"Bernadette perguntou três vezes o nome da Senhora, que sorrindo e unindo suas mãos sobre o peito respondeu: Eu sou a Imaculada Conceição."

Querido irmão jornalista

Sou um simples sacerdote católico. Sinto-me feliz e orgulhoso de minha vocação. Faz vinte anos que vivo em Angola como missionário.

Vejo em muitos meios de comunicação, sobretudo em vosso jornal a ampliação do tema, de forma maldosa, investigando em detalhes a vida de algum sacerdote pedófilo. Assim, aparece um de uma cidade do USA, na década de 70, outro na Austrália dos anos 80 e assim pela frente, outros casos recentes... Certamente todos condenáveis! Existem apresentações jornalísticas ponderadas e equilibradas, outras amplificadas, cheia de preconceitos e até ódio.

Sinto uma grande dor pelo profundo mal que pessoas, que deveriam ser sinais do amor de Deus, sejam um punhal na vida de inocentes. Não há palavras que justifiquem tais atos. Não há duvida que a Igreja não possa estar, senão do lado dos frágeis, dos mais indefesos. Portanto, todas as medidas que sejam tomadas para a proteção, prevenção da dignidade das crianças, será sempre uma prioridade absoluta.

Mas, é curiosa a pouca notícia e desinteresse por milhares de sacerdotes que se dedicam por milhares de crianças, pelos adolescentes e pelos mais desfavorecidos nos quatro cantos do mundo! Penso que para vosso jornal não interessa que eu já tive que transportar, por estradas minadas no ano de 2002, a muitas crianças desnutridas desde Cangumbe a Lwena (Angola), pois nem o governo se dispunha a fazê-lo e as ONGs não estavam autorizadas a prestar socorro; que já tive que enterrar dezenas de pequenos mortos entre as vitimas da guerra e também os que haviam retornado; que já havíamos salvado a vida de milhares de pessoas no México diante do único posto médico em 90.000 Km2, assim como a distribuição de alimentos e sementes. Que havíamos dado a oportunidade de educação nestes 10 anos e escolas a mais de 110.000 crianças.

Não é de interesse que com outros sacerdotes tenhamos que socorrer a crise humanitária de cerca de 15.000 pessoas nos acampamentos da guerrilha, depois de sua rendição, porque não chegavam os alimentos do governo e da ONU. Não é noticia que um sacerdote de 75 anos, o Pe. Roberto, durante as noites percorra as ruas da cidade de Luanda curando os homens de rua, levando-os a uma casa de acolhida, para que se desintoxiquem das drogas, que alfabetizem centenas de presos; que outros sacerdotes, como Pe. Stefano tenham casas de passagem para os jovens que são golpeados, maltratados e até violentados e buscam socorro.

Tampouco que Frei Maiato com seus 80 anos, vá de casa em casa confortando os doentes e desesperados. Não é noticia que mais de 60.000 dos 400.000 sacerdotes e religiosos tenham deixado sua terra e sua família para servir a seus irmãos em um leprosário, em hospitais, campos de refugiados, orfanatos para crianças viciadas ou órfãos de pais que faleceram com AIDS, em escolas para os mais pobres, em centros de formação profissional, em centros de atendimento a soropositivos... ou sobretudo, em paróquias e missões dando motivações para as pessoas viver e amar.

Não é noticia que meu amigo, o Pe. Marcos Aurélio, para salvar alguns jovens durante a guerra em Angola, os tenha transportado de Kalulo a Dondo e voltando a sua missão tenha sido metralhado no caminho; que o irmão Francisco, com cinco senhoras catequistas, por ir ajudar nas áreas rurais mais distantes tenham sido mortos em um acidente na rua; que dezenas de missionários em Angola tenham morrido por falta de socorro, por uma simples malária; que outros tenham sido jogados para o alto por causa de uma mina quando visitavam seus parentes. No cemitério de Kalulo estão os túmulos dos primeiros sacerdotes que chegaram nesta região... Nenhum tem mais de 40 anos.

Não é notícia acompanhar a vida de um Sacerdote “normal” em seu dia a dia, em suas dificuldades e alegrias, consumindo sem alarde sua vida em favor da comunidade a que serve.

A verdade é que não procuramos ser noticia, apenas e simplesmente levar a Boa Noticia, essa noticia que sem barulho começou na noite de Páscoa.

Faz mais barulho uma arvore que cai do que um bosque que cresce.

Não pretendo fazer uma apologia da Igreja e dos sacerdotes. O sacerdote não é nem um herói nem um neurótico. É um simples homem, que com sua humanidade busca seguir Jesus e servir seus irmãos. Há muitas misérias, pobrezas e fragilidades como em cada ser humano; e também beleza e bondade como em cada criatura...

Insistir de forma obcecada e perseguidora em um tema perdendo a visão do conjunto cria verdadeiramente caricaturas ofensivas do sacerdócio católico na qual me sinto ofendido.

Só lhe peço amigo jornalista, busque a Verdade, o Bem e a Beleza. Isso o fará nobre em sua profissão.

Em Cristo

Pe. Martín Lasarte sdb

“Meu passado Senhor, o confio a tua Misericórdia; meu presente a teu Amor; meu futuro a tua Providencia”.

Publicado em Palavra Viva
Sábado, 12 Abril 2014 12:35

Carta ao papa Francisco

Querido irmão Francisco:

Desde que foste eleito para ser a humilde ‘Rocha’ sobre a qual Jesus quer continuar construindo hoje sua Igreja, acompanhei com atenção tuas palavras. Agora, acabo de chegar de Roma, onde pude te ver abraçando crianças, bendizendo enfermos e inválidos e saudando a multidão.

Dizem que és vizinho, simples, humilde, simpático... E não sei quantas coisas mais. Penso que há em você alguma coisa mais, muito mais. Pude ver a Praça de São Pedro e a Via dela Conciliazione cheias de gente entusiasmada. Não creio que essa multidão se sinta atraída somente por tua simplicidade e simpatia. Em poucos meses você se converteu em uma ‘boa notícia’ para a Igreja e, também, para além da Igreja. Por quê?

Quase sem dar-nos conta, você está introduzindo no mundo a Boa Notícia de Jesus Cristo. Você está criando na Igreja um clima novo, mais evangélico e mais humano. Você está nos oferecendo o Espírito de Jesus Cristo. Pessoas afastadas da fé cristã me dizem que as ajudas a confiar mais na vida e na bondade do ser humano. Alguns que vivem sem um caminho para Deus me confessam que acordou em seu interior uma pequena luz que os convida a revisar sua atitude frente ao mistério último da existência.

Eu sei que na Igreja precisamos de reformas muito profundas para corrigir desvios alimentados durante muitos séculos, porém, nestes últimos anos, foi crescendo dentro de mim uma convicção. Para que se possam realizar estas reformas, precisamos, previamente, de uma conversão num nível mais profundo e radical. Precisamos, sinceramente, voltar a Jesus, colocar as raízes de nosso cristianismo com mais verdade e mais fidelidade em sua pessoa, sua mensagem e seu projeto do Reino de Deus. Por isso, quero exprimir-te que é isso o que mais me atrai de seu serviço como Bispo de Roma neste começo de tua tarefa.

Eu te agradeço que abraces as crianças e as apertes ao teu peito. Estás nos ajudando a recuperar aquele gesto profético de Jesus, tão esquecido na Igreja, porém tão importante para entender o que esperava de seus seguidores. Segundo relatam os Evangelhos, Jesus chamou os doze, pôs uma criança no meio deles, o apertou entre seus braços e lhes disse: "O que acolhe a uma criança como esta em meu nome, está acolhendo a mim.”

Tínhamos esquecido que no centro da Igreja, atraindo a atenção de todos, devem estar sempre os pequenos, os mais frágeis e vulneráveis. É importante que estejas entre nós como ‘Rocha’ sobre a qual Jesus constrói sua Igreja, porém é tão importante ou mais que estejas em nosso meio abraçando os pequenos e bendizendo aos enfermos e os que não têm valor, para nos lembrar como acolher a Jesus. Este gesto me parece decisivo nestes momentos em que o mundo corre o risco de se desumanizar criando incompreensão com os últimos.

Eu te agradeço que nos chames de forma tão repetida a sair da Igreja para entrar na vida onde sofremos e nos alegramos, lutamos e trabalhamos: esse mundo onde Deus quer construir uma convivência mais humana, justa e solidária. Creio que a heresia mais grave e sutil que penetrou no cristianismo é de ter feito da Igreja o centro de tudo, afastando do horizonte o projeto do Reino de Deus.

João Paulo II nos lembrou que a igreja não é um fim em si mesma, mas somente ‘semente, sinal e instrumento do Reino de Deus’, porém suas palavras se perderam no meio de muitos outros discursos. Agora desperta em mim uma alegria grande quando nos chamas a sair da ‘autorreferência’ para caminhar em direção às ‘periferias existenciais’.

Aproveito sublinhando tuas palavras: "Devemos construir pontes, não muros para defender a fé”; precisamos de "uma igreja de portas abertas, não de controladores da fé”; "a igreja não cresce com o proselitismo, mas com a atração, o testemunho e a pregação”. Parece-me escutar a voz de Jesus que, do Vaticano, nos empurra: "Ide anunciar que o Reino de Deus está perto”, "ide e curai os enfermos”, "o que há recebido de graça, devolva-o de graça”.

Também te agradeço pelos teus apelos contínuos a converter-nos ao Evangelho. Como bem conhece à Igreja. Surpreende-me tua liberdade em dar nomes aos nossos pecados. Não o fazes com linguagem de moralista, mas com a força do Evangelho: as invejas, a ansiedade de fazer carreira e o desejo do dinheiro; "a desinformação, a difamação e a calúnia”; a arrogância e a hipocrisia clerical; "a espiritualidade mundana” e a "burguesia do espírito”; os "cristãos de salão”, os ‘crentes de museu’, os cristãos com ‘cara de funeral’. Preocupa-te muito ‘um sal sem sabor’, ‘um sal que não sabe de nada’, e nos chamas a sermos discípulos que aprendem a viver com o estilo de Jesus.

Não nos chamas só a uma conversão individual. Empurra-nos a uma renovação eclesial, estrutural. Não estamos acostumados a escutar essa linguagem. Surdos ao chamado renovador do Vaticano II, esquecemos que Jesus convidava seus seguidores a ‘por o vinho novo em odres novos’. Por isso, me enche de esperança tua homilia da festa de Pentecostes: "A novidade nos da sempre um pouco de medo porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós os que constroem, programamos e planificamos nossa vida segundo nossos esquemas, seguranças e gostos... Temos medo que Deus nos leve por caminhos novos, nos tire de nossos horizontes, muitas vezes bem limitados, fechados, egoístas, para abrir-nos aos seus”.

Por isso nos pedes que nos perguntemos sinceramente: "Estamos abertos às surpresas de Deus ou nos fechamos com medo às novidades do Espírito Santo? Estamos decididos a percorrer os novos caminhos que a novidade de Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em estruturas caducas que perderam a capacidade de dar respostas?” Tua mensagem e teu espírito estão anunciando um futuro novo para a Igreja.

Quero terminar estas linhas expressando-te humildemente um desejo. Talvez não poderás fazer grandes reformas, porém podes dar um impulso à renovação evangélica em toda a Igreja. Com certeza podes tomar as medidas oportunas para que os futuros bispos das dioceses do mundo inteiro tenham um perfil e um estilo pastoral capaz de promover esta conversão a Jesus que tu queres encorajar desde Roma.

Francisco, és um presente de Deus. Obrigado!

José Antonio Pagola

Teólogo e biblista espanhol

Fonte: Adital - 12/04/2014

(José Antônio Pagola é padre e teólogo)

Publicado em Palavra Viva
Terça, 18 Março 2014 06:46

A luta contra a amnésia

A fé cristã vive de memórias perigosas. Vive da memória próxima e personalizada de quem crê na Santíssima Trindade e na revelação de Jesus. Vive da memória viva da entrega de Jesus na cruz para nos salvar. Vive deste amor que se faz semente que morre para dar vida abundante. Memória celebrada e atualizada a cada Eucaristia. Memória da presença de Deus Libertador na vida humana e na história dos povos. “Fazei isto em memória de mim”, diz Jesus na última ceia. A fé cristã é sempre um memorial que atualiza no tempo a experiência eterna da misericórdia e da compaixão. Sem memória perdemos este tesouro divino, e sem sua atualização congelamos e mumificamos a epifania de Deus. Memória e esperança sempre caminham juntas. Não podemos aceitar a amnésia e lutamos contra ela. Os teólogos da América Latina assumiram a memória como uma categoria essencial para dar sentido e valor à ação da Igreja no contexto conflitivo de nossas sociedades desiguais e injustas. A teologia na América Latina pensa a fé cristã respondendo às perguntas dos aflitos e faz memória das cruzes para viver a ressurreição proposta e realizada por Cristo. A teologia é viva quando se preocupa com os pobres do continente e se assume como teologia da cruz e memória dos crucificados. Diz o Martirológio Romano, no número 13, na edição de 2013 em língua portuguesa, publicada pela Conferência Episcopal Portuguesa: “A Igreja peregrina celebrou, desde os primeiros tempos da sua existência, os Apóstolos e mártires de Cristo, que, pelo derramamento do seu sangue, a exemplo do Salvador padecente sobre a Cruz, na esperança da ressurreição deram o supremo testemunho da fé e da caridade (Ap 22,14)”. Esta fidelidade litúrgica é mantida pela Igreja há séculos e foi assumida pelas Igrejas locais como um testemunho de amor aos pobres na defesa do Evangelho integral. O papa João Paulo II afirmava em carta aos bispos do Brasil em 09.04.1986: "Os pobres deste país, que tem nos senhores os seus pastores, os pobres deste continente são os primeiros a sentir urgente necessidade deste evangelho da libertação radical e integral. Sonegá-lo seria defraudá-los e desiludi-los".

Nestes cinco séculos de presença cristã na América Latina recordamos uma lista de patriarcas que não podem ser esquecidos pelas novas gerações e novas igrejas. São nomes marcantes para a Igreja dos pobres comprometida com a liberdade e o Evangelho encarnado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Destacamos alguns nomes: Bartolomeu de las Casas, Pedro Claver, Martinho de Lima, Francisco Solano, Toríbio de Mongrovejo, Rosa de Lima, Antônio Maria Claret, José Antônio Pereira Ibiapina, Rubens Cândido Padim, Richard Shaull, Hugo Assmann, Fernando Gomes, Manuel Larrain, Milton Schwantes, Orestes Stragliotto, Ronaldo Muñoz, Enrique Angel Angelelli e Oscar Arnulfo Romero Y Gadamez. Somada a esta lista de patriarcas da fé temos a lista daqueles que foram mortos por causa da Igreja e da justiça social. Todos aqueles que mantiveram firme seu amor preferencial aos pobres e são reconhecidos e relembrados como mártires e sementes de novas Igrejas. São os/as filhos/as amados/as desta Igreja que oferece a sua própria vida em oferenda no altar de Deus. Alguns destes nomes a recordar: Santo Dias da Silva, Adelaide Molinari, Cleusa Nascimento, Dorothy Mae Stang, Josimo Moraes Tavares, Ezequiel Ramin, Rodolpho Lunkenbein, João Bosco Penido Burnier, Antonio Pereira Neto, Francisco de Pancas, Purinha de Linhares, Paulo Vinhas de Vitória, Verino Sossai de Nova Venécia e Gabriel Felix Roger Maire.  Esta lista de mártires ainda deve ser completada por alguns profetas da esperança que enfrentaram as ditaduras militares de nosso continente. Do Brasil lembramo-nos de uma lista de padres banidos do Brasil pelo regime ditatorial que vigorou de 1964 a 1985 e que está sendo passado a limpo pela Comissão da Verdade para que aconteça a justiça, a memória e a verdade. Lembramos por obrigação com a verdade dos nomes e das vidas dos padres Lawrence Rosenbaugh, Romano Zufferey, Giorgio Callegari, Vito Miracapillo, Joseph Wauthier, Jan Honoré Talpe, José Pendandola, José Comblin, Francisco Jentel, Giuseppe Fontabella, Francisco Lage. Sofreram o degredo do país que amavam e serviam porque ficaram ao lado dos trabalhadores, dos empobrecidos e principalmente dos camponeses e indígenas. Há também aqueles que foram torturados pelos agentes do Estado e por grupos paramilitares. Gente que pagou caro em seu próprio corpo e mente por defender a justiça, o Evangelho da verdade. Eis alguns nomes de religiosos perseguidos com inquéritos militares: Alípio Cristiano de Freitas, Francisco Lage Pessoa, José Eduardo Augusti, Francisco Benedetti Filho, Leonilde Boscaine, Oscar Albino Fuhr, Affonso Ritter, Hélio Soares do Amaral, Roberto Egídio Pezzi, Mariano Callegari, Carlos Gilberto Machado Moraes, Giulio Vicini, Yara Spadini, Angelo Gianola, Geraldo Oliveira Lima, Gerson da Conceição, Paulo Martinechen Neto, Antônio Alberto Soligo, Jan Talpe, Alexandre Vannucchi Leme entre outros. Nos quatro primeiros séculos da Igreja, serão aproximadamente 200 mil os cristãos perseguidos, torturados e mortos pelo império romano, em 129 anos de perseguição e 120 anos de relativa tranquilidade, dos anos 64 a 313 d.c. Todas as gerações conheceram o sofrimento e tiveram testemunhas e heróis. Todas as Igrejas precisavam estar preparadas para o martírio e prisão. Todos guardavam as memórias destas pessoas e cantavam seus louvores. Ao lado de cada mártir há pelo menos 100 cristãos que tiveram que suportar prisão, tortura, desterro, condenação às minas e confisco de bens. Nos últimos cinquenta anos, depois do final do Concílio Vaticano II em 1965, a Igreja voltou a viver o drama das catacumbas e a honra do martírio em muitos povos e igrejas (cf. Ivo Lesbaupin, A bem-aventurança da perseguição, Petrópolis: Vozes, 1977).

No Brasil houve 695 processos contra cidadãos e entre eles alguns cristãos. E que foram guardados pelo Projeto Brasil Nunca Mais, da Arquidiocese de São Paulo, sob a direção do Cardeal Paulo Evaristo Arns, todos nos anos de chumbo. Neste dossiê imenso constam os nomes de padres, bispos, religiosos e leigos da Igreja Católica que foram perseguidos no Brasil. Três destes processos datam do ano de 1964 e todos os demais são de 1968 e anos posteriores. O mais clamoroso, foi o processo de número 100, contra os frades da Ordem Dominicana em São Paulo. Foram acusados de manter ligações com Carlos Marighella. Foram presos frei Betto; frei Fernando Brito; frei Yves do Amaral Lesbaupin e Frei Tito de Alencar Lima, entre outros frades aprisionados em todo o Brasil, com a tortura de alguns dos freis levando como decorrência de tanta brutalidade à morte, frei Tito de Alencar Lima. 
Lembramos a título de exemplo: o processo BNM 595 contra 34 religiosos de várias congregações, padres, ex-padres e professores de teologia ligados à Igreja de Belo Horizonte - MG, só por terem assinado um manifesto contra o assassinato do estudante Edson Luís Lima Souto, em 29 de março de 1968. Em Porto Alegre-RS foi aberto o processo BNM 453 contra a apresentação de peça teatral no salão paroquial em Vila Niterói, Canoas. Oito pessoas foram denunciadas. A situação era tão patética e absurda que um processo BNM 470 foi aberto contra o seminarista jesuíta espanhol Francisco Carlos Velez Gonzales, residente no Brasil, por ter feito editar e divulgar uma versão da encíclica Populorum Progressio, do papa Paulo VI. O processo BNM 136 foi aberto contra oito padres e ex-padres da diocese de Itabira-MG, para atingir frontalmente o então bispo dom Marcos Antônio Noronha. O processo BNM 65 feito contra Madre Maurina Borges da Silveira, em Ribeirão Preto – SP, sua posterior deportação para o México, e a consequente excomunhão dos delegados torturadores da cidade de Ribeirão Preto: Miguel Lamano e Renato Ribeiro Soares. No processo BNM 467 foram acusados e torturados a professora e educadora Maria Nilde Mascellani, o jornalista Dermi Azevedo, Darcy Andozia Azevedo, e o filho de ambos, Carlos Alexandre Azevedo, também torturado, no Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS) paulista com um ano e oito meses de idade, em 1974. Neste mesmo processo foram presos e torturados os membros da Pastoral Operária de São Paulo, entre os quais Waldemar Rossi. Foram presos sob o comando do então delegado torturador Sérgio Paranhos Fleury. Waldemar Rossi foi julgado e absolvido na Justiça Militar em 1978. Em julho de 1980, seria Waldemar Rossi quem falaria ao Papa João Paulo II, em nome dos trabalhadores brasileiros no Estádio do Pacaembu comentando as dores dos operários e da Igreja com eles comprometida (cf. Mitra Arquidiocesana de São Paulo, Perfil dos atingidos – Projeto Brasil Nunca Mais, Petrópolis: Vozes, 1988).

Toda a perseguição comandada por generais ditadores e organizada em cada estado pelo aparelho de tortura foi financiada por algumas empresas e grupos econômicos, tendo o suporte logístico do governo brasileiro e de agentes do governo norte-americano que ensinou técnicas de tortura para militares brasileiros e supervisionou a repressão através da embaixada e de adidos militares. Tudo inspirado na Ideologia de Segurança Nacional que endeusava o Estado e o poder militar atacando e destruindo a dignidade da pessoa humana e perseguindo a fé cristã que permaneceu fiel aos pobres e aos pequenos. Fazer memória em nossas Igrejas é hoje, redescobrir o sentido da entrega de tantas pessoas e valorizá-las como instrumentos de Deus e de seu Evangelho libertador.

Quem poderia esquecer na Igreja Católica os anos de sofrimento que passou a Igreja no Chile durante a ditadura de direita do general Augusto Pinochet? Quem poderá olvidar o sofrimento do primaz da Ucrânia, Dom Iossep Slipêi, preso pelo regime comunista soviético, submetido a torturas contínuas e trabalhos forçados na Sibéria desde 1940 até sua libertação em 12 de fevereiro de 1963, aos 70 anos?

Como não celebrar a memória da perseguição da Igreja salvadorenha com dezenas de catequistas assassinados em anos de guerra, e muitas religiosas, sacerdotes e inclusive o arcebispo da capital San Salvador, o mártir e santo Oscar Arnulfo Romero?
Como deixar no anonimato os nomes dos 13 sacerdotes e dois bispos assassinados pela ditadura militar argentina? Como esquecer o testemunho de pastor do bispo Enrique Angel Angelelli, ao tomar posse da diocese de La Rioja e pedir: “ajudem-me a que não me prenda a interesses mesquinhos ou de grupos; orem para que seja o bispo e o amigo de todos, dos católicos e dos não católicos; dos que creem e dos que não creem”? 

O século 20 foi um século de martírios e perseguições feitas contra os cristãos de muitas igrejas e países, com grandes testemunhos do Evangelho nos tempos de hoje, configurando uma nova “nuvem de mártires”, como mártires da caridade, na pessoa de tantos que morreram por epidemias e doenças ao trabalhar no meio dos pobres e das calamidades a que estes estão submetidos; mártires da justiça, basicamente vivendo no hemisfério sul do planeta, na América Latina, África e continente asiático; mártires das máfias e do terrorismo, enfim, os inúmeros mártires de extermínios coletivos de tantos totalitarismos e ditaduras no mundo atual (Andrea Riccardi, O século do martírio, Lisboa: Quetzal Editores, 2000).

Sabemos que a Igreja “continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus (Santo Agostinho, A cidade de Deus, XVIII, 51,2, Petrópolis: Vozes, vol.2, 2012)”. E fazer memória das perseguições não é opcional. É uma obrigação e uma celebração necessária para manter a fidelidade à mensagem e à prática de Jesus, pois “do mesmo modo que Jesus Cristo consumou a sua obra de redenção na pobreza e na perseguição, assim também, a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho para poder comunicar aos homens os frutos da salvação (Lumen Gentium 8)”.

A celebração e memória dos mártires não é um momento fúnebre e nostálgico. “Não é uma lista de atrocidades repugnantes, analisadas em sua insensatez e ineficácia; não é tampouco um triunfalismo. É muito mais. É a celebração e confirmação da causa pela qual, tantos foram sacrificados; é uma comemoração da vida, da promessa, da plenitude pascal de Jesus e dos seus. É, portanto, a celebração do amor que dá sentido à morte. Se presta respeito e se homenageia aos que levaram a sério a Deus, ao povo, a Igreja e a eles mesmos” (José Marins, Teolide Trevisan, Carolee Chanona, Memoria peligrosa, México: Centro de Reflexión Teológica, 1989, p. 25).

Celebrar os mártires é guardar a memória do sangue derramado pela Igreja e por Cristo como obrigação da fé viva e verdadeira. Não é opcional. Não é sublimar derrotas nem cair em masoquismo dolorista. O mártir é um profeta que segue a cruz de Cristo com humildade e que faz a entrega da sua vida pela vida de outros. É alguém coerente com os valores que prega. A memória de nossa fé passa pela vida daqueles que entregam suas vidas pelos pobres, pela Igreja e por Cristo. A luta contra a amnésia começa com a celebração de suas vidas, de suas lutas, de seus sonhos e de suas causas.

Prof. Dr. Fernando Altemeyer Júnior

Fonte: O Mensageiro de Santo Antonio

 

Publicado em Palavra Viva
Sexta, 07 Março 2014 04:18

Hino da Campanha da Fraternidade 2014

Publicado em Vídeos

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
AOS FIÉIS BRASILEIROS POR OCASIÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2014

Queridos brasileiros

Sempre lembrado do coração grande e da acolhida calorosa com que me estenderam os braços na visita de fins de julho passado, peço agora licença para ser companheiro em seu caminho quaresmal, que se inicia no dia 5 de março, falando-lhes da Campanha da Fraternidade que lhes recorda a vitória da Páscoa: «É para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal 5,1). Com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus Cristo libertou a humanidade das amarras da morte e do pecado. Durante os próximos quarenta dias, procuraremos conscientizar-nos mais e mais da misericórdia infinita que Deus usou para conosco e logo nos pediu para fazê-la transbordar para os outros, sobretudo aqueles que mais sofrem: «Estás livre! Vai e ajuda os teus irmãos a serem livres!». Neste sentido, visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para uma chaga social qual é o tráfico de seres humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõem este ano o tema "Fraternidade e Tráfico Humano".

Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! «A este nível, há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência» (Discurso aos novos Embaixadores, 12 de dezembro de 2013). Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da própria convivência social! Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada?

Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais… E isso – pasmem! – a troco da minha dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito Santo que clama dentro de nós: «Abbá, Pai!» (cf.Gal 4,6). A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida em abundância (cf.Evangelii gaudium, 75).

Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8,21), despertando em cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica.

Vaticano, 25 de fevereiro de 2014.

Franciscus PP.

Publicado em Palavra Viva

Fez-se pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2Cor 8,9)


Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2Cor 8,9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de tudo, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fl 2,7; Hb 4,15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez conosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Hb 1,2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10,25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11,30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8,29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para aliviá-las. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2Cor 6,10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013

Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

Fonte:(http://www.vatican.va/holy_father/francesco/messages/lent/documents/papa-francesco_20131226_messaggio-quaresima2014_po.html) 12/02/2014

Publicado em Palavra Viva
Segunda, 27 Janeiro 2014 02:33

13º INTERECLESIAL DAS CEBs

O QUE É UM INTERECLESIAL DAS CEBs?

INTER vem do Latim inter, “entre”.

ECLESIAL: grego ekklesía+al – Relativo à Igreja

INTERECLESIAL DAS CEBs – é um encontro que reúne os representantes das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) de todo o Brasil, da América e de outros países do mundo. 

O primeiro INTERECLESIAL foi realizado em 1975, na cidade de Vitória, Espírito Santo. Muitos outros encontros aconteceram. É o trem (símbolo da caminhada das CEBs) que recebe um vagão a mais a cada encontro, o que aconteceu no 13º Intereclesial das CEBs realizado de 07 a 11/01/14, na cidade de Juazeiro do Norte – terra do Pe. Cícero – na Diocese de Crato/CE, cujo tema foi: “Justiça e profecia a serviço da vida” e o lema: “Romeiros do Reino no campo e na cidade”. Da Diocese de Crato, o trem partiu para Londrina/PR, onde acontecerá o 14º Intereclesial das CEBs, em 2018. Cabe a nós, POVO DE DEUS, embarcar nesse trem aproveitando tudo que ele tem para nos oferecer desde o primeiro vagão, principalmente nos últimos que falam da nossa realidade de fé e luta pelo Reino de Deus, atualmente.  


 

Os intereclesiais nasceram com a finalidade de partilhar as experiências de fé e de vida, partilha feita pelos que representam as CEBs, nas suas realidades locais.  

Participaram e colaboraram com a realização do 13º Intereclesial, 5.036 pessoas, sendo: 4.036, delegados/as dos 18 regionais da CNBB: 2.248 mulheres e 1.788 homens; 75 representantes de comunidades indígenas; 146 religiosos e religiosas; 232 padres; 20 de outras Igrejas cristãs e 72 bispos presentes. 

O 13º Intereclesial da CEBs foi uma experieência de fé e mística; um momento de encontro das comunidades; um espaço para troca de experiências, celebrações e avaliação da caminhada das comunidades no Brasil.


Papa Francisco envia mensagem ao 13º Intereclesial das CEBs

Pela primeira vez que o Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) recebe uma mensagem do Papa. No dia 17 de dezembro, o papa Francisco enviou uma carta aos participantes do 13º Intereclesial das CEBs.

O que diz a mensagem do Papa Francisco? Que as CEBs “trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja” e assegura suas orações para que o Intereclesial seja um encontro abençoado.

Sobre o lema do evento, o papa disse que deve ser como uma chamada para que as CEBs assumam cada vez mais seu papel na missão evangelizadora da Igreja: “Todos devemos ser romeiros, no campo e na cidade, levando a alegria do Evangelho a cada homem e a cada mulher”, acrescenta Francisco.   

 

Queridos irmãos e irmãs,

É com muita alegria que dirijo esta mensagem a todos os participantes no 13º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que tem lugar entre os dias 7 e 11 de janeiro de 2014, na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, sob o tema “Justiça e Profecia a Serviço da Vida”.

Primeiramente, quero lhes assegurar as minhas orações para que este Encontro seja abençoado pelo nosso Pai dos Céus, com as luzes do Espírito Santo que lhes ajudem a viver com renovado ardor os compromissos do Evangelho de Jesus no seio da sociedade brasileira. De fato, o lema deste encontro “CEBs, Romeiras do Reino, no Campo e na Cidade” deve soar como uma chamada para que estas assumam sempre mais o seu importantíssimo papel na missão Evangelizadora da Igreja.

Como lembrava o Documento de Aparecida, as CEBs são um instrumento que permite ao povo “chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos” (n.178). E recentemente, dirigindo-me a toda a Igreja, escrevia que as Comunidades de Base “trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja”, mas, para isso é preciso que elas “não percam o contato com esta realidade muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja particular” (Exort. Ap. Evangelii gaudium, 29).

Queridos amigos, a evangelização é um dever de toda a Igreja, de todo o povo de Deus: todos devemos ser romeiros, no campo e na cidade, levando a alegria do Evangelho a cada homem e a cada mulher. Desejo do fundo do meu coração que as palavras de São Paulo: “Ai de mim se eu não pregar o Evangelho” (I Co 9,16) possam ecoar no coração de cada um de vocês!

Por isso, confiando os trabalhos e os participantes do 13º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base à proteção de Nossa Senhora Aparecida, convido a todos a vivê-lo como um encontro de fé e de missão, de discípulos missionários que caminham com Jesus, anunciando e testemunhando com os pobres a profecia dos “novos céus e da nova terra”, ao conceder-lhes a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 17 de dezembro de 2013

Nossos irmãos e irmãs indígenas estiveram presentes e deram seu grito pela justiça. O líder do Guarani-Kaiowá, Anastácio Peralta, explica que é preciso valorizar a terra. “A natureza não é para ser explorada, mas admirada e cuidada. Aprendemos isso com os nossos antepassados e sabemos fazer”, afirmou. 

 

Para o cacique Valério Vera Gonçalves e sua esposa Ana Lúcia, é urgente a necessidade da demarcação.

 

“Queremos a demarcação da nossa terra. Ela é o nosso meio de sobrevivência que Deus deixou pra nós”. Para os indígenas, o apoio da Igreja tem ajudado muito na luta. “Sentimos o apoio da Igreja que está a favor de nossa luta. Estou feliz porque este encontro das CEBs sempre lembra a demarcação das terras”.

“Terra de Deus, terra de irmãos”.


Celebração dos mártires e profetas da caminhada


“Enquanto houver martírio haverá esperança, enquanto houver profetas e mártires haverá CEBs lutando por justiça e profecia a serviço da vida”, disse dom Edson aos romeiros presentes na celebração. “Não deixem morrer a esperança”, acrescentou o bispo citando as palavras de dom Helder Câmara”.

“Para dom Edson, é preciso ‘ter a coragem de viver defendendo nossa identidade e a vontade teimosa de seguir anunciando o Reino, contra o vento e a maré do antirreino neoliberal’”.

As CEBs não deixam de celebrar a memória dos mártires da caminhada. São inúmeras pessoas que deram suas vidas nas comunidades eclesiais de base por serem coerentes no serviço da missão evangelizadora, bem como pela coragem de anunciar e denunciar. Por força das convicções profundas no seguimento de Jesus, há um grande número dos que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Elas andam na contramão do mundo na luta por justiça e igualdade social e por isso incomodam tanto. Assim, muito sangue derramado e muitas vidas se vão. Nas CEBs essas vidas não são esquecidas estão na memória porque são verdadeiras testemunhas de fidelidade ao Reino. Elas tombaram por causa da atitude de resistência de não ceder ou não mudar suas convicções de fé no Projeto de Jesus Cristo por ideologias que a sociedade impõe. 

“Os 72 bispos participantes do 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), enviaram uma carta ao povo de Deus, na qual demonstram sensibilidade aos "gritos dos excluídos que ecoaram" no evento. ‘(...) gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde...’, afirmam”.

“Na carta, os bispos também reafirmam o "empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão".

“Igreja é povo que se organiza. Gente oprimida buscando a libertação. Em Jesus Cristo, a Ressurreição”. 


Carta dos Bispos participantes do 13º Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base ao Povo de Deus

 

Irmãs e Irmãos,

“Vós sois o sal da terra (...) Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14).

Nós, bispos participantes do 13º Intereclesial de CEBs, em número de setenta e dois, como pastores do Povo de Deus, dirigimos nossa palavra a vocês participantes das Comunidades Eclesiais de Base com seus animadores e animadoras e demais irmãs e irmãos que assumem ministérios e outras responsabilidades.

Em Juazeiro do Norte (CE), terra do Padre Cícero Romão Batista, na centenária diocese de Crato, nos encontramos com romeiros e romeiras, e com eles também nos fizemos romeiros do Reino.

Acolhemos com muita a alegria a carta que o Papa Francisco enviou ao Bispo Diocesano D. Fernando Pânico trazendo a mensagem aos participantes do 13º intereclesial das CEBs e que foi lida na celebração de abertura.

Participamos das conferências; dos testemunhos no Ginásio poliesportivo, denominado Caldeirão Beato José Lourenço; de debates e grupos em diversas escolas (ranchos e chapéus) situadas em diversas áreas das cidades de Juazeiro e do Crato; das visitas missionárias às famílias e a algumas instituições; da celebração em memória dos profetas e mártires da fé, da vida, dos direitos humanos, da justiça, da terra e das águas realizada no Horto onde se encontra a grande estátua de Pe. Cícero comungando com a causa dos pobres: povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e demais sofredores e com a causa do ecumenismo na promoção da cultura da vida e da paz, do encontro. Tivemos também a grande alegria de participar da celebração eucarística de encerramento na Basílica de Nossa Senhora das Dores quando todos os presentes foram enviados para que no retorno às comunidades de origem possamos ser de fato sal da terra e luz do mundo.

Estamos vendo como as CEBs estando enraizadas na Palavra de Deus, aí encontram luzes para levar adiante sua missão evangelizadora vivenciando o que nos pede a todos o lema: “Justiça e Profecia a serviço da vida”. Desse modo, cada comunidade eclesial vai sendo sal da terra e luz do mundo animando os seus participantes a darem esse mesmo testemunho.

Muito nos sensibilizaram os gritos dos excluídos que ecoaram neste 13º intereclesial: gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde...

Sabemos dos muitos desafios que as comunidades enfrentam na área rural e nas áreas urbanas (centro e periferias). Nossa palavra é de esperança e de ânimo junto às comunidades eclesiais de base que, espalhadas por todo este Brasil, pelo continente latino-americano e caribenho e demais continentes representados no encontro, assumem a profecia e a luta por justiça a serviço da vida. Desejamos que sejam de modo muito claro e ainda mais forte comunidades guiadas pela Palavra de Deus, celebrantes do Mistério Pascal de Jesus Cristo, comunidades acolhedoras, missionárias, atentas e abertas aos sinais da ação do Espírito de Deus, samaritanas e solidárias.

Reconhecendo nas CEBs o jeito antigo e novo da Igreja ser, muito nos alegraram os sinais de profecia e de esperança presentes na Igreja e na sociedade, dos quais as CEBs se fazem sujeito. Que não se cansem de ser rosto da Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas e não de uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças, como nos exorta o querido Papa Francisco (cf. EG 49).

Para tanto, reafirmamos, junto às Cebs, nosso empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão.

Com o coração cheio de gratidão e esperança, imploramos proteção materna da Virgem Mãe das Dores e das Alegrias.

Juazeiro do Norte, 11 de janeiro de 2014, festa do Batismo do Senhor. 

O encontro programado na metodologia do VER, JULGAR e AGIR, foi concluído com uma grande celebração na Praça do Santuário Nossa Senhora das Dores. 

Nessa celebração da festa do Batismo de Jesus, a multidão com vela acesa na mão, se comprometeu ir avante seguindo Jesus, uma vez ungidos/as para a missionariedade a serviço do Reino no campo e na cidade.

As 4.036 pessoas delegadas ao 13º Intereclesial, na chegada foram recebidas com animação pelas comunidades paroquiais e muito carinho pelas famílias que as receberam em suas casas durante o encontro. 

Agora chegou a hora da despedida. Como todas as despedidas de gente que se quer bem foi um momento difícil para a delegação e para as famílias que hospedaram uma ou mais pessoas em suas casas.

Voltamos para nossas casas com gratidão em primeiro lugar ao nosso Deus Trino, em seguida, a gratidão de coração à Igreja e ao povo de Juazeiro do Norte. 

O 13º Intereclesial das CEBs suscitou em nossas vidas uma forte experiência da presença trinitária de Deus. “hora de Deus”!  Possibilitou-nos crescer na convivência comunitária sintonizando-nos com a experiência do Pai, do Filho e do Espírito Santo, “a verdadeira comunidade”. 


Irmã Leonízia Izabel da Silva Congregação das Irmãs de Santa  Doroteia da Frassinetti   

Fonte: CNBB; CEBs Uai.

Fotos: Internet

 

 

 

 

Publicado em Palavra Viva
Sexta, 24 Janeiro 2014 03:07

Loris Capovilla, o poder de um símbolo

Entre os novos cardeais escolhidos pelo papa Francisco em seu primeiro consistório aparece uma figura simbólica: a de Loris Capovilla, de 99 anos, que foi secretário pessoal do papa João XXIII, o papa do século passado com quem Francisco guarda a maior semelhança.

Ninguém até agora tinha lembrado de dar o barrete de cardeal àquele que foi a figura chave, o confidente e o criador da imagem do chamado “papa bom”. Ele tinha sido relegado ao esquecimento, e, desde se aposentar como arcebispo, vivia em Sotto il Monte, a cidadezinha na qual nasceu o futuro papa João XXIII, filho de camponeses. E ali Capovilla, durante anos e quase em silêncio, fez um trabalho discreto de ajuda e conselho aos mais necessitados.

Dias depois de eleito, o papa Francisco telefonou a Capovilla e lhe disse, brincando: “O senhor tem voz de jovem”.

Hoje ele o nomeou cardeal. O escolheu como símbolo, muito ao seu estilo.

O reconhecimento dado a Capovilla pelo papa jesuíta possui forte valor simbólico, porque foi como ressuscitar um papa que não apenas foi um dos mais contestados pela Cúria Romana, como também um dos mais amados, até mesmo pelos não católicos.

Quando, já idoso e em um momento crítico da política mundial, João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, foi visto como louco pelos cardeais conservadores, como Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova. Eles chegaram a estudar a possibilidade de buscar sua deposição.

Capovilla é a única testemunha ainda viva dos maiores segredos do pontificado breve, mas fecundo de João XXIII, o pontífice que dizia a seu secretário que, se fosse mais jovem, abriria os jardins do Vaticano às crianças pobres do bairro de Trastevere, para que “não precisassem brincar na rua, entre o tráfego de automóveis”.

Era o papa que lhe dizia, também, que se “entediava” nas tardes do Vaticano, porque ao papa “já dão tudo feito e mastigado”. Para vingar-se, convocou um Concílio Ecumênico. E nesse concílio, para o qual chamou à basílica de São Pedro os 3.000 bispos da Igreja, menos os que estavam encarcerados nos países da Cortina de Ferro comunista, tanto Capovilla quanto sua sobrinha, a freira Sor Angela, puderam ver que o papa possuía grande senso de humor, observando em circuito fechado de televisão as discussões dos cardeais, em latim: “Veja aquele bispo ali, como dorme profundamente”, ele comentava. Ou então: “Que latim horrível o daquele arcebispo”. E se divertia enviando aos bispos fotos deles dormindo durante as sessões, com uma frase em latim: “Hoc non placet” (não me agrada). E a assinava. João XXIII fez isso, por exemplo, com um dos cardeais progressistas mais importantes do Concílio, o holandês Suenens, que ensinou a nós, os jornalistas que cobrimos o Concílio, que devíamos enfatizar a simplicidade do papa.

Foi Capovilla, por exemplo, a única testemunha presente no momento em que João XXIII abriu o envelope lacrado que lhe tinha deixado seu antecessor, Pio XII, sobre o “terceiro milagre de Fátima”. Apenas ele sabe o que comentou o papa, que acabou colocando o famoso envelope num caixão.

Capovilla era jornalista e teve participação grande na criação da imagem pública de João XXIII. Foi ele quem me contou durante uma entrevista, após a morte do papa, quando estava dirigindo o Santuário de Loreto, que João XXIII às vezes lhe dizia: “Loris, vamos ter que consultar o papa sobre isso”, esquecendo que ele próprio era o papa. Também lhe contava, por exemplo, que Pio XII estava muito preocupado com a possibilidade de “comunistas se infiltrarem” nas audiências públicas e que, quando voltava a seus aposentos, lavava as mãos com álcool porque “as pessoas tinham tocado nele”. E comentava com seu secretário: “Eu não me preocupo quando as pessoas chegam perto de mim. Acho que se fazem isso é porque gostam de mim”. Sobre o sofrimento de alguns papas devido à responsabilidade de serem “representantes de Cristo na Terra”, João XXIII dizia a Capovilla: “Eu me poupei esse sofrimento porque me considero apenas o ‘secretário’ dele”.

Foi Capovilla quem revisou o testamento de João XXIII e seu “Diário da Alma”. Enquanto o antecessor do pontífice, Pio XII, antes de morrer tinha concedido títulos de nobreza a seus familiares mais próximos, João XXIII escreveu à sua família em seu testamento: “Não deixo nada a vocês porque nasci pobre e morro pobre”. E acrescentou: “Não tenho que pedir perdão a ninguém porque por nunca me senti ofendido por ninguém”.

O quase centenário cardeal tinha conhecido muito bem as condições em que fizeram Pio XII morrer dentro do Vaticano. Tinha sido um dos momentos mais tenebrosos da história dos papas. O mantiveram isolado de tudo e de todos, sob os cuidados únicos da freira suíça Sor Pasqualina, que ele tinha trazido de quando era núncio em Berlim. Ela era a todo-poderosa. E ela decidiu não dizer ao papa que ele estava morrendo, e menos ainda dizê-lo à opinião pública. Por isso é quase certo que ele morreu sem receber os sacramentos e que seu médico pessoal, Galleazzi, o traiu. Ele fotografou o papa em seus momentos de agonia, chegando a vender as fotos a algumas revistas estrangeiras, e acabou sendo expulso da Ordem dos Médicos da Itália.

Ciente desses precedentes, Capovilla decidiu que a morte de João XXIII seria contada a todos. De acordo com Capovilla, quando o papa soube que estava chegando perto de seu fim, decidiu que seus últimos dias fossem levados a público por meio do Rádio Vaticano, para informar o mundo inteiro. No estilo que o caracterizava, João XXIII disse a seu secretário: “Cheguei ao dia da grande viagem. Avise ao mundo que o papa está preparando as malas”. E pediu que lhe dessem a extrema-unção.

E foi Capovilla quem me relatou sua angústia quando, na noite em que o papa ainda estava de corpo presente, alguns irmãos deles se apresentaram no Vaticano para pedir que os deixassem dormir ali, porque não tinham dinheiro para ir a um hotel. E no Vaticano lhes responderam que ali não havia lugar para eles. Os irmãos então procuraram Capovilla, que tinha sido secretário pessoal de Roncalli (João XXIII) desde que este era cardeal patriarca de Veneza. Sem avisar a ninguém, este conseguiu encontrar alguns colchões para que os irmãos do papa pudessem dormir no corredor dos aposentos papais.

E foram esses aposentos que o papa Francisco, que nomeou Capovilla cardeal, recusou ao ser eleito pontífice, alegando que eram grandes demais para ele: “Até 300 pessoas poderiam viver aqui”, comentou. E preferiu morar no Hotel de Santa Marta, até hoje.

Capovilla pôde constatar, ainda em vida, que o papa Francisco, o mais parecido com “seu” papa João XXIII, não se esqueceu dele e, sobretudo, não esqueceu o papa do Concílio.

 (Fonte: El País - Sociedade)

 

Publicado em Palavra Viva
Segunda, 20 Janeiro 2014 04:36

Grande Festa da Padroeira

Venham participar com a comunidade Nossa Senhora de Lourdes dessa gradiosa Festa de sua Padroeira.

Nos dia 9 e 16 de fevereiro, após as missas das 10hs até as 21hs, estaremos em festa com muitas brincadeiras para as crianças e alimentação com comidas suculentas e deliciosas o dia todo.

No dia 11 de fevereiro, teremos as missas nos horários costumeiros, sendo as 15hs a celebração presidida pelo Dom Edmar Peron, nosso Bispo da região Belém.

Não deixem de comparecer e trazer sua familia, para juntos desfrutarmos de momentos alegres de muito amor e confraternização.

Maiores informações, procurem o expediente paroquial ou liguem 2606-8309.

 

 

 

Sábado, 18 Janeiro 2014 10:29

Intereclesial emblemático

O 13º Intereclesial das CEBs tem, pelo menos, três elementos emblemáticos, como se fossem um divisor de águas entre os anteriores e o futuro das comunidades eclesiais de base.

Primeiro, ele foi realizado no Juazeiro do Norte, Ceará, nas terras do Pe. Cícero. Esse padre, influenciado por seu predecessor nas missões do sertão nordestino, Pe. Ibiapina, fez de sua vida uma radical opção pelos pobres. São das mesma linhagem os “beatos e beatas”, como Zé Lourenço, Maria Araújo e Conselheiro, pessoas que sentiram chamadas a dedicar suas vidas às populações esquecidas daquele tempo. Influenciados por Ibiapina, esses homens e mulheres fundaram suas comunidades inspirados nas primeiras comunidades citadas nos Atos dos Apóstolos.

É bom lembrar que há 150 anos, em tempos de seca, o sertão era praticamente um deserto. Foi aos famintos, sedentos, vítimas do cólera pela água contaminada, aos órfãos, que esses homens e mulheres dedicaram a plenitude de suas vidas. Por isso, para muitos, eles são os pioneiros no Brasil das atuais comunidades eclesiais de base e também da Teologia da Libertação, já que o ponto de partida eram os pobres, não como objetos de caridade, mas como sujeitos de sua história já ao final do século XIX.

Segundo, pela primeira vez um papa envia uma carta de apoio às comunidades eclesiais de base. O contentamento dos presentes era visível. Afinal, durante as últimas décadas, em grande parte do Brasil e do continente, essas comunidades foram abandonadas, quando não perseguidas e caluniadas, sobretudo por aqueles que desejam uma Igreja distante do povo e fechada em si mesma. Por isso, o povo também enviou uma carta de gratidão ao Papa.

Terceiro elemento é que não havia euforia e nem triunfalismo no Juazeiro do Norte, mesmo que tenha sido um evento grandioso, com belíssima liturgia e momentos de entusiasmo. Todos estão conscientes que, se a Igreja quer ser mesmo uma “rede de comunidades”, como diz o documento 104 da CNBB, então cabe um desafio pastoral imenso de formação das comunidades eclesiais de base, de retomada de sua organização, de apoio na formação em todos os níveis, da criação de espaços que lhes sejam próprios, liberação de pessoas, recursos e tudo mais que se faz necessário no cotidiano pastoral.

O novo é que elas sejam também missionárias, formando novas comunidades e novas lideranças. Além do mais, agora estamos em pleno século XXI, um contexto de mudança de época, com as novas tecnologias, as redes sociais, a pluralidade religiosa, pluralidade de valores, as mudanças radicais no clima do planeta, assim por diante. Esse é o desafio: como continuar tendo a inspiração originárias das primeiras comunidades num mundo em imensurável transformação?

Como será o futuro só a história dirá. Porém, quem tiver um pouco de boa vontade, pode ver aí claros sinais dos tempos.

Roberto Malvezzi (Gogó)

Publicado em Palavra Viva