentes, a situação humilhante nos presídios, a discriminação de raças, as diferentes formas de opressão das mulheres, a intransigência cultural, a negação sistemática da diversidade, a rejeição da alteridade, a perseguição de minorias de raça, de sexo, de etnia, de dissidentes aos regimes, a sistemática destruição da natureza, drogados, aidéticos e todos os negados por uma sociedade que só tem tempo para seu consumo infinito, discriminações de todos os tipos, guerras criminosas.

A finitude e a morte não escancaram a falta de sentido de tudo? A experiência da realidade humana se revela plena de sofrimento, de opressão, de infelicidade. Longe de qualquer fundamento, tudo parece caminhar para o puro vazio, o nada.

Que é, então, fé para os cristãos? Acolhida livre de que os eventos da páscoa são sinais da chegada da efetivação do que constitui o mais profundo da esperança humana. O grande sinal é a ressurreição: no seio da experiência da cruz irrompe o anúncio da ressurreição como interpelação a um olhar novo sobre a vida humana e a posturas novas capazes de transfigurar esta vida. No fundo da história está em jogo algo fundamental: a busca de realização do ser humano.

O anúncio da ressurreição é a afirmação de que esta procura não é vã: abre-se uma possibilidade para uma vida com sentido. Falar de ressurreição significa falar de uma comunhão radical com Deus, que nem a morte consegue extinguir, portanto, falar da vitória da vida. Esta palavra começa a ter credibilidade, quando gestos de ressurreição começam a fazer declinar as mortes sofridas, gestos que possuem a força de ir reconquistando a vida humana e fazendo degustar, nesta conjunção de regozijo e dor, as marcas de vida nova, de recuperação da justiça, da ternura, do gosto de viver e conviver.

Em nossa sociedade começa a fazer subversão quem partilha o pão, a vida, os ideais, quem ainda é capaz de se acercar com ternura de um doente, das prostitutas, dos abandonados, quem é capaz de acariciar uma criança, respeitar as mulheres, lutar por justiça! Quem sabe, tudo isto talvez seja um sinal muito frágil, mas ele já começa a dissipar as trevas de nossas vidas.

Manfredo Araújo de Oliveira - Doutor em Filosofia


 

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Quinta, 04 Abril 2013 17:58

IPDM COM FRANCISCO: ECLESIOGÊNESE

É geral o aplauso entusiasta ao Papa Francisco nesse início de pontificado. Enfim, um Papa normal (como se expressou Dilma). Gestos afáveis, simplicidade ‘franciscana”, proximidade sem mesuras eclesiásticas. Tão normal que torna-se surpreendente! Início simbólico das esperadas reformas da Igreja!?

          A revista “Vida Nueva – una palabra comprometida en la Iglesia”, nº 2.839, del 9 al 15 de marzo de 2013, p. 24-26, traz uma entrevista com o teólogo jesuíta José Ignacio González Faus, sob o título “Tareas para el próximo sucesor de Pedro”. A leitura desta entrevista inspirou-me escrever essas linhas.         

                IPDM abraça as causas da reforma da Igreja. Os ventos favoráveis, com a renúncia de Bento XVI e eleição de Francisco, são novo impulso para a Igreja. A própria vinda de Leonardo Boff entre nós, no dia 02 de março 2013, ganhou densidade e significado novos decorrentes desses dois acontecimentos de tal magnitude para a História da Igreja.  

Os "do lado de lá" (conservadores e seus pares) "quedam-se" (num rigoroso linguajar castelhano!) estarrecidos. Se ao longo desses últimos 30 anos colocaram Boff no inferno, agora ainda não o verão no céu, mas, pelo menos, ainda deverão digeri-lo entre nós. Leonardo está na mídia como uma das mais verossímeis vozes da resistência eclesial (não eclesiástica! Não confundir). Pergunto-me, nesse sentido, por que aquela turma do “não pode”, do “anatema sit”, “do dura lex, sed lex ”, “dos auto-proclamados guardiães da sã tradição”,   não escreveu nada ou, quase nada, sobre a renúncia de Bento XXI e a eleição de Francisco? Orfandade?

Aos simbólicos gestos de humanismo, simplicidade, proximidade de Francisco decorram também decisões e atitudes revolucionárias para a reforma da Igreja. González Faus elenca 7 tarefas. Três mais urgentes e outras quatro que demandam mais tempo. Dom Clemente Isnard (+), num pequeno livro cuja edição foi proibida, lembrava quase as mesmas tarefas.

1. A Igreja seja de fato "Igreja dos pobres" (no dizer de José Ignacio González Faus – “a reforma mais urgente ainda que lenta e constante”).

2. Reforma da Cúria Romana. "A Cúria não é órgão diretor da Igreja, mas apenas um instrumento a serviço da autoridade eclesiástica que não reside na Cúria, mas está em todo o Colégio Apostólico, com Pedro à cabeça". É esquizofrênico ter bispos adjuntos à Cúria pois, “a existência de bispos sem Igreja é contrária a mais original tradição da Igreja, legislada no cânon 6 do Concílio de Calcedônia”. Por isso mesmo devolver às Igrejas Particulares a participação na eleição dos seus pastores, obedecendo a toda uma tradição do primeiro milênio. E, em torno do Papa fazer cessar todos os símbolos do poder e dignidade mundanos - por exemplo, suprimir os chamados "príncipes da igreja", “título quase blasfemo para uma instituição fundada em Jesus como "pedra angular"”.

3. “Roma e toda a Igreja devem sentir como ofensa a Deus a atual separação das igrejas cristãs”. Um fato novo seria a convocação de uma espécie de Sínodo Ecumênico que, periodicamente, ajudaria a Igreja a aproximar-se do desejo do Senhor: “ut unum sint”.

          Para Gonzáles Faus estas são as tarefas mais urgentes. Há outras que requerem mais tempo – “quem sabe muito tempo...e que merecem uma boa fundamentação”:

4. Atenção à situação de católicos que falharam no seu primeiro casamento e que encontraram estabilidade numa segunda união. Aguardamos mudança de certos paradigmas herdados da filosofia e teologia agostiniana e abertura a outras categorias filosóficas e teológicas  para uma nova "disciplina de misericórdia". Há um divórcio real entre Teologia Moral e Liturgia. A Constituição Dogmática Sacrosanctum Concilium afirma que a "eucaristia é fonte e cume da vida cristã" (n. 10). Ora, há inúmeros casais em segunda união, há inúmeras pessoas divorciadas e sozinhas com profunda vivencia cristã e, no entanto, impedidas da comunhão eucarística. Há aí uma contradição.  Há um descompasso entre a lei e a existência. O jurídico e o testemunhal. “Jesus foi para a região de Tiro e Sidônia. Nisso, uma mulher Cananeia, gritou para Jesus: ‘Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim. Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio’. Jesus nem lhe deu resposta. Os discípulos se aproximaram e pediram: ‘manda embora essa mulher, porque ela vem gritando atrás de nós’. Jesus respondeu: ‘eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel’. Mas a mulher, aproximando-se, ajoelhou-se diante de Jesus, e começou a implorar: ‘Senhor, ajuda-me’. Jesus lhe disse: ‘não está certo tirar o pão dos filhos, e jogá-lo aos cachorrinhos’. A mulher disse: ‘sim, Senhor, é verdade; mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos’. Diante disso, Jesus lhe disse: ‘mulher, é grande a tua fé! Seja feito como você quer” (Mt 15, 21-28).

5.Refazer a Humanae Vitae de Paulo VI (que não teve recepção suficiente entre o povo de Deus)  à luz das novas contribuições das ciências que, nestes 50 anos, avançaram qualitativamente.

6. O tema do celibato sacerdotal deve ser confrontado a partir de uma atenção maior ao bem das Igrejas. "Toda comunidade cristã tem direito à eucaristia - ela é um mandato do Senhor: "fazei isso..." NEGAR A EUCARISTIA A MILHÕES DE CRISTÃOS POR OBSTINAÇÃO EM NÃO MUDAR UMA LEI POSITIVA DA IGREJA É INCORRER NA DURA REPREENSÃO DO PRÓPRIO JESUS: "ABANDONAIS A VONTADE DE DEUS PARA VOS APEGARDES ÀS TRADIÇÕES DOS VOSSOS ANTEPASSADOS".

7. Por fim (“last but no least”) a situação da mulher na Igreja. É inegável que tal situação é um grave pecado estrutural, que deveria intranquilizar a consciência de quem é "servo dos servos de Deus". A esperança é que Francisco possibilite o diálogo, pelo menos.

São questões que não se resolvem da noite para o dia. Mas não podem mais ser proteladas. IPDM as abraça, na fragilidade e na perseverança, como causa pastoral imprescindível. Somos "Igreja, Povo de Deus, em movimento". Em constante "eclesiogênese".

Pe. Paulo Sergio Bezerra

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