"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."
Terça, 30 Julho 2013 13:24

Papa Francisco não é juiz dos gays

O que o papa disse na entrevista aos jornalistas a  bordo do avião que o transportava a Roma, a respeito dos gays, parece ser uma continuação da sua mensagem durante uma semana  aos jovens da JMJ-Rio.

O carinho com que ele foi cercado por todos não se deve unicamente ao seu charme, mas ao fato de que ele manifestou a todos a misericórdia de Deus em Jesus Cristo. Sua mensagem foi sempre a do Evangelho, uma mensagem libertadora, que requer justiça, solidariedade, amor, alegria e paz.

Assim como Jesus Cristo, o papa não veio para julgar nem condenar. Mas ele sabe que o Evangelho não é uma superestrutura, ele supõe um lastro humano sobre o qual ele trabalha, para levar o ser humano à perfeição. Se quiséssemos usar uma expressão provocativa poderíamos – inspirados no Concílio do Vaticano II – dizer que “Jesus Cristo veio revelar o homem ao homem” (Cf. Gaudium et Spes, 22). Sob este aspecto, o importante não é ser cristão, é ser homem, pois na visão antropológica da Igreja, cristão é o verdadeiro homem, disposto a crescer até alcançar “a estatura de Cristo” (Ef 4,13).

Houve um tempo, na verdade ele ainda não acabou, em que os gays foram estigmatizados, e para isso até mesmo a Igreja, equivocadamente, colaborou. A sociedade os enquadrava num catálogo de doenças. Há religiões que tratam os gays como criminosos. Ainda hoje tomamos conhecimento de países onde a legislação civil e religiosa é tão retrógrada que leva gays à prisão e à morte, tal como fazem com mulheres consideradas adúlteras. Ora, nem a sociedade civil, nem a religiosa podem admitir tais situações.

O que o papa disse é a doutrina da Igreja. Todos os seres humanos têm uma dignidade que lhes vem do Criador. Cabe a cada ser humano reconhecer e aceitar a sua identidade, inclusive sexual. A diferença e a complementaridade  físicas, morais e espirituais estão orientadas para os bens do casamento e para o desabrochar da vida familiar. Esse é o caminho dado a todos, razão pela qual o casamento, na visão da Igreja, sempre será a união estável entre um homem e uma mulher para seu mútuo enriquecimento humano e santificação, mediante a doação de seus corpos, abertos para a geração e educação de filhos. Se a história nos revelar outras modalidades de união, desde que mantida a qualidade verdadeiramente humana – isto é, livres e respeitando as consciências – entre seres humanos, quem poderá se arvorar com o direito de desrespeitá-las ou julgá-las?

Ora, tudo na vida deve estar aberto ao aperfeiçoamento, razão pela qual não é desejável que se façam lobbies para impor visões e pragmáticas que ferem a sensibilidade dos simples, ou dos que ainda não se desvincularam de uma leitura fundamentalista de textos bíblicos (que fomenta a culpabilidade e discriminação de qualquer tipo de diferença existencial). A solução está (e o papa insistiu bastante sobre este aspecto) no diálogo. O universo da afetividade, com suas expressões na sexualidade, é fenômeno demasiadamente complexo e polivalente, que envolve enraizamentos biológicos, culturais e psíquicos das pessoas, com desdobramentos em outras forças nem sempre conhecidas pelas nossas pretensas sabedorias. O papa nos falou da cultura do encontro, mas ainda estamos longe de sequer nos aproximarmos, quanto mais compreendermos o mundo dos gays e de tantos outros que a nossa sociedade se compraz em ofender e humilhar.

Respeitar os homossexuais, achar que eles também podem aspirar à perfeição moral, renunciando às práticas que contrariam a exigente ética do Sermão da Montanha, é ser revolucionário, é ir contra a corrente. Assim como muitos não esperavam que “algo de bom pudesse vir de Nazaré” (Jo 1,46), assim também nos surpreenderíamos se Deus comunicasse a sua Palavra, através de quem nós menos esperaríamos?

Domingos Zamagna

Teólogo e biblista brasileiro

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Rio de Janeiro (RV) – O Papa Francisco despediu-se do Brasil. Após encontrar-se com os voluntários no Rio Centro, o Papa Francisco seguiu com sua comitiva rumo ao Aeroporto do Galeão, para embarcar no avião que o levaria a Roma. A recepcioná-lo estava o Vice-Presidente, Michel Temer.

No seu discurso, dirigindo-se ao Vice-Presidente e às autoridades civis e religiosas presentes, o Papa disse que já começava a sentir saudades, “saudades do Brasil, deste povo tão grande e de grande coração; este povo tão amoroso. Saudades do sorriso aberto e sincero que vi em tantas pessoas, saudades do entusiasmo dos voluntários. Saudades da esperança no olhar dos jovens no Hospital São Francisco. Saudades da fé e da alegria em meio à adversidade dos moradores de Varginha. Tenho a certeza de que Cristo vive e está realmente presente no agir de tantos e tantos jovens e demais pessoas que encontrei nesta inesquecível semana. Obrigado pelo acolhimento e o calor da amizade que me foram demonstrados. Também disso começo a sentir saudades”.

Após, Francisco agradeceu a todos que fizeram com que estes dias se transformassem numa "celebração estupenda da nossa fé fecunda e jubilosa em Jesus Cristo”, recordando também “tantas pessoas que, no silêncio e na simplicidade, rezaram para que esta Jornada Mundial da Juventude fosse uma verdadeira experiência de crescimento na fé. Que Deus recompense a todos, como só Ele sabe fazer”.

Neste clima de gratidão e saudades, o Santo Padre pensou aos jovens, “protagonistas desse grande encontro”:

“A partir do testemunho de alegria e de serviço de vocês, façam florescer a civilização do amor. Mostrem com a vida que vale a pena gastar-se por grandes ideais, valorizar a dignidade de cada ser humano, e apostar em Cristo e no seu Evangelho. Foi Ele que viemos buscar nestes dias, porque Ele nos buscou primeiro, Ele nos faz arder o coração para anunciar a Boa Nova nas grandes metrópoles e nos pequenos povoados, no campo e em todos os locais deste nosso vasto mundo. Continuarei a nutrir uma esperança imensa nos jovens do Brasil e do mundo inteiro: através deles, Cristo está preparando uma nova primavera em todo o mundo. Eu vi os primeiros resultados desta sementeira; outros rejubilarão com a rica colheita”!

O Papa dirigiu um pensamento final - sua “última expressão das saudades” - a Nossa Senhora Aparecida: “Naquele amado Santuário, ajoelhei-me em prece pela humanidade inteira e, de modo especial, por todos os brasileiros. Pedi a Maria que robusteça em vocês a fé cristã, que é parte da nobre alma do Brasil, como também de muitos outros países, tesouro de sua cultura, alento e força para construírem uma nova humanidade na concórdia e na solidariedade”.

“O Papa vai embora e lhes diz “até breve”, um “até breve” com saudades, e lhes pede, por favor, que não se esqueçam de rezar por ele. Este Papa precisa da oração de todos vocês. Um abraço para todos. Que Deus lhes abençoe!”. 

Às 19h35min o avião de Alitália decolou do Aeroporto do Galeão, levando Francisco! (JE)

Fonte: Radio Vaticano 29/07/2013

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"Vinho novo em odres novos", foi o que disse o Papa Francisco na missa celebrada, na manhã deste sábado, na Capela da Casa Santa Marta, no Vaticano, a última missa com a presença de grupos antes da pausa de verão. A celebração contou com a presença, dentre outros, de um grupo de recrutas da Guarda Suíça Pontifícia. 

"A doutrina da lei é enriquecida com Jesus, é renovada, e Jesus faz novas todas as coisas", disse ainda o pontífice. Jesus renova verdadeiramente a lei, a mesma lei, porém mais amadurecida e renovada.

O Papa sublinhou que as "as exigências de Jesus eram maiores do que as da lei." A lei permite odiar o inimigo, em vez disso, Jesus diz para rezar por ele. Este é o Reino de Deus que Jesus pregou. A renovação deve acontecer primeiramente em nossos corações. "Nós pensamos que ser cristão significa fazer isso ou aquilo, mas não é assim", disse o Santo Padre acrescentando: 

"Ser cristão significa deixar-se renovar por Jesus nesta nova vida. Eu sou um bom cristão, todos os domingos, de 11h ao meio-dia, vou à missa e faço isso como se fosse uma coleção. A vida cristã não é uma colagem de coisas. É uma totalidade harmoniosa, feita pelo Espírito Santo que renova tudo: renova o nosso coração, a nossa vida e nos faz viver num estilo diferente, num estilo que envolve toda a existência. Não se pode ser cristão pela metade, a tempo parcial. O cristão a tempo parcial não funciona! Tudo, totalidade a tempo integral. Esta renovação é o Espírito quem nos faz. Ser cristão não significa fazer coisas, mas deixar-se renovar pelo Espírito Santo ou para usar as palavras de Jesus, tornar-se vinho novo."

A novidade do Evangelho é uma novidade, mas na mesma lei que vem na história da salvação. Esta novidade vai além de nós mesmos, nos renova e renova as estruturas. Por isso, Jesus disse que para o vinho novo são necessários odres novos: 

"Na vida cristã e também na vida da Igreja existem estruturas antigas, estruturas superadas. É necessário renová-las! E a Igreja sempre esteve atenta a isso, com o diálogo com as culturas. Sempre se deixa renovar, segundo os lugares, tempos e pessoas. Este trabalho sempre foi feito pela Igreja! Desde o primeiro momento, lembramos a primeira batalha teológica: para tornar-se cristão é necessário cumprir toda a prática judaica ou não? Não! Eles disseram não! Os gentios podem entrar como como são: gentios. Entrar na Igreja e receber o Batismo. Primeira renovação da estrutura. E assim a Igreja sempre foi adiante, deixando que o Espírito Santo renove estas estruturas, estruturas da Igreja. Não tenha medo da novidade do Evangelho. Não tenha medo da novidade que o Espírito Santo faz em nós! Não tenha medo da renovação das estruturas."

"A Igreja é livre. É guiada pelo Espírito Santo. O Evangelho nos ensina a liberdade de encontrar sempre a novidade do Evangelho em nós, em nossas vidas e também nas estruturas", frisou ainda o pontífice. O Santo Padre reiterou a importância da "liberdade de escolher os odres novos", acrescentando que "o cristão é um homem livre", com a liberdade que Jesus nos dá. "O cristão não é escravo de hábitos e estruturas, mas é conduzido pelo Espírito Santo." O Papa recordou também que no dia de Pentecostes junto com os discípulos estava também Nossa Senhora: 

"Onde está a mãe, os filhos estão seguros! Peçamos a graça de não ter medo da novidade do Evangelho, de não ter medo da renovação que o Espírito Santo nos faz, de não ter medo de derrubar as estruturas superadas que nos aprisionam. Se temos medo, sabemos que a nossa Mãe está conosco. Como crianças com um pouco de medo, vamos até ela que nos protege com o seu manto e com sua proteção de mãe." (MJ)

Fonte: HTTP://pt.radiovaticana.va/news

 

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O Papa Francisco recebeu na manhã desta sexta-feira, 21, os cerca de 150 Núncios Apostólicos em todo o mundo. 

O encontro realiza-se no âmbito do Ano da Fé e já havia sido convocado por Bento XVI e anunciado em 17 de outubro passado como um momento de reflexão.

De fato, ao se dirigir aos Núncios, Francisco fez questão de salientar que suas palavras constituem somente alguns pensamentos que “vêm do coração”. 

O primeiro deles é sobre a condição de “nômades” ao desempenharem este serviço à Igreja. A cada quatro anos ou mais, os Núncios mudam de lugar, de um continente a outro, sempre com a mala pronta. “Qual o sentido espiritual desta vida?” – questionou o Pontífice. Antes de tudo, a mortificação, o sacrifício de deixar os amigos, os laços e começar sempre novamente. “Isso não é fácil, é viver no provisório, saindo de si mesmos sem ter um lugar onde colocar raízes, uma comunidade estável”, disse.

Todavia, se trata de uma vida intensa se vivida com a consciência de levar Cristo sempre consigo. “A familiaridade com Jesus Cristo deve ser o alimento cotidiano do Representante Pontifício. Familiaridade com Jesus Cristo na oração, na celebração eucarística e no serviço da caridade.” 

O Papa advertiu para o perigo de ceder ao que ele chama de “espírito do mundo”, retomando a expressão “mundaneidade espiritual” de De Lubac, que conduz a agir para a própria realização e não para a glória de Deus.

“Ceder ao espírito mundano expõe sobretudo nós pastores ao ridículo. (...) Somos Pastores! Jamais nos esqueçamos disso! Vocês, queridos Representantes Pontifícios, sejam presença de Cristo, sejam presença sacerdotal, de Pastores. (...) Façam tudo sempre com muito amor.” 

A seguir, Francisco falou de outra função típica dos núncios: a colaboração nas nomeações episcopais. O critério fundamental de quem governa é a prudência, recordou o Papa, indicando algumas características que os candidatos ao episcopado devem ter:

Em primeiro lugar, que sejam próximos ao povo, pacientes e misericordiosos. Que amem a pobreza interior, entendida como liberdade para o Senhor, e exterior, feita de simplicidade e austeridade de vida. Que não ambicionem o episcopado nem tenham uma psicologia de “príncipes”. Enfim, que sejam capazes de conduzir, guiar e cuidar do seu rebanho. 

Ao agradecer aos núncios por seu trabalho, o Pontífice concluiu: “Trata-se de uma vida difícil, em lugares às vezes de conflito, uma peregrinação contínua sem a possibilidade de se estabelecer num lugar, numa cultura, numa específica realidade eclesial. Uma vida em caminho, mas sempre com Jesus Cristo que os conduz. Nós sabemos que a nossa estabilidade não está nas coisas, nos próprios projetos ou nas ambições, mas em ser verdadeiros Pastores que mantêm fixo o olhar em Cristo”.

Esta noite, o Papa Francisco janta com os representantes pontifícios na “Casina Pio IV”, no Vaticano.

(Fonte: Radio Vaticano - 21/06/2013)



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Cidade do Vaticano (RV) – O Santo Padre celebrou, nesta quinta-feira, na Capela da Casa Santa Marta, no Vaticano, a sua Missa matinal, da qual participaram o Cardeal Zenon Grocholewski, além de um grupo de funcionários da Congregação para a Educação Católica e do Museu Vaticano.

O centro da sua reflexão de hoje foi a oração do “Pai Nosso”. Para rezar esta oração, disse o Papa, nosso coração deve estar em paz com os nossos irmãos. Deus Pai não é um Deus anônimo, um Deus cósmico, mas bem próximo a nós. Por isso, para rezarmos esta oração, que Jesus nos ensinou, devemos confiar ao abraço do Pai

Mas, lembrou o Santo Padre, a oração não é uma magia. Não devemos gastar palavras à toa, quando rezamos. Jesus sabe o que queremos e o que precisamos. Eis porque devemos dirigir-nos a ele com humildade e simplicidade de coração. E concluiu:

“Temos um Pai, que está bem perto de nós e nos abraça. Todas as nossas lidas e preocupações devem ser confiadas a Ele. Mas, quem é este Pai? Ele é meu ou de quem? Ele é nosso. É o Pai Nosso! Não somos filhos únicos. Ele é Pai de todos e, por isso, somos todos irmãos”. 

Jesus, disse por fim o Santo Padre, é aquele que nos ensina a dirigir-nos ao Pai e pedir-lhe, com coração contrito, o que necessitamos, não obstante ele saiba que somos indigentes e pecadores. Peçamos ao Espírito Santo que nos ensine a pronunciar o santo nome de Deus Pai, estando em paz conosco mesmos e com nossos inimigos.

(Fonte: Radio Vaticano)

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Quinta, 20 Junho 2013 06:44

“Encíclicas" do Papa Francisco

Ao celebrar a festa de São Pedro Apóstolo, a Igreja é convidada a rezar pelo Papa, sucessor de Pedro e refletir sobre seu ministério. “O Romano Pontífice, como sucessor de Pedro, é perpétuo e visível fundamento da unidade, não só dos bispos, mas também da multidão dos fiéis” (LG 23). O papa, em seu ministério petrino, preside na caridade e promove o bem comum da Igreja universal e de cada uma das Igrejas particulares. Nestas poucas linhas está a síntese do que o concílio Vaticano II ensina sobre o ministério do Bispo de Roma.

Não poderia ser sem motivo pensado que o autor dos Atos dos Apóstolos, mencionou a presença de romanos no dia de Pentecostes em Jerusalém (At 2,10), deixando assim perceber a ligação desta cidade, com o apóstolo Pedro, que logo em seguida tomaria a palavra para anunciar o kerigma. São Pedro chefe da Igreja de Roma, e seus sucessores, ao longo dos séculos foram defensores da fé e seus propagadores.

Hoje na pessoa do papa Francisco o ministério de Pedro se faz presente com um brilho incomum. São muitas as acusações e críticas enfrentadas pelos últimos papas. Mas todos eles ficaram firmes, não traíram o patrimônio da fé, não trocaram a verdade revelada pelas verdades provisórias da sociedade. Mesmo diante das críticas e incompreensões, e de certo “complexo anti-romano” , na expressão de Hans Von Balthasar, às vezes presente mesmo dentro da Igreja, realmente foram firmes como a rocha.

Para estar à frente de uma Igreja que chegou no vigésimo século de história, e é depositária de uma verdade religiosa e moral, o papa não pode mudar este depósito da fé e nem coloca-lo periodicamente em leilão, para ver qual a mais mercadológica e palatável. Há que se ter um fundamento e este é Cristo e seu Evangelho, vividos segundo a tradição apostólica.

Ao papa como cabeça do Colégio Apostólico, formado pelos bispos católicos do mundo inteiro, cabe a presidência da Igreja. Por isso o episcopado se une em torno do Santo Padre, para colocar em movimento a “nova evangelização” que os tempos atuais exige da Igreja. E a união do episcopado com o papa deve ser sincera, total, porque: “Se o bispo de Roma é colocado em questão, se a sua sede é sacudida, não é um bispo quem vacila mas o episcopado inteiro” (Avito, bispo de Viena in Ep.31:PL 59,248).

O papa Francisco nos surpreende a cada dia com sua vitalidade repleta de fé e humildade. No Angelus do último domingo de maio, que tive oportunidade de presenciar na Praça S. Pedro em Roma, pareceu-me transparecer um pontificado no qual o papa não escreverá muito. Mesmo assim já temos algumas “encíclicas”, como é a opinião do jornalista John Allen. Encíclicas, no sentido de que são ensinamentos os quais, embora não foram escritos, são marcantes, claros, quais pequenas sínteses do pensamento do papa Francisco.

Entre estas “encíclicas” poderíamos enumerar: a) Uma Igreja pobre para os pobres, b) Primazia da humildade: somos todos franciscanos, c) Estar imerso no povo, d) Não ter medo da ternura e da misericórdia, e) O verdadeiro poder é serviço, f) A fé se propõe, não se impõe, g) A Igreja não é organização humanitária, h) Dizer não ao pessimismo, i) Saber sorrir e ter esperança, j) Importância da unidade, l) A evangélica coragem da sinceridade. Estas são algumas “encíclicas” em miniatura que mesmo os que não sabem ler compreendem.

Que o Papa Francisco seja abençoado e possa contar com nossa adesão filial.

Dom Pedro Carlos Cipolini

Bispo de Amparo – SP

(Fonte: www.diocesedeamparo.org.br)

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Cidade do Vaticano (RV) – Como todas as manhãs, Papa Francisco celebrou Missa na Capela da Casa Santa Marta, no Vaticano. Participaram da celebração Eucarística, entre outros, representantes das Embaixadas e Consulados da Argentina na Itália e junto à FAO. O Papa recordou que não celebra Missa em espanhol desde o dia 26 de fevereiro, antes do Consistório.

Em sua homilia em espanhol, o Santo Padre agradeceu aos presentes pelo trabalho que fazem pela Pátria, fora do país. A seguir, meditou sobre a Liturgia do dia, onde Jesus se dirige aos seus discípulos, dizendo: “Que a justiça de vocês seja superior àquela dos fariseus”. Esta exortação vem depois das Bem-Aventuranças e da citação “Jesus não veio para abolir a Lei, mas para aperfeiçoá-la”.

Com efeito, disse o Santo Padre, a reforma proposta por Jesus é “uma proposta sem ruptura, mas uma reforma na continuidade”: um processo que vai da “semente ao fruto”. Quem “entra na vida cristã”, disse, tem exigências maiores que as dos outros, não maiores vantagens”. 

Depois, o Papa exortou “a não denegrirmos e nem insultarmos o próximo, mas a trilharmos o caminho da fraternidade. A agressividade natural do homem, como aquela de Caim contra Abel, se repete na história da humanidade. Isso demonstra que somos pecadores e fracos. E concluiu:

“Gostaria de pedir ao Senhor que nos conceda a graça a todos de prestar mais atenção sobre as críticas que fazemos aos outros. É uma pequena penitência que dá bons frutos. Peçamos ao Senhor a graça de adequar a nossa vida à lei da mansidão, do amor e da paz”! 

Fonte: http://pt.radiovaticana.va/news/2013/06/13

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Sexta, 07 Junho 2013 02:37

A multiplicação das empanadas

Tive a oportunidade de entrevistar Bergoglio em diversas ocasiões e circunstâncias, mas num momento em que abundam os episódios de quem afirma que o conheceu muito bem, a minha é realmente uma contribuição mínima. Posso só dizer que uma vez o vi multiplicar os alimentos, como fez Jesus com os pães e os peixes. Foi em Outubro de 2012.

Na altura eu colaborava com a Sala de imprensa dos encontros ecumênicos de católicos e evangélicos da qual o pe. Bergoglio era um dos organizadores. No estádio no qual se realizava o encontro a administração não permitia entrar com comida, por conseguinte durante as pausas todos os presentes deviam comprar lá a comida. A escolha não era muito variada: haviam só empanadas, os típicos bolinhos recheados com carne, e além disso eram poucos. Era um dia de festa nacional e no programa não estavam previstos outros eventos. Alguém perguntou a Bergoglio se preferia ir almoçar no bairro exclusivo de Puerto Madero, perto do estádio, no qual se encontram diversos restaurantes elegantes, mas ele respondeu que teria ficado para almoçar juntamente com todos os outros.

Quando nós jornalistas fizemos uma pausa para o almoço já era muito tarde e não tinha ficado quase nada. Enquanto percorríamos a sala onde se servia o almoço, Bergoglio aproximou-se, saudou-nos um por um e agradeceu-nos pelo nosso trabalho. Nós sentamo-nos na última mesa. A empregada trouxe-nos um prato com cinco empanadas, mas nós éramos oito. Um de nós tomou a iniciativa e começou a dividi-las. Compartilhar: este era o espírito do encontro. Contudo, não tínhamos outra escolha.

Da sua mesa do outro lado da sala Bergoglio viu os nossos movimentos e compreendeu. Levantou-se e pergunto aos outros clientes se tinham acabado de comer. Recuperou das mãos de pastores e sacerdotes as últimas empanadas, reuniu-as num prato e deu-as a nós. Comovidos pelo seu gesto tão atencioso, sentimo-nos lisonjeados e surpreendidos. Ele tinha multiplicado a comida.

Aquele pequeno milagre ficou-nos gravado no coração. O homem de hoje que ocupa o sólio de Pedro tinha visto e preenchido uma necessidade, enquanto ninguém se tinha dado conta.

Este é o homem que, com setenta e seis anos, tem como objetivo mudar o mundo. Será que vai conseguir?

É o epílogo do livro Francesco. Il Papa della gente. Dall'infanzia all'elezione papale, una vita al servizio degli altri (Milano, Rizzoli, 2013, 380 páginas, 15 euros), tradução italiana da biografia de Jorge Mario Bergoglio publicada pela editora argentina Aguilar que a autora, vaticanista da «Nación» e amiga da família Bergoglio, doou há poucos dias ao Papa. A própria Evangelina Himitian narrou no seu jornal (um artigo publicado a 2 de Junho) este encontro: uma breve audiência privada que, devido aos numerosos compromissos do Pontífice, parecia destinada a ser cancelada. Ao contrário, ao tomar conhecimento da sua presença, o Papa Francisco mandou chamá-la imediatamente: As regras do Vaticano para as audiências papais são muito rigorosas. Com um simples gesto Francisco muda-as todas. Apressa-se, oferece um abraço, um beijo. Chama-te pelo nome e sorri. Esforça-se por demonstrar o que é claro a todos logo que o vemos: que é o mesmo pe. Jorge de sempre.

Fonte: www.news.va L’Osservatore Romano - 2013-06-06

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Cidade do Vaticano – O papa Francisco defendeu no Vaticano o ambiente e a vida humana, que diz serem ameaçados por uma cultura do "descartável´ e do desperdício, por causa do consumismo. “Aquilo que domina são as dinâmicas de uma economia e de finanças carentes de ética: assim, homens e mulheres são sacrificados aos ídolos do lucro e do consumo, é a cultura do descartável”, disse, perante dezenas de milhares de pessoas reunidas para a audiência pública semanal, na Praça de São Pedro.

O papa lamentou que a pobreza e os “dramas de tantas pessoas”, em particular as mais necessitadas, deixem de ser notícia e acabem por entrar na “normalidade”. "Se numa noite de inverno aqui, na Piazza Ottaviano, por exemplo, uma pessoa morre, isso não é novidade. Se em muitas partes do mundo há crianças que não têm nada para comer, isso não é novidade, parece normal. Isso não pode ser! E estas coisas entram na normalidade: que sem-abrigo morram de frio na rua não é notícia; pelo contrário, por exemplo, uma queda de 10 pontos em bolsas de algumas cidades é uma tragédia. A pessoa que morre não é notícia, mas se as bolsas caem 10 pontos é uma tragédia. Assim, as pessoas são descartadas. Nós, as pessoas, somos descartadas, como se fôssemos desperdício”, alertou, falando de improviso.

A intervenção abordou ainda o tema do Dia Mundial do Meio Ambiente deste ano, que hoje se celebra, "Pensar.Comer.Conservar", centrado no problema do desperdício alimentar. De acordo com a organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), 1,3 mil milhões de toneladas de comida são desperdiçadas anualmente, número equivalente à quantidade de alimentos produzidos em toda a África subsaariana; todos os dias mais de 20 mil crianças com menos de cinco anos morrem de fome.

"A cultura do descartável tornou-nos insensíveis ao lixo e ao desperdício alimentar, que são ainda mais lamentáveis quando em todas as partes do mundo, infelizmente, muitas pessoas e famílias sofrem de fome e subnutrição", observou o papa.

Francisco recordou que as gerações dos "avós" tinham muita atenção para não deitar comida fora, mas que hoje o “consumismo” levou as pessoas a habituarem-se “ao supérfluo e ao desperdício diário de alimento”, cujo valor “vai para lá dos meros parâmetros econômicos”. “A comida que deitamos fora é roubada da mesa de quem é pobre, de quem tem fome”, avisou, em espanhol. A intervenção referiu que os papas têm falado de uma “ecologia humana” estreitamente ligada à “ecologia ambiental”, em particular no atual momento de crise que ameaça as pessoas.

“O perigo é grave porque a causa do problema não é superficial, mas profunda: não é só uma questão de economia, mas de ética e antropologia”, precisou. Neste contexto, Francisco disse que a vida humana já é vista como “valor primário a respeitar e tutelar”, em particular quando é “pobre ou deficiente, se ainda não serve – como o bebê por nascer – ou já não serve – como o idoso”.

“Convido todos, neste Dia Mundial do Ambiente, a um sério compromisso no sentido de se respeitar e guardar a criação, ser solícito por cada pessoa e combatera cultura do descartável e do desperdício com uma cultura da solidariedade e do encontro”, propôs o papa, na sua catequese. A audiência contou com uma saudação aos peregrinos de língua portuguesa, que foram encorajados a “apostar em ideais grandes de serviço, que engrandecem o coração”.

(Fonte: www.domtotal.com/noticias 05-06-13)

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Terça, 04 Junho 2013 13:35

João XXIII e os sinais dos tempos

Os jovens estão se mobilizando aos milhões, em todo o mundo, e em poucas semanas seus representantes se reunirão com o Papa Francisco no Rio de Janeiro. Quantos desses jovens sabem quem foi e o que representou para a Igreja e o mundo a carismática pessoa de João XXIII, papa da juventude do atual pontífice?

Há 50 anos falecia João XXIII, o “Papa Bom”, assim o chamavam os italianos. Não que Pio XI e Pio XII, seus predecessores, fossem maus. Quando se diz que uma flor é bela, não se quer dizer que as outras sejam feias. Mas após os horrores das guerras mundiais (especialmente a segunda, que ofuscou o pontificado de Pio XII) um papa de feições camponesas e pouco apegado ao formalismo da burocracia eclesiástica, um papa que sorria, que não se considerava um soberano e desejava abrir as portas da Igreja para dialogar com todos, batalhador pela justiça e pela paz, só poderia mesmo ser caracterizado pela virtude da bondade.

Nascido em Sotto il Monte, província de Bérgamo (norte da Itália), em 25 de novembro de 1881, recebeu da família Roncalli o nome de Angelo Giuseppe. Com onze anos entrou para o seminário, nunca teve dúvidas de sua vocação para o sacerdócio, nem mesmo durante o ano de interrupção dos estudos para prestar o serviço militar.

       Ainda muito jovem se doutorou em Teologia, destacando-se nos estudos históricos, e passou a executar trabalhos pastorais em sua diocese natal, até a irrupção da primeira guerra mundial, durante a qual serviu o exército, na patente de sargento, como enfermeiro.

Em 1925 foi chamado para o serviço diplomático da Santa Sé, um trabalho que lhe consumiu longos 27 anos, conduzindo-o sucessivamente às delegações na Bulgária, Grécia e Turquia. Os contatos com a Igreja Ortodoxa abriram seu coração definitivamente para a causa ecumênica, além de intenso trabalho para amenizar a fome na Grécia durante a segunda guerra mundial, bem como a proteção e salvação de milhares de judeus do extermínio nazifascista. No fim da guerra, em 1944, foi transferido para a Nunciatura em Paris, que naquela época também supervisionava possessões francesas na África.

A partir de 1953 deixa a diplomacia vaticana, pois Pio XII o nomeia Patriarca de Veneza, onde atua como bispo por breves cinco anos, porque, no conclave para escolher o sucessor de Pio XII, em 28 de outubro de 1958, Monsenhor Roncalli é eleito papa. Contava então 76 anos de idade e muitos apostavam que seria um simples “papa de transição”.

Seu pontificado, porém, foi uma sucessão de surpresas. Pela primeira vez, desde 1870, o papa fez uma viagem fora de Roma: de trem, foi à cidade de Assis, terra de São Francisco, orar e inspirar-se junto a um dos maiores reformadores da Igreja.  Recebeu visitas de líderes de várias Igrejas não cristãs e estreitou relações com governantes de muitas nações, contribuindo para diminuir as perigosas tensões da Guerra Fria. Atuou junto ao Presidente Kennedy na famosa crise dos mísseis soviéticos em Cuba (outubro de 1962). Produziu duas memoráveis encíclicas que conquistaram o mundo: “Mater et Magistra” (1961) e “Pacem in Terris” (1963), com as quais renovou a comunicação dos papas não só com religiosos, mas com “todos os homens de boa vontade”. Nessas encíclicas sociais identificou os sinais dos tempos (socialização, descolonização, ascensão das classes trabalhadoras, promoção da mulher) e proclamou que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”.

A maior contribuição de João XXIII foi, sem dúvida, a convocação do 21º Concílio Ecumênico da Igreja, feita na Basílica de São Pedro em 25 de abril de 1959. Foram anos de intensa preparação que agitou os ambientes católicos, com repercussões por todo o mundo. O Concílio do Vaticano-II foi inaugurado por João XXIII em 11 de outubro de 1962. Não era um concílio para definir dogmas, muito menos para promover condenações. Era a reunião dos bispos de todo o mundo, assessorados pelos teólogos e pastoralistas, para estabelecer o “aggiornamento” da Igreja, isto é, o sincero diálogo com o mundo, com ele também aprender, e para ele dirigir corajosamente a palavra do Evangelho de modo acessível e relevante, a começar com uma profunda renovação da própria Igreja, sacudindo dela a poeira acumulada no decurso dos séculos. Este ideal foi efetivamente alcançado. Quem tiver independência de espírito e agudeza de observação histórica há de convir que a Igreja católica se renovou, mudou para melhor após João XXIII.

A grande maioria dos historiadores, sociólogos, diplomatas etc., passados cinquenta anos da sua abertura, afirmam que o concílio foi um dos maiores eventos do século XX, com efeitos benéficos que perduram até hoje.

Mas João XXIII só pode presidir a primeira sessão do Vaticano II, pois faleceu em 3 de junho de 1963, ficando a cargo de seu sucessor, Paulo VI, dar continuidade e cumprimento às demais sessões que perduraram até 1965.

Domingos Zamagna

Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo

 

 

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